terça-feira, 7 de julho de 2009

10 anos

Crianças exiladas fora dos abrigos!
Há crianças vivendo num dos países mais ricos do mundo sem direito a frequentar uma escola normal com outras crianças da mesma idade. Algumas dessas crianças nasceram e nunca saíram desse país, mas ainda assim vivem à margem da sociedade.

Estou em campanha por assinaturas de apoio a 122 crianças que vivem em campos para exilados na Dinamarca. Assinei uma petição e tenho usado Facebook, Twitter, meu e-mail e agora este blog para apoiar a causa, sobre a qual se pode ler no http://www.asylboerneneudnu.dk/ (infelizmente apenas em dinamarquês). O movimento por essas crianças têm três reivindicações básicas: as criancas devem ter o direito de viver fora dos abrigos, elas devem ter direito a viver uma vida mais próxima do normal com seus pais e, juntamente com seus pais, elas devem receber o tratamento necessário para que possam superar seus traumas e retomar suas vidas.

O site conta um pouco da rotina dessas crianças espalhadas em seis abrigos mantidos pelo governo e administrados pela Cruz Vermelha da Dinamarca. Crianças maiores de seis anos frequentam uma escola especial para refugiados da Cruz Vermelha. A maior parte dessas crianças tem de viajar de ônibus diariamente duas horas de ida e volta para chegar à escola especial. A carga horária e a quantidade de disciplinas na escola especial são reduzidos e as crianças não tem direito a prestar exames.

As crianças nos abrigos têm muito pouco contato com crianças dinamarquesas, o que naturalmente dificulta a aprendizagem do dinamarquês. Os abrigos ficam geralmente em áreas isoladas e como os pais têm muito pouco dinheiro para transporte, o resultado é que essas crianças vivem à parte do resto da sociedade, com raras oportunidades de lazer. Principalmente os adolescentes se sentem marginalizados.

A vida nos abrigos é cheia de barulho, confusão e insegurança.. Frequentemente chegam pessoas estranhas enquanto outras pessoas abandonam os centros. A instabilidade das relações faz com que algumas crianças desistam de fazer amigos, se negam a frequentar a escola e se isolem em seus quartos. Nos quartos onde as famílias vivem, há pouco espaço e quase nenhuma privacidade.

Os pais dessas crianças são proibidos de procurar emprego e precisam “bater o ponto” nos abrigos, onde a presença deles é controlada para evitar fugas. Sem trabalho, eles recebem ajuda financeira do governo dinamarquês, que lhes paga quantias bem inferiores à ajuda de custo recebida por cidadãos dinamarqueses e estrangeiros com permanência regular no país..

Tudo isso talvez não fosse razão para grandes problemas se a passagem pelos abrigos fosse curta. Mas todas essas 122 crianças vivem há pelo menos um ano nesses abrigos. Muitas já têm três anos de vida nos abrigos e uma delas vive em abrigos há dez anos. Dez anos. Toda uma infância.

Ninguém pode dizer que essas crianças não têm suas necessidades básicas atendidas. Como eu já frisei numa postagem anterior não lhes falta comida, roupa e teto. Mas a situacão delas me faz lembrar aquela a cancão* dos Titãs que tem o seguinte trecho:

"A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer..."

*Comida (composição do Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto. Letra completa no http://letras.terra.com.br/titas/91453/)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Seleção de todos os brasileiros

Que legal a vitória do Brasil na Copa das Confederações na África do Sul mas não posso deixar de registrar um constrangimento: a mancada do Kaka e, principalmente, do capitão Lúcio expondo suas preferências religiosas em camisetas sobre o uniforme do Brasil, como descreve o blog do Plínio Bortolotti.

Esse tipo de comportamento é uma afronta a todos os brasileiros não cristãos e ao público internacional que não compartilha da mesma crença ou que ligou a televisão para ver futebol e não para assistir proselitismo religioso.

Daqui da Dinamarca, fiquei envergonhada por tal comportamento. Quando vejo os conflitos religiosos na Europa, costumo me sentir orgulhosa de vir de um país onde a liberdade religiosa impera. Mas o comportamento dos jogadores dá uma impressão completamente errada da sociedade brasileira.

A propósito, o fato gerou notícia num dos maiores jornais da Dinamarca. Confira o link http://politiken.dk/sport/fodbold/article742698.ece do artigo entitulado “Estrelas do futebol fazem propaganda cristã” (Fodboldstjerner reklamerer for kristendommen). Na minha opinião, as fotos são constrangedoras.

Só espero que esse tipo de comportamento não acabe criando antipatia pelo time brasileiro que, normalmente, é recebido com carinho e admiração por povos de todas as crenças.

Sinceramente, acho que os dois jogadores deveriam ser advertidos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Irã

Estou acompanhando com tristeza, apreensão e um pouco de esperança os acontecimentos no Irã. Ah, como seria bom se a democracia vencesse.

Lembrete linfático

Hoje percebi que o que mais me aborrece em relação ao linfedema é sua visibilidade. A braçadeira que preciso usar quase diariamente torna o problema desagradavelmente visível e volta e meio tenho de responder a perguntas de pessoas, a maioria bem intencionada, que involuntariamente me relembram o motivo inicial do linfedema: o câncer de mama.

O linfedema é a sequela que mais frequentemente me faz lembrar que ainda sou uma paciente de câncer. É também o que mais me obriga a encarar a realidade de que nunca mais serei aquela que fui antes do câncer. Os dias me trazem inúmeros lembretes dessa realidade: de manhã cedo ao vestir a braçadeira, mais tarde brincando com a minha filha, na hora de pegar a sacola pesada de compras do supermercado, quando vou molhar as plantas com o regador cheio d'água, etc.

Afora essa visibilidade, até que estou vivendo bem com esse meu novo mal. Uso a braçadeira e me massageio e de de vez em quando vou à fisioterapeuta, uma moça tão doce a simpática que eu gostaria de rever mesmo que não precisasse do tratamento.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pólen

Para mim, mês de junho no Brasil é mês de festa junina com batata doce assada na fogueira, curau e canjica. Na Dinamarca, para mim deveria ser o início do verão, com noites claras até as dez da noite e temperaturas mais amenas. Mas, pobre de mim, junho também é mês de coceira insuportável na garganta, ouvidos, lábios e olhos, espirros, e nariz escorrendo. É mês de alergia a pólen de grama, algo que tive o desprazer de conhecer já no meu primeiro verão na Dinamarca, em 1998.

Este começo de verão não está sendo diferente daqueles que passaram. E o inferno alérgico só vai passar quando o pólen de grama parar de infestar o ar daqui, ou seja, daqui a duas ou três semanas.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Que triste a tragédia do vôo 447 da Air France.

Folga real

Permitam-me continuar escrevendo sobre meu rebentos plebeus de indignação com a monarquia dinamarquesa. Minha pequena irritação com as agendas, calendários e folhinhas de geladeira se renovou depois que li uma matéria no jornal Politiken sobre o novo livro da jornalista Trine Villemann, “O Rei e a Rainha da Groenlândia” (Kongen og dronningen af Grønland).

O livro lançado três semanas atrás pode não ser o livro de cabeceira da princesa Mary e seu marido, o príncipe herdeiro Frederik, mas deve certamente estar dando uma boa dor de cabeça ao casal. Na matéria, Trine conta que, de acordo com o calendário oficial de Frederik, em abril ele teve um duro mês de trabalho, com 24 dias de folga e 6 (seis!) dias de trabalho. Detalhe: num dos seis dias de trabalho do príncipe, ele se ocupou do aniversário da filha Isabella. Ôo vida dura, meu Deus.

No livro, a jornalista diz que, embora a lei orçamentária do governo dinamarquês tenha reservado “apenas” 93 milhões de coroas (cerca de R$ 35 milhões de coroas dinamarquesas, em 2 de junho/2009) à família real em 2009, os gastos totais com a realeza devem ser bem maiores e podem chegar a 250 milhões de coroas só este ano. Isso porque a verba explicitamente destinada aos de sangue azul não inclui, por exemplo, as despesas que o Ministério da Defesa dinamarquês tem com a família real. É o Ministério da Defesa que mantém o navio real “Dannebrog” navegando de abril a setembro com a família real a bordo.

A jornalista, que apesar do livro se proclama monarquista, quer que as contas da realeza sejam abertas para que o povo dinamarquês saiba como os de sangue azul estão usando o dinheiro que recebem dos pagadores de impostos. Ninguém, nem mesmo o órgão daqui que fiscaliza as contas do governo, tem acesso às contas da família real que, aliás, também não paga um centavo de imposto sobre os milhões que recebe dos desprovidos de sangue azul. Outro detalhe importante: o desconto de imposto na fonte é de cerca de 40% para todos os dinamarqueses, embora os que recebem salários mais altos paguem bem mais do que isso.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Irritação real

Agenda, folhinha para pendurar na parede e calendário dinamarquês tem algo mais do que as datas religiosas e históricas de praxe: têm registrados também as datas de aniversário de pessoas como a Mary, a Isabella, o Christian, o Henrik, o Frederik, o Henrik, o Joaquim e o Felix. A razão pela qual essas pessoas têm seus nomes impressos na minha agenda e no calendário da geladeira aqui de casa é que todos eles são da família real. Mary é a nora, a Isabella, o Felix e o Christian são netos, o Henrik é o marido e o Frederik e o Joaquim são filhos da rainha Margrethe.

Depois de conferir na minha agenda que tenho hora marcada com minha dentista nesta sexta-feira, descobri, sem pedir, que o aniversário do príncipe herdeiro, o Frederik, é amanhã, 26 de maio. Uau!

A primeira vez que vi um calendário em dinamarquês e vi aqueles nomes de pessoas que não me diziam respeito, achei engraçado. Depois veio uma pequena irritação que dura até hoje e se renova a cada mudança de ano quando começo a usar uma nova agenda ou calendário. Por que é que na minha agenda preciso ser lembrada do aniversário de pessoas que representam um estilo de vida e uma tradição com a qual não concordo? É algo tão compulsório quanto a minha contribuição, através dos impostos que pago, para manter a vida ociosa e fútil da família real dinamarquesa.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A pequena Guantánamo no quintal da Dinamarca

Há pessoas vivendo em condições muito mais desumanas pelo mundo afora do que os refugiados que vivem nos abrigos da Dinamarca. Em alguns casos não há muito que individualmente possamos fazer para mudar essas condições. Mas a situação muda de figura quando se é confrontado com o fato de, perto da sua rotinazinha confortável, viverem pessoas, inclusive crianças, cujas vidas estão sendo destruídas por anos e anos de confinamento num abrigo para refugiados.

Sandholm,que fica a apenas 27 km daqui de casa, é um dos abrigos para refugiados na Dinamarca onde 137 crianças tem vivido por mais de um ano. Um estudo da Cruz Vermelha da Dinamarca mostrou que a experiência de viver mais de um ano nesses abrigos é traumática para essas crianças, que dão sinais de problemas psíquicos e sofrem com os traumas sofridos por suas famílias. Um outro estudo, da Anistia Internacional, revelou que quase metade dos que tentam asilo na Dinamarca, sofreram tortura.

A indiferença com que a sociedade dinamarquesa lida com a situação dessas crianças me choca. É impressionante ver como uma sociedade que cuida tanto de suas próprias crianças prefere ignorar completamente o destino das crianças nos abrigos de refugiados. Essa indiferença é ainda mais difícil de compreender porque acontece num dos países mais ricos do mundo que acabou de passar por um período de vacas gordas na área econômica.

Há felizmente exceções a essa indiferença e a mais antiga é a de um grupo que se chama “Avós a favor de asilo (Bedsteforældre for asyl) que desde 2007 faz todo santo domingo demonstrações pacíficas de protesto contra a política para refugiados em frente aos abrigos. Uma outra exceção foi a de um grupo de jovens que no ano passado tentou fechar simbolicamente o abrigo de Sandholm. A manifestação foi abortada pela polícia e criticada por muitos pelo caráter “violento”.

Mais recentemente, um grupo liderado pela jurista Eva Smith, Crianças refugiadas fora dos abrigos agora (Asylbørneneudnu.dk) , está começando um movimento mais amplo para pressionar o governo dinamarquês a tirar as crianças dos abrigos e proporcionar a elas e suas famílias uma vida normal e tratamento médico para que possam superar os traumas físicos e psíquicos que viveram. A meta do grupo é conseguir 500.000 assinaturas, que corresponderiam a mais ou menos dez por cento da população dinamarquesa.

Segundo Eva Smith, a situação das crianças refugiadas é a “pequena Guantánamo no quintal” dos dinamarqueses. Numa entrevista ao jornal dinamarquês Politiken, Eva diz que, daqui a 30 anos, as gerações futuras vão olhar para trás e se perguntar: “Por que nossos pais não fizeram nada para ajudar essas crianças? Eles sabiam o que estava acontecendo e não fizeram nada”. Tenho medo de imaginar o que minha filha vai pensar de mim.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Balanço

Hoje recebi mais uma dose de herceptin. Agora só faltam três. No final de julho, quando receber a última dose, acho que me sentirei mais leve.

A enfermeira que me aplicou a injeção de heceptin, como é de praxe, me perguntou sobre como eu estava me sentindo ultimamente. Foi novamente hora de fazer uma balanço do meu bem estar. Me surpreendi não tendo muito mais do que reclamar: o inchaço no braço diminuiu e me dei conta de que fazia mais de uma semana que vinha dormindo bem.

As ondas de calor continuam, às vezes quase me deixando louca, mas sinto que aos poucos sua intensidade e frequência estão diminuindo.

Meu corpo dá outros sinais de, finalmente, estar voltando ao normal. Meu cabelo voltou a crescer mais rapidamente, depois de um período com crescimento bem lento. Também tenho percebido que as dores dos músculos das pernas, que tem me acompanhado desde a quimioterapia, estão mais fracas.

As mudanças para melhor estão acontecendo bem mais lentamente do que eu gostaria, mas pele menos estão acontecendo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Festa

Fizemos uma festa aqui em casa no sábado passado. Na falta de um motivo, dissemos que a festa era para comemorar a primavera que, afinal, chegou à Dinamarca. A propósito, abril foi o mês mais quente e com mais horas de céu ensolarado deste país desde que começaram a registrar o clima, mais de dois séculos atrás. A temperatura média atingiu 9,4 C e foram 272 horas de céu claro. Para se ter uma ideia, no período 1961-1990, a temperatura média em abril foi de apenas 5,7 °C e as horas de céu claro não passaram de 162 horas.

Em suma, o Henrik, eu e nossos convidados, entre brasileiros, dinamarqueses e colegas de vários países do meu trabalho, tínhamos bons motivos para comemorar, mesmo porque aqui na Dinamarca é bom celebrar o bom tempo antes que ele acabe. Há quem faca piadas dizendo que, em alguns anos, temos sorte porque o verão cai num fim de semana.

Minha filha passou a noite na casa de uma tia do Henrik, o que nos deu liberdade para cantar berrando alguns dos sambões que colocamos para tocar. ”Aquarela Brasileira”, de Sila de Oliveira, na voz de Martinho da Vila, por exemplo, ou pular como loucos ao som das Frenéticas cantando “Dancing Days”.

Dancei como há muito tempo não dançava mas lá pelas tantas senti um cansaço anormal nas pernas, o que me fez lembrar que os efeitos da quimioterapia, ou da menopausa antecipada pelo tratamento, ainda incomodam.

Uma amiga que me ligou no dia seguinte e disse que se impressionou com meu pique. ”Era como se fosse a sua última chance de dançar na vida”. Achei graça. Talvez eu devesse fazer isso mais vezes: dançar como se fosse a última vez.

domingo, 26 de abril de 2009

Iraquianos na Dinamarca

Um artigo da jornalista Anita Bay Bundegaard, no jornal dinamarquês Politiken, alguns dias atrás, trouxe números que me chocaram: 184 iraquianos vivem há pelo menos sete anos, alguns há 12 anos, num abrigo para refugiados que tentam conseguir asilo na Dinamarca.

O governo dinamarquês, seguindo à risca sua rígida política de asilo, recusou asilo a esses 184 iraquianos que, no entanto, se negam a voltar para seu país. A Dinamarca não pode obrigar os iraquianos a voltar porque o governo iraquiano não quer recebê-los. Talvez porque já tenham problemas de sobra no Iraque. Enquanto os dois países não se entendem, os iraquianos vivem como párias: têm suas necessidades básicas atendidas mas não podem participar ativamente da sociedade que lhes dá comida, roupa e teto. São proibidos de trabalhar e obrigados a viver no abrigo chamado Sandholm, que alguns dinamarqueses já começaram a chamar de campo de concentração.

A jornalista Anita Bay Bundegaard comparou a questão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e no país vizinho, a Suécia. Os suecos receberam 60 por cento de todos os iraquianos que fugiram para a Europa depois da Guerra do Iraque. Desde o início do conflito, a Suécia recebeu mais de 9,000 refugiados. Lá os refugiados têm permissão para trabalhar e morar em residências como o resto da sociedade.

O curioso é que a Suécia não participou da invasão do Iraque. A Dinamarca, ao contrário, foi um dos poucos países europeus a entrar na coalizão que invadiu o Iraque em 2003.

Ironicamente, enquanto a Dinamarca pressiona em vão o governo iraquiano a receber os refugiados de volta, a Suécia e o Iraque assinaram um acordo que prevê o retorno dos refugiados que estão em solo sueco. Aliás, a Suécia já conseguiu que três mil refugiados voltassem voluntariamente para casa.

Na opinião de Anita Bay Bundegaard, ali na Suécia, vivendo como parte da sociedade que os recebeu, os refugiados mantém sua dignidade, podem estudar e tentar se manter no mercado de trabalho e assim se sentem mais fortes e preparados para retornar ao país de origem.

Aqui na Dinamarca, sem poderem trabalhar e à margem da sociedade, os refugiados estão desaprendendo o que sabiam e aprendendo a viver na dependência de uma sociedade que não os quer. Casos de depressão e outros problemas psíquicos são comum entre os refugiados de Sandholm. O relato de uma ex-refugiada, Dina Yafasova, parece confirmar a tese de Anita. Segundo Dina, que acabou de escrever um livro sobre o assunto, "viver num abrigo como o Sandholm não é aparentemente tão ruim. As pessoas tem um lugar para dormir, roupa e comida. O pior de lá, algo que não se percebe imediatamente mas talvez apenas depois de um mês ou coisa parecida, o pior de lá é o clima de prisão”.

Colocar pessoas fugidas da guerra num lugar que parece uma prisão não deve mesmo ser bom para a saúde mental dessas pessoas. O pior é se a “prisão” se estende por dez, onze, doze anos.

É difícil não concordar com Anita.

sábado, 25 de abril de 2009

Atrasos

Esta semana fui novamente ao hospital para receber a décima terceira injeção de hercepetin. Agora só faltam 17.

A trapalhada que causei nas últimas duas vezes que recebi o tratamento parece indicar que estou me cansando dessas idas ao hospital. Na vez anterior, antes de ir para o hospital decidi tirar um cochilo para me recuperar um pouco da noite mal dormida. Deitei para dormir meia hora e caí num sono pesado do qual só acordei cinco minutos depois do horário marcado para estar no hospital. Dei um pulo da cama, me arrumei a jato e, ao invés de pedalar até o hospital, tomei a decisão errada de pegar o carro achando que chegaria mais rápido. Que nada. Peguei um pequeno engarrafamento e ao chegar ao estacionamento do hospital, não havia vagas desocupadas no espaço reservado aos carros dos pacientes. Rodei uns quinze minutes atrás de uma vaga e fui obrigada e estacionar a quase um quilômetro do hospital. Conclusão: cheguei na clínica onde receberia a injeção com mais de uma hora de atraso. As enfermeiras, simpáticas como sempre, não reclamaram e recebi o tratamento como planejado.

Esta semana a trapalhada foi semelhante. Tinha certeza que meu tratamento estava marcado para as 14:30 horas, mas quando cheguei ao hospital, acreditando que estava dando exemplo de pontualidade, uma enfermeira me avisou que já estavam desistindo de esperar por mim. Não entendi e ela explicou que meu tratamento estava marcado para as 13:30 horas. “Ups!”, respondi. Por algum motivo inexplicável, anotei o horário errado na minha agenda e esqueci de conferir o cartão de consultas do hospital, onde o horário havia sido corretamente anotado por uma enfermeira. Novamente, as enfermeiras foram simpáticas e me atenderam sem reclamar.

Eu já havia decidido que, depois da última sessão de herceptin eu iria comprar uma caixa de chocolates para as enfermeiras da clínica onde recebo tratamento como uma pequena demonstração de agradecimento pelo carinho e atenção com que elas têm me tratado. Depois dessa semana, acho que terei de comprar duas caixas.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mesmice

Logo que soube que estava com câncer, li todos os artigos e reportagens que achava pela frente sobre pessoas que também haviam enfrentado a doença. Eu queria aprender com quem já havia tido câncer como enfrentar o estigma da doença e como superar o tratamento da melhor maneira possível .

Ler tais textos foi inicialmente muito útil. Achei inspiração, dicas e algumas boas informações e sou grata às pessoas que se dispuseram a falar da doença.

Mas depois de algum tempo comecei a me cansar desse tipo de leitura. Nessas reportagens e artigos muitos dos pacientes e ex-pacientes de câncer falam sobre como a vida deles e eles próprios se transformaram depois da doença. Vários contaram como, por exemplo, perceberam o real valor da vida depois que descobriram estar com uma enfermidade que poderia ser fatal. Uma paciente disse como passou a admirar a beleza de uma simples flor. Um outro diz que passou a dar mais valor às pequenas e aparentemente insignificantes coisas da vida. Alguns falam sobre como se tornaram melhores pessoas.

Longe de mim menosprezar ou duvidar das descobertas e conquistas que o câncer tenha trazido a algumas pessoas, mas acho que muitas vezes os textos jornalísticos sobre o assunto mais parecem sinopses piegas de livros de auto-ajuda para leitores com câncer.

Pode ser que meu olhar crítico sobre tais textos seja resultado de um pouco de inveja: não tenho notado em mim todas essas transformações que tantos pacientes contam ter visto em si mesmos. A doença não me tornou, por exemplo, uma “Pollyanna depois do câncer” que só vê lado cor-de-rosa de todos os acontecimentos por que passa.

Claro que não estou passando incólume pelo câncer, mas também não acho que a doença esteja tendo nenhum poder purificador do meu espírito ou alma. Continuo com alguns defeitos que ainda me irritam muito. Dar importância demais a coisas sem importância é um deles. Nos últimos meses percebi que, infelizmente, coisas sem importância continuam me encasquetando muito mais do que deveriam.

Como antes da doença, continuo admirando a beleza de uma flor ou a magnificência do pôr de sol avermelhado de Brasília e valorizando o prazer de estar com as pessoas que amo. Também ainda me debato com mais ou menos os mesmos dilemas e insatisfações de antes do câncer.

Uma coisa talvez esteja mudando. Acho que estou aprendendo a usar melhor o meu tempo, que corre sem parar. Que a vida é curta fica-se ainda mais convencido depois de recebermos um diagnóstico de tumor maligno no seio. Fazer o que é mais importante primeiro se tornou muito importante para mim, embora eu ainda às vezes me encontre na dúvida sobre o que é realmente importante. Mas até mesmo priorizar o que fazer do meu tempo não é algo que, de repente, comecei a fazer no dia seguinte ao diagnóstico de câncer de mama. É algo que ainda estou aprendendo a fazer.

O câncer pode estar desencadeando algumas mudanças no meu modo de levar a vida, mas não foi aquele raio de luz que me transformou numa outra pessoa. Sou a mesma Margareth, nem pior, nem muito melhor, apenas mais grata a várias pessoas queridas, à medicina e ao sistema público de saúde da Dinamarca.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Primavera

Depois de uma semana de férias na Alemanha e depois na Jutlândia, a parte continental da Dinamarca, estou de volta a Copenhague curtindo mais uma semana de folga. Mas, para quem mora em casa na Dinamarca, folga do trabalho raramente significa folga em casa. Abril aqui em casa é mês de, entre outras tarefas, semear flores de verão, colocar vasos de plantas para fora e no terraco, podar e adubar rosas, capinar e cortar a grama. É uma trabalheira danada que eu adoro. Na minha próxima vida nascerei jardineira.

sábado, 4 de abril de 2009

A quentinha e a crise

Sinais da crise na Dinamarca: está deixando de ser feio sair de um restaurante com uma quentinha contendo o resto da refeição que não foi comida.

Anos atrás, quando comentei numa roda de dinamarqueses que no Brasil era comum pedir ao garçom que embalasse o resto da comida numa quentinha, provoquei risadas sarcásticas. Acharam um absurdo, meio ridículo. Pelo olhares senti que achavam que isso era coisa de país de terceiro mundo.

Agora a DR, maior grupo dinamarquês na área de comunicação, com dois canais de televisão e várias estacões de rádio, está promovendo uma campanha para convencer os dinamarqueses de que levar quentinha para casa não é nenhuma vergonha e, dependendo do caso, pode até ser bom para o meio ambiente.

A DR fez uma pesquisa e descobriu o que eu já sabia: que os dinamarqueses ainda acham constrangedor pedir ao restaurante para levar o resto da com ida para casa. Os donos dos restaurantes, ao contrário, se mostram dispostos a empacotar o resto da comida, se os clientes pedirem, o que raramente acontece.

Mas agora, com a crise econômica e aquecimento global talvez a quentinha entre na moda. Ainda mais porque os dinamarqueses adoram copiar o que acontece nos Estados Unidos, onde o hábito da quentinha, que lá se chama doggy bag já se pratica há muito tempo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Pouco mais de um ano depois

Se passou um pouco mais de um ano depois da operação que me deixou, costumo dizer brincando, mais despeitada do que sempre fui.

No ano passado, antes de toda essa maratona de tratamento, as enfermeiras me disseram que, para evitar que eu ficasse atordoada e confusa com um bombardeio de informações, depois de cada fase do tratamento que eu terminasse, elas iriam me dar detalhes da fase seguinte.

Bem mais tarde é que percebi que isso não passava de uma estratégias que médicos e enfermeiras usam para conseguir levar os pacientes até o final do tratamento. Eles não mentem, mas também não contam a verdade de uma só vez.

Foi assim antes de ser operada. Me falaram que eu perderia um seio, me prepararam para as dificuldades do período pós-operatório e do treinamento ao qual teria de me submeter para recuperar o movimento do braço e ombro esquerdos. Me avisaram que eu teria de passar pela quimioterapia e radioterapia, mas não entraram muito em detalhes.

Semanas depois da operação começaram a me encher de informações sobre a lista quilométrica dos efeitos colaterais da quimioterapia. Depois da quimioterapia, quando achei que o que faltava do tratamento era fichinha, me prepararam para a radioterapia que, no final das contas, não achei assim tão fácil como eu havia previsto.

Um ano atrás, eu sabia que iria passar por alguns dos meses mais difíceis da minha vida. Mas não imaginei que seriam tão difíceis.

Um ano atrás, eu me achava mais forte e resistente do que acabei descobrindo que eu era.

Mas esse ano não foi só de dor e mal estar.

Um ano atrás eu não sabia que tinha tantos amigos. Não sabia que havia tanta gente que se importava e se preocupava comigo.

Eu achava que minha família sempre estaria comigo para o que desse e viesse. Mas esse ano me trouxe a certeza de que eles sacrificariam o que fosse necessário para estar ao meu lado.

Pouco mais de um ano atrás eu talvez me sentisse mais solitária e menos amada.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Linfedema

Aleluia! Hoje finalmente me livrei da faixa que vinha cobrindo meu braço esquerdo por mais de quatro semanas e comecei a usar um tipo de braçadeira e luva de compressão feitas sob medida para manter o linfedema sob controle.

Como parte do tratamento contra o linfedema, tive que andar por 30 dias , quase 24 horas por dia, com o braço esquerdo enfaixado. O enfaixamento, composto de gaze coberta por uma camada de algodão que, por sua vez, era coberta por uma compressa elástica deixou meu braço pesado e com os movimentos limitados. Além disso, a pele sob o enfaixamento coçava horrores e, como as faixas cobriam parte da mão, até a metade dos dedos, diversas atividades e tarefas rotineiras como fazer comida, dar banho na Gabi ou simplesmente lavar as mãos depois de uma mijadinha ficaram seriamente afetadas.

Para fazer comida e dar banho na Gabi tive que usar uma luva de plástico. Depois das idas ao banheiro, lavava como podia a mão direita e na esquerda borrifava álcool para desinfetar.
Vestir e tirar o casaco de inverno se tornou uma luta e, para meu constrangimento, algumas vezes tive que pedir ajuda porque a manga ficava presa na mão coberta pela faixa tripla. Meu vestiário nas últimas semanas limitou-se a três camisetas e blusas cujas mangas eram largas o suficiente para dar espaço para meu braço engordado pela faixa. E as ondas de calor, que continuam me molestando, ficaram ainda mais desagradáveis no braço coberto pelo enfaixamento.

O tratamento incluiu também duas semanas com sessões diárias de fisioterapia, o que complicou bastante o dia-a-dia. Todo dia, antes ou depois do trabalho, fui à fisioterapeuta, onde tirava as faixas, tomava banho e recebia a massagem chamada drenagem linfática. Depois a fisioterapeuta me enfaixava. Nos finais de semana, eu mesma me enfaixava.

Toda essa novela era para ter durado duas semanas mas a entrega da braçadeira e da luva, que eu esperava iria demorar uma semana, levou três semanas para acontecer. Para não correr o risco de colocar todo o tratamento a perder, continuei usando o enfaixamento.
Pelo menos todo esse trabalho está dando bons resultados. O inchaço diminuiu bastante e é quase imperceptível. De qualquer maneira terei de continuar usando a braçadeira e a luva por mais um bom tempo para ter certeza que o linfedema está sob controle. Também tenho de aprender a viver com a possibilidade de o braço voltar a inchar e a tomar precauções para evitar que o linfedema aumente.

Aliás, um site em português com boa informação sobre o linfedema é vivacomlinfedema.com/

segunda-feira, 9 de março de 2009

Seis horas

Acordei no meio da noite. Em mais uma das minhas estratégias para tentar dormir melhor, tinha me prometido que quando acordasse durante a noite por causa de uma onda de calor, não iria conferir as horas. Mas não resisti e olhei para o relógio da mesinha de cabeceira. Para minha surpresa eram 5:34. Isso queria dizer que em havia dormido seis horas ininterruptas. Nossa, era um recorde! Fazia semanas que eu não dormia tanto.

Isso foi três ou quatro noites atrás. Desde então voltei ao ritmo de acordar três vezes por noite por causa dessas malditas ondas de calor. Mas ainda assim durmo melhor do que dormia dois meses atrás, quando havia noites em que as ondas de calor me despertavam cinco ou seis vezes. Acho que posso ser otimista quanto às minhas chances de realizar o sonho de voltar a dormir sete, oito horas sem interrupção.

terça-feira, 3 de março de 2009

45, a missão

Na semana passada, no meu trabalho, houve um almoço para comemorar o aniversário de uma colega que completou 60 anos. Aqui na Dinamarca é hábito se comemorar o aniversário de funcionários que completam “anos redondos”, ou seja, anos às dezenas (30, 40, 50 etc). Lá pelas tantas, no discurso de agradecimento, essa colega disse que não se importava em estar ficando velha. Pensei com meus botões: será que quando eu chegar aos 60 também vou deixar de me importar com o envelhecimento? No fundo fiquei com uma ponta de dúvida: sera que aquela amiga estava dizendo a verdade?

Seria legal envelhecer com serenidade, como ouço algumas pessoas dizerem que conseguem fazer mas duvido um pouco da minha “elevação espiritual” para isso. Não que eu pense em sair por aí pagando para me esticarem aqui e acolá e lavantarem aquilo outro. Meu medo do envelhecimento não chega a ser maior do que meu medo do ridículo. Mas a perspectiva de ficar e parecer mais velha, ficar mais lenta, fraca e menos disposta e todas as coisas ruins que associamos com o avançar dos anos me incomoda.

O que mais me assusta não é o envelhecimento físico, mas o mental. Pensar que com o correr dos anos terei mais dificuldade de aprender coisas novas e que a memória pode falhar me deixa quase irritada.

Para nadar contra a corrente, invento coisas que, dizem, ajudam a manter a mente sã. Escrever é uma delas.