quinta-feira, 15 de julho de 2010

O que a gente faz do que os outros fizeram com a gente?*

Vera Vital Brasil, que dedicou anos ao trabalho com vítimas de tortura, sabe por experiência própria do que está falando quando diz que o mal causado pela tortura nunca pode ser completamente superado.


Como estudante da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no final dos anos 60, Vera participou ativamente do movimento estudantil universitário, um dos grandes focos de resistência à ditadura militar no Brasil (1964-1985). Devido a sua militância, em dezembro de 1969, Vera foi presa e torturada nas dependências do temido DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna.


Depois de passar três meses na prisão, Vera deixou o Rio de Janeiro e se exilou no Chile. O exílio durou seis anos e, ao voltar ao Brasil em 1976, Vera estava decidida a mudar o rumo de sua carreira para tentar transformar em algo bom o mal que lhe haviam causado.
“O que a gente faz com o que os outros fizeram à gente? Interiorizamos essa experiência dilacerante ou lutamos para que isso nunca mais aconteça novamente? Eu escolhi a segunda alternativa”, ela diz ao explicar o porquê de sua escolha pela psicologia e trabalho clínico e e do envolvimento com vítimas de tortura.

Trabalho voluntário

Enquanto trabalhava como professora de química e fazia o curso de psicologia, Vera participou como voluntária de programas de defesa dos direitos humanos e de assistência à saúde a moradores de favelas do Rio de Janeiro. Anos mais tarde, também como voluntária, se envolveu num programa de apoio psicológico a pessoas infectadas com o vírus da Aids.

Era apenas o começo de uma longa trajetória na defesa dos direitos humanos que a levou, em 1982, a se juntar a outros ex-presos políticos do Rio de Janeiro na reação contra a nomeação para cargos públicos de pessoas envolvidas com a prática da tortura durante a ditadura. Essa iniciativa acabou levando um grupo de ex-presos políticos sobreviventes de tortura e familiares de mortos e desaparecidos a fundar, em 1985, o Grupo Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro (GTNM-RJ). O grupo nasceu com a missão de lutar pela defesa dos direitos humanos, incluindo o esclarecimento das mortes e desaparecimentos de militantes políticos, o resgate da memória, a luta contra a impunidade e pela justiça, além da denúncia de torturas e todas as formas de violência.

O GTNM-RJ surgiu num momento em que a memória das mortes, desaparecimentos e tortura ocorridos durante a ditadura militar no Brasil corria o risco de ser esquecida: imperava o silêncio.. “Experiências profundamente dolorosas estavam ficando no baú do esquecimento e o Estado tinha uma política de silenciar sobre estes acontecimentos”, ela conta.

O fato de sobreviventes de tortura terem dificuldade em falar sobre suas experiências por sentirem-se ameaçados também contribuiu para que muitos crimes estivessem caindo no esquecimento. “Alguns pacientes chegavam a se culpar pelo que lhes havia acontecido. Achavam, por exemplo, que não haviam sido suficientemente ágeis para fugir da repressão e atribuíam a si um erro. Mas foi o o Estado quem cometeu crimes ao matar, torturar, fazer desaparecer os corpos dos opositores e dizimar as forças de oposição ao regime.”
Em 1991, com recursos financeiros do Fundo Voluntário das Nações Unidas para as Vítimas de Tortura, o GTNM/RJ formou uma equipe clínica que passou a prestar assistência terapêutica médico-psicológica e de reabilitação física a vítimas de tortura. Vera fez parte da equipe clínica do GTNM-RJ desde sua criação até este ano de 2010.

Justiça e reparação

Ao longo desses anos, sua experiência pessoal e a dedicação a outras vítimas convenceram-na que o mal causado pela tortura não pode ser completamente superado.

“O dano causado pela tortura se acentua se for silenciado e se não se fizer justiça, ou seja, se não houver reparação. O fato de o Estado, que deveria garantir e proteger a vida, ser o agente da violência, tem um efeito devastador na subjetividade. Nossa prática clínica é insuficiente para curar esse dano. Mas podemos tentar fazer com que as pessoas que passaram por essa experiência dilacerante se sintam melhor, deem um outro sentido a esta experiência, deslocando-a do plano meramente pessoal, individual, privado, para o plano do coletivo, da história”, ela diz.

Em julho de 1993, com o evento que ficou conhecido como a Chacina da Candelária (Candelária Massacre), quando crianças e adolescentes de rua foram assassinados por forças policiais na cidade do Rio de Janeiro, os membros da equipe se deram conta que sua área de atuação deveria ser ampliada. “Estávamos cuidando dos afetados pela violência do Estado ocorrida durante a ditadura, e nos demos conta de que outro segmento social estava sendo afetado por essa mesma violência naquele momento de transição para a democracia”, explica Vera.

Pobres: novo alvo da violência do Estado

Segundo ela, houve no período de transição uma mudança no perfil do principal alvo da violência do Estado. “No Brasil, não há mais perseguidos políticos como havia durante o regime militar. Hoje são os pobres as maiores vítimas da violência do Estado e, infelizmente, tortura e maus tratos são problemas graves e generalizados no país”.

Diariamente presenciamos exemplos grotescos de brutalidade, extermínio, torturas, violência e maus tratos no Brasil. Frequentemente a polícia entra nas favelas do Rio de Janeiro atirando indiscriminadamente, supostamente em busca de traficantes de drogas. No estado do Espírito Santo, dezenas de detentos foram amontoados em contêineres de carga onde a temperatura chegava a 50 graus centígrados. Em São Paulo, há pouco tempo um jovem rapaz, motobói, foi torturado até a morte por policiais e teve o corpo jogado numa rua da cidade”, ela conta.

“Historicamente, a violência cometida pelo Estado, incluindo a tortura, não recebe atenção da mídia, ao contrário do que acontece com casos de violência familiar ou de violência cometida por criminosos, que sempre ganham o horário nobre dos noticiários de televisão”, conta. “A razão é que as principais vítimas da violência do Estado são pessoas pobres. E os pobres no Brasil têm de ser invisibilizados. É como se houvesse uma tentativa das elites políticas e econômicas de invisibilizar o problema da pobreza e da violência que se abate sobre este setor ”, analisa.

Apesar desse quadro, Vera acha que a sociedade brasileira, aos poucos tem avançado na proteção dos direitos humanos, destacando esforços de alguns setores do governo. “É impressionante a discrepância entre a truculência de setores do Estado brasileiro e a preocupação sincera com a defesa dos direitos humanos de outros setores desse mesmo Estado”, ela diz.

Reparação integral

Para ela, o melhor exemplo de avanço nessa área é o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3, resultado da mobilização de amplas forças sociais em Conferências Nacionais e lançado em dezembro de 2009 pelo presidente Lula da Silva. Na opinião de Vera, embora o Programa tenha sofrido alterações nos primeiros meses deste ano, ele representa um avanço nos esforços pela proteção dos direitos humanos no país.

Vera não está mais trabalhando na equipe clínica do GTNM-RJ, mas sua militância contra a violência do Estado continua. Ela participa de um grupo de terapeutas que se encarrega da criação de uma política pública nacional para a atenção aos afetados pela violência de Estado, e também das atividades de uma organização que trabalha pela reparação e memória de crimes de Estado - o Fórum de Reparação e Memória do Rio de Janeiro.

Sua militância atual reflete suas preocupações quanto à necessidade de que processos de reparação às vítimas de tortura e outros tipos de violência do Estado sejam integrais e não se restrinjam à compensação financeira. “É necessário ampliar o conhecimento sobre os acontecimentos, julgar os responsáveis e criar memória do que se passou”, ela diz.

Nos últimos anos, milhares de pessoas que foram perseguidas pelo regime militar têm recebido compensações econômicas do Estado brasileiro. Vera teme que a compensação econômica acabe tendo um efeito perverso. “A reparação econômica pode fazer com as pessoas se calem, com que elas silenciem seus clamores por justiça”. Aos 64 anos de idade, Vera continua trabalhando para impedir que esse silenciamento ocorra.

Para saber mais:

  • GTNM/RJ
  • Homenagem na Comissão da Anistia no Dia da Mulher 2010 - No Dia Internacional da Mulher no dia 8 de março de 2010, Vera Vital Brasil estava entre as 15 mulheres perseguidas politicamente durante o regime militar que foram homenageadas em sessão especial de julgamento da Comissão de Anistia do Ministério da Justica do Brasil.
* Artigo originalmente publicado no site do IRCT

sábado, 26 de junho de 2010

Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura

Hoje é o Dia Internacional das Nações Unidas de Apoio às Vítimas da Tortura. Para quem, como eu, trabalha na área de comunicação de uma organização voltada para proteção e tratamento de vítimas de tortura, este é o dia mais importante do calendário anual de atividades profissionais.

Nas últimas semanas, repetindo o que tem acontecido todos os anos desde que comecei a trabalhar no Conselho Internacional para Reabilitação de Vítimas de Tortura (IRCT), meus colegas e eu trabalhamos dobrado para tentar fazer de hoje um dia para ser lembrado pelo maior número possível de pessoas. Acho que este ano, graças ao poder das mídias sociais, conseguimos transmitir nossa mensagem a um número maior de pessoas (dê uma olhada no facebook.com/worldwithouttorture e o bloggersunite.org/event/international-day-in-support-of-torture-victims)

Nos últimos dias, falei muito sobre as vítimas de tortura e hoje quero reverenciar aqueles que, apesar da experiência dilacerante e desesperadora pela qual passaram, não desistiram da vida e continuam tentando acreditar na humanidade.

sábado, 19 de junho de 2010

Dinamarca vence Camarões na noite clara de verão

Assisti ao jogo Dinamarca versus Camarões ao lado do meu marido, que é dinamarquês. No primeiro tempo só fiquei dando uma olhadinha de vez em quando na telinha. Para falar a verdade, não colocava muita fé no time vermelho e branco. Mas devo dizer que a boa atuação dinamarquesa me surpreendeu e acabei prestando mais atenção ao jogo no segundo tempo.

Até que tentei torcer para a Dinamarca, o que é um exercício um tanto quando desanimador. Quando o time fez o primeiro gol, fiquei esperando para ouvir gritos de júbilo ecoando pela cidade de Copenhague. Mas que nada. As ruas do bairro onde moro continuaram desertas, a noite clara de verão se manteve inalterada, pontilhada apenas pelo canto de um pássaro aqui, outro acolá e pelo som distante da autoestrada vizinha do quarteirão.

Aí veio o segundo gol da Dinamarca. Desta vez, pensei, a reação entusiasmada dos torcedores vai se fazer ouvir. Abri a janela da sala e esperei: um, dois, três, quatro, cinco e... nada. Decepção. De novo tudo calmo e plácido. Nenhum berro de alegria, nenhum fogo de artifício, nenhuma buzina. Que paz! Que tranquilidade! Enfim, que chatice!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Papel indesejado

O que se diz a um amigo que você acabou de saber que está com câncer? Ontem fiquei sabendo que uma amiga está com câncer de mama. A notícia, claro, me entristeceu muito e também me fez passar o dia pensando sobre o que é certo e errado dizer para alguém que está para enfrentar os que provavelmente serão os piores meses da vida dela.

Não dá para enfeitar e diminuir a coisa. O tratamento contra o câncer é barra pesada. Mas, como também disse à minha amiga, é um período dificílimo que, felizmente na grande maioria dos casos, termina com bons resultados.

O que eu não disse a ela é que a operação para retirada do tumor é o primeiro de uma série de procedimentos e rotinas que vão nos colocando num papel ao qual muitas de nós não estamos habituadas: o papel de doente. Mesmo depois de findo o tratamento mais intensivo e mesmo contra nossa vontade, o papel que nos é imposto continua a nos perseguir.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ensaio clínico

O lançamento da campanha Mundo Sem Tortura (www.worldwithouttorture.org) não foi a única coisa que me manteve ocupada nas últimas semanas. Dias atrás estive novamente no hospital onde recebi tratamento contra o câncer de mama para um exame de rotina e a médica que me atendeu me deu uma informação que me deixou com uma pulga atrás da orelha.

Depois de terminada minha quimioterapia, recebi por um ano o medicamento trastuzumabe (nome comercial: Herceptin, uma droga que havia apresentado resultados muito bons no tratamento do meu tipo de câncer, o HER2 positivo. O trastuzumabe foi usado para inibir a expressão da proteína HER-2, que aumenta a possibilidade de recorrência do câncer e acelera a multiplicação das células cancerosas.

O trastuzumabe começou a ser usado há menos de 10 anos e só agora está se vendo os resultados a longo prazo do tratamento com a droga. Segundo a médica, infelizmente está se observando que, anos depois do tratamento terminado, o câncer volta a atacar muitas das mulheres que foram tratadas com trastuzumabe. Perguntei o que ela queria dizer com “muitas”, mas a resposta foi evasiva. “Mais do que gostaríamos de ver”, foi a resposta.

Perguntei também quais as minhas chances de que o câncer volte daqui a 5, 10 anos, mas ela novamente evitou uma resposta muito clara. Disse que era muito difícil fazer uma avaliação mais precisa porque há inúmeros fatores envolvidos, como idade, reação ao tratamento, tamanho do tumor etc e tal. Na consulta, a médica me ofereceu a oportunidade de participar do ensaio clínico de uma droga nova, a neratinib, inibidora da HER-2.

Saí de lá desanimada, com todas aquelas nuvens sombrias e eu havia esquecido havia algum tempo me perseguindo novamente, mas quase decidida a aceitar participar do ensaio. Só faltava eu conversar com meu marido. Achava que ele deveria ser informado da minha decisão, já que os efeitos colaterais do remédio poderão afetar um pouco nossa rotina.

No dia seguinte à consulta comuniquei a equipe do hospital que aceitava entrar no estudo. Na minha decisão pesou muito a lembrança dos dias de quimioterapia. Dias como aqueles quero tentar evitar.

Por um mundo sem tortura: A World Without Torture

Imagine um mundo onde não existe tortura. Este é o sonho que o IRCT (Conselho Internacional para Rehabilitação de Vítimas de Tortura) está procurando compartilhar com o maior número possível de pessoas através de uma campanha no Facebook.

A adesão à campanha, da qual sou uma das principais coordenadoras, tem sido fantástica. Em dois dias, mais de 1.100 pessoas se juntaram à campanha.

Olha o link aqui: www.facebook.com/WorldWithoutTorture

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mesmice

Para variar, ando ocupadíssima no trabalho e em casa. Mas a razão principal do meu recente afastamento do blog foi que de um dia para o outro comecei a achar que me faltava assunto. Pensei em escrever sobre a primavera, a maravilhosa profusão de cores dos jardins de Copenhague, mas me lembrei que já escrevi sobre isso. Poderia registrar que as árvores estão novamente se cobrindo de verde, que a ameixeira do vizinho logo estará belíssima coberta por seu véu de flores brancas ou que os narcisos exageram no amarelo desavergonhadamente alegre. Mas tudo me pareceu repetitivo e banal.

Comecei a achar que pouca coisa fazia sentido nessa alegria que sinto toda vez que a temperatura começa a aumentar e os dias se tornam longos e as noites claras. Tudo se repete, entra ano sai ano, tudo é igual.

Minhas divagações quase existencialistas continuaram um pouco mais e até começaram a fazer meu ânimo murchar. Aí dei um chega para lá em tanta elucubração. Melhor seguir, ir em frente, mesmo não sabendo bem para onde.

Aí a primavera esvaneceu, o frio voltou. Estes primeiros dias de maio têm sido os mais frios do mês em anos. Na manhã da última segunda-feira a temperatura chegou a -1,6 graus centígrados. Fazia cinco anos que não havia uma manhã de maio tão fria quanto essa. Os meteorologistas não prometem temperaturas muito mais altas nos próximos dias, o que me faz quase lamentar meus questionamentos sobre a banalidade da minha alegria primaveril. Me senti punida pelo frio, acompanhado de um vento irritante, que me obrigou a voltar a calçar botas de cano alto e empacotar minha filha em luvas, touca, e casacão de inverno.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Brasília 50 anos

A cidade onde nasci, Brasília, faz 50 anos hoje. A neve que caiu hoje em Copenhague , em pleno mês de abril, fez a saudade do céu quase sempre azul da minha cidade natal aumentar.

Ontem, jornal dinamarquês Politiken publicou artigo de página inteira na capa do caderno de cultura sobre Brasília. O assunto principal da matéria foi, como era de se esperar, a arquitetura da cidade. Mas o artigo lembrou também a onda de escândalos que nublou o ânimo de quem pretendia comemorar o aniversário da capital brasileira. O autor da reportagem, o jornalista Henrik Jönsson, classificou a cidade como a mais corrupta do país. No artigo ele não revela os dados em que se baseou para fazer tal afirmação, mas fica difícil contestá-lo diante da roubalheira no governo local que veio à tona nos últimos meses. E, pelo bem dos brasileiros, torço mesmo para que não exista um lugar no Brasil que seja mais corrupto do que Brasília é agora.

sábado, 17 de abril de 2010

Aniversário da Margrethe II, de novo

Hoje todos os ônibus da Dinamarca circularam com bandeirinhas brancas e amarelas. Havia “dannebrog” hasteada para todo lado que se olhava. “Dannebrog” é o nome da bandeira dinamarquesa, que é usada para marcar aniversários de nobres e plebeus na Dinamarca. A profusão de bandeiras de todos os tamanhos de hoje marcou o septuagésimo aniversário da rainha Margrethe II.

O dia foi de festa para a rainha e muitos dos súditos mais leais. Milhares de pessoas foram a Amalienborg, a praça onde fica o palácio real, para cumprimentar de longe a aniversariante, que apareceu com o marido, filhos, noras e netos, numa varanda para acenar lá do alto para as milhares de pessoas lá embaixo. Eu não estava entre eles. Meu trabalho é bem perto do palácio real, mas hoje tive um curso no outro lado da cidade e nem precisei chegar perto das celebrações.

No carro, a caminho do curso, ouvi no rádio um historiador que, ao falar do nascimento e relembrar os momentos mais marcantes da vida da rainha, me deu algumas dicas para tentar entender por que a Margrethe II é tão popular. O historiador, cujo nome não ouvi, contou que Margrethe, a mais velha das três filhas do rei Frederik IX, nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca estava sob ocupação alemã. Para o historiador, o nascimento daquela criança reavivou em muitos a esperança de um futuro melhor.

Durante a ocupação alemã, a monarquia ganhou popularidade, principalmente devido à atuação do rei da época, Christian X, avó de Margrethe II. A atitude altiva do rei diante dos alemães foi admirada pelo povo e ajudou a manter a dignidade dos dinamarqueses, algo fundamental para manter a unidade do país que se rendeu praticamente sem resistência aos invasores.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Aniversário da Margrethe II

Amanhã a rainha da Dinamarca, a Margrethe II, vai comemorar seu septuagésimo aniversário em grande estilo e com uma pequena polêmica criada pelo jornal dinamarquês Ekstra Bladet que vem publicando uma série de reportagens sobre o quanto a família real custa aos pagadores de impostos do país, grupo no qual aliás estou incluída. Muitos aqui ficaram surpresos quando descobriram que manter a família da dona Margrethe é bem mais caro que que se imaginava.

A família real recebe 95 milhões de coroas dinamarquesas isentos de impostos (algo em torno de 30 milhões de reais) por ano como uma espécie se salário. Além disso, várias despesas da família, como o navio em que viajam todo ano no verão, despesas de manutenção dos castelos reais, mais 76 agentes de segurança que acompanham a rainha Margrethe, o marido dela, filhos e respectivas esposas e netos, elevam os gastos para a soma de cerca de 400 milhões de coroas dinamarquesas por ano (aproximadamente 127 milhões de reais, o dinheiro brasileiro).

Mas tudo isso não impediu que a prefeitura de Copenhague, que está em dificuldades financeiras para manter serviços públicos como creches e jardins de infância, desse um presente de 230.000 coroas à rainha. Do governo federal, o presente foi ainda maior: 300.000 coroas, que serão usadas no jardim de roseiras do castelo onde a rainha passa os meses de verão. Tenho certeza que vai ficar lindo o roseiral da rainha.

domingo, 11 de abril de 2010

Aniversário da Margrethe

A rainha da Dinamarca, a Margrethe II, vai completar 70 anos na próxima sexta-feira, 16 de abril, e o que não vai faltar é festa para comemorar. A Dinamarca inteira se prepara para celebrar sua regente.

Ou melhor, a Dinamarca quase inteira. Hoje li no jornal que um grupo de republicanos, o Republikanske Grundlovsbevægelse, que eu livremente traduzo como algo próximo de Movimento Constitucional Republicano, queria marcar a data com uma manifestação pelo fim da monarquia. O grupo queria se manifestar na praça Amalienborg, onde ficam os palácios da família real, e na mesma hora em que a rainha sair na varanda para acenar aos súditos que estarão lá embaixo na rua olhando para cima com o pescoço doendo de esperar para cantar parabéns. Mas o plano esperto dos monarquistas não deu certo. A polícia de Copenhague proibiu a demonstração republicana.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Estica estica

Hoje saí literalmente pulando de alegria do Rigshospitalet, o hospital onde tenho recebido tratamento contra o câncer e passado pelos vários procedimentos para reconstrução do seio. A cirurgiã plástica que me operou e que está acompanhando o meu caso decidiu que eu não precisava de uma nova injeção de solução salina no peito. Ou seja, o processo para esticar a pele do meu peito e assim possibilitar a colocação de uma prótese definitiva acabou. Que alívio! Agora posso retomar meu ritmo normal de vida, sem as dores e o desconforto que me têm acompanhado nas últimas semanas.

Na semana passada recebi a terceira e última injeção da solução salina que está sendo usada para expandir a pele. Como a aplicação foi de apenas 50 ml, em vez dos 100 ml que havia recebido duas semanas antes, tive bem menos dores e tive uma semana fisicamente mais agradável. Me alegro que em breve vou poder retomar minhas corridas e pedaladas para o trabalho.

Chuvas de abril

Tem chegado aos jornais e canais de TV daqui as terríveis consequências das chuvas que estão atingindo o Rio. Um exemplo: http://www.berlingske.dk/verden/styrtregn-koster-77-livet-i-brasilien

quarta-feira, 24 de março de 2010

Aviso e lamento

Aviso às navegantes: o método de reconstrução do seio com o uso de um expander dói sim senhor. Quem estiver pensando em usar este método deve se preparar porque a coisa pode doer muito.

Ontem deveria ter voltado ao hospital para receber a terceira e última injeção de solução salina no meu peito. Mas, no dia anterior, tive que ligar para o hospital para cancelar a aplicação. Percebi que não aguentaria outra semana cheia de dor e desconforto físico como a que acabara de experimentar. A aplicação foi adiada por uma semana e já decidi que da próxima vez pedirei para receber um volume menor do que os 100 ml que recebi a semana passada.

Logo depois da aplicação da semana passada, comecei a sentir dores fortes no lado esquerdo do peito e no ombro esquerdo que continuaram pelos dois dias seguintes. Os analgésicos não foram suficientes para diminuir a dor que se alastrou pelo braço esquerdo e pelas costas. O desconforto e dor eram maiores na hora de ir para a cama, onde ficava horas procurando inutilmente uma posição que não causasse dor e acabava dormindo de puro cansaço. Também quase não consegui trabalhar porque sentada eu também não conseguia ficar por muito tempo. Ontem e hoje comecei a me sentir melhor. A dor passou, embora o desconforto continue quando vou dormir e a região do seio reconstruído ainda esteja muito dolorida.

Nesses dias, em nenhum momento pensei que não deveria ter feito a operação para reconstrução do seio, mas me irritei com o fato dos médicos não terem me preparado para a dor que poderia sentir. Me avisaram que haveria alguma dor, que seria facilmente aliviada com analgésicos comuns, mas o que senti foi muito pior do que esperava.

No auge da minha angústia, procurei na internet informações sobre a ocorrência de dor em procedimentos como o meu e quase invariavelmente li textos assinados por médicos garantindo que o método não causa dor. Em meio a tanto otimismo, achei um ou outro médico que admitia que algumas pacientes sofriam bastante dor, especialmente a partir da terceira ou quarta aplicação.

Depois fui atrás de depoimentos de pacientes que haviam passado pelo mesmo procedimento e aí a história mudou de figura. Várias delas haviam passado pelo mesmo que passei. Depois, quase por coincidência, fiquei sabendo de uma conhecida que está numa fase mais avançada do mesmo método que também tem sofrido bastante.

Me senti quase enganada. Claro que não gosto de dor, mas consigo conviver melhor com ela se sei que terei que enfrentá-la. E desta vez fui pega de surpresa.

sábado, 13 de março de 2010

Glauco

Nossa, mataram o Glauce e o filho dele! Que tristeza! Que absurdo!
Fiquei chocada e triste.
Parece até que era alguém que eu conhecia de perto. Talvez conhecesse mesmo, só que através dos seus personagens da pá virada. O Geraldão era quase como se fosse um primo doidão.
Emocionante ver as homenagens ao Glauco no www.universohq.blogspot.com
Que perda!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Prêmio controverso

Às vezes aqui na Dinamarca me sinto sozinha no meu jeito de pensar, como se eu fosse a única em toda essa pequena nação que enxergasse o absurdo na maneira como alguns políticos dinamarqueses falam de pessoas que têm religião e cultura diferentes das deles. Como se eu fosse a única que se enfurecesse quando políticos do partido de extrema direita que participa da aliança governista, sem o menor constrangimento, dizem horrores como "os homens muçulmanos não só matam suas filhas como também fingem não ver que elas são estupradas pelos tios delas".

Embora eu não saiba onde estão, talvez porque não ganhem espaço na mídia, deve haver muitos aqui que pensam como eu. Mesmo assim frequentemente chego a me achar uma esquisita, como se minhas opiniões contra a discriminação religiosa que os muçulmanos sofrem aqui na Dinamarca fossem tão radicais que me transformassem numa extremista.

Por isso me senti de alma lavada quando semanas atrás li uma longa entrevista com o escritor dinamarquês Carsten Jensen no jornal Politiken. Ele é um dos romancistas e ensaístas contemporâneos mais populares e premiados na Dinamarca, autor de “Vi o mundo começar" (minha tradução do título em inglês I've seen the world begin. ) e Nós, os afogados (minha tradução do título original em dinamarquês, "Vi, de druknede”).

Nessa entrevista Jensen disse:

“ - Se eu fosse imigrante, eu me se sentiria muito ofendido pelo modo como se referem a mim (…) Eu me sentiria diminuído”.

Recentemente ele recebeu o prêmio Olof Palm, por seu “humanismo, sensatez e fé no futuro”, concedido pelo Fundo pelo Entendimento Internacional Olof Palm. O prêmio o colocou ao lado de laureados nobres e respeitados como Anistia Internacional (1991), Václav Hnavel (1989), Daw Aung San Suu Kyi (2005), a ativista iraniana Parvin Ardalan (2007). Ao invés de se orgulharem do reconhecimento recebido pelo conterrâneo, muitos dinamarqueses ficaram furiosos com o prêmio e a imprensa reagiu de forma surpreendentemente negativa.

“Carsten Jensen recebe 400.000 coroas por criticar a Dinamarca” (Carsten Jensen får 400.000 kr. for at kritisere Danmark ), foi a manchete do Politiken, que é o mais à esquerda entre os três grandes jornais do país. Algo no mesmo tom saiu no site do DR, o maior canal de TV do país. Leitores do jornal chamaram o escritor de hipócrita e covarde e alguns pediram que ele se mudasse para a Suécia.

Tanta reação quase me chocou. Mas depois de ler um pouco mais sobre Jensen, comecei a entender tanta ira. Como um outro leitor do Politiken comentou, as reações furiosas são uma prova de que “... Carsten Jensen acerta no cerne do problema com a Dinamarca. Carsten Jensen mereceu esse prêmio. Peguem um Kleenex e sequem o ódio dos estrangeiros de suas faces” (minha tradução).

sábado, 6 de março de 2010

TV dinamarquesa: Brasil – a nova potência mundial

Interessante ver como a imagem do Brasil mudou por estas bandas. Esta semana o canal de televisão DR2, que com seus bons documentários e programas jornalísticos na minha opinião é o melhor canal aberto da Dinamarca, dedicou uma série de reportagens ao Brasil no programa DR2 Udland (DR2 Exterior), transmitido de segunda a sexta-feira. O nome da série diz muito sobre como os dinamarqueses estão começando a ver nosso país: Brasil – a nova potência mundial (Brasilien – verdens nye stormagt).

As reportagens trataram de várias questões como a boa fase da economia brasileira, as ambições brasileiras no cenário diplomático e militar internacional, sucessão do Lula, racismo e desigualdade social. Tudo de uma maneira bem superficial, embora eu não ache que tenham dito nada errado, mesmo que eu não concorde muito com algumas das opiniões emitidas.

De qualquer maneira, já não era sem tempo. Adoro samba, futebol e sou defensora ardorosa das florestas brasileiras, mas já estava cansada de sempre ouvir falarem do meu país como se lá os homens não fizessem outra coisa a não ser jogar futebol e as mulheres andassem o ano inteiro trajando fio dental e dançando samba no meio da Floresta Amazônica, onde, claro, está fincada a estátua do Cristo Redentor. Claro que há muitos dinamarqueses extremamente bem informados sobre o que acontece ao sul da linha do Equador, mas também há muitos que só agora estão descobrindo que há mais do que samba, floresta e futebol no lugar de onde veio. Agora só precisam descobrir que falamos português e não “brasiliansk” nem espanhol.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Contra a maré

Uma organização de estudos sociais e econômicos mantida pelos sindicatos (Arbejderbevægelsens Erhvervsråd - AE) acaba de publicar um estudo que mostraria que, em 2007, 200.000 dinamarqueses, numa população de pouco mais de 5 milhões de pessoas, vivem na pobreza, definida de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, em inglês), segundo a qual pobres são aqueles com renda abaixo de metade da renda média do país.  De acordo com o estudo do AE, o mais alarmante é que o número de pobres na Dinamarca cresceu 50 por cento no período que vai de 2001 a 2007 e não há nada que indique que a tendência se reverteu nos últimos dois anos, marcados por crise econômica e aumento do desemprego.

Muitos, inclusive o governo, contestam os números do AE, dizendo que o conceito de pobreza relativa da OECD é simplista e enganoso pois não dá uma imagem muito clara da realidade. Afinal, que pobre do Brasil não gostaria de viver com 8.400 coroas (cerca de 2.800 reais) por mês, que equivalem a metade da renda média dos dinamarqueses? Outra crítica é de que, em tempos de crescimento econômico, como foi o período 2001-2007, a renda total cresce e, consequentemente, a média da renda também, o que acaba colocando mais gente abaixo da linha da pobreza, mesmo que a a renda real dessas pessoas tenha se mantido inalterada.

Sem dúvida, pobreza, como medida pela AE, parece luxo na parte pobre do mundo e até no Brasil onde o salário mínimo é de apenas 1.500 coroas. Mas, não dá para negar que, se não mede a pobreza de forma precisa, o estudo da AE mostra, no mínimo, que a desigualdade social na Dinamarca está aumentando. O que, na minha opinião, não deixa de ser lamentável, ainda mais quando lembramos que 2010 é o Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Mudanças de estação

De volta para casa há uma semana, ainda me recuperando da cirurgia plástica, estou tendo um pouco mais de tempo para ler os jornais dinamarqueses, onde a um bocado de notícias sobre as mudanças no ministério feitas pelos dois partidos de centro direita que estão há dez anos no poder, o Venstre e o Konservativ. Os novos ministros, que assumiram na semana passada, tem muito o que fazer já que pelo terceito mês consecutivo, pesquisas de opinião indicam que o governo perdeu apoio da maioria da população. Se houvesse eleição hoje, os partidos de centro esquerda venceriam com 50,7% dos votos contra 49,3% dos partidos da base governista.

As mudanças políticas parecem ter trazido mudanças no tempo. Finalmente parece que a primavera está chegando. As noites ainda estão geladas, mas aparentemente os dias com temperaturas abaixo de zero terminaram por esta estação. O gelo está derretendo lentamente e logo será hora de voltar ao jardim, onde as flores de primavera mais audaciosas já começam a desafiar o frio.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Enfermeiro de contato

Falando sério agora. Esta internação atual comprovou a impressão que tenho do sistema hospitalar na Dinamarca. O atendimento que tenho recebido é realmente de primeira, embora não haja luxos. Aliás nem acho que um sistema público de saúde deva se dar ao luxo de proporcionar luxos. Deve apenas dar o melhor atendimento possível. Conheço algumas pessoas que tiveram experiências ruins em hospitais de Copenhague, mas eu não tenho do que me queixar.

Preciso novamente escrever sobre a gentileza, presteza e atenção que recebo dos enfermeiros dinamarqueses. Falo enfermeiros porque nesta internação pela primeira vez recebi os cuidados de enfermeiros do sexo masculino. Um deles é meu enfermeiro de contato, o que quer dizer que é ele quem vai acompanhar meu caso. Pare ele, só tenho elogios. Além de gentil, prestativo e atencioso, é doce e simpático.

Acesso de Dercy Gonçalves

Olhando para o resultado da cirurgia plástica por que passei três dias atrás, acho que consigo entender o prazer que Dercy Gonçalves sentiu ao expor orgulhosamente os seios cheios de silicone no desfile da Unidos do Viradouro no carnaval carioca em 1991. Quando olho para o ainda arremedo de seio que resultou da operação, me sinto não só alegre, mas também quase orgulhosa e tenho vontade de mostrá-lo a todas as visitas femininas que tenho recebido, como se fosse a oitava maravilha da cirurgia plástica mundial.

Se obedecesse aos meus instintos, sairia pelos corredores do hospital, a minha passarela do samba, com os seios desnudos ostentando meu peito impávido, embora nem tão colossal. Poderia até usar minha maca como uma espécie de carro alegórico empurrado pelos enfermeiros que certamente me acompanhariam num cortejo barulhento e alegre.

Mas meus pruridos moralistas me impedem de levar adiante a ideia de um desfile peitoral. Afinal, o carnaval já passou. E tem mais. Eu correria o risco de ter minha alegria confundida com loucura e de me ver transferida para o departamento psiquiátrico do hospital.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

De uma cama de hospital

Adoro avanços tecnológicos que me permitem, aqui, de uma cama de um hospital na Dinamarca, continuar a escrever meu blog, me comunicar com minha família e continuar acompanhando o noticiário no Brasil. Pois é, estou novamente internada no Rigshospitalet, o maior hospital da Dinamarca. Desta vez o motivo me deixa alegre: fui submetida a uma cirurgia plástica para reconstrução do meu seio esquerdo, a que foi removida devido ao câncer de mama.

A cirurgia aconteceu antes de ontem e tudo correu como planejado. Os médicos fizeram um corte de uns cinco centímetros sobre a antiga cicatriz e colocaram sob a pele e músculo peitoral uma espécie de balão chamado de expander (ekspander em dinamarquês) que encheram com uma solução salina. Daqui a duas semanas terei de voltar ao hospital para que o balão receba mais líquido. O enchimento do balão vai se repetir por outras quatro a seis vezes. Três a quatro meses depois da última vez que encherem o balão do meu peito, serei operada novamente para que um implante definitivo de silicone seja implantado.

Todo o procedimento com o expander se fez necessário porque, quando fui operada para retirada do tumor, parte da pele do peito também foi retirada. Portanto, para que um implante de silicone coubesse sob a minha pele, ela teria de se expandir, o que está sendo possível graças ao expander.

Ufa! Espero que minha explicação de paciente leiga esteja correta. Tanta explicação científica me lembra dos meus tempos de repórter da revista Ciência Hoje. Ah, que saudade de jornalismo científico. Por favor médicos de plantão, me corrijam se escrevi alguma besteira.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Que vergonha!

Fiquei sabendo da prisão do governador eleito do Distrito Federal José Roberto Arruda com um dia de atraso. Só hoje à noite vi as manchetes dos jornais brasileiros sobre o assunto. Fiquei surpresa, pois não tinha muita esperança de que o fosse se desenvolver tão rapidamente, e aliviada. Quem sabe Brasília finalmente se livre dessa corja que tomou conta da minha cidade natal.

Algo que me deixou boquiaberta e até um pouco constrangida porque ainda me considero uma jornalista, embora esteja afastada da profissão, foi a participação de tantos jornalistas nas tramoias do Arruda. O que me deixou ainda mais de queixo caído foi ver jornalistas com quem trabalhei em jornais de Brasília envolvidos até o pescoço no mensalão do governo do DF.

Pensei sobre o que teria a dizer a esses meus ex-colegas. Só duas palavras: Que vergonha!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cidade dos ciclistas II

Hoje fui de bicicleta para o trabalho e quebrei o jejum de seis semanas sem pedalar. Foi ótimo voltar a me mover sobre duas rodas e a temperatura de três graus centígrados negativos não foi grande problema, mas amanhã vou ter de reavaliar se vou me atrever a pedalar novamente. Algumas das pistas que uso no caminho para o trabalho, principalmente as daqui perto de casa, continuam cobertas de gelo ou neve. Pedalei do trabalho até o jardim de infância da minha filha, mas de lá achei melhor andar puxando a bicicleta com minha filha sentada na cadeirinha da garupa para não correr o risco de queda.

Nisso tenho que dar o braço a torcer: dinamarquês é mesmo duro na queda quando se trata de pedalar. Mesmo com o gelo cobrindo as pistas e montes de bloqueando ruas, ele não desiste do bom hábito de pedalar. É claro que há exceções: em dias de tempestades de neve ou vento, quando até mesmo o serviço de meteorologia aconselha ciclistas e motoristas a usar o transporte público, há pouquíssimos que ousam desafiar a sorte.

Mas desde que voltei do Brasil tenho visto o trânsito de bicicletas pouco alterado pelos centímetros e centímetros de neve que têm caído em Copenhague. É certo que o número de ciclistas sempre diminui no inverno, mas dá par ver que a grande maioria dos ciclistas já está de volta às pistas depois da tempestade de neve da semana passada. Aliás, de acordo com o blog www.copenhagenize.com, diariamente cerca de 500.000 pessoas preferem pedalar a usar carros ou o transporte coletivo Copenhague. Isso corresponderia a 37 por cento das pessoas que cruzam os limites da cidade e 55 por cento das pessoas que vivem no centro da capital dinamarquesa.

A rede excelente de ciclovias e a boa sinalização das ruas estimulam e tornam mais seguro pedalar em Copenhague. A geografia também ajuda. A cidade é predominantemente plana, com poucas e suaves elevações.

Fazendo bom uso de tantas condições vantajosas, os habitantes de Copenhague se movem e movem quase de tudo em suas bicicletas. Já vi gente se equilibrando sobre as duas rodas carregando galões de tinta, cachorro, gato, engradados de cerveja, uma poltrona, outra bicicleta, árvore de natal, pneus de carro, material de construção e televisão. De modo geral a ousadia é bem sucedida, embora também já tenha visto o asfalto da pista para ciclistas coberto com a tinta verde que alguém deixou derramar, provavelmente devido a uma queda da bicicleta.

Tudo que é tipo de bicicleta se encontra por aqui: com cesta na frente do guidom, com cesta no bagageiro, com três rodas, a chamada bicicleta Christiania (link) que tem um vagãozinho na frente para crianças, modelo tradicional, modelo mountain bike, elétricas, com dois guidons para ciclistas apaixonados, com cabo puxando uma terceira roda para uma criança ir pedalando atrás .
Algo que adoro ver são as flores de plástico que enfeitam as cestas das bicicletas das moças mais românticas, como a vista nesta bela foto do Lars Daniel no Flickr.

Sobre os perigos de se pedalar em pista coberta de gelo, vale dar uma olhada no vídeo abaixo, feito na Holanda, outra terra de ciclistas. Felizmente, parece que ninguém se machucou, mas fica a pergunta: por que o ser humano que filmou o vídeo não desceu para a rua para colocar um pouco de sal ou areia na pista e ajudar a evitar as quedas?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Brrrrrrr

Hoje vi uma poça d'água líquida na porta de casa ontem de manhã. Grande coisa, o caro leitor deve estar pensando. Mas é grande coisa sim senhor. Desde que voltei de um mês de férias no Brasil, no sábado, foi a primeira vez que vi uma poça de lama em estado líquido. Até então, neste que foi o janeiro mais frio dos últimos 23 anos na Dinamarca, água ao ar livre, só congelada. Foi uma visão alvissareira de início de fevereiro que, no entanto, durou pouco.

De 1 grau centígrado de manhã, a temperatura caiu para menos dois à tarde, e teria despencado para cerca de 12 graus negativos hoje à noite, segundo o serviço meteorológico daqui. Tentei checar se a baixíssima temperatura se confirmou, mas site do instituto de meteorologia da Dinamarca estava fora do ar, provavelmente como consequência do aumento da procura por informações sobre a tempestade de neve que está começando agora.

(Agora! “Calma, calma, não entre em pânico”, digo a mim mesma.)

Daqui a pouco vou buscar minha filha no jardim de infância e acabei de saber que o pior da tempestade vai ser entre as 15 e as 19 horas. Legal né? Eu havia planejado sair de casa exatamente às 15 horas. Acho que vou ter de rever meus planos.

Ontem, concluí que hoje não daria para usar o automóvel para buscar minha filha. O pai a levou de manhã, quando o vento ainda não era forte, mas hoje à tarde vou ter de enfrentar a tempestade a pé puxando um trenó de plástico no qual vou puxar a Gabi no caminho de volta para casa. Ela, claro, vai adorar, se o vento não estiver forte demais e fazer com que a neve doa quando bater na pele do rosto, a única parte descoberta do corpo.

Ontem foi quase impossível encontrar um lugar seguro para estacionar já que a rua do jardim de infância está quase bloqueada pela neve. À tarde, quando tentei estacionar, o carro patinou na neve e tive de manobrar de ré para não ficar atolada. Dei uma volta pelo quarteirão para tentar achar uma vaga e voltei ao mesmo lugar da patinação automobilística, onde a rua ficou bloqueda por 15 minutos por neve e um carro estacionado meio na transversal pela mãe de um coleguinha da minha filha.

Bonito né? Realmente é muito bonito. Tudo branquinho, coberto de neve. Mas dá um trabalho. E me faz lembrar com saudade das férias na Bahia e cantarolar “I don't want to stay here, I wanna to (sic) go back to Bahia” (confira o Paulo Diniz no link enviado por uma amiga.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Cidade dos ciclistas

No blog da Ilana descobri um vídeo legalzinho sobre Copenhague como a cidade dos ciclistas. Uma bela canção da inglesa Kate Melua explica porque talvez Pequim seja mais merecedora do título do que Copenhague. Lá existiriam 9 milhões de ciclistas. Ainda assim não dá para negar que Copenhague talvez mereça o título europeu. A cidade é fantástica para quem adora usar uma ”magrela” como meio de transporte e, de lambuja, para manter a forma, proteger o meio ambiente e economizar dinheiro.

Com minha bicicleta vou para o trabalho, levo minha filha para o jardim de infância, faço compras, visito amigos e passeio. Pedalo com menos frequência no inverno, mas o frio, a não ser que a temperatura fique bem abaixo de zero grau, não costuma ser um empecilho. Um bom casaco, cachecol, toca, luvas e botas e o problema está resolvido.

O vento e o gelo são os grandes inimigos das minhas pedaladas. Dias de vento são quase uma rotina na Dinamarca e quando a velocidade do vento fica acima dos 15 metros por segundo, raramente me animo a pedalar os sete quilômetros que separam minha casa do trabalho. A neve que deixa as pistas como pistas de patinação é outro problema. Já caí algumas vezes a caminho do trabalho quando desafiei o bom senso e pedalei num dia em que tudo estava coberto pelo gelo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ajuda natalina

Então é Natal na Dinamarca. O país coberto de neve cria o que os dinamarqueses chamam de ”natal branco”, motivo de alegria para as crianças e adultos e transtorno para quem precisa ir de um lugar a outro. Olhando a pequena montanha de brinquedos que todos os anos cobre o piso embaixo e ao redor da árvore de natal da casa dos meus sogros, penso no número crescente de famílias dinamarquesas que têm pouco para e com o que comemorar neste Natal.

Segundo uma matéria de um jornal dinamarquês, a cada ano é maior o número de famílias que se candidatam a receber a chamada ”ajuda de natal” oferecida por instituições de caridade. Dez anos atrás, apenas 1060 famílias solicitaram a ajuda ao Exército da Salvação. Este ano, foram 9466 famílias. Uma outra organização, a ASF Dansk Folkehjælpe, recebeu dois anos atrás 2200 pedidos. Este ano foram 4500. A grande maioria dessas famílias tem orçamento apertado e no Natal precisam escolher entre encher a geladeira com comida para a ceia ou comprar presentes. Para evitar crianças decepcionadas, recorrem às instituições de caridade.

Se no Brasil, a desigualdade social aviltante sempre dá um tom triste ao Natal, aqui na Dinamarca, a pobreza é um problema mais sutil que se acentuou com a política liberal do governo atual. Claro que pobreza é um conceito relativo num país como a Dinamarca, onde o padrão de vida é bem mais alto que na maioria dos outros países, e especialistas, governo, sociedade civil e organizações internacionais não conseguem chegar a um acordo sobre como defini-la. Uma das definições mais aceitas é a da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, em inglês) segundo a qual pobres são aqueles com renda abaixo de metade da renda média do país.

A renda média media anual da Dinamarca é de 160 mil coroas dinamarquesas, o que coloca todos os que têm uma renda inferior a 96 mil coroas (equivalente a 32 mil reais) abaixo da linha de pobreza. Há estudos indicando que há cerca de 170 mil pessoas, incluindo aproximadamente 50 mil crianças, vivendo abaixo da linha de pobreza na Dinamarca.

A pobreza que se vê na Dinamarca é um luxo se comparada ao que chamamos pobreza no Brasil. Mas é inegável que a tendência observada aqui não é algo do que os dinamarqueses possam se orgulhar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Menu de Ano Novo - O negócio é brilhar

Acompanhe o que um grupo de brasileiros, incluindo eu (sortuda, hein"!?) e respectivas famílias vivendo na Dinamarca vão comer na passagem de ano. O menu preparado coletivamente muda a cada dia e parece cada vez mais apetitoso.

(atualizado em 30.12.2009, 14:24)

PRATO PRINCIPAL
Pernil de carneiro - AM
Pernil de carneiro - PT
Carne assada - CL
Salmão a la Bollywood - Margareth
Torta vegetariana - Ju
Algo ao gosto da garotada - Ly

COMPLEMENTOS
Farofa com bacon e ameixas – Margareth
Arroz com passas e amêndoas - Margareth
Salada de lentilha – AA
Salada - VP
Salada - RR
Pasta de grão de bico e pão sírio - DJ
Tabule - DJ
Pães de queijo - EM
Batatinhas a vinagret - AA

SOBREMESA
Pavê de ameixa - SP
Mousse de maracujá - SP
Mousse de maracujá ou limão - FCLR
Pudim de leite condensado - EM
Uvas – Margareth
Ris a la mande - AA "Se tudo der certo, pq sera meu primeiro :)"

TIRA-GOSTOS
Ly

BEBIDAS
Todos

DECORACÃO
AM e Margareth

domingo, 13 de dezembro de 2009

Espectatora

Através do Facebook recebi uma mensagem de uma conhecida que vive em São Paulo falando que havia se lembrado de mim nesses dias em que todos os olhos do mundo se viram para Copenhague por causa da Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas, que começou no dia dia 7 e vai até 18 de dezembro.

A mensagem dela me fez pensar e também lamentar não estar mais envolvida no que está acontecendo nesses dias por aqui. Afinal, embora nunca tenha sido uma militante ambiental de carteirinha, temas como o meio ambiente, recursos naturais e biodiversidade sempre me interessaram muito e até me motivaram a fazer um mestrado em planejamento e políticas ambientais na Inglaterra anos atrás. Embora as voltas que o mundo dá tenham me afastado do tema, procurei me manter informada sobre o que acontece na área de preservação ambiental, principalmente no Brasil.

Mas infelizmente meu ritmo de trabalho me impediu de acompanhar mais de perto o que anda acontecendo na conferência e eventos paralelos. Assim, para ser bem sincera e um pouco cínica, a conferência está sendo apenas um motivo para alterações no trânsito e evitar o centro da cidade e a área nas redondezas do local onde a reunião está acontecendo.

Outro motivo para meu desinteresse é meu pessimismo sobre os possíveis resultados da reunião. Quando o quanto se consome, principalmente nesta época do ano aqui na Dinamarca, fico desanimada. Acho que muitas poucas pessoas nos países mais ricos estão dispostos a abrir mão de uma milésima parte de seu consumo e conforto para salvar as populações nos países mais pobres, que poderão ser as grandes vítimas do aquecimento global.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Intolerância europeia

Estava indo de carro buscar minha filha no jardim de infância quando ouvi no rádio a notícia de que um referendo havia proibido a construção de mesquitas com minaretes no território suíço. Fiquei chocada e quase apavorada.

Eu já havia ouvido falar do referendo, mas nem havia me passado pela cabeça que a proibição seria aprovada. Achei que os suíços fossem colocar a extrema direita do país em seu devido escorraçando uma proposta ridícula que não tem cabimento num país que se diz democrático.

Mas não: a proposta não soou ridícula aos ouvidos da população suíça e a intolerância europeia se fez mostrar mais uma vez. Aqui na Dinamarca, o maior partido de extrema direita, o Danske Folkeparti, se apressou a declarar que também vai defender um referendo semelhante. Todos os demais partidos, tanto de direita, centro e esquerda rechaçaram a ideia, embora alguns de forma pouco convincente.

Um representante do Venstre, o partido de centro direita do primeiro ministro Lars Løkke Rasmussen, disse, apenas que um referendo do tipo suíço não vai acontecer na Dinamarca porque o parlamento daqui (Folketinget) não legisla sobre regras para construção de prédios, o que caberia aos governos locais. Dessa maneira, ao invés de condenar qualquer iniciativa semelhante e defender enfaticamente a liberdade religiosa, o partido do governo daqui preferiu evitar polêmica com o Danske Folkeparti, que lhe dá maioria no parlamento e lhe garante a continuidade no poder.

Agora é torcer para que O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos derrube essa proibição ofensiva. Enquanto isso, dou o link de uma foto da Mesquita do Centro Islâmico do Brasil lá na minha Brasília, que não é nenhum paraíso, mas onde todos os santos e deuses são permitidos: http://www.iesb.br/moduloonline/imgs/mesquita.jpg

domingo, 29 de novembro de 2009

Descoberta de São Paulo

A Dinamarca descobriu que São Paulo é uma das 10 melhores cidades do mundo para se visitar em 2009. Foi necessário que o Lonely Planet afirmasse isso para o jornal dinamarquês Politiken () ir atrás e publicar um artigo extremamente positivo sobre a cidade no caderno de turismo de hoje.

O problema é que a descoberta do jornal dinamarquês chegou com um ano de atraso. A lista do Lonely Planet foi divulgada em outubro de 2008 para o o anuário “Lonely Planet’s Best in Travel”, como registrado pela Época.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Gripe

A H1N1 anda fazendo estragos por aqui. As autoridades sanitárias preveem que um terço dos 1,6 milhão de habitantes de Copenhague será atingido pela gripe, que já fez seis vítimas fatais. Ainda é, felizmente, pouco, mas a epidemia aqui ainda está a caminho do auge de contaminação e mais mortes vão provavelmente acontecer em breve.

Há cartazes por todo lado com instruções sobre como prevenir a doença e o produto mais popular de farmácias, perfumarias e supermercados é gel antisséptico para as mãos.
Mas não é nada fácil evitar a contaminação num país que vive com as portas e janelas fechadas nos quase seis meses de inverno e onde as pessoas não têm o hábito de lavar as mãos antes das refeições. Hoje quase já me acostumei, mas nos meus primeiros anos de Dinamarca me surpreendi com os hábitos de muitos dinamarqueses. Coisas que para nós brasileiros parecem exemplos de pouca higiene ou péssimas maneiras à mesa, são normais por aqui. Um exemplo é comer verduras sem lavá-las antes. Ou cortar um pepino em rodelas um fatiar um pão diretamente sobre uma mesa da cantina do trabalho, ao invés de usar um prato ou tábua de cortar.

Por isso, em tempos de gripes porcas, passei a carregar na minha bolsa um tubinho de gel antisséptico. Às vezes me acho um pouco histérica com tanta precaução, inclusive porque até ser tarde demais: a gripe suína talvez já tenha passado aqui em casa. Na semana passada minha filha esteve bem gripada e pode até ter sido que ela tenha sido a primeira vítima da H1N1 aqui em casa.

domingo, 15 de novembro de 2009

Fruta exótica

O jornal que mais leio aqui na Dinamarca, o Politiken, tem um caderno semanal chamado comida (“Mad”) onde há sempre um artigo dedicado a uma fruta exótica. Na mesma seção do jornal já aparecerem espécies estranhíssimas aos paladar e olhos dinamarqueses como a jaca e o tamarindo. A fruta desta semana era, adivinhem só queridos leitores brasileiros, a nossa muitíssimo exótica goiaba. O artigo ensina os dinamarqueses a escolher uma boa goiaba, que não deve ser comida quando ainda está muito verde nem quando está madura demais.

A matéria ensina também que se deve descascar uma goiaba antes de se comê-la. Não contive o riso ao ler o artigo. Me lembrei dos melhores dias da minha infância, passados trepada numa das dezenas de goiabeiras da chácara da minha avó. Lá meus primos, minha irmã e eu nunca pensaríamos em descascar uma goiaba. Nossa preocupação não era a casca da goiaba, mas sim os bichinhos que de vez em quando encontrávamos na polpa da fruta. Essa era aliás uma das razões pelas quais preferíamos as goiabas com polpa vermelha. Além de acharmos que eram mais gostosas, nelas era menos frequente encontrar os tais bichinhos.

O bom de trepar nas goiabeiras era que as árvores, embora nunca se tornassem muito grandes, tinham galhos que eram suficientemente fortes para aguentar nossas macaquices. Quando trepávamos numa mangueira, tínhamos de tomar cuidado para escolher os galhos mais antigos e fortes, mas isso não era um problema com as goiabeiras. Outra vantagem das goiabeiras era que nelas nunca encontrávamos uma lagartas horrorosas e enormes que de vez em quando achávamos nos abacateiros. Isso fazia das goiabeiras os alvos favoritos das nossas escaladas arbóreas. Era só trepar, achar uma goiaba madurinha e comê-la com o cuidado de conferir entre uma dentada e outra se não estávamos invadindo a moradia de uma larva da mosca-das-fruta.

Voltando à matéria sobre a goiaba, tive que vir morar na Dinamarca, aprender dinamarquês para aprender que a goiaba tem um tal de eugenol que lhe da o saber tão característico. A jornalista lista vários usos da goiaba, mas nem menciona a nossa querida goiabada. Me deu vontade de lhe escrever reclamando da gravíssima omissão, mas fiquei só na vontade.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vitamina D e rua

O problema do outono na Dinamarca é que ele é curto demais. Logo depois que você começa a achar que a cor das árvores é linda, elas perdem todas as folhas, a temperatura cai para 5 graus centígrados, o horário de verão acaba e as tardes escurecendo às quatro da tarde começam. Em suma, o inverno chega em menos de um mês e fica até o final de março.

Conheço gente aqui que acha lindo sentir frio, adora o vento gélido no rosto, se encharcar na chuva congelante ou escorregar nas ruas cobertas de gelo, mas ainda não encontrei um único dinamarquês ou estrangeiro que goste dos dias com o sol saindo às 7:30 e caindo fora às 16:00. Isso quando o astro rei dá o ar da graça. Muitas vezes, como aconteceu hoje, o sol fica lá escondido em algum lugar atrás de uma cobertura densa de nuvens. A massa de nuvens cinzas ficam bem baixas, como se fossem um teto no qual precisamos apenas estender o braço para tocar com a mão.

Em dias como hoje, dá vontade de chorar. Mas, claro, não se chora porque o tempo lá fora está horrível e você sabe que vai continuar assim por quatro meses. Não, deve-se resistir bravamente mesmo que o lugar mais interessante do mundo pareça ser a sua cama. Quando a vontade de chorar se juntar a um sono desanimador e uma preguiça avassaladora, está na hora de reagir e ir em busca de paliativos, remédios e preventivos contra o desânimo e aquela tristezinha.

Entre imigrantes e brasileiros de pele morena ou mais escura, vitamina D é bem popular. A receita é vitamina D e rua, sair para fora de casa para pegar ar fresco e toda a luz que sua pele conseguir absorver. Há quem apele para luz solar artificial, seja com lâmpadas especiais que podem ser usadas em casa seja indo para o que eles chamam aqui de “solarium” onde você se deita com roupa de banho numa cama e seu corpo recebe uma banho de luz. Ainda não apelei para o banho de luz mas amanhã vou atrás de vitamina D.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A pipa tá no ar

Comprei duas pipas pela internet e domingo, depois do almoço, fomos minha filha, meu marido e eu, testar uma delas. Foi uma delícia. Eu teria ficado o dia todo lá naquele gramado aqui perto de casa tentando dar piruetas na pipa ou fazê-a mergulhar de bico, mas lá pelas tantas minha filha se cansou e começou a reclamar do frio. Tivemos de vir embora e no caminho de casa me lembrei daquela vez em que meu pai fez ou comprou uma arraia enorme e levou minha irmã dois anos mais nova e eu para soltá-la no campo de futebol que existia no cerrado lá perto de casa, em Taguatinga.

Aquela tarde me marcou. Meu pai era meu super pai, nossa pipa era provavelmente a maior e mais bonita do mundo, embora eu não me lembre que cor tinha, e a vida parecia um céu azul que estava bem ali, esperando para ser rasgado pelas minhas piruetas da nossa arraia.

Não me lembro de ter brincado de arraia depois daquela tarde. Fiquei na inveja e sem coragem de me misturar aos meninos, os donos da brincadeira de soltar arraias. Soltar arraia sempre foi brincadeira dos moleques da rua, incluindo meu irmão que anos mais tarde se tornou tão bom na construção de pipas que passou a vender as que construía aos garotos mais novos da vizinhança.

Final de abril, começo de maio, quando as chuvas diminuíam, começava também a estacão das pipas nas ruas de Taguatinga. O vento que criava redemoinhos de poeira vermelha, era ótima para levantar as pipas de papel de seda que a garotada empinava e pontilhava o ar de cores. No céu, as pipas competiam em beleza e acrobacias. No chão, a molecada lutava, muitas vezes com o perigoso cerol, para manter suas obras e o respeito na vizinhança. Eu não entendia muito as táticas usadas pelos garotos em suas batalhas aéreas, mas sempre lamentava quando uma pipa cortava a outra, que saía desmaiando sem rumo pelo céu.

No domingo quis dar à minha filha a alegria de soltar uma pipa. Minha filha gostou da brincadeira, meu marido adorou e eu, quase quarenta anos depois, fiquei deslumbrada.

A propósito, no Blog do Gutemberg, fiquei sabendo que além de pipa, papagaio e arraia, o brinquedo também é conhecido como cafifa, pandorga e quadrado. Lá também aprendi o que é “boca de chave”, “chave” e “dar um aú”, termos do jargão dos soltadores de pipa.

domingo, 25 de outubro de 2009

Explosão de cores

Antes de viajar para a Holanda, a Dinamarca ainda estava verde. Voltei três dias depois para encontrar o país coberto de amarelo, laranja e vermelho. São as belíssimas cores do outono que tomaram conta das árvores do país. Não posso deixar de admitir que essa explosão de cores é belíssima. O que me entristece nisso é que em breve o cinza e marrom dos galhos pelados vão substituir as cores vibrantes das folhas.

Mudança de estacão também traz mudança nos relógios. Hoje começou o horário de inverno e a diferença de fuso entre Brasil e Dinamarca diminui de cinco para apenas três horas.

sábado, 24 de outubro de 2009

Conferência

Acabei de voltar de uma cidade perto de Amsterdam e com um nome que não consigo pronunciar, (Noordwijkerhout) na Holanda, aonde fui participar de uma conferência sobre arrecadação de fundos em organizações não governamentais (the International Fundraising Congress). Fiquei impressionada com a ótima organização do evento e a forma calorosa com que entidade por trás do evento, Resource Alliance, recebeu os participantes.

A qualidade dos palestrantes e o bom nível dos debates também me impressionou e recomendo a todos que trabalhem em instituições não governamentais e que estejam atrás de inspiracão e boas idéias a participar do congresso, que acontece anualmente na mesma cidade holandesa.

Não sou realmente a “arrecadadora de fundos” da minha organização, mas como responsável pela presença do IRCT na internet, preciso aprender mais sobre como canais como o nosso site e nossas páginas no facebook, twitter e youtube podem ser usados para atrair ativistas virtuais para apoiar nossa causa e, eventualmente, aumentar a quantidade de doações individuais para nossa organização.

Nos três dias da conferência ouvi e conversei com pessoas representantes de organizações com causas das mais diversas. Havia, por exemplo, representantes de instituições que promovem pesquisa para o tratamento do câncer, de apoio a pacientes de câncer, da área ambiental, de mulheres africanas, de trabalhadores alemães e de promoção de educação de jovens do Oriente Médio. Comum a todas essas organizações é a preocupação sobre a repercussão da crise econômica sobre a arrecadação de fundos para manter suas atividades. Muitas dessas organizações estão recorrendo à internet para buscar doações e o apoio de voluntários.

Aliás, por falar em IRCT e internet, já conferiu o novo site do IRCT?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Noite gelada e noticia boa

Acabei de ler na página do serviço de meteorologia da Dinamarca (www.dmi.dk) que a noite passada foi a primeira noite gelada em termos meteorológicos deste inverno 2009/2010.

Coisas engraçadas se aprendem quando vivemos num país frio como a Dinamarca. Para mim, noite gelada é noite gelada. Mas não. No jargão dos especialistas no assunto, uma noite gelada em termos meteorológicos é aquela em que a temperatura do ar numa altura de dois metros acima do solo fica abaixo de zero.

Depois da noite gelada, uma notícia boa. Estive hoje no hospital para me submeter a uma mamografia e ultrassom que mostraram que meu peito mastectomizado não há nenhum sinal de câncer.

Antes do exame eu estava tranquila e confiante de que não encontrariam nada de errado, mas ainda assim foi ótimo receber uma confirmação de que tudo está bem.

Resistência

Preciso voltar à Dona Katrine. Um artigo no jornal Politiken alguns dias atrás me fez ficar pensando no que ela diria sobre um grupo de dinamarqueses que está se auto-intitulando "O novo movimento de resistência". Isso porque um dos maiores feitos da longa vida da Dona Katrine foi participar do movimento de resistência contra a ocupação nazista da Dinamarca na Segunda Guerra Mundial.

Eu não sei muito sobre da atuação de Dona Katrine no movimento de resistência, a não ser que durante dois anos ela viveu com duas identidades para cobrir suas atividades clandestinas. Mas enquanto Katrine arriscou a vida para resistir à invasão alemã, os membros da auto-intitulada resistência de hoje arriscam ir para a cadeia porque estão ajudando iraquianos que tiveram seus pedidos de exílio recusados e estão em situação ilegal na Dinamarca.

No grupo há pessoas de diversas profissões, incluindo enfermeiras e parteiras que assistem os exilados que evitam procurar o sistema de saúde dinamarquês com medo de serem presos e enviados de volta para o Iraque. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas fazem parte dessa nova “resistência” porque embora algumas pessoas falem publicamente do trabalho que fazem pelos iraquianos, outros preferem manter silêncio sobre suas atividades.

O grupo se formou a partir da organização criada para apoiar os iraquianos que se refugiaram na Igreja Brorsons e chegou a ter uma conta bancária publicamente anunciada para quem quisesse doar dinheiro ao grupo. Mas desde que se expôs através da imprensa, o grupo foi enfrentando oposição e dificuldades cada vez maiores. A conta bancária foi fechada pela direção do banco, políticos dos partidos que formam o atual governo criticaram duramente a iniciativa e a polícia começou a apurar o caso. Na semana passada o grupo anunciou que vai parar de angariar fundos publicamente para evitar problemas com a polícia. Mas é sabido que o movimento clandestino de apoio aos exilados iraquianos continua.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Diferenças sutis

Duas festas às quais fui convidada semanas atrás me deram um exemplo curioso das diferenças entre nós, brasileiros, e eles, dinamarqueses. Amigos dinamarqueses do meu marido nos convidaram para uma festa de despedida do verão de 2009. O convite enviado por e-mail dizia que o tema da festa era o verão e daí concluímos que deveríamos nos vestir a carácter. Eu não esperava muito daquela festa porque já me decepcionei muito com eventos do tipo promovidos por dinamarqueses. Depois de anos Minha conclusão é que, em matéria de festa, dinamarquês é subdesenvolvido, tadinho.

Aqui é preciso esclarecer. Quando escrevo festa, me refiro a música animada, povo alegre e barulhento, muita dança, porque adoro dançar, alguma bebida e, se possível, comida gostosa, mesmo que sejam só tira-gostos. Essa combinação, dinamarquês raramente entrega.

Ainda assim resolvi me vestir a caráter buscando inspiração no Brasil, onde, afinal, é verão quase o ano inteiro. Tirei do fundo do armário um vestidão amarelo ouro, bem daquele amarelo da nossa bandeira, e me enfeitei com maquiagem e bijuterias bem coloridas. O pior, ou melhor, minha salvação, é que encorajei meu marido a se vestir com uma camisa azul piscina que ele comprou em Salvador. Pois é, juntos parecíamos um uniforme da Seleção Brasileira.

Chegamos à casa da festa e a primeira coisa que percebi foi que estava sendo vítima de uma situação clássica, já vivida por muita gente antes de nós. Todos os convidados presentes, e quando eu escrevo todos quero mesmo dizer todos, estavam vestidos elegantemente com roupas escuras último modelito outono-inverno 2009. Até mesmo o casal dono da festa nos apunhalou pelas costas. A dona circulava alegremente num vestido preto e o marido a acompanhava em calças pretas e uma camisa clara de mangas longas. Nem precisa dizer que nossos trajes reforçaram a sensação que sempre tenho em festas dinamarquesas: a de um peixinho fora d'água. A festa foi mais ou menos o que se podia esperar. Comida gostosa, pouquíssima gente dançando e muita, muita bebida.

Como Deus nem sempre é padrasto, fomos convidados por duas amigas brasileiras, uma paulistana e a outra carioca, para uma festa comum de aniversário que aconteceria três semanas depois da mancada azul e amarela. Nessa festa também havia um tema: “A festa mais louca de todas” (minha tradução). Para meu azar, o dia da festa caiu no mesmo dia em que meu marido convidou a família dele para um jantar para comemorar o aniversário dele. Não dava mais para desmarcar o jantar mas fiquei matutando que, como festa de brasileiro começa tarde e jantar de dinamarquês termina cedo, eu ainda tinha uma chance de poder dar um pulinho na festa.

Dito e feito: meu marido e eu chegamos bem tarde à festa, mas ainda assim deu para curtir a diferença. Na festa das brasileiras, pirata, africana, super homem, egípcia, chinesa, japonesa, cowboy, árabe, passistas e destaques de escola de samba, índios, dançarinas, Sherezade, mulher gato e outras figuras dançavam ensandecidamente, bebiam um bocado e se divertiam adoidado.

Eu estava exausta, depois de passar o dia preparando o jantar para quinze pessoas da família do meu marido, mas o pique da festa era contagiante e nos juntamos à catarse coletiva dançando o mais que pudemos. Voltamos para casa no fim da madrugada fria, de bicicleta porque aqui ninguém, ou quase ninguém, dirige depois de beber. Eu estava a-ca-ba-da, mas a alma, lavada.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Deu Rio

É impossível não deixar de me emocionar com as imagens sobre a escolha do Rio de Janeiro para sediar as os Jogos Olímpicos de 2016. Lula chorando, bandeiras brasileiras na praça central de Copenhague e festa em Copacabana. Mas ainda não estou convencida de que a vitória do Rio sobre Chicago, Tóquio e Madri foi uma boa.

Aliás nem me sinto autorizada a ter uma posição sobre o assunto porque enquanto Copenhague fervilhava com a passagem de figuras como Michele e Barack Obama, Oprah Winfrey e príncipes japoneses, sem falar do já mencionado Lula, eu me recolhia diante do meu computador, trabalhando quase sem pausa no relançamento da página da internet do IRCT. Na correria desses dias, li, vi e senti muito pouco da confusão causada pelo comitê olímpico.

Nos últimos dias, além do cansaço físico e mental causado pelas horas extra de trabalho, o que eu realmente senti foi a chegada do frio. Temperaturas abaixo de 15 graus durante o dia e abaixo de 10 à noite. Infelizmente, a efervescência trazida pela escolha da sede dos jogos de 2016 não foi suficiente retardar a chegada do inverno.

sábado, 26 de setembro de 2009

Zero decibel

Esta é uma grande iniciativa: uma campanha contra o uso da música como método de tortura.

A música que só deveria ser usada para nos proporcionar prazer, foi usada pela CIA Como método de tortura na chamada "guerra contra o terror". Prisioneiros foram mantidos no que ficou conhecido como "dark prison" (prisão escura) onde, completamente deprivados de luz, foram obrigados a ouvir a mesma música em volume ensurdecedor por dias e dias. Há relatos de ex-prisioneiros em Guantánamo dando conta de que as sessões de tortura chegaram a durar 20 dias ininterruptos.

A União de Músicos do Reino Unido e a ONG Reprieve se juntaram na campanha genial zerodB, que está juntando video e foto assinaturas de apoio à campanha. Vale a pena conferir.




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Fotos de família

Nossa! Tenho trabalhado tanto que nem tenho tido tempo de blogar. E que falta o blog me faz.

Mas acho que vai valer a pena tanto esforço. O novo site do IRCT vai ficar o máximo, embora minhas ambições fossem ainda maiores. É que sou extremamente impaciente e queria fazer o site perfeito agora, ou melhor, ontem, mas uma série de limitações, inclusive financeiras, não vao deixar isso acontecer. Além do que, "saite" perfeito não existe. Estamos todos ainda aprendendo enquanto fazemos nesse mundo tresloucado da web.

Para não desaparecer completamente, passo adiante um link engraçadíssimo que uma colega de trabalho me enviou para aliviar a tensão desses ocupados dias: http://www.guidespot.com/guides/awkward_family_photos.

Vale a pena conferir.

sábado, 12 de setembro de 2009

Katrine

Perdi um dos meus embaixadores junto a Deus. Dias atrás faleceu repentinamente a tia avó do meu marido, Katrine Sofie ou a Gammel Faster, apelido em dinamarquês que significa "Tia velha". A morte foi repentina, mas surpreendeu pouca gente: ela tinha 98 anos de idade.

Cristã fervorosa, Katrine participava de grupos de oração onde, fiquei sabendo, eu era figura conhecida. No funeral dela, uma senhora se aproximou de mim e perguntou se eu era a Margareth. Adivinhar quem eu era não era muito difícil já que eu era a única morena no recinto. A tal senhora abriu um sorriso largo ao confirmar minha identidade e disse candidamente: ”Katrine rezou muito por você”. Ela disse aquilo para me alegrar, mas o efeito foi bem o contrário. Senti um frio na barriga e uma sensação de desconforto saindo da nuca e se espalhando pelas costas. ”Iiih! Que fria!”, pensei, de repente me sentindo completamente desprotegida.

Eu sabia que eu estava na boca dos grupos de oração da igreja da Katrine. Ele fazia questão de me contar quando ela e seus amigos da igreja haviam rezado por mim e não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Logo que cheguei à Dinamarca, pediram para que eu arranjasse um emprego, depois para que eu me saísse bem nos exames do mestrado que fiz aqui, no ano seguinte as rezas fossem para que eu, depois de repetidos abortos espontâneos, tivesse uma gravidez bem sucedida, depois para que o parto da Gabi corresse bem. Aí a coisa engrossou e as rezas devem ter ficado mais fervorosas. Soube que houve muito “Ave Maria, Pai Nosso” para garantir que meu tratamento contra o câncer de mama desse resultado. Os pedidos a meu favor prosseguiram com o tratamento do meu linfedema e, pelo que a tal senhora que adivinhou quem eu era insinuou, continuaram até pouco antes do falecimento de Katrine.

De vez em quando Katrine nos ligava aqui em casa para saber como estávamos mas hoje, pensando bem, acho que ela ligava mesmo era para conferir se a reza tinha dado resultado. Não posso dizer que não. Arranjei emprego, passei com boas notas no mestrado, tive, afinal, uma gravidez e parto muito bem sucedidos, o tratamento do câncer está dando resultados e o linfedema está sob controle. Depois de tudo isso, é ou não é para eu me preocupar?

domingo, 6 de setembro de 2009

Ando meio sumida

É que o bicho está pegando lá no trabalho, com muitos projetos rolando ao mesmo tempo. Um deles é a criação de uma comunidade virtual global de apoio ao IRCT (International Rehabilitation Council for Torture Victims), onde trabalho. Por enquanto, quem quiser mostrar seu apoio ao trabalho da organização pode se tornar fã da página do IRCT no Facebook (http://www.facebook.com/irct.org ) mas estamos trabalhando para criar um site específico para os que querem apoiar a luta ontra a tortura e de apoio à recuperaçao de pessoas que foram vítimas da tortura.

Hassan e Gulizar

A situação de Hassan Gardi talvez seja o mais triste exemplo do quão absurda é a atual política de imigração do governo dinamarquês. Ele 72 anos, é demente, pesa somente 47 quilos, passa boa parte do tempo deitado e depende de ajuda para ir ao banheiro, se lavar e se alimentar. Hassan estava entre os iraquianos que se refugiaram na Igreja Brorsons e, segundo sua esposa Gulizar, ficou completamente desnorteado quando a polícia invadiu o local e tirou todos os refugiados de lá. O jornal dinamarquês information.dk conta que o casal foi colocado no olho da rua e depois de perambular por algum tempo no meio da confusão criada por manifestantes e polícia, foi resgatado por ativistas que agora os mantêm escondidos das autoridades.

A legislação dinamarquesa prevê que refugiados com problemas graves de saúde mental podem ser ganhar permanência na Dinamarca por motivos humanitários. Apesar disso, e contra opinião emitida em laudos médicos, o Ministério que cuida dos pedidos de asilo, ironicamente chamando de Ministério da Integração, rejeitou o pedido de permanência por motivos humanitários a favor de Hassan e Gulizar. Na explicação do Ministério, demência não é doença grave e o fato de Gulizar cuidar do marido é considerado suficiente para justificar enviar os dois de volta para o Iraque.

Que Gulizar seja analfabeta, não tenha uma profissão ou que o ganha pão do casal, uma cafeteria em Erbil no norte do Iraque, tenha explodido nos ares depois que um carro bomba estacionou em frente ao estabelecimento, foi ignorado pelo Ministério da Integração (esse nome quase me dá náuseas). Ainda assim Gulizar mantem as esperanças e tenta tranquilizar o marido dizendo que ele não precisa ter medo porque “estamos num país humano, onde os direitos humanos têm grande significado”. Torço por eles para que ela tenha razão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Paradoxo

Muito interessante um artigo escrito pelos estudantes da Universidade de Yale Yasmin Zaher and Saned Raouf para o Huffington Post sobre a situacão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e a remocão dos refugiados da Igreja Brorsons:
The Modern Making of Refugee Politics
Falam, entre outras coisas, do paradoxo de um país que está no topo do ranking de países com o mais alto grau de felicidade ser o mesmo que impõe repetidos traumas psicológicos aos refugiados iraquianos que lutam por uma chance de ter uma vida decente.

domingo, 23 de agosto de 2009

Bisian

Bisian e sua família estava entre os iraquianos que buscaram refúgio na Igreja Brorsons e entre os cerca de 250 iraquianos que tiveram seus pedidos de asilo rejeitado pelo governo dinamarquês e estão sendo ameaçados de serem enviados de volta para o Iraque. Ela tem 14 anos de idade, não fala árabe e vive na Dinamarca desde os quatro. Nesses dez anos na Dinamarca, ela e a família viveram em campos de refugiados.

A irmã caçula de Bisian nasceu na Dinamarca e tem menos de dois anos de idade. O irmão mais velho, segunda ela conta no site kirkeasyl.dk (site de um movimento de dinamarqueses que apoiam os refugiados iraquianos), sonha em estudar carpintaria mas foi proibido de prosseguir os estudos pelas autoridades dinamarquesas. Algo parecido aconteceu com a mãe de Bisian que começou a fazer um curso de cabeleireira mas teve de parar devido às regras para refugiados à espera de permanência.

Bisian sonha com uma vida “normal” na Dinamarca e teme a violência no Iraque. Lá, ela acha que a família não tem nenhuma chance especialmente porque seu pai está marcado para morrer no Iraque. “Lá há gente atrás dele”.

domingo, 16 de agosto de 2009

Wissam

O Wissam é um rapaz iraquiano de 19 anos de idade que vive na Dinamarca desde que tinha 10.  Ele foi um dos 60 iraquianos que passaram parte do verão deste ano na igreja Brorsons, juntamente com seus pais e irmão mais velho, de 23 anos. Desde 30 de julho ele está na prisão do campo de refugiados de Sandholmlejren.

Wissam e sua família foram presos antes da ação policial na igreja Brorsons. Numa longa entrevista ao jornalista Olav Hergel, na edição deste domingo do jornal Politiken, ele fala sobre sua adolescência na Dinamarca e no medo de voltar para o Iraque, e no quanto ele sonha em ter direito a viver na Dinamarca. Wissam fala dinamarques fluentemente, além de inglês, persa, curdo e árabe e tem uma namorada chamada Rosa. Seu irmão acabou de ser aceito como aluno da Universidade Ténica de Copenhague, mas não sabe se vai poder fazer o curso.

Ele pertence a um grupo étnico, os feyli curdos, dos quais tanto iraquianos quanto iranianos querem se livrar. A advogada da família conseguiu documentar que 15 membros da família de Wissam, que vive numa região próxima a Bagdah, foram mortos nos últimos anos como consequência de perseguição étnica.

sábado, 15 de agosto de 2009

Remoção

Há períodos em que evito ler jornais ou assistir a noticiários dinamarqueses para evitar me aborrecer. Estou num desses períodos. Desta vez, a razão para possível aborrecimento é a expulsão de um grupo de iraquianos de uma igreja de Copenhague, acontecida na madrugada da última quinta-feira .

Os iraquianos tinham ocupado a igreja havia quase três meses (ver Mahabat e seus dois meninos ) e nesse período eu vinha torcendo e quase acreditando, do fundo do meu otimismo ou ingenuidade, que algo aconteceria para que pelos menos alguns fossem autorizados a continuar vivendo na Dinamarca. Mas me esqueci em que país estava e cheguei a ficar chocada quando soube que a polícia havia invadido a igreja Brorsons no meio da madrugada e prendido todos os 17 homens que estavam lá. Nenhuma mulher ou criança foi presa, mas todos tiveram de abandonar a igreja.

Pelos relatos que li e ouvi, inclusive a do pastor da igreja, a remoção dos iraquianos foi dramática. Quando a polícia entrou na igreja, todos os iraquianos se juntaram no altar. Um homem quebrou uma garrafa e ameaçou se cortar, um outro subiu no órgão da igreja e ameaçou pular, mulheres gritavam de desespero enquanto crianças choravam de medo. A invasão aconteceu por volta da uma da madrugada e, por mais que leio que tudo foi feito dentro da lei, nada me convence que não foi mais um da série de atos desumanos da política para refugiados adotada pelo atual governo dinamarquês (mais sobre o assunto em inglês e cenas da ação policial contra um grupo de demonstrantes dinamarqueses que tentou bloquear a passagem do ônibus da polícia que levava os iraquianos).

No dia seguinte à remoção, 15.000 a 25.000 pessoas (como sempre acontece em demonstrações de rua, a quantidade de participantes depende da fonte da informação) se reuniram em frente à igreja para protestar contra a ação da polícia e pedir asilo aos iraquianos. Quando soube da manifestação até fiquei animada. Quem sabe a ação policial não acaba criando uma comoção nacional de apoios aos iraquianos que assim podem afinal conseguir o apoio político necessário para que seus pedidos de asilo sejam reavaliados? pensei novamente do fundo da minha alma otimista ou ingênua. Que nada. No dia seguinte ao da demonstração, pesquisas de opinião pública mostraram que três quintos da população dinamarquesa apoiaram a ação policial.

Conclusão: parei de ler jornais ou páginas da internet da Dinamarca para não morrer de raiva. Até hoje, é claro, quando tive de me atualizar para escrever o blog. Aí deparei com mais uma, duas, não, três histórias de, com o perdão da expressão, cortar o coração: as do Wissam, do Hassan e da Bisian.

sábado, 8 de agosto de 2009

Dia dos pais

Amanhã seria dia de ligar para meu pai e lhe desejar feliz dia dos pais. Na minha família sempre fomos críticos do caráter comercial dessas datas, mas assim mesmo embarcamos sem pestanajar na onda de presentes e reuniões familiares nos dias das mães e dos pais.

Antes de me mudar para a Dinamarca, dia dos pais tinha invariavelmente reunião da família toda em torno de uma churrasqueira e presentes para o meu pai, que nesse dia via uma das vantagens de ter tido cinco filhos.

Para meus irmãos, minha mãe e eu, a semana que antecedia o segundo domingo de agosto era de dúvidas sobre o que dar ao ”melhor pai do mundo” que também podia às vezes se comportar como ”o pai mais chato do mundo”. Como era difícil presentear meu pai. Ferramenta era quase certo que ele ia gostar de receber, mas ele já tinha tanta geringonça que ninguém mais tinha vontade de lhe dar uma nova. Livro era meio complicado, porque, ao contrário da minha mãe, ele nunca foi muito de ler. Roupas ou sapatos, claro, seriam a alternativa mais correta, porque, como minha mãe dizia, ele andaria como um mendigo se não fosse as roupas e sapatos que nós comprávamos para ele. Não que lhe faltasse dinheiro para isso, mas é que ele nunca encontrava tempo para compras.

Mas comprar sapatos e, principalmente, roupas para meu pai, era um esporte arriscado. Nos últimos anos ele ficou mais tolerante, mas durante muito tempo tive a impressão de que nada que eu dava a ele o agradava. Ele sempre agradecia, é claro, mas na primeira oportunidade soltava algo como ”essa camisa é muito bonita mas essa gola não é meio assim como a de um pastor?” ou ”calça de boa qualidade, hein minha filha, pena que falta um bolso aqui”. Pois é, calça comprida para meu pai tinha de ter bolsos, muitos bolsos. No da direita, ele colocava a carteira, no da esquerda, uma cadernetinha, no da perna direita, uma caneta e um canivetinho, no da esquerda, o chaveiro. Nos bolsos dos fundos, nada, claro, porque ”eu também não sou bobo de dar mole para batedor de carteira” A necessidade de bolsos do meu pai Juarez era tanta que ele chegou a mandar alguém costurar bolsos extra em algumas das suas calças.

Nos bolsos iam também as listas de compras de supermercado que ele precisava fazer. Lá em casa sempre foi meu pai o maior responsável pelas compras de supermercado. Nos supermercados, mercadinhos, frutarias e feiras de Taguatinga, ele todo mês deixava boa parte de seu salário de policial militar.

Aliás, para compras de alimentos o seu Juarez sempre tinha tempo. Ele sentia um prazer imenso em abastecer a casa de comida, comida e comida. Acho que talvez porque ele se orgulhasse de nos ver atacando uma melancia deliciosa que ele havia comprado, confirmando o talento dele de quase sempre acertar na hora de comprar frutas e verduras. Ou nos ver devorando um frango assado preparado com um tempero delicioso que já tentei inúmeras vezes copiar. Ele gostava tanto de nos encher de comida, que mesmo no dia dos pais muitas frequentemente era ele que ia para a churrasqueira cuidar da carne, frango e linguiças que passaríamos um dia quase inteiro comendo.

Depois que me mudei para a Dinamarca, disse adeus a esses domingões dos dias dos pais. A preocupação sobre o presente também diminuiu porque depois de algum tempo passei a comprar apenas um presente pelo Natal, aniversário e dia dos pais, e entregá-lo pessoalmente nas minhas visitas anuais ao Brasil. Para mim, no dia dos pais sobrou apenas aquele telefonema, quase sagrado, que eu dava todo ano ao meu pai. Amanhã será o segundo dia dos pais em que nem isso vou poder fazer.

Ai pai. Como a saudade dói.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Direito de todo mundo

Devo admitir que estou ficando mais fã da Suécia. O país começou a me ganhar quando soube que lá eles tratam os refugiados iraquianos com muito mais respeito do que aqui na terra da rainha que é minha xará. E agora, depois de ter passado uma semana em Småland, uma região no sul do país, voltei meio encantada com algumas facetas da sociedade sueca.

Uma delas é o que lá chamam “Allemansrätten”, o que em português seria algo como direito de público acesso ou, numa tradução bem direta, o direito de todos os homens. A tradição e a constituição suecas ditam que todo mundo tem direito a andar, pedalar, correr, cavalgar, esquiar e até mesmo acampar em qualquer área natural, com exceção de jardins particulares, na proximidade de uma residência ou em terra sendo cultivada.

Isso quer dizer que qualquer pessoa pode pegar sua barraca e acampar no meio de uma floresta ou numa praia sem se preocupar se está invadindo uma propriedade particular. Ou levar sua canoa para uma lagoa e remar até cansar. Há algumas restrições quanto a reservas naturais, mas do contrário, toda a beleza natural do país, o que inclui montanhas, lagos, glaciais e florestas está à disposição de quem quiser admirá-la e curti-la. Um visitante pode até colher flores, cogumelos e amoras silvestres, se isso não incluir espécies protegidas. Claro que o direito implica em responsabilidades: o visitante deve proteger a natureza e evitar qualquer dano ao meio ambiente.

Por trás da norma está o princípio de que a natureza pertence e é para ser apreciada por todos. Para mim, um princípio que deveria se transformar em lei universal, embora eu saiba que a ideia causaria arrepios a proprietários de terras de países como o Brasil e a Dinamarca. Ainda assim não consigo deixar de pensar e lamentar os lagos e praias aos quais me foram negados acesso aqui na Dinamarca, as cercas intimidadoras das propriedades rurais no interior brasileiro ou as ilhas particulares de Angra dos Reis.

domingo, 2 de agosto de 2009

Retorno

Voltei hoje à Dinamarca, depois de oito dias no mato sueco, num lugar chamado Lindehult. Ao chegar em casa, o e-mail de uma amiga trouxe uma descoberta: um grupo esloveno, o Perpetuum Jazzile, cantando Aquarela do Brasil de maneira brilhante. Eu nunca poderia imaginar que a música brasileira fosse tão bem cantada por aquelas bandas.

Com eles canta um grupo vocal brasileiro, o BR6, que eu não conhecia e passei a admirar. Sobre eles há um video no Youtube.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mahabat e seus dois meninos


O governo dinamarquês quer separar a iraquiana Mahabat Rushdi Merza, de seus filhos, um nenê de oito meses e um menininho de quatro anos, e de seu marido. Por mais estranho que pareça, o marido e os filhos de Mahabat receberam autorização para viver temporariamente na Dinamarca, mas o pedido de asilo dela foi recusado e o governo dinamarquês ameaça mandá-la de volta para o Iraque.

Mahabat é uma dos 250 refugiados iraquianos que tiveram seus pedidos de asilo recusados pelo governo dinamarquês, que pretende enviá-los à força de volta para o Iraque. Antes, a falta um acordo entre os dois países impedia que a Dinamarca pudesse obrigar os refugiados a voltar a seu país de origem enquanto o governo iraquiano não quisesse recebê-los. Mas tal acordo foi alcançado no dia 13 de maio passado e, desde então, um grupo de refugiados, em pânico, passou a ocupar a igreja Brorsons, situada perto do centro de Copenhague.

Mahabat, que tem 28 anos de idade, e seus dois filhos fazem parte desse grupo. Ela vive há dez anos na Dinamarca, onde, além dos filhos e marido, também moram sua mãe e quatro irmãos. Assim como ela, sua mãe e os irmãos não receberam permissão para viver na Dinamarca e também estão vivendo na igreja.

domingo, 19 de julho de 2009

Pelo bico

Não resisti e estou repassando o link de um vídeo que está circulando na rede. Um cara mostrando uma jeito simples de descascar uma banana. Segundo ele, do jeito dos macacos. No vídeo, ele tenta primeiro descascar a banana como sempre fez: pelo talo. Depois demonstra o método dos nossos primos macacos: apertando o bico. Já experimentei e dá certo.

Depois desse vídeo revelador, percebi o quanto a internet anda revolucionando minha vida. Todo dia. Até mesmo no descascar de uma banana.

Ah! O link: http://www.youtube.com/watch?v=nBJV56WUDng

terça-feira, 14 de julho de 2009

17 picadas

Acabaram-se as picadas no meu braço a cada três semanas. Ontem recebi a última das 17 doses de Herceptin (trastuzumab), o remédio que deve diminuir as chances de que meu câncer volte a aparecer. Tive de receber esse tratamento extra porque meu câncer de mama, infelizmente, era do tipo HER2 positivo, ou seja, tinha um número anormal de células HER2. Quando a superfície do câncer tem um número excessivo de células da proteína HER2, o tumor é mais agressivo, podendo se espalhar mais rapidamente e com maior possibilidade de reaparecimento. 25% dos casos de câncer de mama são HER2 positivo.

Aliás, ontem fui picada duas vezes já que me submeti a mais um exame cardíaco feito para conferir se o Herceptin não está me causando problemas de coração. O exame mostrou que minhas funções cardíacas estão absolutamente normais. Se não estivessem, eu não poderia receber a última dose de Herceptin.

Meses atrás eu tinha planejado festejar estrondosamente o final do tratamento, mas o dia de ontem passou de forma bem tranquila. Ganhei flores do Henrik e à noite a tia dele ficou com a Gabi para que pudéssemos jantar fora. A noite estava agradável, a cidade cheia de gente. Foi como se estivéssemos comemorando um aniversário de casamento. Um pouco surreal.

Hoje tive um dia normal de trabalho e tudo que está relacionado à doença pareceu ainda mais distante. Mas a falta de um seio e a braçadeira me acompanham e não me deixam esquecer o ano e meio que passou.

terça-feira, 7 de julho de 2009

10 anos

Crianças exiladas fora dos abrigos!
Há crianças vivendo num dos países mais ricos do mundo sem direito a frequentar uma escola normal com outras crianças da mesma idade. Algumas dessas crianças nasceram e nunca saíram desse país, mas ainda assim vivem à margem da sociedade.

Estou em campanha por assinaturas de apoio a 122 crianças que vivem em campos para exilados na Dinamarca. Assinei uma petição e tenho usado Facebook, Twitter, meu e-mail e agora este blog para apoiar a causa, sobre a qual se pode ler no http://www.asylboerneneudnu.dk/ (infelizmente apenas em dinamarquês). O movimento por essas crianças têm três reivindicações básicas: as criancas devem ter o direito de viver fora dos abrigos, elas devem ter direito a viver uma vida mais próxima do normal com seus pais e, juntamente com seus pais, elas devem receber o tratamento necessário para que possam superar seus traumas e retomar suas vidas.

O site conta um pouco da rotina dessas crianças espalhadas em seis abrigos mantidos pelo governo e administrados pela Cruz Vermelha da Dinamarca. Crianças maiores de seis anos frequentam uma escola especial para refugiados da Cruz Vermelha. A maior parte dessas crianças tem de viajar de ônibus diariamente duas horas de ida e volta para chegar à escola especial. A carga horária e a quantidade de disciplinas na escola especial são reduzidos e as crianças não tem direito a prestar exames.

As crianças nos abrigos têm muito pouco contato com crianças dinamarquesas, o que naturalmente dificulta a aprendizagem do dinamarquês. Os abrigos ficam geralmente em áreas isoladas e como os pais têm muito pouco dinheiro para transporte, o resultado é que essas crianças vivem à parte do resto da sociedade, com raras oportunidades de lazer. Principalmente os adolescentes se sentem marginalizados.

A vida nos abrigos é cheia de barulho, confusão e insegurança.. Frequentemente chegam pessoas estranhas enquanto outras pessoas abandonam os centros. A instabilidade das relações faz com que algumas crianças desistam de fazer amigos, se negam a frequentar a escola e se isolem em seus quartos. Nos quartos onde as famílias vivem, há pouco espaço e quase nenhuma privacidade.

Os pais dessas crianças são proibidos de procurar emprego e precisam “bater o ponto” nos abrigos, onde a presença deles é controlada para evitar fugas. Sem trabalho, eles recebem ajuda financeira do governo dinamarquês, que lhes paga quantias bem inferiores à ajuda de custo recebida por cidadãos dinamarqueses e estrangeiros com permanência regular no país..

Tudo isso talvez não fosse razão para grandes problemas se a passagem pelos abrigos fosse curta. Mas todas essas 122 crianças vivem há pelo menos um ano nesses abrigos. Muitas já têm três anos de vida nos abrigos e uma delas vive em abrigos há dez anos. Dez anos. Toda uma infância.

Ninguém pode dizer que essas crianças não têm suas necessidades básicas atendidas. Como eu já frisei numa postagem anterior não lhes falta comida, roupa e teto. Mas a situacão delas me faz lembrar aquela a cancão* dos Titãs que tem o seguinte trecho:

"A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer..."

*Comida (composição do Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto. Letra completa no http://letras.terra.com.br/titas/91453/)