Depois de mais uma noite insone joguei a toalha. Hoje fui à uma farmácia comprar um remédio que talvez ajude a controlar as ondas de calor que me invadem dia e noite, noite e dia e que há meses me impedem de ter uma boa noite de sono. Já não me lembro a última vez em que dormi oito, sete, seis ou até mesmo cinco horas seguidas.
Estou ficando cansada dessas noites mal dormidas ou mesmo insones, como foi a passada.
Ontem, quando fui ao hospital receber mais uma injeção de herceptin, tive também uma consulta com um médico simpático que nunca tinha visto antes. Ele me receitou um comprimido que, pelo que se sabe, só funciona em 20% dos casos. Perguntei se o tal remédio tinha muitos efeitos colaterais e ele me garantiu que eu talvez apenas sentisse uma queda de pressão. Para quem, como eu, já tem pressão normalmente baixa, o tal efeito colateral não foi boa notícia, mas decidi arriscar usar o tal remédio na esperança de estar entre as 20%.
Hoje à noite tomei o primeiro comprimido. Antes, conferi a bula e me assustei com a lista comprida de possíveis efeitos colaterais que, além da queda de pressão, inclui, por exemplo, prisão de ventre, insônia, depressão, dor de cabeça, alucinações, enjoo, impotência. Estou torcendo para que, além de estar entre as 20% para quem o remédio funciona, também esteja entre as que não sente efeitos colaterais.
Daqui a pouco vou para a cama sonhando com uma boa noite de sono.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Pai nosso
Eu não deveria mais ficar chocada com alguns dos absurdos que ouço aqui na Dinamarca, mas algumas vezes é inevitável.
Alguns dias atrás a imprensa daqui se ocupou sobre se ocupou com uma discussão sobre se os alunos de primeiro grau devem ou não, antes de entrar em sala de aula, serem reunidos para rezar o Pai Nosso.
Uhuuuu! Estamos ou não num pais que se diz democrático e moderno em pleno século XXI? Isso não implica que as escolas são para todos, independentemente da religião ou falta de religião dos alunos? Não cabe aos pais decidir sobre a orientação religiosa dos filhos e mais tarde às próprias crianças de que igreja elas vão fazer parte?
Aqui na Dinamarca parece que não é bem assim. Tanto que o ministro da educação teve o desplante de sair defendendo o direito de escolas públicas determinarem que os alunos rezem juntos o pai nosso antes do início das aulas. Na opinião do ministro, pertencente a uma das correntes mais conservadoras da igreja luterana dinamarquesa, os pais que não concordarem com a reza podem pedir a direção das escolas que seus filhos sejam dispensados da obrigação religiosa.
O ministro, o mesmo que anos atrás esteve à frente do endurecimento da legislação que trata dos migrantes na Dinamarca, prefere ignorar que as crianças de famílias ateias ou de outras religiões, que são minoria, vão naturalmente se sentir estigmatizadas.
Dias depois da declaração infeliz, o ministro voltou atrás e disse que foi mal entendido, que na verdade apenas quis dizer que as escolas devem ter o direito de decidir se seus alunos devem ou não rezar o pai nosso.
O dito ficou pior ou tão ruim quanto o desdito. No final das contas, as 15 escolas públicas dinamarquesas onde ainda se reza o pai nosso vão continuar tendo direito a fazê-lo.
Alguns dias atrás a imprensa daqui se ocupou sobre se ocupou com uma discussão sobre se os alunos de primeiro grau devem ou não, antes de entrar em sala de aula, serem reunidos para rezar o Pai Nosso.
Uhuuuu! Estamos ou não num pais que se diz democrático e moderno em pleno século XXI? Isso não implica que as escolas são para todos, independentemente da religião ou falta de religião dos alunos? Não cabe aos pais decidir sobre a orientação religiosa dos filhos e mais tarde às próprias crianças de que igreja elas vão fazer parte?
Aqui na Dinamarca parece que não é bem assim. Tanto que o ministro da educação teve o desplante de sair defendendo o direito de escolas públicas determinarem que os alunos rezem juntos o pai nosso antes do início das aulas. Na opinião do ministro, pertencente a uma das correntes mais conservadoras da igreja luterana dinamarquesa, os pais que não concordarem com a reza podem pedir a direção das escolas que seus filhos sejam dispensados da obrigação religiosa.
O ministro, o mesmo que anos atrás esteve à frente do endurecimento da legislação que trata dos migrantes na Dinamarca, prefere ignorar que as crianças de famílias ateias ou de outras religiões, que são minoria, vão naturalmente se sentir estigmatizadas.
Dias depois da declaração infeliz, o ministro voltou atrás e disse que foi mal entendido, que na verdade apenas quis dizer que as escolas devem ter o direito de decidir se seus alunos devem ou não rezar o pai nosso.
O dito ficou pior ou tão ruim quanto o desdito. No final das contas, as 15 escolas públicas dinamarquesas onde ainda se reza o pai nosso vão continuar tendo direito a fazê-lo.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Aterrissando
Não tem sido fácil voltar à rotina na Dinamarca, o que aliás tem me surpreendido já que deixar o Brasil não foi tão doloroso desta vez. Parti sem lágrimas, talvez porque sabendo que logo receberia a visita de uma de minhas irmãs e de que planejamos retornar em breve.
Mas dias depois da chegada as coisas ficaram um pouco confusas. Ainda não consegui me reorganizar para conseguir encaixar tudo o que quero fazer e tenho me sentido um pouco frustrada.
O clima não ajuda em nada. Acho que janeiro é o mês mais chato do ano por aqui. Os dias são desanimadores: curtos, escuros e, claro, muito frios.
O blog anda meio abandonado, ainda não consegui voltar a correr como estava fazendo antes de viajar para o Brasil, onde relaxei com a ginástica e alimentação. Continuo dormindo mal por causa das insuportáveis ondas de calor que invadem meu corpo várias vezes todas as noites.
A pequena boa notícia é que aparentemente a fisioterapia para tratar o linfedema surgido no braço esquerdo durante a radioterapia está começando a surtir efeito. Meu braço está menos inchado e raramente sinto algum desconforto por conta do problema. Em fevereiro deverei me submeter a sessões de fisioterapia mais frequentes e começar e começar a usar enfaixamento.
O aparecimento do linfedema me chateou um bocado, mas não me sinto estigmatizada por causa do problema. Mais me irrita do que entristece saber que terei que lidar com isso o resto da vida, mas também não é o fim do mundo. Vejo isso mais como um aborrecimento do que como uma deficiência e me nego a deixar de ter uma vida normal por causa disso.
A propósito, o que é mesmo uma vida normal?
Mas dias depois da chegada as coisas ficaram um pouco confusas. Ainda não consegui me reorganizar para conseguir encaixar tudo o que quero fazer e tenho me sentido um pouco frustrada.
O clima não ajuda em nada. Acho que janeiro é o mês mais chato do ano por aqui. Os dias são desanimadores: curtos, escuros e, claro, muito frios.
O blog anda meio abandonado, ainda não consegui voltar a correr como estava fazendo antes de viajar para o Brasil, onde relaxei com a ginástica e alimentação. Continuo dormindo mal por causa das insuportáveis ondas de calor que invadem meu corpo várias vezes todas as noites.
A pequena boa notícia é que aparentemente a fisioterapia para tratar o linfedema surgido no braço esquerdo durante a radioterapia está começando a surtir efeito. Meu braço está menos inchado e raramente sinto algum desconforto por conta do problema. Em fevereiro deverei me submeter a sessões de fisioterapia mais frequentes e começar e começar a usar enfaixamento.
O aparecimento do linfedema me chateou um bocado, mas não me sinto estigmatizada por causa do problema. Mais me irrita do que entristece saber que terei que lidar com isso o resto da vida, mas também não é o fim do mundo. Vejo isso mais como um aborrecimento do que como uma deficiência e me nego a deixar de ter uma vida normal por causa disso.
A propósito, o que é mesmo uma vida normal?
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Gaza
Hoje, meu primeiro dia de trabalho depois das férias, foi impossível manter distância da tragédia que os ataques israelenses estão causando à população palestina em Gaza. Meu inbox estava repleto de e-mails desesperados de funcionários dos centros para tratamento de vítimas de tortura que são membros do IRCT, a organização onde trabalho. Covardemente, não olhei as fotos dos estragos causados pelos bombardeios israelenses que me enviaram, muitas delas mostrando o assassinato de crianças palestinas.
Nas férias no Brasil foi fácil me manter distante do horror da guerra em Gaza: era só evitar a televisão e a internet. Aqui esta guerra está mais próxima geograficamente e também do meu dia a dia no trabalho, onde preciso diariamente encarar tragédias como essa.
Nas férias no Brasil foi fácil me manter distante do horror da guerra em Gaza: era só evitar a televisão e a internet. Aqui esta guerra está mais próxima geograficamente e também do meu dia a dia no trabalho, onde preciso diariamente encarar tragédias como essa.
Retorno
De volta à Dinamarca depois de quase três semanas no Brasil. De volta à escuridão depois das quatro e meia da tarde, que só termina às oito da manhã. Na chegada, no sábado, deu vontade de voltar para o avião que nos trouxe da conexão em Lisboa. Eram três horas da tarde, mas parecia bem mais tarde por causa do céu completamente coberto por nuvens escuras e que pareciam estar a poucos metros de altura.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Grupo da mama
Participei de um grupo de mulheres organizado por um centro mantido pela prefeitura de Copenhague para dar assistência a pacientes de câncer. O grupo, que começou com sete mulheres e terminou com cinco, todas recebendo tratamento contra câncer de mama, se reuniu uma vez por semana durante quase dois meses mês e o tema dos encontros era um só: a vida com câncer.
Aceitei participar do grupo porque achei que seria uma boa alternativa a procurar um psicólogo. Foi uma decisão acertada. Foi bom conversar com outras pessoas na mesma situação, sofrendo dificuldades muito parecidas com as que tenho enfrentado. Foi também uma forma de aliviar o lado do marido – coitado – que, embora nunca reclame, deve estar se cansando da ladainha de uma paciente de câncer, que todo dia tem algo do que reclamar.
O que ouvi das participantes do grupo é confidencial, naturalmente, mas posso dizer que todas nós compartilhamos quase as mesmas angústias, temores e preocupações.
No último encontro me senti esvaziada. Usei bem a oportunidade para falar quase tudo o que queria e quando as reuniões acabaram acho que não tinha mais nada a falar, pelo menos não àquele grupo. Foi uma sensação curiosa e boa.
Aceitei participar do grupo porque achei que seria uma boa alternativa a procurar um psicólogo. Foi uma decisão acertada. Foi bom conversar com outras pessoas na mesma situação, sofrendo dificuldades muito parecidas com as que tenho enfrentado. Foi também uma forma de aliviar o lado do marido – coitado – que, embora nunca reclame, deve estar se cansando da ladainha de uma paciente de câncer, que todo dia tem algo do que reclamar.
O que ouvi das participantes do grupo é confidencial, naturalmente, mas posso dizer que todas nós compartilhamos quase as mesmas angústias, temores e preocupações.
No último encontro me senti esvaziada. Usei bem a oportunidade para falar quase tudo o que queria e quando as reuniões acabaram acho que não tinha mais nada a falar, pelo menos não àquele grupo. Foi uma sensação curiosa e boa.
domingo, 23 de novembro de 2008
Amizades dinamarquesas
Eu deveria escrever mais sobre a Dinamarca. Afinal, minha filha e meu marido são dinamarqueses, é aqui que vivo e, querendo ou não, acho que vai ser aqui que vou passar mais algum bom tempo da minha vida. Mas a Dinamarca não é muito inspiradora, e muitas das coisas que eu gostaria de escrever sobre os dinamarqueses poderiam soar amargas demais.
Às vezes tenho a impressão que vivo à margem da sociedade dinamarquesa. É claro que tenho amigos nativos daqui, mas a imensa maioria dos dinamarqueses com quem me relaciono são amigos ou parentes do meu marido ou casados com brasileiros vivendo aqui. Depois de mais de 11 anos vivendo aqui, posso dizer que tenho apenas uma, talvez duas amizades que eu mesma fiz.
O problema pode estar em mim que não me dou ao trabalho de fazer novas amizades. Mas meus amigos brasileiros e estrangeiros aqui falam da mesma dificuldade. Além disso, as muitas nacionalidades dos meus amigos me leva a acreditar que o problema está na sociedade dinamarquesa que é, sem dúvida, muito fechada.
Uma das minhas teorias para a aparente impenetrabilidade da sociedade dinamarquesa é que os dinamarqueses simplesmente não têm tempo para novas amizades. As pessoas aqui cultivam amizades que muitas vezes começam na creche, continuam no jardim de infância e na escola e duram até a universidade.
O grupo mais íntimo de amizades de uma das minhas cunhadas dinamarquesas é feito principalmente de moças que ela conheceu no tempo da escola primária. Aqui é comum, e não uma raridade, encontrar casais que se conheceram no jardim de infância, começaram a namorar no segundo grau, passaram a morar juntos quando entraram na universidade e se casaram quando apareceu ou decidiram ter o primeiro filho. A longevidade das amizades aqui faz com que as pessoas criem círculos de amizade fechados não só aos estrangeiros mas também a outros dinamarqueses.
Os membros desses círculos se acompanham ao longo dos anos em vários projetos comuns. Há dinamarquesas que engravidam na mesma época que suas amigas mais próximas para poderem curtir juntas a licença maternidade. Outra vantagem de tal acordo é queas crianças motivo das licenças se tornam amigos dos filhos da amiga. Ou seja, os nenês já nascem com amiguinhos arranjados.
Às vezes tenho a impressão que vivo à margem da sociedade dinamarquesa. É claro que tenho amigos nativos daqui, mas a imensa maioria dos dinamarqueses com quem me relaciono são amigos ou parentes do meu marido ou casados com brasileiros vivendo aqui. Depois de mais de 11 anos vivendo aqui, posso dizer que tenho apenas uma, talvez duas amizades que eu mesma fiz.
O problema pode estar em mim que não me dou ao trabalho de fazer novas amizades. Mas meus amigos brasileiros e estrangeiros aqui falam da mesma dificuldade. Além disso, as muitas nacionalidades dos meus amigos me leva a acreditar que o problema está na sociedade dinamarquesa que é, sem dúvida, muito fechada.
Uma das minhas teorias para a aparente impenetrabilidade da sociedade dinamarquesa é que os dinamarqueses simplesmente não têm tempo para novas amizades. As pessoas aqui cultivam amizades que muitas vezes começam na creche, continuam no jardim de infância e na escola e duram até a universidade.
O grupo mais íntimo de amizades de uma das minhas cunhadas dinamarquesas é feito principalmente de moças que ela conheceu no tempo da escola primária. Aqui é comum, e não uma raridade, encontrar casais que se conheceram no jardim de infância, começaram a namorar no segundo grau, passaram a morar juntos quando entraram na universidade e se casaram quando apareceu ou decidiram ter o primeiro filho. A longevidade das amizades aqui faz com que as pessoas criem círculos de amizade fechados não só aos estrangeiros mas também a outros dinamarqueses.
Os membros desses círculos se acompanham ao longo dos anos em vários projetos comuns. Há dinamarquesas que engravidam na mesma época que suas amigas mais próximas para poderem curtir juntas a licença maternidade. Outra vantagem de tal acordo é queas crianças motivo das licenças se tornam amigos dos filhos da amiga. Ou seja, os nenês já nascem com amiguinhos arranjados.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Sossego
Um dia desses me peguei quase alegre porque no dia seguinte teria de passar três horas no hospital para receber nova injeção de Herceptin. “Tá maluca, Margareth?”, peguntei a mim mesma. Não faz sentido se alegrar por ter de voltar a um hospital que começo a conhecer até melhor do que as palma da minha mão.
Demorou uns dois dias para eu entender minha quase alegria. Não há nada de agradável em ser picada para receber uma injeção, mas essas visitas a cada três semanas estão se tornando um pequeno refúgio para mim.
Chego lá, me levam para um quarto onde me sento numa poltrona confortável, me aplicam o medicamento, que leva uns quarenta e cinco minutos para ser completamente injetado, e depois fico mais uma hora e meia em observação para o caso de eu sofrer alguma reação alérgica.
Essas quase três horas se tornaram uma oportunidade, agora cada vez mais rara, para uma pausa. Nelas posso ler uma revista feminina boba, rascunhar idéias para o blog, planejar a vida nos próximos dias ou, maravilha das maravilhas, tirar uma boa soneca. Tudo isso sem aquela angústia de pensar que talvez meu tempo pudesse estar sendo usado melhor fazendo alguma outra coisa. Lá não tenho escolha a não ser me submeter obedientemente às prescrições e recomendações feitas pelos médicos e enfermeiras (e aqui escrevo enfermeiras porque aqui no país da igualdade entre os sexos ainda não encontrei um único enfermeiro).
Nada de tomar decisões, nada de tomar providência: as decisões e as providências já foram tomadas para mim. Em suma, três horas de sossego.
Demorou uns dois dias para eu entender minha quase alegria. Não há nada de agradável em ser picada para receber uma injeção, mas essas visitas a cada três semanas estão se tornando um pequeno refúgio para mim.
Chego lá, me levam para um quarto onde me sento numa poltrona confortável, me aplicam o medicamento, que leva uns quarenta e cinco minutos para ser completamente injetado, e depois fico mais uma hora e meia em observação para o caso de eu sofrer alguma reação alérgica.
Essas quase três horas se tornaram uma oportunidade, agora cada vez mais rara, para uma pausa. Nelas posso ler uma revista feminina boba, rascunhar idéias para o blog, planejar a vida nos próximos dias ou, maravilha das maravilhas, tirar uma boa soneca. Tudo isso sem aquela angústia de pensar que talvez meu tempo pudesse estar sendo usado melhor fazendo alguma outra coisa. Lá não tenho escolha a não ser me submeter obedientemente às prescrições e recomendações feitas pelos médicos e enfermeiras (e aqui escrevo enfermeiras porque aqui no país da igualdade entre os sexos ainda não encontrei um único enfermeiro).
Nada de tomar decisões, nada de tomar providência: as decisões e as providências já foram tomadas para mim. Em suma, três horas de sossego.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Mimo
Estou chegando perto dos 45 e sentindo uma vontade menina de ser mimada. Sabe aquilo de ter alguém te levando um copo de leite na cama? Ou de perguntar o que você quer para jantar, estando preparado para rodar a cidade inteira para encontrar aquele ingrediente imprescindível para a receita daquele prato que você escolheu?
Acho que essa carência é em parte resultado dos últimos meses de tratamento contra o câncer, quando tive de deixar escondida num canto qualquer a tristeza causada pela morte do meu pai. Colocar um pouco de lado a falta que ele faz foi uma estratégia inconsciente para evitar um desmoronamento emocional.
Mas agora que está chegando o primeiro aniversário da morte dele, lembranças da nossa convivência estão ocupando mais e mais a minha cabeça. Algo de que sempre me lembro é o indefectível copo de leite quente antes de dormir. Lá pelos meus sete anos de idade, sempre que ele estava em casa na hora de ir para a cama, minha irmã tinha direito a um copo com leite quente e eu, que nunca gostei de leite puro, ganhava um copo com leite com açúcar manchado de café. Talvez não fosse o hábito mais saudável do mundo, mas era um dos meus rituais favoritos na infância.
Acho que essa carência é em parte resultado dos últimos meses de tratamento contra o câncer, quando tive de deixar escondida num canto qualquer a tristeza causada pela morte do meu pai. Colocar um pouco de lado a falta que ele faz foi uma estratégia inconsciente para evitar um desmoronamento emocional.
Mas agora que está chegando o primeiro aniversário da morte dele, lembranças da nossa convivência estão ocupando mais e mais a minha cabeça. Algo de que sempre me lembro é o indefectível copo de leite quente antes de dormir. Lá pelos meus sete anos de idade, sempre que ele estava em casa na hora de ir para a cama, minha irmã tinha direito a um copo com leite quente e eu, que nunca gostei de leite puro, ganhava um copo com leite com açúcar manchado de café. Talvez não fosse o hábito mais saudável do mundo, mas era um dos meus rituais favoritos na infância.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Banalidades
Passar por um tratamento contra câncer traz preocupações vitais e banais. A vital mais importante é sem dúvida a relacionada à sobrevivência. Vou ou não sobreviver a essa doença? No meio angústias lúgubres, vêm várias outras preocupaçõezinhas banais que, para o bem ou para o mal, ajudam a afastar o pensamento das dúvidas mais dolorosas.
Enquanto eu estava careca, me preocupava a falta de cabelo. Agora que o cabelo está voltando a crescer, surgiu uma preocupação capilar extremamente séria. Será que vou ficar com cabelo liso? Não gosto muito da idéia mas várias pessoas me avisaram que depois de um tratamento quimioterápico, o cabelo pode voltar com aparência diferente e, pelo menos por enquanto, meu cabelo está crescendo bem liso, parecendo saído de uma bela escova.
Ao contrário da maioria das minhas contemporâneas, sou feliz com meu cabelo encaracolado. Somente na adolescência, e mesmo assim raramente, tentei fazer algo para deixar meu cabelo mais liso. Nunca nem cheguei a cogitar um alisamento e o máximo que me permiti foi uma ou outra escova.
Mas faz muitos anos que assumi com alegria e alívio meu cabelo cacheado, encaracolado, enrolado. Alegria porque acho que cabelo liso não combina nadinha comigo. Fico parecendo a Maga Patológica. Alívio porque acho que tudo isso de escova, alisamento etc e tal é uma completa perda de tempo. Tenho formas melhores de usar meu tempo.
Tenho amigas e até uma irmã que fazem escova no cabelo todo santo dia. Dá vontade de dizer: libertem-se! Assumam seus cachos e tudo o mais que eles representam.
Seria uma declaracão meio banal, mas ainda assim acho que valeria a pena.
Enquanto eu estava careca, me preocupava a falta de cabelo. Agora que o cabelo está voltando a crescer, surgiu uma preocupação capilar extremamente séria. Será que vou ficar com cabelo liso? Não gosto muito da idéia mas várias pessoas me avisaram que depois de um tratamento quimioterápico, o cabelo pode voltar com aparência diferente e, pelo menos por enquanto, meu cabelo está crescendo bem liso, parecendo saído de uma bela escova.
Ao contrário da maioria das minhas contemporâneas, sou feliz com meu cabelo encaracolado. Somente na adolescência, e mesmo assim raramente, tentei fazer algo para deixar meu cabelo mais liso. Nunca nem cheguei a cogitar um alisamento e o máximo que me permiti foi uma ou outra escova.
Mas faz muitos anos que assumi com alegria e alívio meu cabelo cacheado, encaracolado, enrolado. Alegria porque acho que cabelo liso não combina nadinha comigo. Fico parecendo a Maga Patológica. Alívio porque acho que tudo isso de escova, alisamento etc e tal é uma completa perda de tempo. Tenho formas melhores de usar meu tempo.
Tenho amigas e até uma irmã que fazem escova no cabelo todo santo dia. Dá vontade de dizer: libertem-se! Assumam seus cachos e tudo o mais que eles representam.
Seria uma declaracão meio banal, mas ainda assim acho que valeria a pena.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
De pai para filha para neta
Um dia desses minha filha, depois de já deitada, me pediu para lhe levar água. O pai, acho que para me poupar, se antecipou e atendeu ao pedido dela levando-lhe água num copo comum. Ela reclamou. Queria beber água num copinho pequeno, que ela acha lindo, normalmente usado para servir aguardente dinamarquesa. O pai bateu o pé e disse que não, o que provocou uma choradeira.
Achei uma pena. No dia seguinte ela pediu novamente água no copinho. Dessa vez me adiantei ao pai e fui servir-lhe água no copinho. Ela adorou, bebeu a água com alegria e depois caiu no sono, não sem antes, é claro, tentar puxar conversa.
Senti que meu pai aprovaria eu ter me rendido àquele pequeno capricho da neta. Numa situação semelhante, ele teria feito o mesmo: servido água no copinho. Afinal, ele foi o pai de pequenos e inesquécíveis mimos.
Um desses mimos era o de "fazer laranja com copinho". Para as crianças, toda laranja que ele descascava tinha de ter copinho, que ele fazia formando um pequeno cone no topo da laranja. Adorávamos laranja com copinho, que obviamente tinha muito mais sabor do que uma laranja sem graça descascada de maneira mais tradicional.
Até comer alface podia era divertido porque tínhamos direito a fazer trouxas de comida com as folhas de alface. Era só colocar o arroz e o feijão em cima da folha, puxar as bordas e pronto. Estava feita a trouxinha de comida. Uma delícia, nós achávamos.
Achei uma pena. No dia seguinte ela pediu novamente água no copinho. Dessa vez me adiantei ao pai e fui servir-lhe água no copinho. Ela adorou, bebeu a água com alegria e depois caiu no sono, não sem antes, é claro, tentar puxar conversa.
Senti que meu pai aprovaria eu ter me rendido àquele pequeno capricho da neta. Numa situação semelhante, ele teria feito o mesmo: servido água no copinho. Afinal, ele foi o pai de pequenos e inesquécíveis mimos.
Um desses mimos era o de "fazer laranja com copinho". Para as crianças, toda laranja que ele descascava tinha de ter copinho, que ele fazia formando um pequeno cone no topo da laranja. Adorávamos laranja com copinho, que obviamente tinha muito mais sabor do que uma laranja sem graça descascada de maneira mais tradicional.
Até comer alface podia era divertido porque tínhamos direito a fazer trouxas de comida com as folhas de alface. Era só colocar o arroz e o feijão em cima da folha, puxar as bordas e pronto. Estava feita a trouxinha de comida. Uma delícia, nós achávamos.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Dias escuros
No domingo termina o horário de verão aqui na Dinamarca. Será hora de sairmos de irmos à caça de todos os relógios que guiam nossas vidas: os dois despertadores digitais na cabeceira da minha cama, o relógio do vídeo player (é, incrível não? Ainda tenho um video), o relógio do carro, o celular, o MP3, o telefone do trabalho, os telefones de casa etc
Só de pensar na mudança sinto arrepios. Nem tanto por causa da mudanca de horário, mas pelo que ela significa. Para mim, é o anúncio da chegada do inverno e da escuridão trazida por ele.
A partir da segunda, quando voltarmos do trabalho para casa, teremos necessariamente de usar lanternas nas bicicletas para evitar multas e não correr o risco de atropelamento por carros e caminhões.
É nessa época que mais acontecem acidentes fatais com ciclistas e pedestres aqui na Dinamarca. As pessoas ainda estão desacostumadas com a escuridão e, com a mudança do horário, a situação fica ainda mais grave. Nos meses mais escuros, dezembro e janeiro, o dia só fica mesmo claro depois das oito da manhã e às quatro e meia da tarde já está escurecendo.
Só de pensar na mudança sinto arrepios. Nem tanto por causa da mudanca de horário, mas pelo que ela significa. Para mim, é o anúncio da chegada do inverno e da escuridão trazida por ele.
A partir da segunda, quando voltarmos do trabalho para casa, teremos necessariamente de usar lanternas nas bicicletas para evitar multas e não correr o risco de atropelamento por carros e caminhões.
É nessa época que mais acontecem acidentes fatais com ciclistas e pedestres aqui na Dinamarca. As pessoas ainda estão desacostumadas com a escuridão e, com a mudança do horário, a situação fica ainda mais grave. Nos meses mais escuros, dezembro e janeiro, o dia só fica mesmo claro depois das oito da manhã e às quatro e meia da tarde já está escurecendo.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Começando o dia
O despertador toca às 6:45 mas eu já estou acordada desde as seis e quinze. Um calor enervante me despertou meia hora antes do planejado. O mesmo calor me tirou o sono duas vezes na noite passada. Nada extraordinário. Ter meu sono perturbado por essas malditas ondas de calor já estão virando parte da rotina.
Fico enrolando na cama mais uns dez minutos e finalmente me levanto. Troco de roupa rapidamente, pego meu aparelhinho de MP3 e vou na direção do lago aqui perto de casa.
Embora a manhã esteja bem fria, deve fazer uns seis graus, o jogo de jogging é suficiente para enfrentar a temperatura baixa. Pelo menos para isso essas ondas de calor irritante servem.
Mas preciso me apressar. A onda de calor já está indo embora e para não congelar decido andar só um minuto, ao invés dos dois previstos no meu programa de treinamento, antes de correr mais 10 minutos, andar outros dois, correr mais nove e finalmente caminhar o resto do caminho para casa.
Enquanto corro procuro os gansos que cruzaram tantas vezes o meu caminho quando corri aqui no verão. Não vejo nenhum deles. Acho que todos, bem mais espertos do que eu, já se mandaram para umas quebradas mais quentes do que essas. Fico levemente aliviada. Os gansos que vivem às centenas nas margens do lago durante as estações mais quentes do ano não são muito simpáticos. Quase sempre, quando cruzo o caminho deles, me olham com aquele olhar agressivo e desafiador de ganso, levantam o rosto e gritam se preparando para o ataque. Também não tive o prazer de ver nenhum cisne, outra ave que vive por aqui. Apenas os patos continuam impávidos, resistindo ao frio.
Essas corridas três vezes por semana estão começando a fazer parte da minha rotina. É duro sair da cama e enfrentar o frio e às vezes a chuva, mas sempre vale a pena respirar o ar fresco e admirar as luzes do amanhecer outonal da Dinamarca.
Fico enrolando na cama mais uns dez minutos e finalmente me levanto. Troco de roupa rapidamente, pego meu aparelhinho de MP3 e vou na direção do lago aqui perto de casa.
Embora a manhã esteja bem fria, deve fazer uns seis graus, o jogo de jogging é suficiente para enfrentar a temperatura baixa. Pelo menos para isso essas ondas de calor irritante servem.
Mas preciso me apressar. A onda de calor já está indo embora e para não congelar decido andar só um minuto, ao invés dos dois previstos no meu programa de treinamento, antes de correr mais 10 minutos, andar outros dois, correr mais nove e finalmente caminhar o resto do caminho para casa.
Enquanto corro procuro os gansos que cruzaram tantas vezes o meu caminho quando corri aqui no verão. Não vejo nenhum deles. Acho que todos, bem mais espertos do que eu, já se mandaram para umas quebradas mais quentes do que essas. Fico levemente aliviada. Os gansos que vivem às centenas nas margens do lago durante as estações mais quentes do ano não são muito simpáticos. Quase sempre, quando cruzo o caminho deles, me olham com aquele olhar agressivo e desafiador de ganso, levantam o rosto e gritam se preparando para o ataque. Também não tive o prazer de ver nenhum cisne, outra ave que vive por aqui. Apenas os patos continuam impávidos, resistindo ao frio.
Essas corridas três vezes por semana estão começando a fazer parte da minha rotina. É duro sair da cama e enfrentar o frio e às vezes a chuva, mas sempre vale a pena respirar o ar fresco e admirar as luzes do amanhecer outonal da Dinamarca.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Fruta do pé
Outubro: outono na Dinamarca, primavera em Brasília, era na minha infância tempo das primeiras chuvas e também de começar a abandonar os cremes hidratantes e a banha de cacau que protegia a pele da falta de umidade do ar que atinge o cerrado entre maio e setembro.
Era também o mês de começar a colher fruta do pé. Me lembro que uma vez fomos com meus pais a Planaltina, uma antiga cidade goiana incorporada pelo Distrito Federal quando a capital do país se mudou para o planalto central.
Não me lembro do motivo ou de quem fomos visitar, mas o que importava mesmo era andar pelos quintais vastos, com árvores frondosas e cheios de jaboticabeiras enormes. Alías, como a jaboticabeira é bela. Comíamos jaboticaba até enjoar. Para matar a saudade e sabendo que ficaríamos sem provar da fruta até a estação ano seguinte.
Em Copenhague, outono é época de maçã, pelos menos aqui em casa. É hora de sair juntando as maçãs que não páram de cair dos dois pés do quintal. Em setembro já dá para colher de um dos pés uma maçã deliciosa à qual até eu, que não sou lá grande fã da fruta, me rendo. A Gabriela é a maior fã e usuária da árvore: às vezes passa o dia rondando a macieira, sempre comendo uma maçã colhida do pé. A outra macieira, que aqui chamam Belle de Boscop, é uma árvore antiga que, segundo nosso vizinho, deve ter a idade da casa: mais ou menos 70 anos. É uma árvore grande, que todo ano fica carregada de frutas grandes e esverdeadas, meio ácidas, boas para tortas e bolos.
Nessa época, o vizinho da frente sempre enche baldes de maçãs do quintal dele e as oferece aos vizinhos colocando-as no passeio em frente à casa dele, uma oferta que muita gente ignora por conta da abundância de maçãs nos quintais do bairro. Eu prefiro levar caixas e caixas de maçãs para colegas de trabalho e amigos. Dá um pouco de trabalho, mas é sempre um sucesso.
Era também o mês de começar a colher fruta do pé. Me lembro que uma vez fomos com meus pais a Planaltina, uma antiga cidade goiana incorporada pelo Distrito Federal quando a capital do país se mudou para o planalto central.
Não me lembro do motivo ou de quem fomos visitar, mas o que importava mesmo era andar pelos quintais vastos, com árvores frondosas e cheios de jaboticabeiras enormes. Alías, como a jaboticabeira é bela. Comíamos jaboticaba até enjoar. Para matar a saudade e sabendo que ficaríamos sem provar da fruta até a estação ano seguinte.
Em Copenhague, outono é época de maçã, pelos menos aqui em casa. É hora de sair juntando as maçãs que não páram de cair dos dois pés do quintal. Em setembro já dá para colher de um dos pés uma maçã deliciosa à qual até eu, que não sou lá grande fã da fruta, me rendo. A Gabriela é a maior fã e usuária da árvore: às vezes passa o dia rondando a macieira, sempre comendo uma maçã colhida do pé. A outra macieira, que aqui chamam Belle de Boscop, é uma árvore antiga que, segundo nosso vizinho, deve ter a idade da casa: mais ou menos 70 anos. É uma árvore grande, que todo ano fica carregada de frutas grandes e esverdeadas, meio ácidas, boas para tortas e bolos.
Nessa época, o vizinho da frente sempre enche baldes de maçãs do quintal dele e as oferece aos vizinhos colocando-as no passeio em frente à casa dele, uma oferta que muita gente ignora por conta da abundância de maçãs nos quintais do bairro. Eu prefiro levar caixas e caixas de maçãs para colegas de trabalho e amigos. Dá um pouco de trabalho, mas é sempre um sucesso.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Normalidade
Hoje, no meio da correria do dia, tive a sensação de que minha vida estava voltando ao normal. Mas aliás, o que é mesmo voltar à vida normal? Já ouvi e também já disse a mim mesma diversas vezes que agora, com o fim da quimio e da radioterapia, a vida poderá voltar a ser como antes.
Mas no fundo sei que isso é papo furado. Minha vida sofreu uma reviravolta e, com o perdão do clichê, nunca será como antes. Além de problemas físicos que talvez tenham vindo para ficar, há aquele medo que, parece, veio para me acompanhar por algum tempo. É o medo da vulnerabilidade, de que tudo volte a acontecer. É um medo que prefiro ignorar, mas que está ali, por perto, à espreita.
Mas no fundo sei que isso é papo furado. Minha vida sofreu uma reviravolta e, com o perdão do clichê, nunca será como antes. Além de problemas físicos que talvez tenham vindo para ficar, há aquele medo que, parece, veio para me acompanhar por algum tempo. É o medo da vulnerabilidade, de que tudo volte a acontecer. É um medo que prefiro ignorar, mas que está ali, por perto, à espreita.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Dez coisas para fazer ao mesmo tempo agora
Voltar à normalidade está sendo mais difícil do eu imaginava. O desconforto físico e cansaço causados pela quimio e radioterapia diminuíram bastante. É verdade que ainda sinto um pouco de cansaço muscular, o inchaço no braço e as ondas de calor continuam, e a pele afetada pela radioterapia ainda está se recuperando mas, como dizem os dinamarqueses, esses são desconfortos do “departamento de coisinhas pequenas”.
O que ainda está pegando é um certo cansaço mental meio difícil de explicar. Se antes dez coisas para fazer ao memo tempo agora me deixavam agoniada, agora três coisas são suficientes para me deixarem com os nervos à flor da pele.
Eu tinha imaginado que talvez pudesse voltar a trabalhar normalmente em outubro, mas já avisei meu chefe que não vai dar. Continuarei trabalhando em tempo parcial, embora aumente gradualmente o número de horas no escritório.
O que ainda está pegando é um certo cansaço mental meio difícil de explicar. Se antes dez coisas para fazer ao memo tempo agora me deixavam agoniada, agora três coisas são suficientes para me deixarem com os nervos à flor da pele.
Eu tinha imaginado que talvez pudesse voltar a trabalhar normalmente em outubro, mas já avisei meu chefe que não vai dar. Continuarei trabalhando em tempo parcial, embora aumente gradualmente o número de horas no escritório.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Recruta
Assumi minha careca. Ou minha quase careca já que, segundo meu marido, não se trata mais de uma careca e sim de um visual recruta.
A reação de amigos e colegas de trabalho ao meu novo visual tem sido positiva às vezes divertida. Alguém disse “Adorei seu cabelo novo” ao que fui obrigada a corrigir “Minha falta de cabelo, você quer dizer”.
A reação de amigos e colegas de trabalho ao meu novo visual tem sido positiva às vezes divertida. Alguém disse “Adorei seu cabelo novo” ao que fui obrigada a corrigir “Minha falta de cabelo, você quer dizer”.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Desconforto
Estou me cansando de sentir dores, sejam elas grandes ou pequenas. Hoje fui ao hospital para receber a terceira dose de herceptin, o tratamento que deve ajudar a prevenir que o câncer volte. Assim que vi a jovem e aparentemente inexperiente enfermeira que deveria me fazer a aplicação intravenosa, tremi nas bases. Ai, pensei, vai doer.
Na verdade a espetada que ela me deu doeu só um pouco mais do que o normal e nem deveria ter sido motivo para pânico, mas acho que minha resistência à dor, que eu antes considerava boa, está diminuindo.
É que estou de saco cheio de sentir dor e desconforto físico. Depois da tormenta que foi a quimioterapia, nas últimas semanas tenho penado com a queimadura causada pela radioterapia. Bem que as enfermeiras haviam me avisado que o desconforto causado pela queimadura iria piorar nas duas semanas seguintes ao término da radioterapia. Elas estavam certíssimas.
Na verdade a espetada que ela me deu doeu só um pouco mais do que o normal e nem deveria ter sido motivo para pânico, mas acho que minha resistência à dor, que eu antes considerava boa, está diminuindo.
É que estou de saco cheio de sentir dor e desconforto físico. Depois da tormenta que foi a quimioterapia, nas últimas semanas tenho penado com a queimadura causada pela radioterapia. Bem que as enfermeiras haviam me avisado que o desconforto causado pela queimadura iria piorar nas duas semanas seguintes ao término da radioterapia. Elas estavam certíssimas.
Cebola
O outono chegou. Esta semana já houve manhã com menos de três graus.
Resisto enquanto posso e ainda não sucumbi aos cachecóis, luvas e botas. Todo ano retardo ao máximo a época de me transformar numa cebola, cheia de camadas e camadas de roupas, como definiu uma ex-colega de trabalho. Retardo o momento da metamorfose porque tenho a impressão de que a partir do momento em que me cobro de camadas, não consigo mais removê-las por sete meses, que é o tempo que o outono e inverno duram na Dinamarca.
Resisto enquanto posso e ainda não sucumbi aos cachecóis, luvas e botas. Todo ano retardo ao máximo a época de me transformar numa cebola, cheia de camadas e camadas de roupas, como definiu uma ex-colega de trabalho. Retardo o momento da metamorfose porque tenho a impressão de que a partir do momento em que me cobro de camadas, não consigo mais removê-las por sete meses, que é o tempo que o outono e inverno duram na Dinamarca.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Radioterapia... acabou
Passei hoje pela última sessão de radioterapia. Quando cheguei à clínica do hospital onde recebo o tratamento radioterápico, as enfermeiras me receberam com uma pequenina bandeira dinamarquesa para comemorar meu último dia no papel de churrasquinho.
Não é nada agradável me olhar no espelho e ver o que a radioterapia fez com minha pele. Uma mancha escura cobre toda a área tratada e a cicatriz da operação, que coça muito, está bastante avermelhada. Segundo as enfermeiras, nas próximas duas semanas poderei sentir coceira e ardência e só depois a pele começará finalmente a se recuperar. Banhos de mar e piscina estão proibidos para mim no próximo mês e só depois de um ano poderei tomar sol na região afetada.
Foram 24 sessões, uma por dia, de segunda a sexta-feira e, de modo geral, tudo correu muito bem, mas é um alívio que não terei mais de passar por tratamentos tão violentos. A violência da radioterapia não pode ser comparada com a da quimioterapia, que é muito mais devastadora, mas nas últimas duas semanas do tratamento vinha me sentindo como um espetinho mal passado.
Não é nada agradável me olhar no espelho e ver o que a radioterapia fez com minha pele. Uma mancha escura cobre toda a área tratada e a cicatriz da operação, que coça muito, está bastante avermelhada. Segundo as enfermeiras, nas próximas duas semanas poderei sentir coceira e ardência e só depois a pele começará finalmente a se recuperar. Banhos de mar e piscina estão proibidos para mim no próximo mês e só depois de um ano poderei tomar sol na região afetada.
Foram 24 sessões, uma por dia, de segunda a sexta-feira e, de modo geral, tudo correu muito bem, mas é um alívio que não terei mais de passar por tratamentos tão violentos. A violência da radioterapia não pode ser comparada com a da quimioterapia, que é muito mais devastadora, mas nas últimas duas semanas do tratamento vinha me sentindo como um espetinho mal passado.
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