Hoje recebi mais uma dose de herceptin. Agora só faltam três. No final de julho, quando receber a última dose, acho que me sentirei mais leve.
A enfermeira que me aplicou a injeção de heceptin, como é de praxe, me perguntou sobre como eu estava me sentindo ultimamente. Foi novamente hora de fazer uma balanço do meu bem estar. Me surpreendi não tendo muito mais do que reclamar: o inchaço no braço diminuiu e me dei conta de que fazia mais de uma semana que vinha dormindo bem.
As ondas de calor continuam, às vezes quase me deixando louca, mas sinto que aos poucos sua intensidade e frequência estão diminuindo.
Meu corpo dá outros sinais de, finalmente, estar voltando ao normal. Meu cabelo voltou a crescer mais rapidamente, depois de um período com crescimento bem lento. Também tenho percebido que as dores dos músculos das pernas, que tem me acompanhado desde a quimioterapia, estão mais fracas.
As mudanças para melhor estão acontecendo bem mais lentamente do que eu gostaria, mas pele menos estão acontecendo.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Festa
Fizemos uma festa aqui em casa no sábado passado. Na falta de um motivo, dissemos que a festa era para comemorar a primavera que, afinal, chegou à Dinamarca. A propósito, abril foi o mês mais quente e com mais horas de céu ensolarado deste país desde que começaram a registrar o clima, mais de dois séculos atrás. A temperatura média atingiu 9,4 C e foram 272 horas de céu claro. Para se ter uma ideia, no período 1961-1990, a temperatura média em abril foi de apenas 5,7 °C e as horas de céu claro não passaram de 162 horas.
Em suma, o Henrik, eu e nossos convidados, entre brasileiros, dinamarqueses e colegas de vários países do meu trabalho, tínhamos bons motivos para comemorar, mesmo porque aqui na Dinamarca é bom celebrar o bom tempo antes que ele acabe. Há quem faca piadas dizendo que, em alguns anos, temos sorte porque o verão cai num fim de semana.
Minha filha passou a noite na casa de uma tia do Henrik, o que nos deu liberdade para cantar berrando alguns dos sambões que colocamos para tocar. ”Aquarela Brasileira”, de Sila de Oliveira, na voz de Martinho da Vila, por exemplo, ou pular como loucos ao som das Frenéticas cantando “Dancing Days”.
Dancei como há muito tempo não dançava mas lá pelas tantas senti um cansaço anormal nas pernas, o que me fez lembrar que os efeitos da quimioterapia, ou da menopausa antecipada pelo tratamento, ainda incomodam.
Uma amiga que me ligou no dia seguinte e disse que se impressionou com meu pique. ”Era como se fosse a sua última chance de dançar na vida”. Achei graça. Talvez eu devesse fazer isso mais vezes: dançar como se fosse a última vez.
Em suma, o Henrik, eu e nossos convidados, entre brasileiros, dinamarqueses e colegas de vários países do meu trabalho, tínhamos bons motivos para comemorar, mesmo porque aqui na Dinamarca é bom celebrar o bom tempo antes que ele acabe. Há quem faca piadas dizendo que, em alguns anos, temos sorte porque o verão cai num fim de semana.
Minha filha passou a noite na casa de uma tia do Henrik, o que nos deu liberdade para cantar berrando alguns dos sambões que colocamos para tocar. ”Aquarela Brasileira”, de Sila de Oliveira, na voz de Martinho da Vila, por exemplo, ou pular como loucos ao som das Frenéticas cantando “Dancing Days”.
Dancei como há muito tempo não dançava mas lá pelas tantas senti um cansaço anormal nas pernas, o que me fez lembrar que os efeitos da quimioterapia, ou da menopausa antecipada pelo tratamento, ainda incomodam.
Uma amiga que me ligou no dia seguinte e disse que se impressionou com meu pique. ”Era como se fosse a sua última chance de dançar na vida”. Achei graça. Talvez eu devesse fazer isso mais vezes: dançar como se fosse a última vez.
domingo, 26 de abril de 2009
Iraquianos na Dinamarca
Um artigo da jornalista Anita Bay Bundegaard, no jornal dinamarquês Politiken, alguns dias atrás, trouxe números que me chocaram: 184 iraquianos vivem há pelo menos sete anos, alguns há 12 anos, num abrigo para refugiados que tentam conseguir asilo na Dinamarca.
O governo dinamarquês, seguindo à risca sua rígida política de asilo, recusou asilo a esses 184 iraquianos que, no entanto, se negam a voltar para seu país. A Dinamarca não pode obrigar os iraquianos a voltar porque o governo iraquiano não quer recebê-los. Talvez porque já tenham problemas de sobra no Iraque. Enquanto os dois países não se entendem, os iraquianos vivem como párias: têm suas necessidades básicas atendidas mas não podem participar ativamente da sociedade que lhes dá comida, roupa e teto. São proibidos de trabalhar e obrigados a viver no abrigo chamado Sandholm, que alguns dinamarqueses já começaram a chamar de campo de concentração.
A jornalista Anita Bay Bundegaard comparou a questão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e no país vizinho, a Suécia. Os suecos receberam 60 por cento de todos os iraquianos que fugiram para a Europa depois da Guerra do Iraque. Desde o início do conflito, a Suécia recebeu mais de 9,000 refugiados. Lá os refugiados têm permissão para trabalhar e morar em residências como o resto da sociedade.
O curioso é que a Suécia não participou da invasão do Iraque. A Dinamarca, ao contrário, foi um dos poucos países europeus a entrar na coalizão que invadiu o Iraque em 2003.
Ironicamente, enquanto a Dinamarca pressiona em vão o governo iraquiano a receber os refugiados de volta, a Suécia e o Iraque assinaram um acordo que prevê o retorno dos refugiados que estão em solo sueco. Aliás, a Suécia já conseguiu que três mil refugiados voltassem voluntariamente para casa.
Na opinião de Anita Bay Bundegaard, ali na Suécia, vivendo como parte da sociedade que os recebeu, os refugiados mantém sua dignidade, podem estudar e tentar se manter no mercado de trabalho e assim se sentem mais fortes e preparados para retornar ao país de origem.
Aqui na Dinamarca, sem poderem trabalhar e à margem da sociedade, os refugiados estão desaprendendo o que sabiam e aprendendo a viver na dependência de uma sociedade que não os quer. Casos de depressão e outros problemas psíquicos são comum entre os refugiados de Sandholm. O relato de uma ex-refugiada, Dina Yafasova, parece confirmar a tese de Anita. Segundo Dina, que acabou de escrever um livro sobre o assunto, "viver num abrigo como o Sandholm não é aparentemente tão ruim. As pessoas tem um lugar para dormir, roupa e comida. O pior de lá, algo que não se percebe imediatamente mas talvez apenas depois de um mês ou coisa parecida, o pior de lá é o clima de prisão”.
Colocar pessoas fugidas da guerra num lugar que parece uma prisão não deve mesmo ser bom para a saúde mental dessas pessoas. O pior é se a “prisão” se estende por dez, onze, doze anos.
É difícil não concordar com Anita.
O governo dinamarquês, seguindo à risca sua rígida política de asilo, recusou asilo a esses 184 iraquianos que, no entanto, se negam a voltar para seu país. A Dinamarca não pode obrigar os iraquianos a voltar porque o governo iraquiano não quer recebê-los. Talvez porque já tenham problemas de sobra no Iraque. Enquanto os dois países não se entendem, os iraquianos vivem como párias: têm suas necessidades básicas atendidas mas não podem participar ativamente da sociedade que lhes dá comida, roupa e teto. São proibidos de trabalhar e obrigados a viver no abrigo chamado Sandholm, que alguns dinamarqueses já começaram a chamar de campo de concentração.
A jornalista Anita Bay Bundegaard comparou a questão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e no país vizinho, a Suécia. Os suecos receberam 60 por cento de todos os iraquianos que fugiram para a Europa depois da Guerra do Iraque. Desde o início do conflito, a Suécia recebeu mais de 9,000 refugiados. Lá os refugiados têm permissão para trabalhar e morar em residências como o resto da sociedade.
O curioso é que a Suécia não participou da invasão do Iraque. A Dinamarca, ao contrário, foi um dos poucos países europeus a entrar na coalizão que invadiu o Iraque em 2003.
Ironicamente, enquanto a Dinamarca pressiona em vão o governo iraquiano a receber os refugiados de volta, a Suécia e o Iraque assinaram um acordo que prevê o retorno dos refugiados que estão em solo sueco. Aliás, a Suécia já conseguiu que três mil refugiados voltassem voluntariamente para casa.
Na opinião de Anita Bay Bundegaard, ali na Suécia, vivendo como parte da sociedade que os recebeu, os refugiados mantém sua dignidade, podem estudar e tentar se manter no mercado de trabalho e assim se sentem mais fortes e preparados para retornar ao país de origem.
Aqui na Dinamarca, sem poderem trabalhar e à margem da sociedade, os refugiados estão desaprendendo o que sabiam e aprendendo a viver na dependência de uma sociedade que não os quer. Casos de depressão e outros problemas psíquicos são comum entre os refugiados de Sandholm. O relato de uma ex-refugiada, Dina Yafasova, parece confirmar a tese de Anita. Segundo Dina, que acabou de escrever um livro sobre o assunto, "viver num abrigo como o Sandholm não é aparentemente tão ruim. As pessoas tem um lugar para dormir, roupa e comida. O pior de lá, algo que não se percebe imediatamente mas talvez apenas depois de um mês ou coisa parecida, o pior de lá é o clima de prisão”.
Colocar pessoas fugidas da guerra num lugar que parece uma prisão não deve mesmo ser bom para a saúde mental dessas pessoas. O pior é se a “prisão” se estende por dez, onze, doze anos.
É difícil não concordar com Anita.
sábado, 25 de abril de 2009
Atrasos
Esta semana fui novamente ao hospital para receber a décima terceira injeção de hercepetin. Agora só faltam 17.
A trapalhada que causei nas últimas duas vezes que recebi o tratamento parece indicar que estou me cansando dessas idas ao hospital. Na vez anterior, antes de ir para o hospital decidi tirar um cochilo para me recuperar um pouco da noite mal dormida. Deitei para dormir meia hora e caí num sono pesado do qual só acordei cinco minutos depois do horário marcado para estar no hospital. Dei um pulo da cama, me arrumei a jato e, ao invés de pedalar até o hospital, tomei a decisão errada de pegar o carro achando que chegaria mais rápido. Que nada. Peguei um pequeno engarrafamento e ao chegar ao estacionamento do hospital, não havia vagas desocupadas no espaço reservado aos carros dos pacientes. Rodei uns quinze minutes atrás de uma vaga e fui obrigada e estacionar a quase um quilômetro do hospital. Conclusão: cheguei na clínica onde receberia a injeção com mais de uma hora de atraso. As enfermeiras, simpáticas como sempre, não reclamaram e recebi o tratamento como planejado.
Esta semana a trapalhada foi semelhante. Tinha certeza que meu tratamento estava marcado para as 14:30 horas, mas quando cheguei ao hospital, acreditando que estava dando exemplo de pontualidade, uma enfermeira me avisou que já estavam desistindo de esperar por mim. Não entendi e ela explicou que meu tratamento estava marcado para as 13:30 horas. “Ups!”, respondi. Por algum motivo inexplicável, anotei o horário errado na minha agenda e esqueci de conferir o cartão de consultas do hospital, onde o horário havia sido corretamente anotado por uma enfermeira. Novamente, as enfermeiras foram simpáticas e me atenderam sem reclamar.
Eu já havia decidido que, depois da última sessão de herceptin eu iria comprar uma caixa de chocolates para as enfermeiras da clínica onde recebo tratamento como uma pequena demonstração de agradecimento pelo carinho e atenção com que elas têm me tratado. Depois dessa semana, acho que terei de comprar duas caixas.
A trapalhada que causei nas últimas duas vezes que recebi o tratamento parece indicar que estou me cansando dessas idas ao hospital. Na vez anterior, antes de ir para o hospital decidi tirar um cochilo para me recuperar um pouco da noite mal dormida. Deitei para dormir meia hora e caí num sono pesado do qual só acordei cinco minutos depois do horário marcado para estar no hospital. Dei um pulo da cama, me arrumei a jato e, ao invés de pedalar até o hospital, tomei a decisão errada de pegar o carro achando que chegaria mais rápido. Que nada. Peguei um pequeno engarrafamento e ao chegar ao estacionamento do hospital, não havia vagas desocupadas no espaço reservado aos carros dos pacientes. Rodei uns quinze minutes atrás de uma vaga e fui obrigada e estacionar a quase um quilômetro do hospital. Conclusão: cheguei na clínica onde receberia a injeção com mais de uma hora de atraso. As enfermeiras, simpáticas como sempre, não reclamaram e recebi o tratamento como planejado.
Esta semana a trapalhada foi semelhante. Tinha certeza que meu tratamento estava marcado para as 14:30 horas, mas quando cheguei ao hospital, acreditando que estava dando exemplo de pontualidade, uma enfermeira me avisou que já estavam desistindo de esperar por mim. Não entendi e ela explicou que meu tratamento estava marcado para as 13:30 horas. “Ups!”, respondi. Por algum motivo inexplicável, anotei o horário errado na minha agenda e esqueci de conferir o cartão de consultas do hospital, onde o horário havia sido corretamente anotado por uma enfermeira. Novamente, as enfermeiras foram simpáticas e me atenderam sem reclamar.
Eu já havia decidido que, depois da última sessão de herceptin eu iria comprar uma caixa de chocolates para as enfermeiras da clínica onde recebo tratamento como uma pequena demonstração de agradecimento pelo carinho e atenção com que elas têm me tratado. Depois dessa semana, acho que terei de comprar duas caixas.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Mesmice
Logo que soube que estava com câncer, li todos os artigos e reportagens que achava pela frente sobre pessoas que também haviam enfrentado a doença. Eu queria aprender com quem já havia tido câncer como enfrentar o estigma da doença e como superar o tratamento da melhor maneira possível .
Ler tais textos foi inicialmente muito útil. Achei inspiração, dicas e algumas boas informações e sou grata às pessoas que se dispuseram a falar da doença.
Mas depois de algum tempo comecei a me cansar desse tipo de leitura. Nessas reportagens e artigos muitos dos pacientes e ex-pacientes de câncer falam sobre como a vida deles e eles próprios se transformaram depois da doença. Vários contaram como, por exemplo, perceberam o real valor da vida depois que descobriram estar com uma enfermidade que poderia ser fatal. Uma paciente disse como passou a admirar a beleza de uma simples flor. Um outro diz que passou a dar mais valor às pequenas e aparentemente insignificantes coisas da vida. Alguns falam sobre como se tornaram melhores pessoas.
Longe de mim menosprezar ou duvidar das descobertas e conquistas que o câncer tenha trazido a algumas pessoas, mas acho que muitas vezes os textos jornalísticos sobre o assunto mais parecem sinopses piegas de livros de auto-ajuda para leitores com câncer.
Pode ser que meu olhar crítico sobre tais textos seja resultado de um pouco de inveja: não tenho notado em mim todas essas transformações que tantos pacientes contam ter visto em si mesmos. A doença não me tornou, por exemplo, uma “Pollyanna depois do câncer” que só vê lado cor-de-rosa de todos os acontecimentos por que passa.
Claro que não estou passando incólume pelo câncer, mas também não acho que a doença esteja tendo nenhum poder purificador do meu espírito ou alma. Continuo com alguns defeitos que ainda me irritam muito. Dar importância demais a coisas sem importância é um deles. Nos últimos meses percebi que, infelizmente, coisas sem importância continuam me encasquetando muito mais do que deveriam.
Como antes da doença, continuo admirando a beleza de uma flor ou a magnificência do pôr de sol avermelhado de Brasília e valorizando o prazer de estar com as pessoas que amo. Também ainda me debato com mais ou menos os mesmos dilemas e insatisfações de antes do câncer.
Uma coisa talvez esteja mudando. Acho que estou aprendendo a usar melhor o meu tempo, que corre sem parar. Que a vida é curta fica-se ainda mais convencido depois de recebermos um diagnóstico de tumor maligno no seio. Fazer o que é mais importante primeiro se tornou muito importante para mim, embora eu ainda às vezes me encontre na dúvida sobre o que é realmente importante. Mas até mesmo priorizar o que fazer do meu tempo não é algo que, de repente, comecei a fazer no dia seguinte ao diagnóstico de câncer de mama. É algo que ainda estou aprendendo a fazer.
O câncer pode estar desencadeando algumas mudanças no meu modo de levar a vida, mas não foi aquele raio de luz que me transformou numa outra pessoa. Sou a mesma Margareth, nem pior, nem muito melhor, apenas mais grata a várias pessoas queridas, à medicina e ao sistema público de saúde da Dinamarca.
Ler tais textos foi inicialmente muito útil. Achei inspiração, dicas e algumas boas informações e sou grata às pessoas que se dispuseram a falar da doença.
Mas depois de algum tempo comecei a me cansar desse tipo de leitura. Nessas reportagens e artigos muitos dos pacientes e ex-pacientes de câncer falam sobre como a vida deles e eles próprios se transformaram depois da doença. Vários contaram como, por exemplo, perceberam o real valor da vida depois que descobriram estar com uma enfermidade que poderia ser fatal. Uma paciente disse como passou a admirar a beleza de uma simples flor. Um outro diz que passou a dar mais valor às pequenas e aparentemente insignificantes coisas da vida. Alguns falam sobre como se tornaram melhores pessoas.
Longe de mim menosprezar ou duvidar das descobertas e conquistas que o câncer tenha trazido a algumas pessoas, mas acho que muitas vezes os textos jornalísticos sobre o assunto mais parecem sinopses piegas de livros de auto-ajuda para leitores com câncer.
Pode ser que meu olhar crítico sobre tais textos seja resultado de um pouco de inveja: não tenho notado em mim todas essas transformações que tantos pacientes contam ter visto em si mesmos. A doença não me tornou, por exemplo, uma “Pollyanna depois do câncer” que só vê lado cor-de-rosa de todos os acontecimentos por que passa.
Claro que não estou passando incólume pelo câncer, mas também não acho que a doença esteja tendo nenhum poder purificador do meu espírito ou alma. Continuo com alguns defeitos que ainda me irritam muito. Dar importância demais a coisas sem importância é um deles. Nos últimos meses percebi que, infelizmente, coisas sem importância continuam me encasquetando muito mais do que deveriam.
Como antes da doença, continuo admirando a beleza de uma flor ou a magnificência do pôr de sol avermelhado de Brasília e valorizando o prazer de estar com as pessoas que amo. Também ainda me debato com mais ou menos os mesmos dilemas e insatisfações de antes do câncer.
Uma coisa talvez esteja mudando. Acho que estou aprendendo a usar melhor o meu tempo, que corre sem parar. Que a vida é curta fica-se ainda mais convencido depois de recebermos um diagnóstico de tumor maligno no seio. Fazer o que é mais importante primeiro se tornou muito importante para mim, embora eu ainda às vezes me encontre na dúvida sobre o que é realmente importante. Mas até mesmo priorizar o que fazer do meu tempo não é algo que, de repente, comecei a fazer no dia seguinte ao diagnóstico de câncer de mama. É algo que ainda estou aprendendo a fazer.
O câncer pode estar desencadeando algumas mudanças no meu modo de levar a vida, mas não foi aquele raio de luz que me transformou numa outra pessoa. Sou a mesma Margareth, nem pior, nem muito melhor, apenas mais grata a várias pessoas queridas, à medicina e ao sistema público de saúde da Dinamarca.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Primavera
Depois de uma semana de férias na Alemanha e depois na Jutlândia, a parte continental da Dinamarca, estou de volta a Copenhague curtindo mais uma semana de folga. Mas, para quem mora em casa na Dinamarca, folga do trabalho raramente significa folga em casa. Abril aqui em casa é mês de, entre outras tarefas, semear flores de verão, colocar vasos de plantas para fora e no terraco, podar e adubar rosas, capinar e cortar a grama. É uma trabalheira danada que eu adoro. Na minha próxima vida nascerei jardineira.
sábado, 4 de abril de 2009
A quentinha e a crise
Sinais da crise na Dinamarca: está deixando de ser feio sair de um restaurante com uma quentinha contendo o resto da refeição que não foi comida.
Anos atrás, quando comentei numa roda de dinamarqueses que no Brasil era comum pedir ao garçom que embalasse o resto da comida numa quentinha, provoquei risadas sarcásticas. Acharam um absurdo, meio ridículo. Pelo olhares senti que achavam que isso era coisa de país de terceiro mundo.
Agora a DR, maior grupo dinamarquês na área de comunicação, com dois canais de televisão e várias estacões de rádio, está promovendo uma campanha para convencer os dinamarqueses de que levar quentinha para casa não é nenhuma vergonha e, dependendo do caso, pode até ser bom para o meio ambiente.
A DR fez uma pesquisa e descobriu o que eu já sabia: que os dinamarqueses ainda acham constrangedor pedir ao restaurante para levar o resto da com ida para casa. Os donos dos restaurantes, ao contrário, se mostram dispostos a empacotar o resto da comida, se os clientes pedirem, o que raramente acontece.
Mas agora, com a crise econômica e aquecimento global talvez a quentinha entre na moda. Ainda mais porque os dinamarqueses adoram copiar o que acontece nos Estados Unidos, onde o hábito da quentinha, que lá se chama doggy bag já se pratica há muito tempo.
Anos atrás, quando comentei numa roda de dinamarqueses que no Brasil era comum pedir ao garçom que embalasse o resto da comida numa quentinha, provoquei risadas sarcásticas. Acharam um absurdo, meio ridículo. Pelo olhares senti que achavam que isso era coisa de país de terceiro mundo.
Agora a DR, maior grupo dinamarquês na área de comunicação, com dois canais de televisão e várias estacões de rádio, está promovendo uma campanha para convencer os dinamarqueses de que levar quentinha para casa não é nenhuma vergonha e, dependendo do caso, pode até ser bom para o meio ambiente.
A DR fez uma pesquisa e descobriu o que eu já sabia: que os dinamarqueses ainda acham constrangedor pedir ao restaurante para levar o resto da com ida para casa. Os donos dos restaurantes, ao contrário, se mostram dispostos a empacotar o resto da comida, se os clientes pedirem, o que raramente acontece.
Mas agora, com a crise econômica e aquecimento global talvez a quentinha entre na moda. Ainda mais porque os dinamarqueses adoram copiar o que acontece nos Estados Unidos, onde o hábito da quentinha, que lá se chama doggy bag já se pratica há muito tempo.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Pouco mais de um ano depois
Se passou um pouco mais de um ano depois da operação que me deixou, costumo dizer brincando, mais despeitada do que sempre fui.
No ano passado, antes de toda essa maratona de tratamento, as enfermeiras me disseram que, para evitar que eu ficasse atordoada e confusa com um bombardeio de informações, depois de cada fase do tratamento que eu terminasse, elas iriam me dar detalhes da fase seguinte.
Bem mais tarde é que percebi que isso não passava de uma estratégias que médicos e enfermeiras usam para conseguir levar os pacientes até o final do tratamento. Eles não mentem, mas também não contam a verdade de uma só vez.
Foi assim antes de ser operada. Me falaram que eu perderia um seio, me prepararam para as dificuldades do período pós-operatório e do treinamento ao qual teria de me submeter para recuperar o movimento do braço e ombro esquerdos. Me avisaram que eu teria de passar pela quimioterapia e radioterapia, mas não entraram muito em detalhes.
Semanas depois da operação começaram a me encher de informações sobre a lista quilométrica dos efeitos colaterais da quimioterapia. Depois da quimioterapia, quando achei que o que faltava do tratamento era fichinha, me prepararam para a radioterapia que, no final das contas, não achei assim tão fácil como eu havia previsto.
Um ano atrás, eu sabia que iria passar por alguns dos meses mais difíceis da minha vida. Mas não imaginei que seriam tão difíceis.
Um ano atrás, eu me achava mais forte e resistente do que acabei descobrindo que eu era.
Mas esse ano não foi só de dor e mal estar.
Um ano atrás eu não sabia que tinha tantos amigos. Não sabia que havia tanta gente que se importava e se preocupava comigo.
Eu achava que minha família sempre estaria comigo para o que desse e viesse. Mas esse ano me trouxe a certeza de que eles sacrificariam o que fosse necessário para estar ao meu lado.
Pouco mais de um ano atrás eu talvez me sentisse mais solitária e menos amada.
No ano passado, antes de toda essa maratona de tratamento, as enfermeiras me disseram que, para evitar que eu ficasse atordoada e confusa com um bombardeio de informações, depois de cada fase do tratamento que eu terminasse, elas iriam me dar detalhes da fase seguinte.
Bem mais tarde é que percebi que isso não passava de uma estratégias que médicos e enfermeiras usam para conseguir levar os pacientes até o final do tratamento. Eles não mentem, mas também não contam a verdade de uma só vez.
Foi assim antes de ser operada. Me falaram que eu perderia um seio, me prepararam para as dificuldades do período pós-operatório e do treinamento ao qual teria de me submeter para recuperar o movimento do braço e ombro esquerdos. Me avisaram que eu teria de passar pela quimioterapia e radioterapia, mas não entraram muito em detalhes.
Semanas depois da operação começaram a me encher de informações sobre a lista quilométrica dos efeitos colaterais da quimioterapia. Depois da quimioterapia, quando achei que o que faltava do tratamento era fichinha, me prepararam para a radioterapia que, no final das contas, não achei assim tão fácil como eu havia previsto.
Um ano atrás, eu sabia que iria passar por alguns dos meses mais difíceis da minha vida. Mas não imaginei que seriam tão difíceis.
Um ano atrás, eu me achava mais forte e resistente do que acabei descobrindo que eu era.
Mas esse ano não foi só de dor e mal estar.
Um ano atrás eu não sabia que tinha tantos amigos. Não sabia que havia tanta gente que se importava e se preocupava comigo.
Eu achava que minha família sempre estaria comigo para o que desse e viesse. Mas esse ano me trouxe a certeza de que eles sacrificariam o que fosse necessário para estar ao meu lado.
Pouco mais de um ano atrás eu talvez me sentisse mais solitária e menos amada.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Linfedema
Aleluia! Hoje finalmente me livrei da faixa que vinha cobrindo meu braço esquerdo por mais de quatro semanas e comecei a usar um tipo de braçadeira e luva de compressão feitas sob medida para manter o linfedema sob controle.
Como parte do tratamento contra o linfedema, tive que andar por 30 dias , quase 24 horas por dia, com o braço esquerdo enfaixado. O enfaixamento, composto de gaze coberta por uma camada de algodão que, por sua vez, era coberta por uma compressa elástica deixou meu braço pesado e com os movimentos limitados. Além disso, a pele sob o enfaixamento coçava horrores e, como as faixas cobriam parte da mão, até a metade dos dedos, diversas atividades e tarefas rotineiras como fazer comida, dar banho na Gabi ou simplesmente lavar as mãos depois de uma mijadinha ficaram seriamente afetadas.
Para fazer comida e dar banho na Gabi tive que usar uma luva de plástico. Depois das idas ao banheiro, lavava como podia a mão direita e na esquerda borrifava álcool para desinfetar.
Vestir e tirar o casaco de inverno se tornou uma luta e, para meu constrangimento, algumas vezes tive que pedir ajuda porque a manga ficava presa na mão coberta pela faixa tripla. Meu vestiário nas últimas semanas limitou-se a três camisetas e blusas cujas mangas eram largas o suficiente para dar espaço para meu braço engordado pela faixa. E as ondas de calor, que continuam me molestando, ficaram ainda mais desagradáveis no braço coberto pelo enfaixamento.
O tratamento incluiu também duas semanas com sessões diárias de fisioterapia, o que complicou bastante o dia-a-dia. Todo dia, antes ou depois do trabalho, fui à fisioterapeuta, onde tirava as faixas, tomava banho e recebia a massagem chamada drenagem linfática. Depois a fisioterapeuta me enfaixava. Nos finais de semana, eu mesma me enfaixava.
Toda essa novela era para ter durado duas semanas mas a entrega da braçadeira e da luva, que eu esperava iria demorar uma semana, levou três semanas para acontecer. Para não correr o risco de colocar todo o tratamento a perder, continuei usando o enfaixamento.
Pelo menos todo esse trabalho está dando bons resultados. O inchaço diminuiu bastante e é quase imperceptível. De qualquer maneira terei de continuar usando a braçadeira e a luva por mais um bom tempo para ter certeza que o linfedema está sob controle. Também tenho de aprender a viver com a possibilidade de o braço voltar a inchar e a tomar precauções para evitar que o linfedema aumente.
Aliás, um site em português com boa informação sobre o linfedema é vivacomlinfedema.com/
Como parte do tratamento contra o linfedema, tive que andar por 30 dias , quase 24 horas por dia, com o braço esquerdo enfaixado. O enfaixamento, composto de gaze coberta por uma camada de algodão que, por sua vez, era coberta por uma compressa elástica deixou meu braço pesado e com os movimentos limitados. Além disso, a pele sob o enfaixamento coçava horrores e, como as faixas cobriam parte da mão, até a metade dos dedos, diversas atividades e tarefas rotineiras como fazer comida, dar banho na Gabi ou simplesmente lavar as mãos depois de uma mijadinha ficaram seriamente afetadas.
Para fazer comida e dar banho na Gabi tive que usar uma luva de plástico. Depois das idas ao banheiro, lavava como podia a mão direita e na esquerda borrifava álcool para desinfetar.
Vestir e tirar o casaco de inverno se tornou uma luta e, para meu constrangimento, algumas vezes tive que pedir ajuda porque a manga ficava presa na mão coberta pela faixa tripla. Meu vestiário nas últimas semanas limitou-se a três camisetas e blusas cujas mangas eram largas o suficiente para dar espaço para meu braço engordado pela faixa. E as ondas de calor, que continuam me molestando, ficaram ainda mais desagradáveis no braço coberto pelo enfaixamento.
O tratamento incluiu também duas semanas com sessões diárias de fisioterapia, o que complicou bastante o dia-a-dia. Todo dia, antes ou depois do trabalho, fui à fisioterapeuta, onde tirava as faixas, tomava banho e recebia a massagem chamada drenagem linfática. Depois a fisioterapeuta me enfaixava. Nos finais de semana, eu mesma me enfaixava.
Toda essa novela era para ter durado duas semanas mas a entrega da braçadeira e da luva, que eu esperava iria demorar uma semana, levou três semanas para acontecer. Para não correr o risco de colocar todo o tratamento a perder, continuei usando o enfaixamento.
Pelo menos todo esse trabalho está dando bons resultados. O inchaço diminuiu bastante e é quase imperceptível. De qualquer maneira terei de continuar usando a braçadeira e a luva por mais um bom tempo para ter certeza que o linfedema está sob controle. Também tenho de aprender a viver com a possibilidade de o braço voltar a inchar e a tomar precauções para evitar que o linfedema aumente.
Aliás, um site em português com boa informação sobre o linfedema é vivacomlinfedema.com/
segunda-feira, 9 de março de 2009
Seis horas
Acordei no meio da noite. Em mais uma das minhas estratégias para tentar dormir melhor, tinha me prometido que quando acordasse durante a noite por causa de uma onda de calor, não iria conferir as horas. Mas não resisti e olhei para o relógio da mesinha de cabeceira. Para minha surpresa eram 5:34. Isso queria dizer que em havia dormido seis horas ininterruptas. Nossa, era um recorde! Fazia semanas que eu não dormia tanto.
Isso foi três ou quatro noites atrás. Desde então voltei ao ritmo de acordar três vezes por noite por causa dessas malditas ondas de calor. Mas ainda assim durmo melhor do que dormia dois meses atrás, quando havia noites em que as ondas de calor me despertavam cinco ou seis vezes. Acho que posso ser otimista quanto às minhas chances de realizar o sonho de voltar a dormir sete, oito horas sem interrupção.
Isso foi três ou quatro noites atrás. Desde então voltei ao ritmo de acordar três vezes por noite por causa dessas malditas ondas de calor. Mas ainda assim durmo melhor do que dormia dois meses atrás, quando havia noites em que as ondas de calor me despertavam cinco ou seis vezes. Acho que posso ser otimista quanto às minhas chances de realizar o sonho de voltar a dormir sete, oito horas sem interrupção.
terça-feira, 3 de março de 2009
45, a missão
Na semana passada, no meu trabalho, houve um almoço para comemorar o aniversário de uma colega que completou 60 anos. Aqui na Dinamarca é hábito se comemorar o aniversário de funcionários que completam “anos redondos”, ou seja, anos às dezenas (30, 40, 50 etc). Lá pelas tantas, no discurso de agradecimento, essa colega disse que não se importava em estar ficando velha. Pensei com meus botões: será que quando eu chegar aos 60 também vou deixar de me importar com o envelhecimento? No fundo fiquei com uma ponta de dúvida: sera que aquela amiga estava dizendo a verdade?
Seria legal envelhecer com serenidade, como ouço algumas pessoas dizerem que conseguem fazer mas duvido um pouco da minha “elevação espiritual” para isso. Não que eu pense em sair por aí pagando para me esticarem aqui e acolá e lavantarem aquilo outro. Meu medo do envelhecimento não chega a ser maior do que meu medo do ridículo. Mas a perspectiva de ficar e parecer mais velha, ficar mais lenta, fraca e menos disposta e todas as coisas ruins que associamos com o avançar dos anos me incomoda.
O que mais me assusta não é o envelhecimento físico, mas o mental. Pensar que com o correr dos anos terei mais dificuldade de aprender coisas novas e que a memória pode falhar me deixa quase irritada.
Para nadar contra a corrente, invento coisas que, dizem, ajudam a manter a mente sã. Escrever é uma delas.
Seria legal envelhecer com serenidade, como ouço algumas pessoas dizerem que conseguem fazer mas duvido um pouco da minha “elevação espiritual” para isso. Não que eu pense em sair por aí pagando para me esticarem aqui e acolá e lavantarem aquilo outro. Meu medo do envelhecimento não chega a ser maior do que meu medo do ridículo. Mas a perspectiva de ficar e parecer mais velha, ficar mais lenta, fraca e menos disposta e todas as coisas ruins que associamos com o avançar dos anos me incomoda.
O que mais me assusta não é o envelhecimento físico, mas o mental. Pensar que com o correr dos anos terei mais dificuldade de aprender coisas novas e que a memória pode falhar me deixa quase irritada.
Para nadar contra a corrente, invento coisas que, dizem, ajudam a manter a mente sã. Escrever é uma delas.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
45
Um dia desses completei 45 anos. 45? Será que entendi certo? Será isso mesmo? 45?
Acho que vou conferir minha certidão de nascimento. Está guardada em algum lugar. Quem sabe descubro que na verdade nasci uns aninhos mais tarde.
Mas se eu for mais nova do que acho que sou, a situação se complica por outro lado. Aí estarei bem derrubadinha para os meus, vamos dizer, 35.
O melhor é desistir de conferir a certidão de nascimento e me conformar com talvez ter vivido mais da metade da minha vida.
Anos atrás, antes de chegar aos 40, decidi que meu alvo seria viver até pelo menos os 80. Decretei que para mim, viver 80 anos seria de bom tamanho. O que viesse depois seria lucro. Isso quer dizer que já passei da metade da minha vida mínima.
Mas depois da morte do meu pai, aos 66 anos, e da descoberta do câncer de mama, repensei mas mantive meu decreto. Continuo almejando os 80, no mínimo, mas evito as estatísticas que dizem que pessoas que já foram atingidas pelo câncer tendem a viver menos. Um dos motivos é que quem já teve câncer uma vez tem maiores chances de sofrer da mesma doença uma segunda vez.
Acho que vou conferir minha certidão de nascimento. Está guardada em algum lugar. Quem sabe descubro que na verdade nasci uns aninhos mais tarde.
Mas se eu for mais nova do que acho que sou, a situação se complica por outro lado. Aí estarei bem derrubadinha para os meus, vamos dizer, 35.
O melhor é desistir de conferir a certidão de nascimento e me conformar com talvez ter vivido mais da metade da minha vida.
Anos atrás, antes de chegar aos 40, decidi que meu alvo seria viver até pelo menos os 80. Decretei que para mim, viver 80 anos seria de bom tamanho. O que viesse depois seria lucro. Isso quer dizer que já passei da metade da minha vida mínima.
Mas depois da morte do meu pai, aos 66 anos, e da descoberta do câncer de mama, repensei mas mantive meu decreto. Continuo almejando os 80, no mínimo, mas evito as estatísticas que dizem que pessoas que já foram atingidas pelo câncer tendem a viver menos. Um dos motivos é que quem já teve câncer uma vez tem maiores chances de sofrer da mesma doença uma segunda vez.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Pérolas da polícia dinamarquesa
Um dia desses, no final de uma demonstração contra o ataque israelense a Gaza, um policial ordenou que um dos manifestantes de origem palestina e sentasse. ”Você se senta agora ou eu faco você sentar. Você entendeu, perker (ou perle)”? Entendeu?”
”Perker” é uma gíria dinamarquesa resultado da juncão das palavras perser (persa) com tyrker (turco) e tem sentido extreamente depreciativo. É usada por muitos dinamarqueses para se referir negativamente a imigrantes do Oriente Médio e países de maioria muçulmana.
Para azar do policial, a cena foi gravada e depois mostrada pela imprensa dinamarquesa e em diversos sites (http://www.dr.dk/Nyheder/Indland/2009/01/22/155818.htm )
A história talvez não desse tanto pano para manga se a diretora da Polícia de Copenhague Hanne Bech Hansen não saísse em defesa do policial dizendo que o que talvez ele tenha dito fosse ”perle” (pérola), ao invés de ”perker”. Segundo ela, pérola é um jargão policial sem sentido pejorativo.
Depois da interferência infeliz da diretora da polícia, o caso virou piada nacional. Um especialista foi chamado para opinar e disse que mais provavelmente o policial disse mesmo ”perker”. Facebook tem agora diversos grupos que ironizam ou protestam contra a atitude discriminatória da policia - o maior deles sob o nome ”Eu também sou uma pérola” com mais de 33 mil membros per 9 de fevereiro. Também já é possível comprar uma camiseta azul e branca, as cores da polícia local, com a palavra ”perle”.
A provável atitude racista do policial não chega a me surpreender, mas a capacidade da direção da polícia se expor ao ridículo é de cair o queixo.
”Perker” é uma gíria dinamarquesa resultado da juncão das palavras perser (persa) com tyrker (turco) e tem sentido extreamente depreciativo. É usada por muitos dinamarqueses para se referir negativamente a imigrantes do Oriente Médio e países de maioria muçulmana.
Para azar do policial, a cena foi gravada e depois mostrada pela imprensa dinamarquesa e em diversos sites (http://www.dr.dk/Nyheder/Indland/2009/01/22/155818.htm )
A história talvez não desse tanto pano para manga se a diretora da Polícia de Copenhague Hanne Bech Hansen não saísse em defesa do policial dizendo que o que talvez ele tenha dito fosse ”perle” (pérola), ao invés de ”perker”. Segundo ela, pérola é um jargão policial sem sentido pejorativo.
Depois da interferência infeliz da diretora da polícia, o caso virou piada nacional. Um especialista foi chamado para opinar e disse que mais provavelmente o policial disse mesmo ”perker”. Facebook tem agora diversos grupos que ironizam ou protestam contra a atitude discriminatória da policia - o maior deles sob o nome ”Eu também sou uma pérola” com mais de 33 mil membros per 9 de fevereiro. Também já é possível comprar uma camiseta azul e branca, as cores da polícia local, com a palavra ”perle”.
A provável atitude racista do policial não chega a me surpreender, mas a capacidade da direção da polícia se expor ao ridículo é de cair o queixo.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Entre a cruz e a caldeirinha
Na minha luta contra as noites insones, na semana passada fiquei entre a cruz e caldeirinha. Duas ou três noites depois de começar a tomar Catapresan para tentar controlar as ondas de calor, achei que o tal remédio estava fazendo efeito. A frequência das ondas de calor não diminuiu mas elas ficaram menos intensas.
Infelizmente, as noites insones continuaram porque, embora as ondas de calor tenha incomodado um pouco menos, a insônia aumentou. Conferi novamente a bula do remédio e lá encontrei o que já esperava: insônia na lista de possíveis efeitos colaterais. Esperei mais alguns dias e como as noites mal dormidas continuaram, desisti do tal remédio.
Agora estou de volta às intensas ondas de calor que, felizmente, não me impediram de dormir relativamente bem nas últimas três noites, talvez como efeito da presença calmante da visita de uma de minhas irmãs.
Infelizmente, as noites insones continuaram porque, embora as ondas de calor tenha incomodado um pouco menos, a insônia aumentou. Conferi novamente a bula do remédio e lá encontrei o que já esperava: insônia na lista de possíveis efeitos colaterais. Esperei mais alguns dias e como as noites mal dormidas continuaram, desisti do tal remédio.
Agora estou de volta às intensas ondas de calor que, felizmente, não me impediram de dormir relativamente bem nas últimas três noites, talvez como efeito da presença calmante da visita de uma de minhas irmãs.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Jogando a toalha
Depois de mais uma noite insone joguei a toalha. Hoje fui à uma farmácia comprar um remédio que talvez ajude a controlar as ondas de calor que me invadem dia e noite, noite e dia e que há meses me impedem de ter uma boa noite de sono. Já não me lembro a última vez em que dormi oito, sete, seis ou até mesmo cinco horas seguidas.
Estou ficando cansada dessas noites mal dormidas ou mesmo insones, como foi a passada.
Ontem, quando fui ao hospital receber mais uma injeção de herceptin, tive também uma consulta com um médico simpático que nunca tinha visto antes. Ele me receitou um comprimido que, pelo que se sabe, só funciona em 20% dos casos. Perguntei se o tal remédio tinha muitos efeitos colaterais e ele me garantiu que eu talvez apenas sentisse uma queda de pressão. Para quem, como eu, já tem pressão normalmente baixa, o tal efeito colateral não foi boa notícia, mas decidi arriscar usar o tal remédio na esperança de estar entre as 20%.
Hoje à noite tomei o primeiro comprimido. Antes, conferi a bula e me assustei com a lista comprida de possíveis efeitos colaterais que, além da queda de pressão, inclui, por exemplo, prisão de ventre, insônia, depressão, dor de cabeça, alucinações, enjoo, impotência. Estou torcendo para que, além de estar entre as 20% para quem o remédio funciona, também esteja entre as que não sente efeitos colaterais.
Daqui a pouco vou para a cama sonhando com uma boa noite de sono.
Estou ficando cansada dessas noites mal dormidas ou mesmo insones, como foi a passada.
Ontem, quando fui ao hospital receber mais uma injeção de herceptin, tive também uma consulta com um médico simpático que nunca tinha visto antes. Ele me receitou um comprimido que, pelo que se sabe, só funciona em 20% dos casos. Perguntei se o tal remédio tinha muitos efeitos colaterais e ele me garantiu que eu talvez apenas sentisse uma queda de pressão. Para quem, como eu, já tem pressão normalmente baixa, o tal efeito colateral não foi boa notícia, mas decidi arriscar usar o tal remédio na esperança de estar entre as 20%.
Hoje à noite tomei o primeiro comprimido. Antes, conferi a bula e me assustei com a lista comprida de possíveis efeitos colaterais que, além da queda de pressão, inclui, por exemplo, prisão de ventre, insônia, depressão, dor de cabeça, alucinações, enjoo, impotência. Estou torcendo para que, além de estar entre as 20% para quem o remédio funciona, também esteja entre as que não sente efeitos colaterais.
Daqui a pouco vou para a cama sonhando com uma boa noite de sono.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Pai nosso
Eu não deveria mais ficar chocada com alguns dos absurdos que ouço aqui na Dinamarca, mas algumas vezes é inevitável.
Alguns dias atrás a imprensa daqui se ocupou sobre se ocupou com uma discussão sobre se os alunos de primeiro grau devem ou não, antes de entrar em sala de aula, serem reunidos para rezar o Pai Nosso.
Uhuuuu! Estamos ou não num pais que se diz democrático e moderno em pleno século XXI? Isso não implica que as escolas são para todos, independentemente da religião ou falta de religião dos alunos? Não cabe aos pais decidir sobre a orientação religiosa dos filhos e mais tarde às próprias crianças de que igreja elas vão fazer parte?
Aqui na Dinamarca parece que não é bem assim. Tanto que o ministro da educação teve o desplante de sair defendendo o direito de escolas públicas determinarem que os alunos rezem juntos o pai nosso antes do início das aulas. Na opinião do ministro, pertencente a uma das correntes mais conservadoras da igreja luterana dinamarquesa, os pais que não concordarem com a reza podem pedir a direção das escolas que seus filhos sejam dispensados da obrigação religiosa.
O ministro, o mesmo que anos atrás esteve à frente do endurecimento da legislação que trata dos migrantes na Dinamarca, prefere ignorar que as crianças de famílias ateias ou de outras religiões, que são minoria, vão naturalmente se sentir estigmatizadas.
Dias depois da declaração infeliz, o ministro voltou atrás e disse que foi mal entendido, que na verdade apenas quis dizer que as escolas devem ter o direito de decidir se seus alunos devem ou não rezar o pai nosso.
O dito ficou pior ou tão ruim quanto o desdito. No final das contas, as 15 escolas públicas dinamarquesas onde ainda se reza o pai nosso vão continuar tendo direito a fazê-lo.
Alguns dias atrás a imprensa daqui se ocupou sobre se ocupou com uma discussão sobre se os alunos de primeiro grau devem ou não, antes de entrar em sala de aula, serem reunidos para rezar o Pai Nosso.
Uhuuuu! Estamos ou não num pais que se diz democrático e moderno em pleno século XXI? Isso não implica que as escolas são para todos, independentemente da religião ou falta de religião dos alunos? Não cabe aos pais decidir sobre a orientação religiosa dos filhos e mais tarde às próprias crianças de que igreja elas vão fazer parte?
Aqui na Dinamarca parece que não é bem assim. Tanto que o ministro da educação teve o desplante de sair defendendo o direito de escolas públicas determinarem que os alunos rezem juntos o pai nosso antes do início das aulas. Na opinião do ministro, pertencente a uma das correntes mais conservadoras da igreja luterana dinamarquesa, os pais que não concordarem com a reza podem pedir a direção das escolas que seus filhos sejam dispensados da obrigação religiosa.
O ministro, o mesmo que anos atrás esteve à frente do endurecimento da legislação que trata dos migrantes na Dinamarca, prefere ignorar que as crianças de famílias ateias ou de outras religiões, que são minoria, vão naturalmente se sentir estigmatizadas.
Dias depois da declaração infeliz, o ministro voltou atrás e disse que foi mal entendido, que na verdade apenas quis dizer que as escolas devem ter o direito de decidir se seus alunos devem ou não rezar o pai nosso.
O dito ficou pior ou tão ruim quanto o desdito. No final das contas, as 15 escolas públicas dinamarquesas onde ainda se reza o pai nosso vão continuar tendo direito a fazê-lo.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Aterrissando
Não tem sido fácil voltar à rotina na Dinamarca, o que aliás tem me surpreendido já que deixar o Brasil não foi tão doloroso desta vez. Parti sem lágrimas, talvez porque sabendo que logo receberia a visita de uma de minhas irmãs e de que planejamos retornar em breve.
Mas dias depois da chegada as coisas ficaram um pouco confusas. Ainda não consegui me reorganizar para conseguir encaixar tudo o que quero fazer e tenho me sentido um pouco frustrada.
O clima não ajuda em nada. Acho que janeiro é o mês mais chato do ano por aqui. Os dias são desanimadores: curtos, escuros e, claro, muito frios.
O blog anda meio abandonado, ainda não consegui voltar a correr como estava fazendo antes de viajar para o Brasil, onde relaxei com a ginástica e alimentação. Continuo dormindo mal por causa das insuportáveis ondas de calor que invadem meu corpo várias vezes todas as noites.
A pequena boa notícia é que aparentemente a fisioterapia para tratar o linfedema surgido no braço esquerdo durante a radioterapia está começando a surtir efeito. Meu braço está menos inchado e raramente sinto algum desconforto por conta do problema. Em fevereiro deverei me submeter a sessões de fisioterapia mais frequentes e começar e começar a usar enfaixamento.
O aparecimento do linfedema me chateou um bocado, mas não me sinto estigmatizada por causa do problema. Mais me irrita do que entristece saber que terei que lidar com isso o resto da vida, mas também não é o fim do mundo. Vejo isso mais como um aborrecimento do que como uma deficiência e me nego a deixar de ter uma vida normal por causa disso.
A propósito, o que é mesmo uma vida normal?
Mas dias depois da chegada as coisas ficaram um pouco confusas. Ainda não consegui me reorganizar para conseguir encaixar tudo o que quero fazer e tenho me sentido um pouco frustrada.
O clima não ajuda em nada. Acho que janeiro é o mês mais chato do ano por aqui. Os dias são desanimadores: curtos, escuros e, claro, muito frios.
O blog anda meio abandonado, ainda não consegui voltar a correr como estava fazendo antes de viajar para o Brasil, onde relaxei com a ginástica e alimentação. Continuo dormindo mal por causa das insuportáveis ondas de calor que invadem meu corpo várias vezes todas as noites.
A pequena boa notícia é que aparentemente a fisioterapia para tratar o linfedema surgido no braço esquerdo durante a radioterapia está começando a surtir efeito. Meu braço está menos inchado e raramente sinto algum desconforto por conta do problema. Em fevereiro deverei me submeter a sessões de fisioterapia mais frequentes e começar e começar a usar enfaixamento.
O aparecimento do linfedema me chateou um bocado, mas não me sinto estigmatizada por causa do problema. Mais me irrita do que entristece saber que terei que lidar com isso o resto da vida, mas também não é o fim do mundo. Vejo isso mais como um aborrecimento do que como uma deficiência e me nego a deixar de ter uma vida normal por causa disso.
A propósito, o que é mesmo uma vida normal?
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Gaza
Hoje, meu primeiro dia de trabalho depois das férias, foi impossível manter distância da tragédia que os ataques israelenses estão causando à população palestina em Gaza. Meu inbox estava repleto de e-mails desesperados de funcionários dos centros para tratamento de vítimas de tortura que são membros do IRCT, a organização onde trabalho. Covardemente, não olhei as fotos dos estragos causados pelos bombardeios israelenses que me enviaram, muitas delas mostrando o assassinato de crianças palestinas.
Nas férias no Brasil foi fácil me manter distante do horror da guerra em Gaza: era só evitar a televisão e a internet. Aqui esta guerra está mais próxima geograficamente e também do meu dia a dia no trabalho, onde preciso diariamente encarar tragédias como essa.
Nas férias no Brasil foi fácil me manter distante do horror da guerra em Gaza: era só evitar a televisão e a internet. Aqui esta guerra está mais próxima geograficamente e também do meu dia a dia no trabalho, onde preciso diariamente encarar tragédias como essa.
Retorno
De volta à Dinamarca depois de quase três semanas no Brasil. De volta à escuridão depois das quatro e meia da tarde, que só termina às oito da manhã. Na chegada, no sábado, deu vontade de voltar para o avião que nos trouxe da conexão em Lisboa. Eram três horas da tarde, mas parecia bem mais tarde por causa do céu completamente coberto por nuvens escuras e que pareciam estar a poucos metros de altura.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Grupo da mama
Participei de um grupo de mulheres organizado por um centro mantido pela prefeitura de Copenhague para dar assistência a pacientes de câncer. O grupo, que começou com sete mulheres e terminou com cinco, todas recebendo tratamento contra câncer de mama, se reuniu uma vez por semana durante quase dois meses mês e o tema dos encontros era um só: a vida com câncer.
Aceitei participar do grupo porque achei que seria uma boa alternativa a procurar um psicólogo. Foi uma decisão acertada. Foi bom conversar com outras pessoas na mesma situação, sofrendo dificuldades muito parecidas com as que tenho enfrentado. Foi também uma forma de aliviar o lado do marido – coitado – que, embora nunca reclame, deve estar se cansando da ladainha de uma paciente de câncer, que todo dia tem algo do que reclamar.
O que ouvi das participantes do grupo é confidencial, naturalmente, mas posso dizer que todas nós compartilhamos quase as mesmas angústias, temores e preocupações.
No último encontro me senti esvaziada. Usei bem a oportunidade para falar quase tudo o que queria e quando as reuniões acabaram acho que não tinha mais nada a falar, pelo menos não àquele grupo. Foi uma sensação curiosa e boa.
Aceitei participar do grupo porque achei que seria uma boa alternativa a procurar um psicólogo. Foi uma decisão acertada. Foi bom conversar com outras pessoas na mesma situação, sofrendo dificuldades muito parecidas com as que tenho enfrentado. Foi também uma forma de aliviar o lado do marido – coitado – que, embora nunca reclame, deve estar se cansando da ladainha de uma paciente de câncer, que todo dia tem algo do que reclamar.
O que ouvi das participantes do grupo é confidencial, naturalmente, mas posso dizer que todas nós compartilhamos quase as mesmas angústias, temores e preocupações.
No último encontro me senti esvaziada. Usei bem a oportunidade para falar quase tudo o que queria e quando as reuniões acabaram acho que não tinha mais nada a falar, pelo menos não àquele grupo. Foi uma sensação curiosa e boa.
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