domingo, 29 de junho de 2008

Dores e prazeres juninos

Sinto como se estivesse em contagem regressiva para meu pequeno inferno na Terra. Num outro domingo há três semanas comecei a sentir dores que só diminuíram depois de quatro noites. Elas começaram nos ossos, juntas e músculos das pernas e pés, se espalharam pela bacia e chegaram aos braços e mãos. Aquele domingo, como esse, veio depois de uma sessão de quimioterapia que havia acontecido na sexta-feira.

Os analgésicos que me indicaram tiveram resultado quase contrário ao que era esperado. Causaram efeitos quase imperceptíveis contra as dores que eu já estava sentindo e provocaram fortes dores de barriga. Às dores se juntaram quatro noites insones e outras tantas mal dormidas.

No auge, as dores e a quase exaustão me fizeram duvidar da minha capacidade e, alguns instantes, até pensar em desistir de lutar contra essa doença. Me fizeram também sentir mais simpatia e admiração pelos que sofrem com doenças que causam dores crônicas e não desistem de continuar vivendo. Me causaram ainda mais indignação com a crueldade dos que infligem a outros seres humanos a tortura de impedi-los de dormir por semanas e até meses.

As dores me fizeram pensar muito mas, infelizmente, mais do que isso, foram capazes de me enfraquecer tanto que perdi o ânimo e força física para escrever, para continuar minhas atividades físicas, para trabalhar e até sair para o jardim. A pouca energia que me restou naqueles dias foi reservada para brincar um pouco com minha filha, cujos mal humor e insatisfação indicaram que ela também foi influenciada pelo meu estado.

As dores diminuíram na quinta-feira, depois que passei a usar outro tipo de analgésico, mas a fraqueza e a insônia persistiram e três dias depois começaram outros tipos de desconforto. As pontas dos dedos das mãos ficaram tão doloridas que quase tive de desistir de abotoar as roupas da minha filha. Durante um ou dois dias, até teclar num computador foi doloroso.

Minha aparência também não melhorou. Minha pele, principalmente do rosto, ficou tão seca que tive de usar creme de pele com 67% de gordura três a quatro vezes por dia. Me senti uma daquelas mortas-vivas dos filmes de terror de Hollywood saindo do túmulo depois de alguns seculozinhos de sono. No hospital me disseram que ainda tive sorte. Em outras pacientes a secura causou feridas na pele.

Tive sorte em outros aspectos. Desde o ano passado havia planejado fazer uma festa junininha no quintal aqui de casa para introduzir minha filha e filhos de amigos numa das tradições brasileiras que mais curto. A data marcada caiu num sábado duas semanas depois da quimioterapia e serviu para me animar a sair do meu estado de prostração. Amigos ajudaram com pratos típicos e nem tão típicos, bebidas e decoração, através do Skype uma das minhas irmãs me ensinou a fazer balões de papel, minha família contribuiu com quilômetros de bandeirinhas a la Volpi, prendas até típicas demais para a pescaria e paçoquinhas que foram disputadas a tapa, e meu irmão e meu marido fizeram a fogueira que ficou acesa até as cinco da madrugada.

Resultado, a festa acabou sendo um sucesso, embora bem confusa por causa do maravilhoso vento do verão dinamarquês, e já estou pensando que, no ano que vem, preciso arranjar tempo para fazer um curau. Para compensar, não preciso me preocupar com as bandeirinhas de São João. Há suficientes para cobrir o quarteirão inteiro.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Insônia

Toda noite, entre as 3 e a 4 da manhã, tenho um encontro com mim mesma. Tem acontecido sempre desde a terceira sessão de quimioterapia e desta vez, em vez de ficar deitada na cama olhando para a parede pensando no que eu poderia e deveria e gostaria de fazer na manhã seguinte, decide me levanter e voltar ao blog. Por favor perdoem os erros de português de uma insone.

A insônia de hoje é causada por um remédio que comecei a tomar hoje para atacar contra-atacar os efeitos da quinta e, espero, a penúltima sessão de quimioterapia, que acontecerá daqui a umas cinco horas. O tal do remédio, usado normalmente para pacientes de reumatismo, impediu que eu sentisse dores nas juntas e músculos logo depois da última sessão de quimioterapia. Mas quando seus efeitos passaram, dois dias depois da sessão, as dores invadiram meu corpo. Um dos resultados foi que fiquei praticamente sem dormir quatro noites e dormi terrivelmente mal por mais umas cinco noites.

Desta vez estou mentalmente preparada para várias noites insones ou mal dormidas. A Pollyana me invade novamene e não consigo deixar de pensar que pelo menos terei uma boa chance de colocar o blog dia.

domingo, 8 de junho de 2008

Uma visita

Hoje à tarde uma vizinha que é enfermeira e mora aqui perto há quase dois anos, entrou pela primeira vez na nossa casa. Mas a visita não foi somente de cortesia. Ela veio porque de manhã eu a vi no jardim da casa dela e aproveitei a deixa para pedir-lhe que me aplicasse a injeção de pegfilgrastim.

Ela apareceu no começo da tarde e lhe contei que estava com câncer de mama. Não pareceu surpresa. Deve ter adivinhado ou ouvido de alguém na creche. Depois da aplicação, conversamos um pouco e mais uma vez tive razões para ser grata à vida.

A irmã dela, com apenas 32 anos, sofre de um tipo raro de câncer desde que tinha treze anos. Não lhe resta muito mais tempo de vida e é por isso que nossa vizinha passa tantos finais de semana na casa dois pais dela, onde a irmã doente está morando.

Quando ela me contou isso tive uma vontade louca de tocar a mão dela e falar o quanto aquilo me entristecia. Talvez, se ela fosse brasileira, ou se eu estivesse no Brasil, ou se eu já não tivesse morado tanto tempo na Dinamarca, eu teria feito isso. Provavelmente também teria dito o que tive vontade de dizer: “Puta que pariu! Aí também é foda”. Mas não fiz nem disse nada disso.

Só olhei bem dentro dos olhos azuis muito claros dela e percebi lá no fundo uma tristeza imensa misturada com uma necessidade quase tão grande de se manter forte para sustentar a si mesma, a irmã e a família na separação que inevitavelmente vai acontecer.

Enquanto olhava bem dentro dos olhos dela, me lembrei do meu pai, da dor e da saudade que a partida dele me deixou.

sábado, 7 de junho de 2008

Quarta sessão

Já faz um tempo que não apareço no blog. É que o tempo aqui anda tão bom que é impossível resistir e não inventar qualquer coisa para fazer ao ar livre. Junte-se a isso visita de parentes dinamarqueses e uma virose que atacou a Gabriela, que não me deixaram tempo nem para respirar.

Mas agora que realmente passei pela metade do meu tratamento quimioterápico, tenho de escrever.

Ontem de manhã recebi minha quarta dose de drogas quimioterápicas. Faltam agora penas duas sessões e nessas três últimas vezes estou recebendo um tratamento diferente do que recebi nas três primeiras vezes. Uma coisa boa desse outro tipo de medicação é que os enjôos vão praticamente acabar mas, para compensar, tenho de me preparar para vários outros efeitos colaterais. O cansaço vai continuar e provavelmente vão aparecer dores de de cabeça, musculares, nas juntas dos ossos, azia e outras cositas mais que prefiro nem listar para não ficar muito chata.

Hoje à tarde recebi uma injeção daquele medicamento, cujo princípio ativo se chama pegfilgrastim em inglês, para estimular minha produção de glóbulos brancos e que me causou tanto mal estar três semanas atrás. Assim como acontece com o tipo de quimioterapia que recebi ontem, os piores efeitos colaterais da injeção que recebi hoje só vão se fazer sentir daqui a dois ou três dias.

Por enquanto estou me sentindo bem, embora tenha aparecido uma leve dormência na ponta da língua, minha boca esteja com um gosto muito estranho e de vez em quando sinto coceira nos braços e pernas. Tudo previsto na longa descrição de efeitos colaterais que recebi do hospital.

Me disseram que os efeitos colaterais da tal injeção não são tão fortes numa segunda dose e estou torcendo para que isso seja verdade. O problema é que os efeitos colaterais da quimioterapia são muito semelhantes aos causados pela injeção, e uma pode reforçar os efeitos da outra, o que pode me deixar meio para baixo amanhã ou depois. É esperar para ver.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Chuvarada

Hoje choveu forte durante todo o dia em Copenhague. Foi a primeira chuva em várias semanas de dias ensolarados, pouco comuns na primavera dinamarquesa.

Os dias ensolarados são os responsáveis pela menor freqüência com que tenho escrevido. É que quando o sol sai, ninguém fica dentro. A dinamaquesada inteira vai para os jardins, parques, praias, cafés nas calçadas e onde mais se possa conseguir um lugarzinho ao sol. Eu, claro, não deixo por menos. Passo todas as horas que posso no jardim ou estou sempre arranjando um programinha ao ar livre.

O quase desespero pela luz trazida pela primavera não é para menos. Pelos padrões brasileiros, há, pelo menos, seis meses de inverno na Dinamarca. De outubro a abril, as temperaturas são semelhantes ou bem mais baixas dos que as do inverno do sul-sudeste brasileiro.

A primavera começa oficialmente no final de março, mas é só em maio que o sol começa realmente a dar o ar da graça e as temperaturas são mais amenas. Exércitos de dinamarqueses desesperados pelo sol saem às ruas como formigas saem do formigueiro depois de uma chuvarada. O pouco cuidado com que os dinamarqueses brancos de natureza e pálidos de inverno se expõem ao sol mostra porque o câncer de pele é o tipo de câncer mais comum na Dinamarca. Meu hábito de usar protetor solar e chapéu nas horas de sol mais intenso chega a ser visto com curiosidade por alguns dinamarqueses, que não entendem porque uma pessoa morena como eu precise se proteger dos raios ultra-violeta.

terça-feira, 20 de maio de 2008

O bichinho pegou

Me senti relativamente bem depois da terceira sessão de quimioterapia e antes de ontem, domingo, cheguei a participar de um mutirão de pais na creche da Gabriela. Demos uma geral na creche: alguns pintaram, outros capinaram, outros costuraram. Depois almoçamos todos juntos um feijão à mexicana preparado por um dois pais.

Mas ontem o bichinho pegou. Ao cansaço que tem me acompanhado em maior ou menor grau desde o começo da quimioterapia, se juntou dor de cabeça, calafrios e dores por todo o corpo, principalmente na nuca, ombros e costas. Parecia que estava no começo de uma super gripe, daquelas que derrubam elefante e em que a gente pede para o mundo se acabar numa cama.

O pior não era o mal estar físico, mas uma tristeza que me atacou profunda e subitamente. Depois de uma boa choradeira, me senti melhor, mas o mal estar continuou, embora hoje as dores musculares tenham ficado mais fracas.

O motivo de tanto mal estar foi um medicamento que tomei um dia depois da quimioterapia com o objetivo de estimular meu organismo a produzir mais neutrófilos e assim me proteger de infecções. Na lista de efeitos colaterais provocados pelo tal medicamento estão dores musculares e dor de cabeça.

Se tudo correr como planejado, e vai, passarei por seis sessões de quimioterapia. Estava previsto que eu receberia esse medicamento para produção dos neutrófilos somente depois de cada uma das últimas três sessões de quimioterapia. Como meus neutrófilos resolveram sumir já depois da segunda sessão, os médicos decidiram que eu já deveria começar a receber o tal medicamento uma sessão antes do previsto.

Agora já não dá para dizer que não sei o que me aguarda nas últimas três sessões de quimioterapia.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Glóbulos desbotados


A semana que passou foi povoada por duas pequenas frustrações. O tratamento que eu receberia na terça-feira passada teve de ser adiado para a sexta-feira porque o nível de um tipo de glóbulos brancos do meu sangue estava muito baixo. Um exame de sangue confirmou que o índice que mede a concentração dessas células, que aqui chamam “neutrocytes”, era de apenas 1,1, enquanto o aceitável seria 1,5. Se não me engano, essas células se chamam neutrófilos em português.

Um adiamento de apenas quatro dias pode parecer insignificante, mas quando toda sua vida se organiza em torno de um tratamento que vai determinar como você vai se sentir nas próximas semanas, a coisa muda de figura. Uma amiga que tinha tirado folga para ficar comigo durante e nas horas depois da quimioterapia, perdeu o dia de trabalho inutilmente. Uma outra amiga veio de Madrid para me ficar comigo e a Gabi enquanto o Henrik viajava a trabalho. Claro que foi ótimo revê-la, mas ela talvez tivesse escolhido um outro dia para me visitar se soubesse que eu não receberia o tratamento na data prevista.

Além disso, todo atraso no meu tratamento significa que voltar a ter uma vida mais próxima do normal fica mais distante.

Na sexta, um terceiro exame de sangue em uma semana mostrou que os glóbulos brancos do meu sangue finalmente haviam chegado ao nível adequado. O índice que mede a concentração de neutrófilos do meu sangue já tinham subido para 1,7. No mesmo dia passei pela terceira dose de quimioterapia, o que foi um alívio.

O outro pequeno desapontamento da semana foi meu joelho direito. Na terça, depois dos meu recorde de 26 minutos, meu joelho passou a doer. Achei que no dia seguinte estaria em forma novamente mas, quase uma semana depois, continuo sentindo que ainda não dá para correr. Sou obrigada a esperar meu joelho se recuperar para quebrar novos recordes.

terça-feira, 13 de maio de 2008

26 minutos

Hoje de manhã voltei a correr e bati meu próprio recorde: 26 minutos. Mas meu joelho doendo está me dizendo que talvez eu tenha exagerado um pouquinho. Bem, vou ser mesmo quase obrigada a fazer uma pausa nos próximos dois dias por causa do cansaço e mal estar causados pela quimioterapia.

Daqui a pouco uma amiga vem me buscar para irmos ao hospital onde deverei passar por mais uma sessão de quimioterapia no começo da tarde. Nada a fazer a não ser respirar fundo.

A cruzada de Pia

Um tempo atrás, um dos maiores jornais da Dinamarca anunciou o lançamento de um livro que conta a história das 10 pessoas mais influentes do país. Na lista, apenas uma mulher. O fato da lista só ter uma mulher seria suficiente para me incomodar já que se poderia esperar um pouco mais de um país conhecido por ser um dos mais avançados no reconhecimeto dos direitos das mulheres.

Mas a tal lista me grilou ainda mais porque a única mulher incluída, Pia Kjærsgaard, é uma das políticas mais conservadoras e, talvez como consequência do seu conservadorismo, mais populares da Dinamarca. Famosa por defender políticas anti-imigração e anti-imigrantes, ela lidera o Partido do Povo Dinamarquês (Dansk Folkeparti).

Criado em junho de 1996, o DF (sigla em dinamarquês) tem uma trajetória espetacular. Já nas eleições de 1996 conseguiu 7,4% dos votos e no ano passado recebeu 13,8 % dos votos – suficientes para que o partido aumentasse para 25 o número de vagas no parlamento e mantivesse seu posto de terceiro maior partido do país.

De fato, não é de estranhar que Pia fizesse parte da tal lista. Ela é realmente uma das pessoas mais influentes do país. Para não desagradar seus próprios eleitores, o partido no poder, o Venstre (embora o nome signifique esquerda, o partido é de centro-direita), não ofereceu cargos ao DF. Mas isso não diminuiu o poder do partido de Pia, do qual o governo depende para conseguir maioria no parlamento.

Pia Kjærsgaard não gosta de ser chamada de racista. Aliás, já andou processando pessoas que a classificaram como tal. O problema é que abundam exemplos de que ela e seu partido são o que não gostam de ser chamados. Um dos mais notórios foi a impressão de um cartaz da ala jovem do DF contra o crescimento da população imigrante. O cartaz comparava a Dinamarca de hoje, mostrando jovens brancos sorrindo com ar saudável e feliz, com a Dinamarca daqui a dez anos, mostrando moças com o rosto coberto, à maneira islâmica, e rapazes, aparentemente de origem árabe, em atitude desafiadora, como se estivessem prontos para uma ação terrorista.

Ela combate, como já declarou, uma Dinamarca multiétnica e multicultural porque – muito simples – a Dinamarca é para os dinamarqueses. Faz uso de generalizações grosseiras ao dizer que os refugiados que chegam ao país têm desprezo por tudo que é dinamarquês, ocidental e cristão e estão mergulhados em cultura medieval.

Para desempenhar o papel de protetora da Dinamarca branca e cristã, Pia se veste literalmente a caráter. Não com armadura e lança, como os guerreiros medievais, mas freqüentemente com terninhos cor-de-rosa que são de matar.

Infelizmente para ela e para os pouco mais de cinco milhões de pessoas que conseguem entender dinamarquês, a voz dela é uma lástima: esganiçada e fanhosa – um misto de Roberto Carlos com Dercy Gonçalves. Mas ela não se intimida: adota um tom doce e suave e parte para o ataque, sempre dando a impressão de que não está atacando ninguém, mas apenas defendendo sua virtuosa e imaculada Dinamarca.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Socos

Essa história de enfrentar a realidade nem sempre é o meu forte. Quando soube que aquele caroço no meu seio esquerdo era maligno, tentei de todas as maneiras dizer a mim mesma que não devia ser tão mal assim, que era só um carocinho de nada que uma cirugia simples resolveria.

Receber uma notícias dessas numa outra língua ajuda a fugir dos socos de realidade. Antes de eu saber o que tinha, ao perguntar à médica que fazia uma ultrassonografia dos meios seios o que ela tinha encontrado, a resposta, em dinamarquês, foi clara: “Esse caroço é maligno”. Fiquei especulando se a palavra "maligno" em dinamarquês tem o significado horrível que tem em português. Mas, embora não tivesse usado a palavra câncer, ela não deixou margem para dúvidas: eu teria de ser operada e a dimensão do problema seria conhecida depois do resultado de uma biópsia e outros exames.

Naquele dia eu havia ido sozinho ao hospital. Saí da sala onde foi feito o exame e entrei no primeiro banheiro que achei. Chorei sozinha, e muito.

Até então minha vida havia sido povoada por várias dúvidas e algumas poucas certezas. Naquele banheiro, quase tudo cedeu lugar a uma interrogação vital “vou sobreviver a essa doença?”. Essa incerteza imensa e sufocante veio junto com outra ainda mais terrível: “vou sobreviver para ver minha filha crescer?”.

Todos com quem converso sobre minha doença sempre tentam me encher de otimismo e confiança. “Hoje em dia os médicos têm controle sobre isso, ninguém morre mais de câncer de mama, a medicina avançou muito nessa área...” Ouço e concordo, mas aquele diabinho que vive espetando meu anjinho abana a cabeça e diz: “Blá, blá, blá. Num ano, mais de 1300 mulheres morrem de câncer de mama só na Dinamarca, um paisinho com cinco milhões de habitantes”.

Fujo das estatísticas e evito me fazer aquelas perguntas. Elas me acompanham, mas prefiro não encará-las. Elas me entristecem, como agora, e me sugam energia, ânimo e alegria. Tento substituí-las com uma certeza: não vai ser essa porcaria de doença que vai me matar. Ainda tenho muito coisa para fazer e a mais importante delas é ver minha filha crescer.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

21 minutos

Acho que hoje posso dizer que superei a segunda etapa do meu tratamento quimioterápico. Os piores efeitos colaterais da segunda rodada já passaram e me sinto quase como se não estivesse sob tratamento. Agora é curtir esta boa semana, antes de tudo recomeçar na semana que vem, quando terei uma nova sessão de quimioterapia.

Hoje corri por 21 minutos em volta do lago aqui perto de casa. Foi meu tempo recorde desde que comecei a correr depois da operação e me senti uma verdadeira campeã. Os dias ensolarados têm ajudado. Fica fácil se animar para sair de casa nesses dias de sol de brigadeiro e temperatura perto dos 20 oC. Só espero que se esse pique todo continue quando eu voltar a trabalhar e o inverno chegar. É possível que sim. Afinal, agora tenho uma motivação adicional para continuar me movimentando: há estudos que indicam que mesmo atividade física moderada pode aumentar a expectativa de vida de quem tem ou teve câncer de mama.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Primavera 2008

A ameixeira do vizinhoA primavera chegou para valer aqui na Dinamarca. Os jardins são uma profusão de cores que quase conseguem apagar da memória os dias cinzentos e desfocados do inverno. A temperatura chegou a incríveis 20 graus durante o dia na última semana, o que nos fez ir atrás de sapatos e sandálias menos quentes para a Gabi.

Mas a alegria com a chegada da primavera sempre me prega peças. Olho aquele solão lá fora e não tenho dúvida: pego o casaco mais leve do armário, monto animadinha a bicicleta e cinco minutos depois, tiritando, estou me xingando porque não vesti uma roupa mais quente. É que as manhãs e finais de tarde ainda estão bem frios. No inverno é mais difícil se enganar. Faz frio o tempo todo e não há dúvida sobre o que devo vestir: blusa, cardigan, meias-calça, calças compridas, botas, luvas, cachecol, chapéu ou touca. Em resumo: pareço uma cebola, cheia de camadas, como observou uma conhecida.

As temperaturas mais amenas também são uma alívio para minha careca. Nossa, como sinto frio na careca, especialmente na nuca. Mesmo dentro de casa e até na hora de dormir estou sempre usando uma das tocas que comprei para os meus meses de carequice.

Uma pedagoga da creche da Gabriela perdeu todo o cabelo do corpo cinco anos atrás por causa de uma doença incurável. Um dia desses conversei um pouco com ela sobre o que é viver sem cabelo. Ela me contou do frio que sente com uma simples brisa que passa por seu braço liso. Falou também o quanto foi difícil encarar o olhar das pessoas logo depois de ter perdido o cabelo e como sempre se recusou a usar peruca. Admirei a coragem dela e me senti grata por saber que meu cabelo logo vai ter permissão para voltar a crescer.

domingo, 27 de abril de 2008

Fugindo da raia

Ontem o Henrik e eu fomos à festa de aniversário de trinta anos da prima dele. Na Dinamarca, quando falam em festa, geralmente querem dizer um jantar que dura horas, onde você fica sentado ao lado ou em frente a pessoas que você nunca viu e pelas quais você não se interessa ou que não se interessam por você. Depois de uma refeição interrompida por discursos, canções e brincadeiras nem sempre tão divertidas, às vezes rola uma dançazinha animada por um organista ou um conjuntinho musical que deixam muito a desejar.

Felizmente, a festa de ontem não seria do tipo tradicional. Foi anunciada como uma festa onde rolaria muita música e nada de jantar, apenas bebidas e tira-gostos. Oba, diria uma brasileira saudosa de uma festa daquelas. Mas aí vale outro esclarecimento. Na Dinamarca, quando anunciam uma festa como essa, entenda-se bebedeira coletiva. Claro que há exceções, mas de modo geral o que acontece é que o povo se reúne para beber tresloucadamente e, dançar que é bom, fica para segundo plano.

Mas decidimos ir assim mesmo e tudo ia bem até estacionarmos o carro ao lado da casa da aniversariante. A idéia de encarar uma casa cheia de gente estranha e festiva de repente me apavorou. Me acovardei diante da perspectiva das pessoas me olharem tentando adivinhar o que eu, com aquele pano na cabeça, seria: extravagante, religiosa ou doente? Tentei controlar as lágrimas, inclusive para evitar borrar o rímel caríssimo que havia comprado no dia anterior, mas foi inútil. Os gases inchando minha barriga, o cansaço e um incômodo na área da cirurgia não ajudavam em nada a levanter meu ânimo.

Depois de mais uns minutos no carro, outros convidados da festa passando por nós, o Henrik deu a partida e fomos a um café, onde bebemos um chá e me acalmei. Por ele, poderíamos voltar para casa. Insisti que deveríamos voltar e encarar a turba. Afinal, tínhamos comprado presente, argumentei com meu raciocínio de quem não admite desperdícios.

Fomos. As pessoas podem até ter ficado na dúvida sobre se eu era extravagante, religiosa ou doente, mas foram suficientemente discretas para me tratar como se não estivessem notando o pano na cabeça.

A festa foi aquilo mesmo que eu previa, uma bebedeira coletiva. Mas, à margem dela, lá pelas tantas me vi discutindo com um casal de pedagogos e o Henrik evolução natural e o aparente descompasso entre o desenvolvimento físico e mental dos seres humanos. E olha que eu não tinha bebido nenhuma gota de álcool.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Peruca

Três dias depois do meu primeiro tratamento quimioterápico, fui a uma perucaria e falei à vendodora que precisava de uma peruca. A senhora me olhou e disse: “Ah, meu Deus, onde é que vou arranjar uma peruca para substituir esse cabelo todo?” E continuou: “Você tem o tipo de cabelo que sempre sonhei ter: cheio, encaracolado”. Eu ficaria envaidecida se já não tivesse ouvido isso inúmeras vezes aqui na Dinamarca, onde os cabelos escuros e cacheados fazem sucesso, ao contrário do Brasil superpovoado de falsos louros alisados.

Agradeci os elogios da vendedora, aliás muito gentil e simpática, e lhe pedi que tentasse alguma peruca curta e escura. Ela veio com algumas e minha mãe e meu marido, que foram comigo à loja, concordaram que uma delas tinha ficado até legal. Embora o resultado tenha ficado melhor do que eu esperava, ainda me achei ridícula com aquela coisa.

Mas como a coisa seria paga pelo hospital onde estou sendo tratada, decidi levá-la. Afinal não sabia como me sentiria depois de perder o cabelo e, quem sabe, até me animaria a usar a coisa.

Hoje, seis dias depois de raspar a cabeça, ainda não me animei a usar aquela coisa. A Gabriela também não gostou. Olhou e disse: “Feio, mãe, feio”. Apesar da opinião desfavorável, de manhã, antes de ir para creche, quando lhe sugeri que usasse a peruca, ela não se avexou. Enfiou-a na cabeça e se divertiu a valer, o que, claro, não perdi a chance de registrar.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Tô um bagaço mas tô bem


Hoje às 11 da manhã recebi a segunda dose to tratamento quimioterápico. Estou um bagaço mas estou bem. Dá para entender? Quando, depois de uma sessão de quimioterapia, você só se sente um bagaço de tão cansada é porque a coisa vai bem. A barriga parece que vai estourar com gases, tenho um pouco de enjôo e bebo água mineral com gás o tempo todo, mas perto daquilo que ouvi falar que outras pessoas sofrem, isso não é nada.

A outra boa notícia do dia é que conversamos com uma médica do hospital (Rigshospitalet) onde estou sendo tratada e ela disse que na maior parte dos casos, a quimioterapia é suficiente para eliminar células cancerosas que ainda tenha ficado em gânglios linfáticos.

Depois da operação, achamos que todos os gânglios linfáticos cancerosos tivessem sido retirados, mas um exame ainda em fase experimental feito quatro dias antes da cirurgia mostrou que havia um quarto gânglio contaminado abaixo da clavícula. A médica que cuida do meu caso explicou que aquele gânglio não poderia ter sido retirado com uma operação porque fica muito perto de uma artéria vital. Mas ficaram muitas dúvidas da conversa que tive por telefone com ela e hoje falamos uma a supervisora dela, que pareceu saber do que estava falando.

A terceira notícia boa do dia é que hoje voltei a correr em volta do lago Utterslev, aqui perto de casa, antes de ir ao hospital. Corri só 20 minutos, mas me senti o máximo. Aliás, o dia estava lindo.

domingo, 20 de abril de 2008

Careca

Estou careca. Tentei me agarrar até o último fio de cabelo mas não deu. Meu cabelo passou a cair demais desde ontem, o que estava me incomodando demais. Era cabelo para todo o lugar. Era só passar a mão que saía um monte. O cabelo caído nas minhas costas coçava horrores e começou a ficar constrangedor tanto cabelo caído nos meus ombros.

Hoje à noitinha o Henrik e a Gabriela me ajudaram a acabar com o que restava da minha cabeleira. Sentei com a cabeça inclinada sobre uma bacia grande de plástico enquanto o Henrik, a Gabi e eu íamos puxando o cabelo que saía aos montes. Quando o Henrik passou o barbeador para remover os fios que restavam, a Gabi se preocupou comigo e choramingou “Nej, é dodói.” Eu ri alto, falei que não doía e ela se acalmou. Depois perdeu o interesse pela brincadeira de deixar a mamãe careca e pediu para ver um DVD do Cocoricó.

sábado, 19 de abril de 2008

Cabelo

Não sei se ”o mais difícil até agora” escrito na última remessa é mesmo pra valer. Essa história de perder cabelo não está sendo nem um pouco engraçada. Começou na segunda, dia 14. O couro cabeludo coçava bastante, puxei o cabelo do alto da cabeça e saíram mais fios do que o normal. Fui ao banheiro logo de manhã cedo e notei que havia uns fios na calcinha. Até achei engraçado: parecia depilação sem cera e sem dor. Era só puxar que a marca do biquini ia se formando. Pena que de lá para cá quase não caíram mais cabelos do púbis.

No dia seguinte comecei a parar de achar graça quando os fios da cabeça, principalmente da parte de trás, passaram a cair em maior quantidade.

Na quinta fui à fisioterapia, que faço com outras mulheres que também sofreram masectomia, e fiquei vendo “eu amanhã” numa delas. Ela começou o tratamento quimioterápico uma semana antes de mim e decidiu raspar a cabeça depois de aparecerem clarões no couro cabeludo.

Ontem e hoje, sábado, a queda aumentou consideravelmente. Antes eu puxava e vinham 10 a 20 fios. Agora vêm 30, 40. Tem cabelo meu para todo lugar. Claro que o mais sensato seria raspar tudo, mas ainda não criei coragem. Me agarro até o ultimo fio de cabelo. Ou melhor, até o primeiro clarão. O que deve acontecer amanhã ou depois.

Até essa semana não imaginava o quanto o meu cabelo era importante para mim. Ontem fiquei bastante triste e chorei um pouco por causa da futura carequice e de tudo que ela representa. Hoje amanheci mais animadinha. Acho que me fez bem chorar um pouco. Fazia dias que eu bancava a durona.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Bandagem

O pior, até agora, foi quando tiraram a bandagem que cobria o ferimento deixado pela operação para retirada do meu seio esquerdo. Até então o corte de quase vinte centímetros estava coberto por gaze e embora fosse evidente que ali näo havia mais um seio, era como se o curativo me protegesse de encarar meu corpo mutilado.

O curativo foi retirado dois dias depois da operação e, graças aos deuses, ninguém ocupava a cama ao lado da minha e o Henrik tinha vindo me visitar depois de ter levado a Gabi para a creche. Foi simplesmente horrível. Olhar para o que não havia mais, um peito metade vazio, riscado por um corte enorme, mais parecendo o de uma menina de oito anos. Do outro lado o seio direito, pateticamente solitário.

Esteticamente talvez tivesse ficado melhor se os dois seios fossem retirados. Mas isso teria significado que a doença tinha se espalhado mais do que os 1,9 cm de caroço, mais algumas células em estado pré-cancerígeno por perto e mais três nódulos linfáticos contaminados.

Me senti desconsolada, muito triste e chorei forte e alto como ainda não tinha chorado desde o início desse pesadelo. Usar a palavra pesadelo é cliché, mas é difícil encontrar uma outra melhor. Nos primeiros dias acordava de manhã meio esquecida de tudo que havia acontecido e do que ainda estava por acontecer: eu sofria de cancer de mama, tinham me retirado um seio, eu era uma aleijada e ainda teria que passar por meses de um tratamento cujos efeitos colaterais mais parecem uma segunda doença sem ter certeza de que no final de tudo isso eu sobreviria a essa doença maldita.

Razões para otimismo há, sem dúvida, mas naquele momento nada era capaz de amenizar a dor, o desespero, o desamparo. Me senti tão feia. Horrorosa. Dona de um corpo que pode assustar crianças e chocar adultos.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Imunidade

Até dezembro do ano passado, era como se minha família estivesse protegida por uma aura que a protegia das doenças e mazelas da vida. Embora eu soubesse que meu pai estivesse com sérios problemas pulmonares e já tivesse comentado com Henrik, meu marido, que mais cedo ou mais tarde ele poderia nos dar uma supresa desagradável, no fundo no fundo eu ainda achava que nada de verdadeiramente ruim nos atingiria.

Aí, na manhã de uma sexta-feira, 21 de dezembro, receber a notícia de que meu pai havia sido internado depois de duas paradas respiratórias e uma parade cardíaca não foi só um choque. Foi também a implosão de uma crença que me acompanhava desde criança: a de que minha família era inatingível, infalível.

Semanas depois da morte do meu pai, quando soube que minha sobrinha passava por uma outra crise da síndrome nefrótica que a acompanha há anos, me apavorei. A crise foi controlada, mas o pânico não sumiu. Acho que foi mesmo um pressentimento de que algo muito errado estava por acontecer.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Nove anos

Já faz nove anos que vivo na Dinamarca e toda vez que o inverno começa por essas bandas me faço a mesma pergunta: “O que é que eu tô fazendo aqui?”. A resposta é, claro, sempre a mesma, inspirada naquela canção sertaneja: “É o amoooor”.

Só mesmo amor para explicar minha resistência impressionante aos seis meses de dias escuros, gelados e úmidos e aos rostos carrancudos das pessoas que esbarram umas nas outras nas ruas de Copenhague.

O frio aqui começa para valer en outubro e só termina em março, o que não significa que setembro e outubro sejam meses de clima suportável. No primeiro em que vivi aqui nevou em abril! Fiquei chocada e, como uma consumidora lesada reclamando junto ao Procon, liguei ao meu marido indignada, para dizer que aquilo não se fazia, não era justo.

Eu nunca poderia imaginar que aquela neve de abril era apenas uma das mais inofensivas surpresas desagradáveis que eu teria na Dinamarca.