Hoje é o Dia Internacional das Nações Unidas de Apoio às Vítimas da Tortura. Para quem, como eu, trabalha na área de comunicação de uma organização voltada para proteção e tratamento de vítimas de tortura, este é o dia mais importante do calendário anual de atividades profissionais.
Nas últimas semanas, repetindo o que tem acontecido todos os anos desde que comecei a trabalhar no Conselho Internacional para Reabilitação de Vítimas de Tortura (IRCT), meus colegas e eu trabalhamos dobrado para tentar fazer de hoje um dia para ser lembrado pelo maior número possível de pessoas. Acho que este ano, graças ao poder das mídias sociais, conseguimos transmitir nossa mensagem a um número maior de pessoas (dê uma olhada no facebook.com/worldwithouttorture e o bloggersunite.org/event/international-day-in-support-of-torture-victims)
Nos últimos dias, falei muito sobre as vítimas de tortura e hoje quero reverenciar aqueles que, apesar da experiência dilacerante e desesperadora pela qual passaram, não desistiram da vida e continuam tentando acreditar na humanidade.
sábado, 26 de junho de 2010
sábado, 19 de junho de 2010
Dinamarca vence Camarões na noite clara de verão
Assisti ao jogo Dinamarca versus Camarões ao lado do meu marido, que é dinamarquês. No primeiro tempo só fiquei dando uma olhadinha de vez em quando na telinha. Para falar a verdade, não colocava muita fé no time vermelho e branco. Mas devo dizer que a boa atuação dinamarquesa me surpreendeu e acabei prestando mais atenção ao jogo no segundo tempo.
Até que tentei torcer para a Dinamarca, o que é um exercício um tanto quando desanimador. Quando o time fez o primeiro gol, fiquei esperando para ouvir gritos de júbilo ecoando pela cidade de Copenhague. Mas que nada. As ruas do bairro onde moro continuaram desertas, a noite clara de verão se manteve inalterada, pontilhada apenas pelo canto de um pássaro aqui, outro acolá e pelo som distante da autoestrada vizinha do quarteirão.
Aí veio o segundo gol da Dinamarca. Desta vez, pensei, a reação entusiasmada dos torcedores vai se fazer ouvir. Abri a janela da sala e esperei: um, dois, três, quatro, cinco e... nada. Decepção. De novo tudo calmo e plácido. Nenhum berro de alegria, nenhum fogo de artifício, nenhuma buzina. Que paz! Que tranquilidade! Enfim, que chatice!
Até que tentei torcer para a Dinamarca, o que é um exercício um tanto quando desanimador. Quando o time fez o primeiro gol, fiquei esperando para ouvir gritos de júbilo ecoando pela cidade de Copenhague. Mas que nada. As ruas do bairro onde moro continuaram desertas, a noite clara de verão se manteve inalterada, pontilhada apenas pelo canto de um pássaro aqui, outro acolá e pelo som distante da autoestrada vizinha do quarteirão.
Aí veio o segundo gol da Dinamarca. Desta vez, pensei, a reação entusiasmada dos torcedores vai se fazer ouvir. Abri a janela da sala e esperei: um, dois, três, quatro, cinco e... nada. Decepção. De novo tudo calmo e plácido. Nenhum berro de alegria, nenhum fogo de artifício, nenhuma buzina. Que paz! Que tranquilidade! Enfim, que chatice!
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Papel indesejado
O que se diz a um amigo que você acabou de saber que está com câncer? Ontem fiquei sabendo que uma amiga está com câncer de mama. A notícia, claro, me entristeceu muito e também me fez passar o dia pensando sobre o que é certo e errado dizer para alguém que está para enfrentar os que provavelmente serão os piores meses da vida dela.
Não dá para enfeitar e diminuir a coisa. O tratamento contra o câncer é barra pesada. Mas, como também disse à minha amiga, é um período dificílimo que, felizmente na grande maioria dos casos, termina com bons resultados.
O que eu não disse a ela é que a operação para retirada do tumor é o primeiro de uma série de procedimentos e rotinas que vão nos colocando num papel ao qual muitas de nós não estamos habituadas: o papel de doente. Mesmo depois de findo o tratamento mais intensivo e mesmo contra nossa vontade, o papel que nos é imposto continua a nos perseguir.
Não dá para enfeitar e diminuir a coisa. O tratamento contra o câncer é barra pesada. Mas, como também disse à minha amiga, é um período dificílimo que, felizmente na grande maioria dos casos, termina com bons resultados.
O que eu não disse a ela é que a operação para retirada do tumor é o primeiro de uma série de procedimentos e rotinas que vão nos colocando num papel ao qual muitas de nós não estamos habituadas: o papel de doente. Mesmo depois de findo o tratamento mais intensivo e mesmo contra nossa vontade, o papel que nos é imposto continua a nos perseguir.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Ensaio clínico
O lançamento da campanha Mundo Sem Tortura (www.worldwithouttorture.org) não foi a única coisa que me manteve ocupada nas últimas semanas. Dias atrás estive novamente no hospital onde recebi tratamento contra o câncer de mama para um exame de rotina e a médica que me atendeu me deu uma informação que me deixou com uma pulga atrás da orelha.
Depois de terminada minha quimioterapia, recebi por um ano o medicamento trastuzumabe (nome comercial: Herceptin, uma droga que havia apresentado resultados muito bons no tratamento do meu tipo de câncer, o HER2 positivo. O trastuzumabe foi usado para inibir a expressão da proteína HER-2, que aumenta a possibilidade de recorrência do câncer e acelera a multiplicação das células cancerosas.
O trastuzumabe começou a ser usado há menos de 10 anos e só agora está se vendo os resultados a longo prazo do tratamento com a droga. Segundo a médica, infelizmente está se observando que, anos depois do tratamento terminado, o câncer volta a atacar muitas das mulheres que foram tratadas com trastuzumabe. Perguntei o que ela queria dizer com “muitas”, mas a resposta foi evasiva. “Mais do que gostaríamos de ver”, foi a resposta.
Perguntei também quais as minhas chances de que o câncer volte daqui a 5, 10 anos, mas ela novamente evitou uma resposta muito clara. Disse que era muito difícil fazer uma avaliação mais precisa porque há inúmeros fatores envolvidos, como idade, reação ao tratamento, tamanho do tumor etc e tal. Na consulta, a médica me ofereceu a oportunidade de participar do ensaio clínico de uma droga nova, a neratinib, inibidora da HER-2.
Saí de lá desanimada, com todas aquelas nuvens sombrias e eu havia esquecido havia algum tempo me perseguindo novamente, mas quase decidida a aceitar participar do ensaio. Só faltava eu conversar com meu marido. Achava que ele deveria ser informado da minha decisão, já que os efeitos colaterais do remédio poderão afetar um pouco nossa rotina.
No dia seguinte à consulta comuniquei a equipe do hospital que aceitava entrar no estudo. Na minha decisão pesou muito a lembrança dos dias de quimioterapia. Dias como aqueles quero tentar evitar.
Depois de terminada minha quimioterapia, recebi por um ano o medicamento trastuzumabe (nome comercial: Herceptin, uma droga que havia apresentado resultados muito bons no tratamento do meu tipo de câncer, o HER2 positivo. O trastuzumabe foi usado para inibir a expressão da proteína HER-2, que aumenta a possibilidade de recorrência do câncer e acelera a multiplicação das células cancerosas.
O trastuzumabe começou a ser usado há menos de 10 anos e só agora está se vendo os resultados a longo prazo do tratamento com a droga. Segundo a médica, infelizmente está se observando que, anos depois do tratamento terminado, o câncer volta a atacar muitas das mulheres que foram tratadas com trastuzumabe. Perguntei o que ela queria dizer com “muitas”, mas a resposta foi evasiva. “Mais do que gostaríamos de ver”, foi a resposta.
Perguntei também quais as minhas chances de que o câncer volte daqui a 5, 10 anos, mas ela novamente evitou uma resposta muito clara. Disse que era muito difícil fazer uma avaliação mais precisa porque há inúmeros fatores envolvidos, como idade, reação ao tratamento, tamanho do tumor etc e tal. Na consulta, a médica me ofereceu a oportunidade de participar do ensaio clínico de uma droga nova, a neratinib, inibidora da HER-2.
Saí de lá desanimada, com todas aquelas nuvens sombrias e eu havia esquecido havia algum tempo me perseguindo novamente, mas quase decidida a aceitar participar do ensaio. Só faltava eu conversar com meu marido. Achava que ele deveria ser informado da minha decisão, já que os efeitos colaterais do remédio poderão afetar um pouco nossa rotina.
No dia seguinte à consulta comuniquei a equipe do hospital que aceitava entrar no estudo. Na minha decisão pesou muito a lembrança dos dias de quimioterapia. Dias como aqueles quero tentar evitar.
Por um mundo sem tortura: A World Without Torture
Imagine um mundo onde não existe tortura. Este é o sonho que o IRCT (Conselho Internacional para Rehabilitação de Vítimas de Tortura) está procurando compartilhar com o maior número possível de pessoas através de uma campanha no Facebook.
A adesão à campanha, da qual sou uma das principais coordenadoras, tem sido fantástica. Em dois dias, mais de 1.100 pessoas se juntaram à campanha.
Olha o link aqui: www.facebook.com/WorldWithoutTorture
A adesão à campanha, da qual sou uma das principais coordenadoras, tem sido fantástica. Em dois dias, mais de 1.100 pessoas se juntaram à campanha.
Olha o link aqui: www.facebook.com/WorldWithoutTorture
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Mesmice
Para variar, ando ocupadíssima no trabalho e em casa. Mas a razão principal do meu recente afastamento do blog foi que de um dia para o outro comecei a achar que me faltava assunto. Pensei em escrever sobre a primavera, a maravilhosa profusão de cores dos jardins de Copenhague, mas me lembrei que já escrevi sobre isso. Poderia registrar que as árvores estão novamente se cobrindo de verde, que a ameixeira do vizinho logo estará belíssima coberta por seu véu de flores brancas ou que os narcisos exageram no amarelo desavergonhadamente alegre. Mas tudo me pareceu repetitivo e banal.
Comecei a achar que pouca coisa fazia sentido nessa alegria que sinto toda vez que a temperatura começa a aumentar e os dias se tornam longos e as noites claras. Tudo se repete, entra ano sai ano, tudo é igual.
Minhas divagações quase existencialistas continuaram um pouco mais e até começaram a fazer meu ânimo murchar. Aí dei um chega para lá em tanta elucubração. Melhor seguir, ir em frente, mesmo não sabendo bem para onde.
Aí a primavera esvaneceu, o frio voltou. Estes primeiros dias de maio têm sido os mais frios do mês em anos. Na manhã da última segunda-feira a temperatura chegou a -1,6 graus centígrados. Fazia cinco anos que não havia uma manhã de maio tão fria quanto essa. Os meteorologistas não prometem temperaturas muito mais altas nos próximos dias, o que me faz quase lamentar meus questionamentos sobre a banalidade da minha alegria primaveril. Me senti punida pelo frio, acompanhado de um vento irritante, que me obrigou a voltar a calçar botas de cano alto e empacotar minha filha em luvas, touca, e casacão de inverno.
Comecei a achar que pouca coisa fazia sentido nessa alegria que sinto toda vez que a temperatura começa a aumentar e os dias se tornam longos e as noites claras. Tudo se repete, entra ano sai ano, tudo é igual.
Minhas divagações quase existencialistas continuaram um pouco mais e até começaram a fazer meu ânimo murchar. Aí dei um chega para lá em tanta elucubração. Melhor seguir, ir em frente, mesmo não sabendo bem para onde.
Aí a primavera esvaneceu, o frio voltou. Estes primeiros dias de maio têm sido os mais frios do mês em anos. Na manhã da última segunda-feira a temperatura chegou a -1,6 graus centígrados. Fazia cinco anos que não havia uma manhã de maio tão fria quanto essa. Os meteorologistas não prometem temperaturas muito mais altas nos próximos dias, o que me faz quase lamentar meus questionamentos sobre a banalidade da minha alegria primaveril. Me senti punida pelo frio, acompanhado de um vento irritante, que me obrigou a voltar a calçar botas de cano alto e empacotar minha filha em luvas, touca, e casacão de inverno.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Brasília 50 anos
A cidade onde nasci, Brasília, faz 50 anos hoje. A neve que caiu hoje em Copenhague , em pleno mês de abril, fez a saudade do céu quase sempre azul da minha cidade natal aumentar.
Ontem, jornal dinamarquês Politiken publicou artigo de página inteira na capa do caderno de cultura sobre Brasília. O assunto principal da matéria foi, como era de se esperar, a arquitetura da cidade. Mas o artigo lembrou também a onda de escândalos que nublou o ânimo de quem pretendia comemorar o aniversário da capital brasileira. O autor da reportagem, o jornalista Henrik Jönsson, classificou a cidade como a mais corrupta do país. No artigo ele não revela os dados em que se baseou para fazer tal afirmação, mas fica difícil contestá-lo diante da roubalheira no governo local que veio à tona nos últimos meses. E, pelo bem dos brasileiros, torço mesmo para que não exista um lugar no Brasil que seja mais corrupto do que Brasília é agora.
Ontem, jornal dinamarquês Politiken publicou artigo de página inteira na capa do caderno de cultura sobre Brasília. O assunto principal da matéria foi, como era de se esperar, a arquitetura da cidade. Mas o artigo lembrou também a onda de escândalos que nublou o ânimo de quem pretendia comemorar o aniversário da capital brasileira. O autor da reportagem, o jornalista Henrik Jönsson, classificou a cidade como a mais corrupta do país. No artigo ele não revela os dados em que se baseou para fazer tal afirmação, mas fica difícil contestá-lo diante da roubalheira no governo local que veio à tona nos últimos meses. E, pelo bem dos brasileiros, torço mesmo para que não exista um lugar no Brasil que seja mais corrupto do que Brasília é agora.
sábado, 17 de abril de 2010
Aniversário da Margrethe II, de novo
Hoje todos os ônibus da Dinamarca circularam com bandeirinhas brancas e amarelas. Havia “dannebrog” hasteada para todo lado que se olhava. “Dannebrog” é o nome da bandeira dinamarquesa, que é usada para marcar aniversários de nobres e plebeus na Dinamarca. A profusão de bandeiras de todos os tamanhos de hoje marcou o septuagésimo aniversário da rainha Margrethe II.
O dia foi de festa para a rainha e muitos dos súditos mais leais. Milhares de pessoas foram a Amalienborg, a praça onde fica o palácio real, para cumprimentar de longe a aniversariante, que apareceu com o marido, filhos, noras e netos, numa varanda para acenar lá do alto para as milhares de pessoas lá embaixo. Eu não estava entre eles. Meu trabalho é bem perto do palácio real, mas hoje tive um curso no outro lado da cidade e nem precisei chegar perto das celebrações.
No carro, a caminho do curso, ouvi no rádio um historiador que, ao falar do nascimento e relembrar os momentos mais marcantes da vida da rainha, me deu algumas dicas para tentar entender por que a Margrethe II é tão popular. O historiador, cujo nome não ouvi, contou que Margrethe, a mais velha das três filhas do rei Frederik IX, nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca estava sob ocupação alemã. Para o historiador, o nascimento daquela criança reavivou em muitos a esperança de um futuro melhor.
Durante a ocupação alemã, a monarquia ganhou popularidade, principalmente devido à atuação do rei da época, Christian X, avó de Margrethe II. A atitude altiva do rei diante dos alemães foi admirada pelo povo e ajudou a manter a dignidade dos dinamarqueses, algo fundamental para manter a unidade do país que se rendeu praticamente sem resistência aos invasores.
O dia foi de festa para a rainha e muitos dos súditos mais leais. Milhares de pessoas foram a Amalienborg, a praça onde fica o palácio real, para cumprimentar de longe a aniversariante, que apareceu com o marido, filhos, noras e netos, numa varanda para acenar lá do alto para as milhares de pessoas lá embaixo. Eu não estava entre eles. Meu trabalho é bem perto do palácio real, mas hoje tive um curso no outro lado da cidade e nem precisei chegar perto das celebrações.
No carro, a caminho do curso, ouvi no rádio um historiador que, ao falar do nascimento e relembrar os momentos mais marcantes da vida da rainha, me deu algumas dicas para tentar entender por que a Margrethe II é tão popular. O historiador, cujo nome não ouvi, contou que Margrethe, a mais velha das três filhas do rei Frederik IX, nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca estava sob ocupação alemã. Para o historiador, o nascimento daquela criança reavivou em muitos a esperança de um futuro melhor.
Durante a ocupação alemã, a monarquia ganhou popularidade, principalmente devido à atuação do rei da época, Christian X, avó de Margrethe II. A atitude altiva do rei diante dos alemães foi admirada pelo povo e ajudou a manter a dignidade dos dinamarqueses, algo fundamental para manter a unidade do país que se rendeu praticamente sem resistência aos invasores.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Aniversário da Margrethe II
Amanhã a rainha da Dinamarca, a Margrethe II, vai comemorar seu septuagésimo aniversário em grande estilo e com uma pequena polêmica criada pelo jornal dinamarquês Ekstra Bladet que vem publicando uma série de reportagens sobre o quanto a família real custa aos pagadores de impostos do país, grupo no qual aliás estou incluída. Muitos aqui ficaram surpresos quando descobriram que manter a família da dona Margrethe é bem mais caro que que se imaginava.
A família real recebe 95 milhões de coroas dinamarquesas isentos de impostos (algo em torno de 30 milhões de reais) por ano como uma espécie se salário. Além disso, várias despesas da família, como o navio em que viajam todo ano no verão, despesas de manutenção dos castelos reais, mais 76 agentes de segurança que acompanham a rainha Margrethe, o marido dela, filhos e respectivas esposas e netos, elevam os gastos para a soma de cerca de 400 milhões de coroas dinamarquesas por ano (aproximadamente 127 milhões de reais, o dinheiro brasileiro).
Mas tudo isso não impediu que a prefeitura de Copenhague, que está em dificuldades financeiras para manter serviços públicos como creches e jardins de infância, desse um presente de 230.000 coroas à rainha. Do governo federal, o presente foi ainda maior: 300.000 coroas, que serão usadas no jardim de roseiras do castelo onde a rainha passa os meses de verão. Tenho certeza que vai ficar lindo o roseiral da rainha.
A família real recebe 95 milhões de coroas dinamarquesas isentos de impostos (algo em torno de 30 milhões de reais) por ano como uma espécie se salário. Além disso, várias despesas da família, como o navio em que viajam todo ano no verão, despesas de manutenção dos castelos reais, mais 76 agentes de segurança que acompanham a rainha Margrethe, o marido dela, filhos e respectivas esposas e netos, elevam os gastos para a soma de cerca de 400 milhões de coroas dinamarquesas por ano (aproximadamente 127 milhões de reais, o dinheiro brasileiro).
Mas tudo isso não impediu que a prefeitura de Copenhague, que está em dificuldades financeiras para manter serviços públicos como creches e jardins de infância, desse um presente de 230.000 coroas à rainha. Do governo federal, o presente foi ainda maior: 300.000 coroas, que serão usadas no jardim de roseiras do castelo onde a rainha passa os meses de verão. Tenho certeza que vai ficar lindo o roseiral da rainha.
domingo, 11 de abril de 2010
Aniversário da Margrethe
A rainha da Dinamarca, a Margrethe II, vai completar 70 anos na próxima sexta-feira, 16 de abril, e o que não vai faltar é festa para comemorar. A Dinamarca inteira se prepara para celebrar sua regente.
Ou melhor, a Dinamarca quase inteira. Hoje li no jornal que um grupo de republicanos, o Republikanske Grundlovsbevægelse, que eu livremente traduzo como algo próximo de Movimento Constitucional Republicano, queria marcar a data com uma manifestação pelo fim da monarquia. O grupo queria se manifestar na praça Amalienborg, onde ficam os palácios da família real, e na mesma hora em que a rainha sair na varanda para acenar aos súditos que estarão lá embaixo na rua olhando para cima com o pescoço doendo de esperar para cantar parabéns. Mas o plano esperto dos monarquistas não deu certo. A polícia de Copenhague proibiu a demonstração republicana.
Ou melhor, a Dinamarca quase inteira. Hoje li no jornal que um grupo de republicanos, o Republikanske Grundlovsbevægelse, que eu livremente traduzo como algo próximo de Movimento Constitucional Republicano, queria marcar a data com uma manifestação pelo fim da monarquia. O grupo queria se manifestar na praça Amalienborg, onde ficam os palácios da família real, e na mesma hora em que a rainha sair na varanda para acenar aos súditos que estarão lá embaixo na rua olhando para cima com o pescoço doendo de esperar para cantar parabéns. Mas o plano esperto dos monarquistas não deu certo. A polícia de Copenhague proibiu a demonstração republicana.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Estica estica
Hoje saí literalmente pulando de alegria do Rigshospitalet, o hospital onde tenho recebido tratamento contra o câncer e passado pelos vários procedimentos para reconstrução do seio. A cirurgiã plástica que me operou e que está acompanhando o meu caso decidiu que eu não precisava de uma nova injeção de solução salina no peito. Ou seja, o processo para esticar a pele do meu peito e assim possibilitar a colocação de uma prótese definitiva acabou. Que alívio! Agora posso retomar meu ritmo normal de vida, sem as dores e o desconforto que me têm acompanhado nas últimas semanas.
Na semana passada recebi a terceira e última injeção da solução salina que está sendo usada para expandir a pele. Como a aplicação foi de apenas 50 ml, em vez dos 100 ml que havia recebido duas semanas antes, tive bem menos dores e tive uma semana fisicamente mais agradável. Me alegro que em breve vou poder retomar minhas corridas e pedaladas para o trabalho.
Na semana passada recebi a terceira e última injeção da solução salina que está sendo usada para expandir a pele. Como a aplicação foi de apenas 50 ml, em vez dos 100 ml que havia recebido duas semanas antes, tive bem menos dores e tive uma semana fisicamente mais agradável. Me alegro que em breve vou poder retomar minhas corridas e pedaladas para o trabalho.
Chuvas de abril
Tem chegado aos jornais e canais de TV daqui as terríveis consequências das chuvas que estão atingindo o Rio. Um exemplo: http://www.berlingske.dk/verden/styrtregn-koster-77-livet-i-brasilien
quarta-feira, 24 de março de 2010
Aviso e lamento
Aviso às navegantes: o método de reconstrução do seio com o uso de um expander dói sim senhor. Quem estiver pensando em usar este método deve se preparar porque a coisa pode doer muito.
Ontem deveria ter voltado ao hospital para receber a terceira e última injeção de solução salina no meu peito. Mas, no dia anterior, tive que ligar para o hospital para cancelar a aplicação. Percebi que não aguentaria outra semana cheia de dor e desconforto físico como a que acabara de experimentar. A aplicação foi adiada por uma semana e já decidi que da próxima vez pedirei para receber um volume menor do que os 100 ml que recebi a semana passada.
Logo depois da aplicação da semana passada, comecei a sentir dores fortes no lado esquerdo do peito e no ombro esquerdo que continuaram pelos dois dias seguintes. Os analgésicos não foram suficientes para diminuir a dor que se alastrou pelo braço esquerdo e pelas costas. O desconforto e dor eram maiores na hora de ir para a cama, onde ficava horas procurando inutilmente uma posição que não causasse dor e acabava dormindo de puro cansaço. Também quase não consegui trabalhar porque sentada eu também não conseguia ficar por muito tempo. Ontem e hoje comecei a me sentir melhor. A dor passou, embora o desconforto continue quando vou dormir e a região do seio reconstruído ainda esteja muito dolorida.
Nesses dias, em nenhum momento pensei que não deveria ter feito a operação para reconstrução do seio, mas me irritei com o fato dos médicos não terem me preparado para a dor que poderia sentir. Me avisaram que haveria alguma dor, que seria facilmente aliviada com analgésicos comuns, mas o que senti foi muito pior do que esperava.
No auge da minha angústia, procurei na internet informações sobre a ocorrência de dor em procedimentos como o meu e quase invariavelmente li textos assinados por médicos garantindo que o método não causa dor. Em meio a tanto otimismo, achei um ou outro médico que admitia que algumas pacientes sofriam bastante dor, especialmente a partir da terceira ou quarta aplicação.
Depois fui atrás de depoimentos de pacientes que haviam passado pelo mesmo procedimento e aí a história mudou de figura. Várias delas haviam passado pelo mesmo que passei. Depois, quase por coincidência, fiquei sabendo de uma conhecida que está numa fase mais avançada do mesmo método que também tem sofrido bastante.
Me senti quase enganada. Claro que não gosto de dor, mas consigo conviver melhor com ela se sei que terei que enfrentá-la. E desta vez fui pega de surpresa.
Ontem deveria ter voltado ao hospital para receber a terceira e última injeção de solução salina no meu peito. Mas, no dia anterior, tive que ligar para o hospital para cancelar a aplicação. Percebi que não aguentaria outra semana cheia de dor e desconforto físico como a que acabara de experimentar. A aplicação foi adiada por uma semana e já decidi que da próxima vez pedirei para receber um volume menor do que os 100 ml que recebi a semana passada.
Logo depois da aplicação da semana passada, comecei a sentir dores fortes no lado esquerdo do peito e no ombro esquerdo que continuaram pelos dois dias seguintes. Os analgésicos não foram suficientes para diminuir a dor que se alastrou pelo braço esquerdo e pelas costas. O desconforto e dor eram maiores na hora de ir para a cama, onde ficava horas procurando inutilmente uma posição que não causasse dor e acabava dormindo de puro cansaço. Também quase não consegui trabalhar porque sentada eu também não conseguia ficar por muito tempo. Ontem e hoje comecei a me sentir melhor. A dor passou, embora o desconforto continue quando vou dormir e a região do seio reconstruído ainda esteja muito dolorida.
Nesses dias, em nenhum momento pensei que não deveria ter feito a operação para reconstrução do seio, mas me irritei com o fato dos médicos não terem me preparado para a dor que poderia sentir. Me avisaram que haveria alguma dor, que seria facilmente aliviada com analgésicos comuns, mas o que senti foi muito pior do que esperava.
No auge da minha angústia, procurei na internet informações sobre a ocorrência de dor em procedimentos como o meu e quase invariavelmente li textos assinados por médicos garantindo que o método não causa dor. Em meio a tanto otimismo, achei um ou outro médico que admitia que algumas pacientes sofriam bastante dor, especialmente a partir da terceira ou quarta aplicação.
Depois fui atrás de depoimentos de pacientes que haviam passado pelo mesmo procedimento e aí a história mudou de figura. Várias delas haviam passado pelo mesmo que passei. Depois, quase por coincidência, fiquei sabendo de uma conhecida que está numa fase mais avançada do mesmo método que também tem sofrido bastante.
Me senti quase enganada. Claro que não gosto de dor, mas consigo conviver melhor com ela se sei que terei que enfrentá-la. E desta vez fui pega de surpresa.
sábado, 13 de março de 2010
Glauco
Nossa, mataram o Glauce e o filho dele! Que tristeza! Que absurdo!
Fiquei chocada e triste.
Parece até que era alguém que eu conhecia de perto. Talvez conhecesse mesmo, só que através dos seus personagens da pá virada. O Geraldão era quase como se fosse um primo doidão.
Emocionante ver as homenagens ao Glauco no www.universohq.blogspot.com
Que perda!
Fiquei chocada e triste.
Parece até que era alguém que eu conhecia de perto. Talvez conhecesse mesmo, só que através dos seus personagens da pá virada. O Geraldão era quase como se fosse um primo doidão.
Emocionante ver as homenagens ao Glauco no www.universohq.blogspot.com
Que perda!
sexta-feira, 12 de março de 2010
Prêmio controverso
Às vezes aqui na Dinamarca me sinto sozinha no meu jeito de pensar, como se eu fosse a única em toda essa pequena nação que enxergasse o absurdo na maneira como alguns políticos dinamarqueses falam de pessoas que têm religião e cultura diferentes das deles. Como se eu fosse a única que se enfurecesse quando políticos do partido de extrema direita que participa da aliança governista, sem o menor constrangimento, dizem horrores como "os homens muçulmanos não só matam suas filhas como também fingem não ver que elas são estupradas pelos tios delas".
Embora eu não saiba onde estão, talvez porque não ganhem espaço na mídia, deve haver muitos aqui que pensam como eu. Mesmo assim frequentemente chego a me achar uma esquisita, como se minhas opiniões contra a discriminação religiosa que os muçulmanos sofrem aqui na Dinamarca fossem tão radicais que me transformassem numa extremista.
Por isso me senti de alma lavada quando semanas atrás li uma longa entrevista com o escritor dinamarquês Carsten Jensen no jornal Politiken. Ele é um dos romancistas e ensaístas contemporâneos mais populares e premiados na Dinamarca, autor de “Vi o mundo começar" (minha tradução do título em inglês I've seen the world begin. ) e Nós, os afogados (minha tradução do título original em dinamarquês, "Vi, de druknede”).
Nessa entrevista Jensen disse:
“ - Se eu fosse imigrante, eu me se sentiria muito ofendido pelo modo como se referem a mim (…) Eu me sentiria diminuído”.
Recentemente ele recebeu o prêmio Olof Palm, por seu “humanismo, sensatez e fé no futuro”, concedido pelo Fundo pelo Entendimento Internacional Olof Palm. O prêmio o colocou ao lado de laureados nobres e respeitados como Anistia Internacional (1991), Václav Hnavel (1989), Daw Aung San Suu Kyi (2005), a ativista iraniana Parvin Ardalan (2007). Ao invés de se orgulharem do reconhecimento recebido pelo conterrâneo, muitos dinamarqueses ficaram furiosos com o prêmio e a imprensa reagiu de forma surpreendentemente negativa.
“Carsten Jensen recebe 400.000 coroas por criticar a Dinamarca” (Carsten Jensen får 400.000 kr. for at kritisere Danmark ), foi a manchete do Politiken, que é o mais à esquerda entre os três grandes jornais do país. Algo no mesmo tom saiu no site do DR, o maior canal de TV do país. Leitores do jornal chamaram o escritor de hipócrita e covarde e alguns pediram que ele se mudasse para a Suécia.
Tanta reação quase me chocou. Mas depois de ler um pouco mais sobre Jensen, comecei a entender tanta ira. Como um outro leitor do Politiken comentou, as reações furiosas são uma prova de que “... Carsten Jensen acerta no cerne do problema com a Dinamarca. Carsten Jensen mereceu esse prêmio. Peguem um Kleenex e sequem o ódio dos estrangeiros de suas faces” (minha tradução).
Embora eu não saiba onde estão, talvez porque não ganhem espaço na mídia, deve haver muitos aqui que pensam como eu. Mesmo assim frequentemente chego a me achar uma esquisita, como se minhas opiniões contra a discriminação religiosa que os muçulmanos sofrem aqui na Dinamarca fossem tão radicais que me transformassem numa extremista.
Por isso me senti de alma lavada quando semanas atrás li uma longa entrevista com o escritor dinamarquês Carsten Jensen no jornal Politiken. Ele é um dos romancistas e ensaístas contemporâneos mais populares e premiados na Dinamarca, autor de “Vi o mundo começar" (minha tradução do título em inglês I've seen the world begin. ) e Nós, os afogados (minha tradução do título original em dinamarquês, "Vi, de druknede”).
Nessa entrevista Jensen disse:
“ - Se eu fosse imigrante, eu me se sentiria muito ofendido pelo modo como se referem a mim (…) Eu me sentiria diminuído”.
Recentemente ele recebeu o prêmio Olof Palm, por seu “humanismo, sensatez e fé no futuro”, concedido pelo Fundo pelo Entendimento Internacional Olof Palm. O prêmio o colocou ao lado de laureados nobres e respeitados como Anistia Internacional (1991), Václav Hnavel (1989), Daw Aung San Suu Kyi (2005), a ativista iraniana Parvin Ardalan (2007). Ao invés de se orgulharem do reconhecimento recebido pelo conterrâneo, muitos dinamarqueses ficaram furiosos com o prêmio e a imprensa reagiu de forma surpreendentemente negativa.
“Carsten Jensen recebe 400.000 coroas por criticar a Dinamarca” (Carsten Jensen får 400.000 kr. for at kritisere Danmark ), foi a manchete do Politiken, que é o mais à esquerda entre os três grandes jornais do país. Algo no mesmo tom saiu no site do DR, o maior canal de TV do país. Leitores do jornal chamaram o escritor de hipócrita e covarde e alguns pediram que ele se mudasse para a Suécia.
Tanta reação quase me chocou. Mas depois de ler um pouco mais sobre Jensen, comecei a entender tanta ira. Como um outro leitor do Politiken comentou, as reações furiosas são uma prova de que “... Carsten Jensen acerta no cerne do problema com a Dinamarca. Carsten Jensen mereceu esse prêmio. Peguem um Kleenex e sequem o ódio dos estrangeiros de suas faces” (minha tradução).
sábado, 6 de março de 2010
TV dinamarquesa: Brasil – a nova potência mundial
Interessante ver como a imagem do Brasil mudou por estas bandas. Esta semana o canal de televisão DR2, que com seus bons documentários e programas jornalísticos na minha opinião é o melhor canal aberto da Dinamarca, dedicou uma série de reportagens ao Brasil no programa DR2 Udland (DR2 Exterior), transmitido de segunda a sexta-feira. O nome da série diz muito sobre como os dinamarqueses estão começando a ver nosso país: Brasil – a nova potência mundial (Brasilien – verdens nye stormagt).
As reportagens trataram de várias questões como a boa fase da economia brasileira, as ambições brasileiras no cenário diplomático e militar internacional, sucessão do Lula, racismo e desigualdade social. Tudo de uma maneira bem superficial, embora eu não ache que tenham dito nada errado, mesmo que eu não concorde muito com algumas das opiniões emitidas.
De qualquer maneira, já não era sem tempo. Adoro samba, futebol e sou defensora ardorosa das florestas brasileiras, mas já estava cansada de sempre ouvir falarem do meu país como se lá os homens não fizessem outra coisa a não ser jogar futebol e as mulheres andassem o ano inteiro trajando fio dental e dançando samba no meio da Floresta Amazônica, onde, claro, está fincada a estátua do Cristo Redentor. Claro que há muitos dinamarqueses extremamente bem informados sobre o que acontece ao sul da linha do Equador, mas também há muitos que só agora estão descobrindo que há mais do que samba, floresta e futebol no lugar de onde veio. Agora só precisam descobrir que falamos português e não “brasiliansk” nem espanhol.
As reportagens trataram de várias questões como a boa fase da economia brasileira, as ambições brasileiras no cenário diplomático e militar internacional, sucessão do Lula, racismo e desigualdade social. Tudo de uma maneira bem superficial, embora eu não ache que tenham dito nada errado, mesmo que eu não concorde muito com algumas das opiniões emitidas.
De qualquer maneira, já não era sem tempo. Adoro samba, futebol e sou defensora ardorosa das florestas brasileiras, mas já estava cansada de sempre ouvir falarem do meu país como se lá os homens não fizessem outra coisa a não ser jogar futebol e as mulheres andassem o ano inteiro trajando fio dental e dançando samba no meio da Floresta Amazônica, onde, claro, está fincada a estátua do Cristo Redentor. Claro que há muitos dinamarqueses extremamente bem informados sobre o que acontece ao sul da linha do Equador, mas também há muitos que só agora estão descobrindo que há mais do que samba, floresta e futebol no lugar de onde veio. Agora só precisam descobrir que falamos português e não “brasiliansk” nem espanhol.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Contra a maré
Uma organização de estudos sociais e econômicos mantida pelos sindicatos (Arbejderbevægelsens Erhvervsråd - AE) acaba de publicar um estudo que mostraria que, em 2007, 200.000 dinamarqueses, numa população de pouco mais de 5 milhões de pessoas, vivem na pobreza, definida de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, em inglês), segundo a qual pobres são aqueles com renda abaixo de metade da renda média do país. De acordo com o estudo do AE, o mais alarmante é que o número de pobres na Dinamarca cresceu 50 por cento no período que vai de 2001 a 2007 e não há nada que indique que a tendência se reverteu nos últimos dois anos, marcados por crise econômica e aumento do desemprego.
Muitos, inclusive o governo, contestam os números do AE, dizendo que o conceito de pobreza relativa da OECD é simplista e enganoso pois não dá uma imagem muito clara da realidade. Afinal, que pobre do Brasil não gostaria de viver com 8.400 coroas (cerca de 2.800 reais) por mês, que equivalem a metade da renda média dos dinamarqueses? Outra crítica é de que, em tempos de crescimento econômico, como foi o período 2001-2007, a renda total cresce e, consequentemente, a média da renda também, o que acaba colocando mais gente abaixo da linha da pobreza, mesmo que a a renda real dessas pessoas tenha se mantido inalterada.
Sem dúvida, pobreza, como medida pela AE, parece luxo na parte pobre do mundo e até no Brasil onde o salário mínimo é de apenas 1.500 coroas. Mas, não dá para negar que, se não mede a pobreza de forma precisa, o estudo da AE mostra, no mínimo, que a desigualdade social na Dinamarca está aumentando. O que, na minha opinião, não deixa de ser lamentável, ainda mais quando lembramos que 2010 é o Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social.
Muitos, inclusive o governo, contestam os números do AE, dizendo que o conceito de pobreza relativa da OECD é simplista e enganoso pois não dá uma imagem muito clara da realidade. Afinal, que pobre do Brasil não gostaria de viver com 8.400 coroas (cerca de 2.800 reais) por mês, que equivalem a metade da renda média dos dinamarqueses? Outra crítica é de que, em tempos de crescimento econômico, como foi o período 2001-2007, a renda total cresce e, consequentemente, a média da renda também, o que acaba colocando mais gente abaixo da linha da pobreza, mesmo que a a renda real dessas pessoas tenha se mantido inalterada.
Sem dúvida, pobreza, como medida pela AE, parece luxo na parte pobre do mundo e até no Brasil onde o salário mínimo é de apenas 1.500 coroas. Mas, não dá para negar que, se não mede a pobreza de forma precisa, o estudo da AE mostra, no mínimo, que a desigualdade social na Dinamarca está aumentando. O que, na minha opinião, não deixa de ser lamentável, ainda mais quando lembramos que 2010 é o Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Mudanças de estação
De volta para casa há uma semana, ainda me recuperando da cirurgia plástica, estou tendo um pouco mais de tempo para ler os jornais dinamarqueses, onde a um bocado de notícias sobre as mudanças no ministério feitas pelos dois partidos de centro direita que estão há dez anos no poder, o Venstre e o Konservativ. Os novos ministros, que assumiram na semana passada, tem muito o que fazer já que pelo terceito mês consecutivo, pesquisas de opinião indicam que o governo perdeu apoio da maioria da população. Se houvesse eleição hoje, os partidos de centro esquerda venceriam com 50,7% dos votos contra 49,3% dos partidos da base governista.
As mudanças políticas parecem ter trazido mudanças no tempo. Finalmente parece que a primavera está chegando. As noites ainda estão geladas, mas aparentemente os dias com temperaturas abaixo de zero terminaram por esta estação. O gelo está derretendo lentamente e logo será hora de voltar ao jardim, onde as flores de primavera mais audaciosas já começam a desafiar o frio.
As mudanças políticas parecem ter trazido mudanças no tempo. Finalmente parece que a primavera está chegando. As noites ainda estão geladas, mas aparentemente os dias com temperaturas abaixo de zero terminaram por esta estação. O gelo está derretendo lentamente e logo será hora de voltar ao jardim, onde as flores de primavera mais audaciosas já começam a desafiar o frio.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Enfermeiro de contato
Falando sério agora. Esta internação atual comprovou a impressão que tenho do sistema hospitalar na Dinamarca. O atendimento que tenho recebido é realmente de primeira, embora não haja luxos. Aliás nem acho que um sistema público de saúde deva se dar ao luxo de proporcionar luxos. Deve apenas dar o melhor atendimento possível. Conheço algumas pessoas que tiveram experiências ruins em hospitais de Copenhague, mas eu não tenho do que me queixar.
Preciso novamente escrever sobre a gentileza, presteza e atenção que recebo dos enfermeiros dinamarqueses. Falo enfermeiros porque nesta internação pela primeira vez recebi os cuidados de enfermeiros do sexo masculino. Um deles é meu enfermeiro de contato, o que quer dizer que é ele quem vai acompanhar meu caso. Pare ele, só tenho elogios. Além de gentil, prestativo e atencioso, é doce e simpático.
Preciso novamente escrever sobre a gentileza, presteza e atenção que recebo dos enfermeiros dinamarqueses. Falo enfermeiros porque nesta internação pela primeira vez recebi os cuidados de enfermeiros do sexo masculino. Um deles é meu enfermeiro de contato, o que quer dizer que é ele quem vai acompanhar meu caso. Pare ele, só tenho elogios. Além de gentil, prestativo e atencioso, é doce e simpático.
Acesso de Dercy Gonçalves
Olhando para o resultado da cirurgia plástica por que passei três dias atrás, acho que consigo entender o prazer que Dercy Gonçalves sentiu ao expor orgulhosamente os seios cheios de silicone no desfile da Unidos do Viradouro no carnaval carioca em 1991. Quando olho para o ainda arremedo de seio que resultou da operação, me sinto não só alegre, mas também quase orgulhosa e tenho vontade de mostrá-lo a todas as visitas femininas que tenho recebido, como se fosse a oitava maravilha da cirurgia plástica mundial.
Se obedecesse aos meus instintos, sairia pelos corredores do hospital, a minha passarela do samba, com os seios desnudos ostentando meu peito impávido, embora nem tão colossal. Poderia até usar minha maca como uma espécie de carro alegórico empurrado pelos enfermeiros que certamente me acompanhariam num cortejo barulhento e alegre.
Mas meus pruridos moralistas me impedem de levar adiante a ideia de um desfile peitoral. Afinal, o carnaval já passou. E tem mais. Eu correria o risco de ter minha alegria confundida com loucura e de me ver transferida para o departamento psiquiátrico do hospital.
Se obedecesse aos meus instintos, sairia pelos corredores do hospital, a minha passarela do samba, com os seios desnudos ostentando meu peito impávido, embora nem tão colossal. Poderia até usar minha maca como uma espécie de carro alegórico empurrado pelos enfermeiros que certamente me acompanhariam num cortejo barulhento e alegre.
Mas meus pruridos moralistas me impedem de levar adiante a ideia de um desfile peitoral. Afinal, o carnaval já passou. E tem mais. Eu correria o risco de ter minha alegria confundida com loucura e de me ver transferida para o departamento psiquiátrico do hospital.
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