domingo, 29 de novembro de 2009

Descoberta de São Paulo

A Dinamarca descobriu que São Paulo é uma das 10 melhores cidades do mundo para se visitar em 2009. Foi necessário que o Lonely Planet afirmasse isso para o jornal dinamarquês Politiken () ir atrás e publicar um artigo extremamente positivo sobre a cidade no caderno de turismo de hoje.

O problema é que a descoberta do jornal dinamarquês chegou com um ano de atraso. A lista do Lonely Planet foi divulgada em outubro de 2008 para o o anuário “Lonely Planet’s Best in Travel”, como registrado pela Época.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Gripe

A H1N1 anda fazendo estragos por aqui. As autoridades sanitárias preveem que um terço dos 1,6 milhão de habitantes de Copenhague será atingido pela gripe, que já fez seis vítimas fatais. Ainda é, felizmente, pouco, mas a epidemia aqui ainda está a caminho do auge de contaminação e mais mortes vão provavelmente acontecer em breve.

Há cartazes por todo lado com instruções sobre como prevenir a doença e o produto mais popular de farmácias, perfumarias e supermercados é gel antisséptico para as mãos.
Mas não é nada fácil evitar a contaminação num país que vive com as portas e janelas fechadas nos quase seis meses de inverno e onde as pessoas não têm o hábito de lavar as mãos antes das refeições. Hoje quase já me acostumei, mas nos meus primeiros anos de Dinamarca me surpreendi com os hábitos de muitos dinamarqueses. Coisas que para nós brasileiros parecem exemplos de pouca higiene ou péssimas maneiras à mesa, são normais por aqui. Um exemplo é comer verduras sem lavá-las antes. Ou cortar um pepino em rodelas um fatiar um pão diretamente sobre uma mesa da cantina do trabalho, ao invés de usar um prato ou tábua de cortar.

Por isso, em tempos de gripes porcas, passei a carregar na minha bolsa um tubinho de gel antisséptico. Às vezes me acho um pouco histérica com tanta precaução, inclusive porque até ser tarde demais: a gripe suína talvez já tenha passado aqui em casa. Na semana passada minha filha esteve bem gripada e pode até ter sido que ela tenha sido a primeira vítima da H1N1 aqui em casa.

domingo, 15 de novembro de 2009

Fruta exótica

O jornal que mais leio aqui na Dinamarca, o Politiken, tem um caderno semanal chamado comida (“Mad”) onde há sempre um artigo dedicado a uma fruta exótica. Na mesma seção do jornal já aparecerem espécies estranhíssimas aos paladar e olhos dinamarqueses como a jaca e o tamarindo. A fruta desta semana era, adivinhem só queridos leitores brasileiros, a nossa muitíssimo exótica goiaba. O artigo ensina os dinamarqueses a escolher uma boa goiaba, que não deve ser comida quando ainda está muito verde nem quando está madura demais.

A matéria ensina também que se deve descascar uma goiaba antes de se comê-la. Não contive o riso ao ler o artigo. Me lembrei dos melhores dias da minha infância, passados trepada numa das dezenas de goiabeiras da chácara da minha avó. Lá meus primos, minha irmã e eu nunca pensaríamos em descascar uma goiaba. Nossa preocupação não era a casca da goiaba, mas sim os bichinhos que de vez em quando encontrávamos na polpa da fruta. Essa era aliás uma das razões pelas quais preferíamos as goiabas com polpa vermelha. Além de acharmos que eram mais gostosas, nelas era menos frequente encontrar os tais bichinhos.

O bom de trepar nas goiabeiras era que as árvores, embora nunca se tornassem muito grandes, tinham galhos que eram suficientemente fortes para aguentar nossas macaquices. Quando trepávamos numa mangueira, tínhamos de tomar cuidado para escolher os galhos mais antigos e fortes, mas isso não era um problema com as goiabeiras. Outra vantagem das goiabeiras era que nelas nunca encontrávamos uma lagartas horrorosas e enormes que de vez em quando achávamos nos abacateiros. Isso fazia das goiabeiras os alvos favoritos das nossas escaladas arbóreas. Era só trepar, achar uma goiaba madurinha e comê-la com o cuidado de conferir entre uma dentada e outra se não estávamos invadindo a moradia de uma larva da mosca-das-fruta.

Voltando à matéria sobre a goiaba, tive que vir morar na Dinamarca, aprender dinamarquês para aprender que a goiaba tem um tal de eugenol que lhe da o saber tão característico. A jornalista lista vários usos da goiaba, mas nem menciona a nossa querida goiabada. Me deu vontade de lhe escrever reclamando da gravíssima omissão, mas fiquei só na vontade.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vitamina D e rua

O problema do outono na Dinamarca é que ele é curto demais. Logo depois que você começa a achar que a cor das árvores é linda, elas perdem todas as folhas, a temperatura cai para 5 graus centígrados, o horário de verão acaba e as tardes escurecendo às quatro da tarde começam. Em suma, o inverno chega em menos de um mês e fica até o final de março.

Conheço gente aqui que acha lindo sentir frio, adora o vento gélido no rosto, se encharcar na chuva congelante ou escorregar nas ruas cobertas de gelo, mas ainda não encontrei um único dinamarquês ou estrangeiro que goste dos dias com o sol saindo às 7:30 e caindo fora às 16:00. Isso quando o astro rei dá o ar da graça. Muitas vezes, como aconteceu hoje, o sol fica lá escondido em algum lugar atrás de uma cobertura densa de nuvens. A massa de nuvens cinzas ficam bem baixas, como se fossem um teto no qual precisamos apenas estender o braço para tocar com a mão.

Em dias como hoje, dá vontade de chorar. Mas, claro, não se chora porque o tempo lá fora está horrível e você sabe que vai continuar assim por quatro meses. Não, deve-se resistir bravamente mesmo que o lugar mais interessante do mundo pareça ser a sua cama. Quando a vontade de chorar se juntar a um sono desanimador e uma preguiça avassaladora, está na hora de reagir e ir em busca de paliativos, remédios e preventivos contra o desânimo e aquela tristezinha.

Entre imigrantes e brasileiros de pele morena ou mais escura, vitamina D é bem popular. A receita é vitamina D e rua, sair para fora de casa para pegar ar fresco e toda a luz que sua pele conseguir absorver. Há quem apele para luz solar artificial, seja com lâmpadas especiais que podem ser usadas em casa seja indo para o que eles chamam aqui de “solarium” onde você se deita com roupa de banho numa cama e seu corpo recebe uma banho de luz. Ainda não apelei para o banho de luz mas amanhã vou atrás de vitamina D.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A pipa tá no ar

Comprei duas pipas pela internet e domingo, depois do almoço, fomos minha filha, meu marido e eu, testar uma delas. Foi uma delícia. Eu teria ficado o dia todo lá naquele gramado aqui perto de casa tentando dar piruetas na pipa ou fazê-a mergulhar de bico, mas lá pelas tantas minha filha se cansou e começou a reclamar do frio. Tivemos de vir embora e no caminho de casa me lembrei daquela vez em que meu pai fez ou comprou uma arraia enorme e levou minha irmã dois anos mais nova e eu para soltá-la no campo de futebol que existia no cerrado lá perto de casa, em Taguatinga.

Aquela tarde me marcou. Meu pai era meu super pai, nossa pipa era provavelmente a maior e mais bonita do mundo, embora eu não me lembre que cor tinha, e a vida parecia um céu azul que estava bem ali, esperando para ser rasgado pelas minhas piruetas da nossa arraia.

Não me lembro de ter brincado de arraia depois daquela tarde. Fiquei na inveja e sem coragem de me misturar aos meninos, os donos da brincadeira de soltar arraias. Soltar arraia sempre foi brincadeira dos moleques da rua, incluindo meu irmão que anos mais tarde se tornou tão bom na construção de pipas que passou a vender as que construía aos garotos mais novos da vizinhança.

Final de abril, começo de maio, quando as chuvas diminuíam, começava também a estacão das pipas nas ruas de Taguatinga. O vento que criava redemoinhos de poeira vermelha, era ótima para levantar as pipas de papel de seda que a garotada empinava e pontilhava o ar de cores. No céu, as pipas competiam em beleza e acrobacias. No chão, a molecada lutava, muitas vezes com o perigoso cerol, para manter suas obras e o respeito na vizinhança. Eu não entendia muito as táticas usadas pelos garotos em suas batalhas aéreas, mas sempre lamentava quando uma pipa cortava a outra, que saía desmaiando sem rumo pelo céu.

No domingo quis dar à minha filha a alegria de soltar uma pipa. Minha filha gostou da brincadeira, meu marido adorou e eu, quase quarenta anos depois, fiquei deslumbrada.

A propósito, no Blog do Gutemberg, fiquei sabendo que além de pipa, papagaio e arraia, o brinquedo também é conhecido como cafifa, pandorga e quadrado. Lá também aprendi o que é “boca de chave”, “chave” e “dar um aú”, termos do jargão dos soltadores de pipa.

domingo, 25 de outubro de 2009

Explosão de cores

Antes de viajar para a Holanda, a Dinamarca ainda estava verde. Voltei três dias depois para encontrar o país coberto de amarelo, laranja e vermelho. São as belíssimas cores do outono que tomaram conta das árvores do país. Não posso deixar de admitir que essa explosão de cores é belíssima. O que me entristece nisso é que em breve o cinza e marrom dos galhos pelados vão substituir as cores vibrantes das folhas.

Mudança de estacão também traz mudança nos relógios. Hoje começou o horário de inverno e a diferença de fuso entre Brasil e Dinamarca diminui de cinco para apenas três horas.

sábado, 24 de outubro de 2009

Conferência

Acabei de voltar de uma cidade perto de Amsterdam e com um nome que não consigo pronunciar, (Noordwijkerhout) na Holanda, aonde fui participar de uma conferência sobre arrecadação de fundos em organizações não governamentais (the International Fundraising Congress). Fiquei impressionada com a ótima organização do evento e a forma calorosa com que entidade por trás do evento, Resource Alliance, recebeu os participantes.

A qualidade dos palestrantes e o bom nível dos debates também me impressionou e recomendo a todos que trabalhem em instituições não governamentais e que estejam atrás de inspiracão e boas idéias a participar do congresso, que acontece anualmente na mesma cidade holandesa.

Não sou realmente a “arrecadadora de fundos” da minha organização, mas como responsável pela presença do IRCT na internet, preciso aprender mais sobre como canais como o nosso site e nossas páginas no facebook, twitter e youtube podem ser usados para atrair ativistas virtuais para apoiar nossa causa e, eventualmente, aumentar a quantidade de doações individuais para nossa organização.

Nos três dias da conferência ouvi e conversei com pessoas representantes de organizações com causas das mais diversas. Havia, por exemplo, representantes de instituições que promovem pesquisa para o tratamento do câncer, de apoio a pacientes de câncer, da área ambiental, de mulheres africanas, de trabalhadores alemães e de promoção de educação de jovens do Oriente Médio. Comum a todas essas organizações é a preocupação sobre a repercussão da crise econômica sobre a arrecadação de fundos para manter suas atividades. Muitas dessas organizações estão recorrendo à internet para buscar doações e o apoio de voluntários.

Aliás, por falar em IRCT e internet, já conferiu o novo site do IRCT?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Noite gelada e noticia boa

Acabei de ler na página do serviço de meteorologia da Dinamarca (www.dmi.dk) que a noite passada foi a primeira noite gelada em termos meteorológicos deste inverno 2009/2010.

Coisas engraçadas se aprendem quando vivemos num país frio como a Dinamarca. Para mim, noite gelada é noite gelada. Mas não. No jargão dos especialistas no assunto, uma noite gelada em termos meteorológicos é aquela em que a temperatura do ar numa altura de dois metros acima do solo fica abaixo de zero.

Depois da noite gelada, uma notícia boa. Estive hoje no hospital para me submeter a uma mamografia e ultrassom que mostraram que meu peito mastectomizado não há nenhum sinal de câncer.

Antes do exame eu estava tranquila e confiante de que não encontrariam nada de errado, mas ainda assim foi ótimo receber uma confirmação de que tudo está bem.

Resistência

Preciso voltar à Dona Katrine. Um artigo no jornal Politiken alguns dias atrás me fez ficar pensando no que ela diria sobre um grupo de dinamarqueses que está se auto-intitulando "O novo movimento de resistência". Isso porque um dos maiores feitos da longa vida da Dona Katrine foi participar do movimento de resistência contra a ocupação nazista da Dinamarca na Segunda Guerra Mundial.

Eu não sei muito sobre da atuação de Dona Katrine no movimento de resistência, a não ser que durante dois anos ela viveu com duas identidades para cobrir suas atividades clandestinas. Mas enquanto Katrine arriscou a vida para resistir à invasão alemã, os membros da auto-intitulada resistência de hoje arriscam ir para a cadeia porque estão ajudando iraquianos que tiveram seus pedidos de exílio recusados e estão em situação ilegal na Dinamarca.

No grupo há pessoas de diversas profissões, incluindo enfermeiras e parteiras que assistem os exilados que evitam procurar o sistema de saúde dinamarquês com medo de serem presos e enviados de volta para o Iraque. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas fazem parte dessa nova “resistência” porque embora algumas pessoas falem publicamente do trabalho que fazem pelos iraquianos, outros preferem manter silêncio sobre suas atividades.

O grupo se formou a partir da organização criada para apoiar os iraquianos que se refugiaram na Igreja Brorsons e chegou a ter uma conta bancária publicamente anunciada para quem quisesse doar dinheiro ao grupo. Mas desde que se expôs através da imprensa, o grupo foi enfrentando oposição e dificuldades cada vez maiores. A conta bancária foi fechada pela direção do banco, políticos dos partidos que formam o atual governo criticaram duramente a iniciativa e a polícia começou a apurar o caso. Na semana passada o grupo anunciou que vai parar de angariar fundos publicamente para evitar problemas com a polícia. Mas é sabido que o movimento clandestino de apoio aos exilados iraquianos continua.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Diferenças sutis

Duas festas às quais fui convidada semanas atrás me deram um exemplo curioso das diferenças entre nós, brasileiros, e eles, dinamarqueses. Amigos dinamarqueses do meu marido nos convidaram para uma festa de despedida do verão de 2009. O convite enviado por e-mail dizia que o tema da festa era o verão e daí concluímos que deveríamos nos vestir a carácter. Eu não esperava muito daquela festa porque já me decepcionei muito com eventos do tipo promovidos por dinamarqueses. Depois de anos Minha conclusão é que, em matéria de festa, dinamarquês é subdesenvolvido, tadinho.

Aqui é preciso esclarecer. Quando escrevo festa, me refiro a música animada, povo alegre e barulhento, muita dança, porque adoro dançar, alguma bebida e, se possível, comida gostosa, mesmo que sejam só tira-gostos. Essa combinação, dinamarquês raramente entrega.

Ainda assim resolvi me vestir a caráter buscando inspiração no Brasil, onde, afinal, é verão quase o ano inteiro. Tirei do fundo do armário um vestidão amarelo ouro, bem daquele amarelo da nossa bandeira, e me enfeitei com maquiagem e bijuterias bem coloridas. O pior, ou melhor, minha salvação, é que encorajei meu marido a se vestir com uma camisa azul piscina que ele comprou em Salvador. Pois é, juntos parecíamos um uniforme da Seleção Brasileira.

Chegamos à casa da festa e a primeira coisa que percebi foi que estava sendo vítima de uma situação clássica, já vivida por muita gente antes de nós. Todos os convidados presentes, e quando eu escrevo todos quero mesmo dizer todos, estavam vestidos elegantemente com roupas escuras último modelito outono-inverno 2009. Até mesmo o casal dono da festa nos apunhalou pelas costas. A dona circulava alegremente num vestido preto e o marido a acompanhava em calças pretas e uma camisa clara de mangas longas. Nem precisa dizer que nossos trajes reforçaram a sensação que sempre tenho em festas dinamarquesas: a de um peixinho fora d'água. A festa foi mais ou menos o que se podia esperar. Comida gostosa, pouquíssima gente dançando e muita, muita bebida.

Como Deus nem sempre é padrasto, fomos convidados por duas amigas brasileiras, uma paulistana e a outra carioca, para uma festa comum de aniversário que aconteceria três semanas depois da mancada azul e amarela. Nessa festa também havia um tema: “A festa mais louca de todas” (minha tradução). Para meu azar, o dia da festa caiu no mesmo dia em que meu marido convidou a família dele para um jantar para comemorar o aniversário dele. Não dava mais para desmarcar o jantar mas fiquei matutando que, como festa de brasileiro começa tarde e jantar de dinamarquês termina cedo, eu ainda tinha uma chance de poder dar um pulinho na festa.

Dito e feito: meu marido e eu chegamos bem tarde à festa, mas ainda assim deu para curtir a diferença. Na festa das brasileiras, pirata, africana, super homem, egípcia, chinesa, japonesa, cowboy, árabe, passistas e destaques de escola de samba, índios, dançarinas, Sherezade, mulher gato e outras figuras dançavam ensandecidamente, bebiam um bocado e se divertiam adoidado.

Eu estava exausta, depois de passar o dia preparando o jantar para quinze pessoas da família do meu marido, mas o pique da festa era contagiante e nos juntamos à catarse coletiva dançando o mais que pudemos. Voltamos para casa no fim da madrugada fria, de bicicleta porque aqui ninguém, ou quase ninguém, dirige depois de beber. Eu estava a-ca-ba-da, mas a alma, lavada.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Deu Rio

É impossível não deixar de me emocionar com as imagens sobre a escolha do Rio de Janeiro para sediar as os Jogos Olímpicos de 2016. Lula chorando, bandeiras brasileiras na praça central de Copenhague e festa em Copacabana. Mas ainda não estou convencida de que a vitória do Rio sobre Chicago, Tóquio e Madri foi uma boa.

Aliás nem me sinto autorizada a ter uma posição sobre o assunto porque enquanto Copenhague fervilhava com a passagem de figuras como Michele e Barack Obama, Oprah Winfrey e príncipes japoneses, sem falar do já mencionado Lula, eu me recolhia diante do meu computador, trabalhando quase sem pausa no relançamento da página da internet do IRCT. Na correria desses dias, li, vi e senti muito pouco da confusão causada pelo comitê olímpico.

Nos últimos dias, além do cansaço físico e mental causado pelas horas extra de trabalho, o que eu realmente senti foi a chegada do frio. Temperaturas abaixo de 15 graus durante o dia e abaixo de 10 à noite. Infelizmente, a efervescência trazida pela escolha da sede dos jogos de 2016 não foi suficiente retardar a chegada do inverno.

sábado, 26 de setembro de 2009

Zero decibel

Esta é uma grande iniciativa: uma campanha contra o uso da música como método de tortura.

A música que só deveria ser usada para nos proporcionar prazer, foi usada pela CIA Como método de tortura na chamada "guerra contra o terror". Prisioneiros foram mantidos no que ficou conhecido como "dark prison" (prisão escura) onde, completamente deprivados de luz, foram obrigados a ouvir a mesma música em volume ensurdecedor por dias e dias. Há relatos de ex-prisioneiros em Guantánamo dando conta de que as sessões de tortura chegaram a durar 20 dias ininterruptos.

A União de Músicos do Reino Unido e a ONG Reprieve se juntaram na campanha genial zerodB, que está juntando video e foto assinaturas de apoio à campanha. Vale a pena conferir.




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Fotos de família

Nossa! Tenho trabalhado tanto que nem tenho tido tempo de blogar. E que falta o blog me faz.

Mas acho que vai valer a pena tanto esforço. O novo site do IRCT vai ficar o máximo, embora minhas ambições fossem ainda maiores. É que sou extremamente impaciente e queria fazer o site perfeito agora, ou melhor, ontem, mas uma série de limitações, inclusive financeiras, não vao deixar isso acontecer. Além do que, "saite" perfeito não existe. Estamos todos ainda aprendendo enquanto fazemos nesse mundo tresloucado da web.

Para não desaparecer completamente, passo adiante um link engraçadíssimo que uma colega de trabalho me enviou para aliviar a tensão desses ocupados dias: http://www.guidespot.com/guides/awkward_family_photos.

Vale a pena conferir.

sábado, 12 de setembro de 2009

Katrine

Perdi um dos meus embaixadores junto a Deus. Dias atrás faleceu repentinamente a tia avó do meu marido, Katrine Sofie ou a Gammel Faster, apelido em dinamarquês que significa "Tia velha". A morte foi repentina, mas surpreendeu pouca gente: ela tinha 98 anos de idade.

Cristã fervorosa, Katrine participava de grupos de oração onde, fiquei sabendo, eu era figura conhecida. No funeral dela, uma senhora se aproximou de mim e perguntou se eu era a Margareth. Adivinhar quem eu era não era muito difícil já que eu era a única morena no recinto. A tal senhora abriu um sorriso largo ao confirmar minha identidade e disse candidamente: ”Katrine rezou muito por você”. Ela disse aquilo para me alegrar, mas o efeito foi bem o contrário. Senti um frio na barriga e uma sensação de desconforto saindo da nuca e se espalhando pelas costas. ”Iiih! Que fria!”, pensei, de repente me sentindo completamente desprotegida.

Eu sabia que eu estava na boca dos grupos de oração da igreja da Katrine. Ele fazia questão de me contar quando ela e seus amigos da igreja haviam rezado por mim e não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Logo que cheguei à Dinamarca, pediram para que eu arranjasse um emprego, depois para que eu me saísse bem nos exames do mestrado que fiz aqui, no ano seguinte as rezas fossem para que eu, depois de repetidos abortos espontâneos, tivesse uma gravidez bem sucedida, depois para que o parto da Gabi corresse bem. Aí a coisa engrossou e as rezas devem ter ficado mais fervorosas. Soube que houve muito “Ave Maria, Pai Nosso” para garantir que meu tratamento contra o câncer de mama desse resultado. Os pedidos a meu favor prosseguiram com o tratamento do meu linfedema e, pelo que a tal senhora que adivinhou quem eu era insinuou, continuaram até pouco antes do falecimento de Katrine.

De vez em quando Katrine nos ligava aqui em casa para saber como estávamos mas hoje, pensando bem, acho que ela ligava mesmo era para conferir se a reza tinha dado resultado. Não posso dizer que não. Arranjei emprego, passei com boas notas no mestrado, tive, afinal, uma gravidez e parto muito bem sucedidos, o tratamento do câncer está dando resultados e o linfedema está sob controle. Depois de tudo isso, é ou não é para eu me preocupar?

domingo, 6 de setembro de 2009

Ando meio sumida

É que o bicho está pegando lá no trabalho, com muitos projetos rolando ao mesmo tempo. Um deles é a criação de uma comunidade virtual global de apoio ao IRCT (International Rehabilitation Council for Torture Victims), onde trabalho. Por enquanto, quem quiser mostrar seu apoio ao trabalho da organização pode se tornar fã da página do IRCT no Facebook (http://www.facebook.com/irct.org ) mas estamos trabalhando para criar um site específico para os que querem apoiar a luta ontra a tortura e de apoio à recuperaçao de pessoas que foram vítimas da tortura.

Hassan e Gulizar

A situação de Hassan Gardi talvez seja o mais triste exemplo do quão absurda é a atual política de imigração do governo dinamarquês. Ele 72 anos, é demente, pesa somente 47 quilos, passa boa parte do tempo deitado e depende de ajuda para ir ao banheiro, se lavar e se alimentar. Hassan estava entre os iraquianos que se refugiaram na Igreja Brorsons e, segundo sua esposa Gulizar, ficou completamente desnorteado quando a polícia invadiu o local e tirou todos os refugiados de lá. O jornal dinamarquês information.dk conta que o casal foi colocado no olho da rua e depois de perambular por algum tempo no meio da confusão criada por manifestantes e polícia, foi resgatado por ativistas que agora os mantêm escondidos das autoridades.

A legislação dinamarquesa prevê que refugiados com problemas graves de saúde mental podem ser ganhar permanência na Dinamarca por motivos humanitários. Apesar disso, e contra opinião emitida em laudos médicos, o Ministério que cuida dos pedidos de asilo, ironicamente chamando de Ministério da Integração, rejeitou o pedido de permanência por motivos humanitários a favor de Hassan e Gulizar. Na explicação do Ministério, demência não é doença grave e o fato de Gulizar cuidar do marido é considerado suficiente para justificar enviar os dois de volta para o Iraque.

Que Gulizar seja analfabeta, não tenha uma profissão ou que o ganha pão do casal, uma cafeteria em Erbil no norte do Iraque, tenha explodido nos ares depois que um carro bomba estacionou em frente ao estabelecimento, foi ignorado pelo Ministério da Integração (esse nome quase me dá náuseas). Ainda assim Gulizar mantem as esperanças e tenta tranquilizar o marido dizendo que ele não precisa ter medo porque “estamos num país humano, onde os direitos humanos têm grande significado”. Torço por eles para que ela tenha razão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Paradoxo

Muito interessante um artigo escrito pelos estudantes da Universidade de Yale Yasmin Zaher and Saned Raouf para o Huffington Post sobre a situacão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e a remocão dos refugiados da Igreja Brorsons:
The Modern Making of Refugee Politics
Falam, entre outras coisas, do paradoxo de um país que está no topo do ranking de países com o mais alto grau de felicidade ser o mesmo que impõe repetidos traumas psicológicos aos refugiados iraquianos que lutam por uma chance de ter uma vida decente.

domingo, 23 de agosto de 2009

Bisian

Bisian e sua família estava entre os iraquianos que buscaram refúgio na Igreja Brorsons e entre os cerca de 250 iraquianos que tiveram seus pedidos de asilo rejeitado pelo governo dinamarquês e estão sendo ameaçados de serem enviados de volta para o Iraque. Ela tem 14 anos de idade, não fala árabe e vive na Dinamarca desde os quatro. Nesses dez anos na Dinamarca, ela e a família viveram em campos de refugiados.

A irmã caçula de Bisian nasceu na Dinamarca e tem menos de dois anos de idade. O irmão mais velho, segunda ela conta no site kirkeasyl.dk (site de um movimento de dinamarqueses que apoiam os refugiados iraquianos), sonha em estudar carpintaria mas foi proibido de prosseguir os estudos pelas autoridades dinamarquesas. Algo parecido aconteceu com a mãe de Bisian que começou a fazer um curso de cabeleireira mas teve de parar devido às regras para refugiados à espera de permanência.

Bisian sonha com uma vida “normal” na Dinamarca e teme a violência no Iraque. Lá, ela acha que a família não tem nenhuma chance especialmente porque seu pai está marcado para morrer no Iraque. “Lá há gente atrás dele”.

domingo, 16 de agosto de 2009

Wissam

O Wissam é um rapaz iraquiano de 19 anos de idade que vive na Dinamarca desde que tinha 10.  Ele foi um dos 60 iraquianos que passaram parte do verão deste ano na igreja Brorsons, juntamente com seus pais e irmão mais velho, de 23 anos. Desde 30 de julho ele está na prisão do campo de refugiados de Sandholmlejren.

Wissam e sua família foram presos antes da ação policial na igreja Brorsons. Numa longa entrevista ao jornalista Olav Hergel, na edição deste domingo do jornal Politiken, ele fala sobre sua adolescência na Dinamarca e no medo de voltar para o Iraque, e no quanto ele sonha em ter direito a viver na Dinamarca. Wissam fala dinamarques fluentemente, além de inglês, persa, curdo e árabe e tem uma namorada chamada Rosa. Seu irmão acabou de ser aceito como aluno da Universidade Ténica de Copenhague, mas não sabe se vai poder fazer o curso.

Ele pertence a um grupo étnico, os feyli curdos, dos quais tanto iraquianos quanto iranianos querem se livrar. A advogada da família conseguiu documentar que 15 membros da família de Wissam, que vive numa região próxima a Bagdah, foram mortos nos últimos anos como consequência de perseguição étnica.

sábado, 15 de agosto de 2009

Remoção

Há períodos em que evito ler jornais ou assistir a noticiários dinamarqueses para evitar me aborrecer. Estou num desses períodos. Desta vez, a razão para possível aborrecimento é a expulsão de um grupo de iraquianos de uma igreja de Copenhague, acontecida na madrugada da última quinta-feira .

Os iraquianos tinham ocupado a igreja havia quase três meses (ver Mahabat e seus dois meninos ) e nesse período eu vinha torcendo e quase acreditando, do fundo do meu otimismo ou ingenuidade, que algo aconteceria para que pelos menos alguns fossem autorizados a continuar vivendo na Dinamarca. Mas me esqueci em que país estava e cheguei a ficar chocada quando soube que a polícia havia invadido a igreja Brorsons no meio da madrugada e prendido todos os 17 homens que estavam lá. Nenhuma mulher ou criança foi presa, mas todos tiveram de abandonar a igreja.

Pelos relatos que li e ouvi, inclusive a do pastor da igreja, a remoção dos iraquianos foi dramática. Quando a polícia entrou na igreja, todos os iraquianos se juntaram no altar. Um homem quebrou uma garrafa e ameaçou se cortar, um outro subiu no órgão da igreja e ameaçou pular, mulheres gritavam de desespero enquanto crianças choravam de medo. A invasão aconteceu por volta da uma da madrugada e, por mais que leio que tudo foi feito dentro da lei, nada me convence que não foi mais um da série de atos desumanos da política para refugiados adotada pelo atual governo dinamarquês (mais sobre o assunto em inglês e cenas da ação policial contra um grupo de demonstrantes dinamarqueses que tentou bloquear a passagem do ônibus da polícia que levava os iraquianos).

No dia seguinte à remoção, 15.000 a 25.000 pessoas (como sempre acontece em demonstrações de rua, a quantidade de participantes depende da fonte da informação) se reuniram em frente à igreja para protestar contra a ação da polícia e pedir asilo aos iraquianos. Quando soube da manifestação até fiquei animada. Quem sabe a ação policial não acaba criando uma comoção nacional de apoios aos iraquianos que assim podem afinal conseguir o apoio político necessário para que seus pedidos de asilo sejam reavaliados? pensei novamente do fundo da minha alma otimista ou ingênua. Que nada. No dia seguinte ao da demonstração, pesquisas de opinião pública mostraram que três quintos da população dinamarquesa apoiaram a ação policial.

Conclusão: parei de ler jornais ou páginas da internet da Dinamarca para não morrer de raiva. Até hoje, é claro, quando tive de me atualizar para escrever o blog. Aí deparei com mais uma, duas, não, três histórias de, com o perdão da expressão, cortar o coração: as do Wissam, do Hassan e da Bisian.