Esta é uma grande iniciativa: uma campanha contra o uso da música como método de tortura.
A música que só deveria ser usada para nos proporcionar prazer, foi usada pela CIA Como método de tortura na chamada "guerra contra o terror". Prisioneiros foram mantidos no que ficou conhecido como "dark prison" (prisão escura) onde, completamente deprivados de luz, foram obrigados a ouvir a mesma música em volume ensurdecedor por dias e dias. Há relatos de ex-prisioneiros em Guantánamo dando conta de que as sessões de tortura chegaram a durar 20 dias ininterruptos.
A União de Músicos do Reino Unido e a ONG Reprieve se juntaram na campanha genial zerodB, que está juntando video e foto assinaturas de apoio à campanha. Vale a pena conferir.
sábado, 26 de setembro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Fotos de família
Nossa! Tenho trabalhado tanto que nem tenho tido tempo de blogar. E que falta o blog me faz.
Mas acho que vai valer a pena tanto esforço. O novo site do IRCT vai ficar o máximo, embora minhas ambições fossem ainda maiores. É que sou extremamente impaciente e queria fazer o site perfeito agora, ou melhor, ontem, mas uma série de limitações, inclusive financeiras, não vao deixar isso acontecer. Além do que, "saite" perfeito não existe. Estamos todos ainda aprendendo enquanto fazemos nesse mundo tresloucado da web.
Para não desaparecer completamente, passo adiante um link engraçadíssimo que uma colega de trabalho me enviou para aliviar a tensão desses ocupados dias: http://www.guidespot.com/guides/awkward_family_photos.
Vale a pena conferir.
Mas acho que vai valer a pena tanto esforço. O novo site do IRCT vai ficar o máximo, embora minhas ambições fossem ainda maiores. É que sou extremamente impaciente e queria fazer o site perfeito agora, ou melhor, ontem, mas uma série de limitações, inclusive financeiras, não vao deixar isso acontecer. Além do que, "saite" perfeito não existe. Estamos todos ainda aprendendo enquanto fazemos nesse mundo tresloucado da web.
Para não desaparecer completamente, passo adiante um link engraçadíssimo que uma colega de trabalho me enviou para aliviar a tensão desses ocupados dias: http://www.guidespot.com/guides/awkward_family_photos.
Vale a pena conferir.
sábado, 12 de setembro de 2009
Katrine
Perdi um dos meus embaixadores junto a Deus. Dias atrás faleceu repentinamente a tia avó do meu marido, Katrine Sofie ou a Gammel Faster, apelido em dinamarquês que significa "Tia velha". A morte foi repentina, mas surpreendeu pouca gente: ela tinha 98 anos de idade.
Cristã fervorosa, Katrine participava de grupos de oração onde, fiquei sabendo, eu era figura conhecida. No funeral dela, uma senhora se aproximou de mim e perguntou se eu era a Margareth. Adivinhar quem eu era não era muito difícil já que eu era a única morena no recinto. A tal senhora abriu um sorriso largo ao confirmar minha identidade e disse candidamente: ”Katrine rezou muito por você”. Ela disse aquilo para me alegrar, mas o efeito foi bem o contrário. Senti um frio na barriga e uma sensação de desconforto saindo da nuca e se espalhando pelas costas. ”Iiih! Que fria!”, pensei, de repente me sentindo completamente desprotegida.
Eu sabia que eu estava na boca dos grupos de oração da igreja da Katrine. Ele fazia questão de me contar quando ela e seus amigos da igreja haviam rezado por mim e não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Logo que cheguei à Dinamarca, pediram para que eu arranjasse um emprego, depois para que eu me saísse bem nos exames do mestrado que fiz aqui, no ano seguinte as rezas fossem para que eu, depois de repetidos abortos espontâneos, tivesse uma gravidez bem sucedida, depois para que o parto da Gabi corresse bem. Aí a coisa engrossou e as rezas devem ter ficado mais fervorosas. Soube que houve muito “Ave Maria, Pai Nosso” para garantir que meu tratamento contra o câncer de mama desse resultado. Os pedidos a meu favor prosseguiram com o tratamento do meu linfedema e, pelo que a tal senhora que adivinhou quem eu era insinuou, continuaram até pouco antes do falecimento de Katrine.
De vez em quando Katrine nos ligava aqui em casa para saber como estávamos mas hoje, pensando bem, acho que ela ligava mesmo era para conferir se a reza tinha dado resultado. Não posso dizer que não. Arranjei emprego, passei com boas notas no mestrado, tive, afinal, uma gravidez e parto muito bem sucedidos, o tratamento do câncer está dando resultados e o linfedema está sob controle. Depois de tudo isso, é ou não é para eu me preocupar?
Cristã fervorosa, Katrine participava de grupos de oração onde, fiquei sabendo, eu era figura conhecida. No funeral dela, uma senhora se aproximou de mim e perguntou se eu era a Margareth. Adivinhar quem eu era não era muito difícil já que eu era a única morena no recinto. A tal senhora abriu um sorriso largo ao confirmar minha identidade e disse candidamente: ”Katrine rezou muito por você”. Ela disse aquilo para me alegrar, mas o efeito foi bem o contrário. Senti um frio na barriga e uma sensação de desconforto saindo da nuca e se espalhando pelas costas. ”Iiih! Que fria!”, pensei, de repente me sentindo completamente desprotegida.
Eu sabia que eu estava na boca dos grupos de oração da igreja da Katrine. Ele fazia questão de me contar quando ela e seus amigos da igreja haviam rezado por mim e não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Logo que cheguei à Dinamarca, pediram para que eu arranjasse um emprego, depois para que eu me saísse bem nos exames do mestrado que fiz aqui, no ano seguinte as rezas fossem para que eu, depois de repetidos abortos espontâneos, tivesse uma gravidez bem sucedida, depois para que o parto da Gabi corresse bem. Aí a coisa engrossou e as rezas devem ter ficado mais fervorosas. Soube que houve muito “Ave Maria, Pai Nosso” para garantir que meu tratamento contra o câncer de mama desse resultado. Os pedidos a meu favor prosseguiram com o tratamento do meu linfedema e, pelo que a tal senhora que adivinhou quem eu era insinuou, continuaram até pouco antes do falecimento de Katrine.
De vez em quando Katrine nos ligava aqui em casa para saber como estávamos mas hoje, pensando bem, acho que ela ligava mesmo era para conferir se a reza tinha dado resultado. Não posso dizer que não. Arranjei emprego, passei com boas notas no mestrado, tive, afinal, uma gravidez e parto muito bem sucedidos, o tratamento do câncer está dando resultados e o linfedema está sob controle. Depois de tudo isso, é ou não é para eu me preocupar?
domingo, 6 de setembro de 2009
Ando meio sumida
É que o bicho está pegando lá no trabalho, com muitos projetos rolando ao mesmo tempo. Um deles é a criação de uma comunidade virtual global de apoio ao IRCT (International Rehabilitation Council for Torture Victims), onde trabalho. Por enquanto, quem quiser mostrar seu apoio ao trabalho da organização pode se tornar fã da página do IRCT no Facebook (http://www.facebook.com/irct.org ) mas estamos trabalhando para criar um site específico para os que querem apoiar a luta ontra a tortura e de apoio à recuperaçao de pessoas que foram vítimas da tortura.
Hassan e Gulizar
A situação de Hassan Gardi talvez seja o mais triste exemplo do quão absurda é a atual política de imigração do governo dinamarquês. Ele 72 anos, é demente, pesa somente 47 quilos, passa boa parte do tempo deitado e depende de ajuda para ir ao banheiro, se lavar e se alimentar. Hassan estava entre os iraquianos que se refugiaram na Igreja Brorsons e, segundo sua esposa Gulizar, ficou completamente desnorteado quando a polícia invadiu o local e tirou todos os refugiados de lá. O jornal dinamarquês information.dk conta que o casal foi colocado no olho da rua e depois de perambular por algum tempo no meio da confusão criada por manifestantes e polícia, foi resgatado por ativistas que agora os mantêm escondidos das autoridades.
A legislação dinamarquesa prevê que refugiados com problemas graves de saúde mental podem ser ganhar permanência na Dinamarca por motivos humanitários. Apesar disso, e contra opinião emitida em laudos médicos, o Ministério que cuida dos pedidos de asilo, ironicamente chamando de Ministério da Integração, rejeitou o pedido de permanência por motivos humanitários a favor de Hassan e Gulizar. Na explicação do Ministério, demência não é doença grave e o fato de Gulizar cuidar do marido é considerado suficiente para justificar enviar os dois de volta para o Iraque.
Que Gulizar seja analfabeta, não tenha uma profissão ou que o ganha pão do casal, uma cafeteria em Erbil no norte do Iraque, tenha explodido nos ares depois que um carro bomba estacionou em frente ao estabelecimento, foi ignorado pelo Ministério da Integração (esse nome quase me dá náuseas). Ainda assim Gulizar mantem as esperanças e tenta tranquilizar o marido dizendo que ele não precisa ter medo porque “estamos num país humano, onde os direitos humanos têm grande significado”. Torço por eles para que ela tenha razão.
A legislação dinamarquesa prevê que refugiados com problemas graves de saúde mental podem ser ganhar permanência na Dinamarca por motivos humanitários. Apesar disso, e contra opinião emitida em laudos médicos, o Ministério que cuida dos pedidos de asilo, ironicamente chamando de Ministério da Integração, rejeitou o pedido de permanência por motivos humanitários a favor de Hassan e Gulizar. Na explicação do Ministério, demência não é doença grave e o fato de Gulizar cuidar do marido é considerado suficiente para justificar enviar os dois de volta para o Iraque.
Que Gulizar seja analfabeta, não tenha uma profissão ou que o ganha pão do casal, uma cafeteria em Erbil no norte do Iraque, tenha explodido nos ares depois que um carro bomba estacionou em frente ao estabelecimento, foi ignorado pelo Ministério da Integração (esse nome quase me dá náuseas). Ainda assim Gulizar mantem as esperanças e tenta tranquilizar o marido dizendo que ele não precisa ter medo porque “estamos num país humano, onde os direitos humanos têm grande significado”. Torço por eles para que ela tenha razão.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Paradoxo
Muito interessante um artigo escrito pelos estudantes da Universidade de Yale Yasmin Zaher and Saned Raouf para o Huffington Post sobre a situacão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e a remocão dos refugiados da Igreja Brorsons:
The Modern Making of Refugee Politics
Falam, entre outras coisas, do paradoxo de um país que está no topo do ranking de países com o mais alto grau de felicidade ser o mesmo que impõe repetidos traumas psicológicos aos refugiados iraquianos que lutam por uma chance de ter uma vida decente.
The Modern Making of Refugee Politics
Falam, entre outras coisas, do paradoxo de um país que está no topo do ranking de países com o mais alto grau de felicidade ser o mesmo que impõe repetidos traumas psicológicos aos refugiados iraquianos que lutam por uma chance de ter uma vida decente.
domingo, 23 de agosto de 2009
Bisian
Bisian e sua família estava entre os iraquianos que buscaram refúgio na Igreja Brorsons e entre os cerca de 250 iraquianos que tiveram seus pedidos de asilo rejeitado pelo governo dinamarquês e estão sendo ameaçados de serem enviados de volta para o Iraque. Ela tem 14 anos de idade, não fala árabe e vive na Dinamarca desde os quatro. Nesses dez anos na Dinamarca, ela e a família viveram em campos de refugiados.
A irmã caçula de Bisian nasceu na Dinamarca e tem menos de dois anos de idade. O irmão mais velho, segunda ela conta no site kirkeasyl.dk (site de um movimento de dinamarqueses que apoiam os refugiados iraquianos), sonha em estudar carpintaria mas foi proibido de prosseguir os estudos pelas autoridades dinamarquesas. Algo parecido aconteceu com a mãe de Bisian que começou a fazer um curso de cabeleireira mas teve de parar devido às regras para refugiados à espera de permanência.
Bisian sonha com uma vida “normal” na Dinamarca e teme a violência no Iraque. Lá, ela acha que a família não tem nenhuma chance especialmente porque seu pai está marcado para morrer no Iraque. “Lá há gente atrás dele”.
A irmã caçula de Bisian nasceu na Dinamarca e tem menos de dois anos de idade. O irmão mais velho, segunda ela conta no site kirkeasyl.dk (site de um movimento de dinamarqueses que apoiam os refugiados iraquianos), sonha em estudar carpintaria mas foi proibido de prosseguir os estudos pelas autoridades dinamarquesas. Algo parecido aconteceu com a mãe de Bisian que começou a fazer um curso de cabeleireira mas teve de parar devido às regras para refugiados à espera de permanência.
Bisian sonha com uma vida “normal” na Dinamarca e teme a violência no Iraque. Lá, ela acha que a família não tem nenhuma chance especialmente porque seu pai está marcado para morrer no Iraque. “Lá há gente atrás dele”.
domingo, 16 de agosto de 2009
Wissam
O Wissam é um rapaz iraquiano de 19 anos de idade que vive na Dinamarca desde que tinha 10. Ele foi um dos 60 iraquianos que passaram parte do verão deste ano na igreja Brorsons, juntamente com seus pais e irmão mais velho, de 23 anos. Desde 30 de julho ele está na prisão do campo de refugiados de Sandholmlejren.
Wissam e sua família foram presos antes da ação policial na igreja Brorsons. Numa longa entrevista ao jornalista Olav Hergel, na edição deste domingo do jornal Politiken, ele fala sobre sua adolescência na Dinamarca e no medo de voltar para o Iraque, e no quanto ele sonha em ter direito a viver na Dinamarca. Wissam fala dinamarques fluentemente, além de inglês, persa, curdo e árabe e tem uma namorada chamada Rosa. Seu irmão acabou de ser aceito como aluno da Universidade Ténica de Copenhague, mas não sabe se vai poder fazer o curso.
Ele pertence a um grupo étnico, os feyli curdos, dos quais tanto iraquianos quanto iranianos querem se livrar. A advogada da família conseguiu documentar que 15 membros da família de Wissam, que vive numa região próxima a Bagdah, foram mortos nos últimos anos como consequência de perseguição étnica.
Wissam e sua família foram presos antes da ação policial na igreja Brorsons. Numa longa entrevista ao jornalista Olav Hergel, na edição deste domingo do jornal Politiken, ele fala sobre sua adolescência na Dinamarca e no medo de voltar para o Iraque, e no quanto ele sonha em ter direito a viver na Dinamarca. Wissam fala dinamarques fluentemente, além de inglês, persa, curdo e árabe e tem uma namorada chamada Rosa. Seu irmão acabou de ser aceito como aluno da Universidade Ténica de Copenhague, mas não sabe se vai poder fazer o curso.
Ele pertence a um grupo étnico, os feyli curdos, dos quais tanto iraquianos quanto iranianos querem se livrar. A advogada da família conseguiu documentar que 15 membros da família de Wissam, que vive numa região próxima a Bagdah, foram mortos nos últimos anos como consequência de perseguição étnica.
sábado, 15 de agosto de 2009
Remoção
Há períodos em que evito ler jornais ou assistir a noticiários dinamarqueses para evitar me aborrecer. Estou num desses períodos. Desta vez, a razão para possível aborrecimento é a expulsão de um grupo de iraquianos de uma igreja de Copenhague, acontecida na madrugada da última quinta-feira .
Os iraquianos tinham ocupado a igreja havia quase três meses (ver Mahabat e seus dois meninos ) e nesse período eu vinha torcendo e quase acreditando, do fundo do meu otimismo ou ingenuidade, que algo aconteceria para que pelos menos alguns fossem autorizados a continuar vivendo na Dinamarca. Mas me esqueci em que país estava e cheguei a ficar chocada quando soube que a polícia havia invadido a igreja Brorsons no meio da madrugada e prendido todos os 17 homens que estavam lá. Nenhuma mulher ou criança foi presa, mas todos tiveram de abandonar a igreja.
Pelos relatos que li e ouvi, inclusive a do pastor da igreja, a remoção dos iraquianos foi dramática. Quando a polícia entrou na igreja, todos os iraquianos se juntaram no altar. Um homem quebrou uma garrafa e ameaçou se cortar, um outro subiu no órgão da igreja e ameaçou pular, mulheres gritavam de desespero enquanto crianças choravam de medo. A invasão aconteceu por volta da uma da madrugada e, por mais que leio que tudo foi feito dentro da lei, nada me convence que não foi mais um da série de atos desumanos da política para refugiados adotada pelo atual governo dinamarquês (mais sobre o assunto em inglês e cenas da ação policial contra um grupo de demonstrantes dinamarqueses que tentou bloquear a passagem do ônibus da polícia que levava os iraquianos).
No dia seguinte à remoção, 15.000 a 25.000 pessoas (como sempre acontece em demonstrações de rua, a quantidade de participantes depende da fonte da informação) se reuniram em frente à igreja para protestar contra a ação da polícia e pedir asilo aos iraquianos. Quando soube da manifestação até fiquei animada. Quem sabe a ação policial não acaba criando uma comoção nacional de apoios aos iraquianos que assim podem afinal conseguir o apoio político necessário para que seus pedidos de asilo sejam reavaliados? pensei novamente do fundo da minha alma otimista ou ingênua. Que nada. No dia seguinte ao da demonstração, pesquisas de opinião pública mostraram que três quintos da população dinamarquesa apoiaram a ação policial.
Conclusão: parei de ler jornais ou páginas da internet da Dinamarca para não morrer de raiva. Até hoje, é claro, quando tive de me atualizar para escrever o blog. Aí deparei com mais uma, duas, não, três histórias de, com o perdão da expressão, cortar o coração: as do Wissam, do Hassan e da Bisian.
Os iraquianos tinham ocupado a igreja havia quase três meses (ver Mahabat e seus dois meninos ) e nesse período eu vinha torcendo e quase acreditando, do fundo do meu otimismo ou ingenuidade, que algo aconteceria para que pelos menos alguns fossem autorizados a continuar vivendo na Dinamarca. Mas me esqueci em que país estava e cheguei a ficar chocada quando soube que a polícia havia invadido a igreja Brorsons no meio da madrugada e prendido todos os 17 homens que estavam lá. Nenhuma mulher ou criança foi presa, mas todos tiveram de abandonar a igreja.
Pelos relatos que li e ouvi, inclusive a do pastor da igreja, a remoção dos iraquianos foi dramática. Quando a polícia entrou na igreja, todos os iraquianos se juntaram no altar. Um homem quebrou uma garrafa e ameaçou se cortar, um outro subiu no órgão da igreja e ameaçou pular, mulheres gritavam de desespero enquanto crianças choravam de medo. A invasão aconteceu por volta da uma da madrugada e, por mais que leio que tudo foi feito dentro da lei, nada me convence que não foi mais um da série de atos desumanos da política para refugiados adotada pelo atual governo dinamarquês (mais sobre o assunto em inglês e cenas da ação policial contra um grupo de demonstrantes dinamarqueses que tentou bloquear a passagem do ônibus da polícia que levava os iraquianos).
No dia seguinte à remoção, 15.000 a 25.000 pessoas (como sempre acontece em demonstrações de rua, a quantidade de participantes depende da fonte da informação) se reuniram em frente à igreja para protestar contra a ação da polícia e pedir asilo aos iraquianos. Quando soube da manifestação até fiquei animada. Quem sabe a ação policial não acaba criando uma comoção nacional de apoios aos iraquianos que assim podem afinal conseguir o apoio político necessário para que seus pedidos de asilo sejam reavaliados? pensei novamente do fundo da minha alma otimista ou ingênua. Que nada. No dia seguinte ao da demonstração, pesquisas de opinião pública mostraram que três quintos da população dinamarquesa apoiaram a ação policial.
Conclusão: parei de ler jornais ou páginas da internet da Dinamarca para não morrer de raiva. Até hoje, é claro, quando tive de me atualizar para escrever o blog. Aí deparei com mais uma, duas, não, três histórias de, com o perdão da expressão, cortar o coração: as do Wissam, do Hassan e da Bisian.
sábado, 8 de agosto de 2009
Dia dos pais
Amanhã seria dia de ligar para meu pai e lhe desejar feliz dia dos pais. Na minha família sempre fomos críticos do caráter comercial dessas datas, mas assim mesmo embarcamos sem pestanajar na onda de presentes e reuniões familiares nos dias das mães e dos pais.
Antes de me mudar para a Dinamarca, dia dos pais tinha invariavelmente reunião da família toda em torno de uma churrasqueira e presentes para o meu pai, que nesse dia via uma das vantagens de ter tido cinco filhos.
Para meus irmãos, minha mãe e eu, a semana que antecedia o segundo domingo de agosto era de dúvidas sobre o que dar ao ”melhor pai do mundo” que também podia às vezes se comportar como ”o pai mais chato do mundo”. Como era difícil presentear meu pai. Ferramenta era quase certo que ele ia gostar de receber, mas ele já tinha tanta geringonça que ninguém mais tinha vontade de lhe dar uma nova. Livro era meio complicado, porque, ao contrário da minha mãe, ele nunca foi muito de ler. Roupas ou sapatos, claro, seriam a alternativa mais correta, porque, como minha mãe dizia, ele andaria como um mendigo se não fosse as roupas e sapatos que nós comprávamos para ele. Não que lhe faltasse dinheiro para isso, mas é que ele nunca encontrava tempo para compras.
Mas comprar sapatos e, principalmente, roupas para meu pai, era um esporte arriscado. Nos últimos anos ele ficou mais tolerante, mas durante muito tempo tive a impressão de que nada que eu dava a ele o agradava. Ele sempre agradecia, é claro, mas na primeira oportunidade soltava algo como ”essa camisa é muito bonita mas essa gola não é meio assim como a de um pastor?” ou ”calça de boa qualidade, hein minha filha, pena que falta um bolso aqui”. Pois é, calça comprida para meu pai tinha de ter bolsos, muitos bolsos. No da direita, ele colocava a carteira, no da esquerda, uma cadernetinha, no da perna direita, uma caneta e um canivetinho, no da esquerda, o chaveiro. Nos bolsos dos fundos, nada, claro, porque ”eu também não sou bobo de dar mole para batedor de carteira” A necessidade de bolsos do meu pai Juarez era tanta que ele chegou a mandar alguém costurar bolsos extra em algumas das suas calças.
Nos bolsos iam também as listas de compras de supermercado que ele precisava fazer. Lá em casa sempre foi meu pai o maior responsável pelas compras de supermercado. Nos supermercados, mercadinhos, frutarias e feiras de Taguatinga, ele todo mês deixava boa parte de seu salário de policial militar.
Aliás, para compras de alimentos o seu Juarez sempre tinha tempo. Ele sentia um prazer imenso em abastecer a casa de comida, comida e comida. Acho que talvez porque ele se orgulhasse de nos ver atacando uma melancia deliciosa que ele havia comprado, confirmando o talento dele de quase sempre acertar na hora de comprar frutas e verduras. Ou nos ver devorando um frango assado preparado com um tempero delicioso que já tentei inúmeras vezes copiar. Ele gostava tanto de nos encher de comida, que mesmo no dia dos pais muitas frequentemente era ele que ia para a churrasqueira cuidar da carne, frango e linguiças que passaríamos um dia quase inteiro comendo.
Depois que me mudei para a Dinamarca, disse adeus a esses domingões dos dias dos pais. A preocupação sobre o presente também diminuiu porque depois de algum tempo passei a comprar apenas um presente pelo Natal, aniversário e dia dos pais, e entregá-lo pessoalmente nas minhas visitas anuais ao Brasil. Para mim, no dia dos pais sobrou apenas aquele telefonema, quase sagrado, que eu dava todo ano ao meu pai. Amanhã será o segundo dia dos pais em que nem isso vou poder fazer.
Ai pai. Como a saudade dói.
Antes de me mudar para a Dinamarca, dia dos pais tinha invariavelmente reunião da família toda em torno de uma churrasqueira e presentes para o meu pai, que nesse dia via uma das vantagens de ter tido cinco filhos.
Para meus irmãos, minha mãe e eu, a semana que antecedia o segundo domingo de agosto era de dúvidas sobre o que dar ao ”melhor pai do mundo” que também podia às vezes se comportar como ”o pai mais chato do mundo”. Como era difícil presentear meu pai. Ferramenta era quase certo que ele ia gostar de receber, mas ele já tinha tanta geringonça que ninguém mais tinha vontade de lhe dar uma nova. Livro era meio complicado, porque, ao contrário da minha mãe, ele nunca foi muito de ler. Roupas ou sapatos, claro, seriam a alternativa mais correta, porque, como minha mãe dizia, ele andaria como um mendigo se não fosse as roupas e sapatos que nós comprávamos para ele. Não que lhe faltasse dinheiro para isso, mas é que ele nunca encontrava tempo para compras.
Mas comprar sapatos e, principalmente, roupas para meu pai, era um esporte arriscado. Nos últimos anos ele ficou mais tolerante, mas durante muito tempo tive a impressão de que nada que eu dava a ele o agradava. Ele sempre agradecia, é claro, mas na primeira oportunidade soltava algo como ”essa camisa é muito bonita mas essa gola não é meio assim como a de um pastor?” ou ”calça de boa qualidade, hein minha filha, pena que falta um bolso aqui”. Pois é, calça comprida para meu pai tinha de ter bolsos, muitos bolsos. No da direita, ele colocava a carteira, no da esquerda, uma cadernetinha, no da perna direita, uma caneta e um canivetinho, no da esquerda, o chaveiro. Nos bolsos dos fundos, nada, claro, porque ”eu também não sou bobo de dar mole para batedor de carteira” A necessidade de bolsos do meu pai Juarez era tanta que ele chegou a mandar alguém costurar bolsos extra em algumas das suas calças.
Nos bolsos iam também as listas de compras de supermercado que ele precisava fazer. Lá em casa sempre foi meu pai o maior responsável pelas compras de supermercado. Nos supermercados, mercadinhos, frutarias e feiras de Taguatinga, ele todo mês deixava boa parte de seu salário de policial militar.
Aliás, para compras de alimentos o seu Juarez sempre tinha tempo. Ele sentia um prazer imenso em abastecer a casa de comida, comida e comida. Acho que talvez porque ele se orgulhasse de nos ver atacando uma melancia deliciosa que ele havia comprado, confirmando o talento dele de quase sempre acertar na hora de comprar frutas e verduras. Ou nos ver devorando um frango assado preparado com um tempero delicioso que já tentei inúmeras vezes copiar. Ele gostava tanto de nos encher de comida, que mesmo no dia dos pais muitas frequentemente era ele que ia para a churrasqueira cuidar da carne, frango e linguiças que passaríamos um dia quase inteiro comendo.
Depois que me mudei para a Dinamarca, disse adeus a esses domingões dos dias dos pais. A preocupação sobre o presente também diminuiu porque depois de algum tempo passei a comprar apenas um presente pelo Natal, aniversário e dia dos pais, e entregá-lo pessoalmente nas minhas visitas anuais ao Brasil. Para mim, no dia dos pais sobrou apenas aquele telefonema, quase sagrado, que eu dava todo ano ao meu pai. Amanhã será o segundo dia dos pais em que nem isso vou poder fazer.
Ai pai. Como a saudade dói.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Direito de todo mundo
Devo admitir que estou ficando mais fã da Suécia. O país começou a me ganhar quando soube que lá eles tratam os refugiados iraquianos com muito mais respeito do que aqui na terra da rainha que é minha xará. E agora, depois de ter passado uma semana em Småland, uma região no sul do país, voltei meio encantada com algumas facetas da sociedade sueca.
Uma delas é o que lá chamam “Allemansrätten”, o que em português seria algo como direito de público acesso ou, numa tradução bem direta, o direito de todos os homens. A tradição e a constituição suecas ditam que todo mundo tem direito a andar, pedalar, correr, cavalgar, esquiar e até mesmo acampar em qualquer área natural, com exceção de jardins particulares, na proximidade de uma residência ou em terra sendo cultivada.
Isso quer dizer que qualquer pessoa pode pegar sua barraca e acampar no meio de uma floresta ou numa praia sem se preocupar se está invadindo uma propriedade particular. Ou levar sua canoa para uma lagoa e remar até cansar. Há algumas restrições quanto a reservas naturais, mas do contrário, toda a beleza natural do país, o que inclui montanhas, lagos, glaciais e florestas está à disposição de quem quiser admirá-la e curti-la. Um visitante pode até colher flores, cogumelos e amoras silvestres, se isso não incluir espécies protegidas. Claro que o direito implica em responsabilidades: o visitante deve proteger a natureza e evitar qualquer dano ao meio ambiente.
Por trás da norma está o princípio de que a natureza pertence e é para ser apreciada por todos. Para mim, um princípio que deveria se transformar em lei universal, embora eu saiba que a ideia causaria arrepios a proprietários de terras de países como o Brasil e a Dinamarca. Ainda assim não consigo deixar de pensar e lamentar os lagos e praias aos quais me foram negados acesso aqui na Dinamarca, as cercas intimidadoras das propriedades rurais no interior brasileiro ou as ilhas particulares de Angra dos Reis.
Uma delas é o que lá chamam “Allemansrätten”, o que em português seria algo como direito de público acesso ou, numa tradução bem direta, o direito de todos os homens. A tradição e a constituição suecas ditam que todo mundo tem direito a andar, pedalar, correr, cavalgar, esquiar e até mesmo acampar em qualquer área natural, com exceção de jardins particulares, na proximidade de uma residência ou em terra sendo cultivada.
Isso quer dizer que qualquer pessoa pode pegar sua barraca e acampar no meio de uma floresta ou numa praia sem se preocupar se está invadindo uma propriedade particular. Ou levar sua canoa para uma lagoa e remar até cansar. Há algumas restrições quanto a reservas naturais, mas do contrário, toda a beleza natural do país, o que inclui montanhas, lagos, glaciais e florestas está à disposição de quem quiser admirá-la e curti-la. Um visitante pode até colher flores, cogumelos e amoras silvestres, se isso não incluir espécies protegidas. Claro que o direito implica em responsabilidades: o visitante deve proteger a natureza e evitar qualquer dano ao meio ambiente.
Por trás da norma está o princípio de que a natureza pertence e é para ser apreciada por todos. Para mim, um princípio que deveria se transformar em lei universal, embora eu saiba que a ideia causaria arrepios a proprietários de terras de países como o Brasil e a Dinamarca. Ainda assim não consigo deixar de pensar e lamentar os lagos e praias aos quais me foram negados acesso aqui na Dinamarca, as cercas intimidadoras das propriedades rurais no interior brasileiro ou as ilhas particulares de Angra dos Reis.
domingo, 2 de agosto de 2009
Retorno
Voltei hoje à Dinamarca, depois de oito dias no mato sueco, num lugar chamado Lindehult. Ao chegar em casa, o e-mail de uma amiga trouxe uma descoberta: um grupo esloveno, o Perpetuum Jazzile, cantando Aquarela do Brasil de maneira brilhante. Eu nunca poderia imaginar que a música brasileira fosse tão bem cantada por aquelas bandas.
Com eles canta um grupo vocal brasileiro, o BR6, que eu não conhecia e passei a admirar. Sobre eles há um video no Youtube.
Com eles canta um grupo vocal brasileiro, o BR6, que eu não conhecia e passei a admirar. Sobre eles há um video no Youtube.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Mahabat e seus dois meninos
O governo dinamarquês quer separar a iraquiana Mahabat Rushdi Merza, de seus filhos, um nenê de oito meses e um menininho de quatro anos, e de seu marido. Por mais estranho que pareça, o marido e os filhos de Mahabat receberam autorização para viver temporariamente na Dinamarca, mas o pedido de asilo dela foi recusado e o governo dinamarquês ameaça mandá-la de volta para o Iraque.
Mahabat é uma dos 250 refugiados iraquianos que tiveram seus pedidos de asilo recusados pelo governo dinamarquês, que pretende enviá-los à força de volta para o Iraque. Antes, a falta um acordo entre os dois países impedia que a Dinamarca pudesse obrigar os refugiados a voltar a seu país de origem enquanto o governo iraquiano não quisesse recebê-los. Mas tal acordo foi alcançado no dia 13 de maio passado e, desde então, um grupo de refugiados, em pânico, passou a ocupar a igreja Brorsons, situada perto do centro de Copenhague.
Mahabat, que tem 28 anos de idade, e seus dois filhos fazem parte desse grupo. Ela vive há dez anos na Dinamarca, onde, além dos filhos e marido, também moram sua mãe e quatro irmãos. Assim como ela, sua mãe e os irmãos não receberam permissão para viver na Dinamarca e também estão vivendo na igreja.
domingo, 19 de julho de 2009
Pelo bico
Não resisti e estou repassando o link de um vídeo que está circulando na rede. Um cara mostrando uma jeito simples de descascar uma banana. Segundo ele, do jeito dos macacos. No vídeo, ele tenta primeiro descascar a banana como sempre fez: pelo talo. Depois demonstra o método dos nossos primos macacos: apertando o bico. Já experimentei e dá certo.
Depois desse vídeo revelador, percebi o quanto a internet anda revolucionando minha vida. Todo dia. Até mesmo no descascar de uma banana.
Ah! O link: http://www.youtube.com/watch?v=nBJV56WUDng
Depois desse vídeo revelador, percebi o quanto a internet anda revolucionando minha vida. Todo dia. Até mesmo no descascar de uma banana.
Ah! O link: http://www.youtube.com/watch?v=nBJV56WUDng
terça-feira, 14 de julho de 2009
17 picadas
Acabaram-se as picadas no meu braço a cada três semanas. Ontem recebi a última das 17 doses de Herceptin (trastuzumab), o remédio que deve diminuir as chances de que meu câncer volte a aparecer. Tive de receber esse tratamento extra porque meu câncer de mama, infelizmente, era do tipo HER2 positivo, ou seja, tinha um número anormal de células HER2. Quando a superfície do câncer tem um número excessivo de células da proteína HER2, o tumor é mais agressivo, podendo se espalhar mais rapidamente e com maior possibilidade de reaparecimento. 25% dos casos de câncer de mama são HER2 positivo.
Aliás, ontem fui picada duas vezes já que me submeti a mais um exame cardíaco feito para conferir se o Herceptin não está me causando problemas de coração. O exame mostrou que minhas funções cardíacas estão absolutamente normais. Se não estivessem, eu não poderia receber a última dose de Herceptin.
Meses atrás eu tinha planejado festejar estrondosamente o final do tratamento, mas o dia de ontem passou de forma bem tranquila. Ganhei flores do Henrik e à noite a tia dele ficou com a Gabi para que pudéssemos jantar fora. A noite estava agradável, a cidade cheia de gente. Foi como se estivéssemos comemorando um aniversário de casamento. Um pouco surreal.
Hoje tive um dia normal de trabalho e tudo que está relacionado à doença pareceu ainda mais distante. Mas a falta de um seio e a braçadeira me acompanham e não me deixam esquecer o ano e meio que passou.
Aliás, ontem fui picada duas vezes já que me submeti a mais um exame cardíaco feito para conferir se o Herceptin não está me causando problemas de coração. O exame mostrou que minhas funções cardíacas estão absolutamente normais. Se não estivessem, eu não poderia receber a última dose de Herceptin.
Meses atrás eu tinha planejado festejar estrondosamente o final do tratamento, mas o dia de ontem passou de forma bem tranquila. Ganhei flores do Henrik e à noite a tia dele ficou com a Gabi para que pudéssemos jantar fora. A noite estava agradável, a cidade cheia de gente. Foi como se estivéssemos comemorando um aniversário de casamento. Um pouco surreal.
Hoje tive um dia normal de trabalho e tudo que está relacionado à doença pareceu ainda mais distante. Mas a falta de um seio e a braçadeira me acompanham e não me deixam esquecer o ano e meio que passou.
terça-feira, 7 de julho de 2009
10 anos
Há crianças vivendo num dos países mais ricos do mundo sem direito a frequentar uma escola normal com outras crianças da mesma idade. Algumas dessas crianças nasceram e nunca saíram desse país, mas ainda assim vivem à margem da sociedade.
Estou em campanha por assinaturas de apoio a 122 crianças que vivem em campos para exilados na Dinamarca. Assinei uma petição e tenho usado Facebook, Twitter, meu e-mail e agora este blog para apoiar a causa, sobre a qual se pode ler no http://www.asylboerneneudnu.dk/ (infelizmente apenas em dinamarquês). O movimento por essas crianças têm três reivindicações básicas: as criancas devem ter o direito de viver fora dos abrigos, elas devem ter direito a viver uma vida mais próxima do normal com seus pais e, juntamente com seus pais, elas devem receber o tratamento necessário para que possam superar seus traumas e retomar suas vidas.
O site conta um pouco da rotina dessas crianças espalhadas em seis abrigos mantidos pelo governo e administrados pela Cruz Vermelha da Dinamarca. Crianças maiores de seis anos frequentam uma escola especial para refugiados da Cruz Vermelha. A maior parte dessas crianças tem de viajar de ônibus diariamente duas horas de ida e volta para chegar à escola especial. A carga horária e a quantidade de disciplinas na escola especial são reduzidos e as crianças não tem direito a prestar exames.
As crianças nos abrigos têm muito pouco contato com crianças dinamarquesas, o que naturalmente dificulta a aprendizagem do dinamarquês. Os abrigos ficam geralmente em áreas isoladas e como os pais têm muito pouco dinheiro para transporte, o resultado é que essas crianças vivem à parte do resto da sociedade, com raras oportunidades de lazer. Principalmente os adolescentes se sentem marginalizados.
A vida nos abrigos é cheia de barulho, confusão e insegurança.. Frequentemente chegam pessoas estranhas enquanto outras pessoas abandonam os centros. A instabilidade das relações faz com que algumas crianças desistam de fazer amigos, se negam a frequentar a escola e se isolem em seus quartos. Nos quartos onde as famílias vivem, há pouco espaço e quase nenhuma privacidade.
Os pais dessas crianças são proibidos de procurar emprego e precisam “bater o ponto” nos abrigos, onde a presença deles é controlada para evitar fugas. Sem trabalho, eles recebem ajuda financeira do governo dinamarquês, que lhes paga quantias bem inferiores à ajuda de custo recebida por cidadãos dinamarqueses e estrangeiros com permanência regular no país..
Tudo isso talvez não fosse razão para grandes problemas se a passagem pelos abrigos fosse curta. Mas todas essas 122 crianças vivem há pelo menos um ano nesses abrigos. Muitas já têm três anos de vida nos abrigos e uma delas vive em abrigos há dez anos. Dez anos. Toda uma infância.
Ninguém pode dizer que essas crianças não têm suas necessidades básicas atendidas. Como eu já frisei numa postagem anterior não lhes falta comida, roupa e teto. Mas a situacão delas me faz lembrar aquela a cancão* dos Titãs que tem o seguinte trecho:
"A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...
A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer..."
*Comida (composição do Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto. Letra completa no http://letras.terra.com.br/titas/91453/)
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Seleção de todos os brasileiros
Que legal a vitória do Brasil na Copa das Confederações na África do Sul mas não posso deixar de registrar um constrangimento: a mancada do Kaka e, principalmente, do capitão Lúcio expondo suas preferências religiosas em camisetas sobre o uniforme do Brasil, como descreve o blog do Plínio Bortolotti.
Esse tipo de comportamento é uma afronta a todos os brasileiros não cristãos e ao público internacional que não compartilha da mesma crença ou que ligou a televisão para ver futebol e não para assistir proselitismo religioso.
Daqui da Dinamarca, fiquei envergonhada por tal comportamento. Quando vejo os conflitos religiosos na Europa, costumo me sentir orgulhosa de vir de um país onde a liberdade religiosa impera. Mas o comportamento dos jogadores dá uma impressão completamente errada da sociedade brasileira.
A propósito, o fato gerou notícia num dos maiores jornais da Dinamarca. Confira o link http://politiken.dk/sport/fodbold/article742698.ece do artigo entitulado “Estrelas do futebol fazem propaganda cristã” (Fodboldstjerner reklamerer for kristendommen). Na minha opinião, as fotos são constrangedoras.
Só espero que esse tipo de comportamento não acabe criando antipatia pelo time brasileiro que, normalmente, é recebido com carinho e admiração por povos de todas as crenças.
Sinceramente, acho que os dois jogadores deveriam ser advertidos.
Esse tipo de comportamento é uma afronta a todos os brasileiros não cristãos e ao público internacional que não compartilha da mesma crença ou que ligou a televisão para ver futebol e não para assistir proselitismo religioso.
Daqui da Dinamarca, fiquei envergonhada por tal comportamento. Quando vejo os conflitos religiosos na Europa, costumo me sentir orgulhosa de vir de um país onde a liberdade religiosa impera. Mas o comportamento dos jogadores dá uma impressão completamente errada da sociedade brasileira.
A propósito, o fato gerou notícia num dos maiores jornais da Dinamarca. Confira o link http://politiken.dk/sport/fodbold/article742698.ece do artigo entitulado “Estrelas do futebol fazem propaganda cristã” (Fodboldstjerner reklamerer for kristendommen). Na minha opinião, as fotos são constrangedoras.
Só espero que esse tipo de comportamento não acabe criando antipatia pelo time brasileiro que, normalmente, é recebido com carinho e admiração por povos de todas as crenças.
Sinceramente, acho que os dois jogadores deveriam ser advertidos.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Irã
Estou acompanhando com tristeza, apreensão e um pouco de esperança os acontecimentos no Irã. Ah, como seria bom se a democracia vencesse.
Lembrete linfático
Hoje percebi que o que mais me aborrece em relação ao linfedema é sua visibilidade. A braçadeira que preciso usar quase diariamente torna o problema desagradavelmente visível e volta e meio tenho de responder a perguntas de pessoas, a maioria bem intencionada, que involuntariamente me relembram o motivo inicial do linfedema: o câncer de mama.
O linfedema é a sequela que mais frequentemente me faz lembrar que ainda sou uma paciente de câncer. É também o que mais me obriga a encarar a realidade de que nunca mais serei aquela que fui antes do câncer. Os dias me trazem inúmeros lembretes dessa realidade: de manhã cedo ao vestir a braçadeira, mais tarde brincando com a minha filha, na hora de pegar a sacola pesada de compras do supermercado, quando vou molhar as plantas com o regador cheio d'água, etc.
Afora essa visibilidade, até que estou vivendo bem com esse meu novo mal. Uso a braçadeira e me massageio e de de vez em quando vou à fisioterapeuta, uma moça tão doce a simpática que eu gostaria de rever mesmo que não precisasse do tratamento.
O linfedema é a sequela que mais frequentemente me faz lembrar que ainda sou uma paciente de câncer. É também o que mais me obriga a encarar a realidade de que nunca mais serei aquela que fui antes do câncer. Os dias me trazem inúmeros lembretes dessa realidade: de manhã cedo ao vestir a braçadeira, mais tarde brincando com a minha filha, na hora de pegar a sacola pesada de compras do supermercado, quando vou molhar as plantas com o regador cheio d'água, etc.
Afora essa visibilidade, até que estou vivendo bem com esse meu novo mal. Uso a braçadeira e me massageio e de de vez em quando vou à fisioterapeuta, uma moça tão doce a simpática que eu gostaria de rever mesmo que não precisasse do tratamento.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Pólen
Para mim, mês de junho no Brasil é mês de festa junina com batata doce assada na fogueira, curau e canjica. Na Dinamarca, para mim deveria ser o início do verão, com noites claras até as dez da noite e temperaturas mais amenas. Mas, pobre de mim, junho também é mês de coceira insuportável na garganta, ouvidos, lábios e olhos, espirros, e nariz escorrendo. É mês de alergia a pólen de grama, algo que tive o desprazer de conhecer já no meu primeiro verão na Dinamarca, em 1998.
Este começo de verão não está sendo diferente daqueles que passaram. E o inferno alérgico só vai passar quando o pólen de grama parar de infestar o ar daqui, ou seja, daqui a duas ou três semanas.
Este começo de verão não está sendo diferente daqueles que passaram. E o inferno alérgico só vai passar quando o pólen de grama parar de infestar o ar daqui, ou seja, daqui a duas ou três semanas.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Folga real
Permitam-me continuar escrevendo sobre meu rebentos plebeus de indignação com a monarquia dinamarquesa. Minha pequena irritação com as agendas, calendários e folhinhas de geladeira se renovou depois que li uma matéria no jornal Politiken sobre o novo livro da jornalista Trine Villemann, “O Rei e a Rainha da Groenlândia” (Kongen og dronningen af Grønland).
O livro lançado três semanas atrás pode não ser o livro de cabeceira da princesa Mary e seu marido, o príncipe herdeiro Frederik, mas deve certamente estar dando uma boa dor de cabeça ao casal. Na matéria, Trine conta que, de acordo com o calendário oficial de Frederik, em abril ele teve um duro mês de trabalho, com 24 dias de folga e 6 (seis!) dias de trabalho. Detalhe: num dos seis dias de trabalho do príncipe, ele se ocupou do aniversário da filha Isabella. Ôo vida dura, meu Deus.
No livro, a jornalista diz que, embora a lei orçamentária do governo dinamarquês tenha reservado “apenas” 93 milhões de coroas (cerca de R$ 35 milhões de coroas dinamarquesas, em 2 de junho/2009) à família real em 2009, os gastos totais com a realeza devem ser bem maiores e podem chegar a 250 milhões de coroas só este ano. Isso porque a verba explicitamente destinada aos de sangue azul não inclui, por exemplo, as despesas que o Ministério da Defesa dinamarquês tem com a família real. É o Ministério da Defesa que mantém o navio real “Dannebrog” navegando de abril a setembro com a família real a bordo.
A jornalista, que apesar do livro se proclama monarquista, quer que as contas da realeza sejam abertas para que o povo dinamarquês saiba como os de sangue azul estão usando o dinheiro que recebem dos pagadores de impostos. Ninguém, nem mesmo o órgão daqui que fiscaliza as contas do governo, tem acesso às contas da família real que, aliás, também não paga um centavo de imposto sobre os milhões que recebe dos desprovidos de sangue azul. Outro detalhe importante: o desconto de imposto na fonte é de cerca de 40% para todos os dinamarqueses, embora os que recebem salários mais altos paguem bem mais do que isso.
O livro lançado três semanas atrás pode não ser o livro de cabeceira da princesa Mary e seu marido, o príncipe herdeiro Frederik, mas deve certamente estar dando uma boa dor de cabeça ao casal. Na matéria, Trine conta que, de acordo com o calendário oficial de Frederik, em abril ele teve um duro mês de trabalho, com 24 dias de folga e 6 (seis!) dias de trabalho. Detalhe: num dos seis dias de trabalho do príncipe, ele se ocupou do aniversário da filha Isabella. Ôo vida dura, meu Deus.
No livro, a jornalista diz que, embora a lei orçamentária do governo dinamarquês tenha reservado “apenas” 93 milhões de coroas (cerca de R$ 35 milhões de coroas dinamarquesas, em 2 de junho/2009) à família real em 2009, os gastos totais com a realeza devem ser bem maiores e podem chegar a 250 milhões de coroas só este ano. Isso porque a verba explicitamente destinada aos de sangue azul não inclui, por exemplo, as despesas que o Ministério da Defesa dinamarquês tem com a família real. É o Ministério da Defesa que mantém o navio real “Dannebrog” navegando de abril a setembro com a família real a bordo.
A jornalista, que apesar do livro se proclama monarquista, quer que as contas da realeza sejam abertas para que o povo dinamarquês saiba como os de sangue azul estão usando o dinheiro que recebem dos pagadores de impostos. Ninguém, nem mesmo o órgão daqui que fiscaliza as contas do governo, tem acesso às contas da família real que, aliás, também não paga um centavo de imposto sobre os milhões que recebe dos desprovidos de sangue azul. Outro detalhe importante: o desconto de imposto na fonte é de cerca de 40% para todos os dinamarqueses, embora os que recebem salários mais altos paguem bem mais do que isso.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Irritação real
Agenda, folhinha para pendurar na parede e calendário dinamarquês tem algo mais do que as datas religiosas e históricas de praxe: têm registrados também as datas de aniversário de pessoas como a Mary, a Isabella, o Christian, o Henrik, o Frederik, o Henrik, o Joaquim e o Felix. A razão pela qual essas pessoas têm seus nomes impressos na minha agenda e no calendário da geladeira aqui de casa é que todos eles são da família real. Mary é a nora, a Isabella, o Felix e o Christian são netos, o Henrik é o marido e o Frederik e o Joaquim são filhos da rainha Margrethe.
Depois de conferir na minha agenda que tenho hora marcada com minha dentista nesta sexta-feira, descobri, sem pedir, que o aniversário do príncipe herdeiro, o Frederik, é amanhã, 26 de maio. Uau!
A primeira vez que vi um calendário em dinamarquês e vi aqueles nomes de pessoas que não me diziam respeito, achei engraçado. Depois veio uma pequena irritação que dura até hoje e se renova a cada mudança de ano quando começo a usar uma nova agenda ou calendário. Por que é que na minha agenda preciso ser lembrada do aniversário de pessoas que representam um estilo de vida e uma tradição com a qual não concordo? É algo tão compulsório quanto a minha contribuição, através dos impostos que pago, para manter a vida ociosa e fútil da família real dinamarquesa.
Depois de conferir na minha agenda que tenho hora marcada com minha dentista nesta sexta-feira, descobri, sem pedir, que o aniversário do príncipe herdeiro, o Frederik, é amanhã, 26 de maio. Uau!
A primeira vez que vi um calendário em dinamarquês e vi aqueles nomes de pessoas que não me diziam respeito, achei engraçado. Depois veio uma pequena irritação que dura até hoje e se renova a cada mudança de ano quando começo a usar uma nova agenda ou calendário. Por que é que na minha agenda preciso ser lembrada do aniversário de pessoas que representam um estilo de vida e uma tradição com a qual não concordo? É algo tão compulsório quanto a minha contribuição, através dos impostos que pago, para manter a vida ociosa e fútil da família real dinamarquesa.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
A pequena Guantánamo no quintal da Dinamarca
Há pessoas vivendo em condições muito mais desumanas pelo mundo afora do que os refugiados que vivem nos abrigos da Dinamarca. Em alguns casos não há muito que individualmente possamos fazer para mudar essas condições. Mas a situação muda de figura quando se é confrontado com o fato de, perto da sua rotinazinha confortável, viverem pessoas, inclusive crianças, cujas vidas estão sendo destruídas por anos e anos de confinamento num abrigo para refugiados.
Sandholm,que fica a apenas 27 km daqui de casa, é um dos abrigos para refugiados na Dinamarca onde 137 crianças tem vivido por mais de um ano. Um estudo da Cruz Vermelha da Dinamarca mostrou que a experiência de viver mais de um ano nesses abrigos é traumática para essas crianças, que dão sinais de problemas psíquicos e sofrem com os traumas sofridos por suas famílias. Um outro estudo, da Anistia Internacional, revelou que quase metade dos que tentam asilo na Dinamarca, sofreram tortura.
A indiferença com que a sociedade dinamarquesa lida com a situação dessas crianças me choca. É impressionante ver como uma sociedade que cuida tanto de suas próprias crianças prefere ignorar completamente o destino das crianças nos abrigos de refugiados. Essa indiferença é ainda mais difícil de compreender porque acontece num dos países mais ricos do mundo que acabou de passar por um período de vacas gordas na área econômica.
Há felizmente exceções a essa indiferença e a mais antiga é a de um grupo que se chama “Avós a favor de asilo (Bedsteforældre for asyl) que desde 2007 faz todo santo domingo demonstrações pacíficas de protesto contra a política para refugiados em frente aos abrigos. Uma outra exceção foi a de um grupo de jovens que no ano passado tentou fechar simbolicamente o abrigo de Sandholm. A manifestação foi abortada pela polícia e criticada por muitos pelo caráter “violento”.
Mais recentemente, um grupo liderado pela jurista Eva Smith, Crianças refugiadas fora dos abrigos agora (Asylbørneneudnu.dk) , está começando um movimento mais amplo para pressionar o governo dinamarquês a tirar as crianças dos abrigos e proporcionar a elas e suas famílias uma vida normal e tratamento médico para que possam superar os traumas físicos e psíquicos que viveram. A meta do grupo é conseguir 500.000 assinaturas, que corresponderiam a mais ou menos dez por cento da população dinamarquesa.
Segundo Eva Smith, a situação das crianças refugiadas é a “pequena Guantánamo no quintal” dos dinamarqueses. Numa entrevista ao jornal dinamarquês Politiken, Eva diz que, daqui a 30 anos, as gerações futuras vão olhar para trás e se perguntar: “Por que nossos pais não fizeram nada para ajudar essas crianças? Eles sabiam o que estava acontecendo e não fizeram nada”. Tenho medo de imaginar o que minha filha vai pensar de mim.
Sandholm,que fica a apenas 27 km daqui de casa, é um dos abrigos para refugiados na Dinamarca onde 137 crianças tem vivido por mais de um ano. Um estudo da Cruz Vermelha da Dinamarca mostrou que a experiência de viver mais de um ano nesses abrigos é traumática para essas crianças, que dão sinais de problemas psíquicos e sofrem com os traumas sofridos por suas famílias. Um outro estudo, da Anistia Internacional, revelou que quase metade dos que tentam asilo na Dinamarca, sofreram tortura.
A indiferença com que a sociedade dinamarquesa lida com a situação dessas crianças me choca. É impressionante ver como uma sociedade que cuida tanto de suas próprias crianças prefere ignorar completamente o destino das crianças nos abrigos de refugiados. Essa indiferença é ainda mais difícil de compreender porque acontece num dos países mais ricos do mundo que acabou de passar por um período de vacas gordas na área econômica.
Há felizmente exceções a essa indiferença e a mais antiga é a de um grupo que se chama “Avós a favor de asilo (Bedsteforældre for asyl) que desde 2007 faz todo santo domingo demonstrações pacíficas de protesto contra a política para refugiados em frente aos abrigos. Uma outra exceção foi a de um grupo de jovens que no ano passado tentou fechar simbolicamente o abrigo de Sandholm. A manifestação foi abortada pela polícia e criticada por muitos pelo caráter “violento”.
Mais recentemente, um grupo liderado pela jurista Eva Smith, Crianças refugiadas fora dos abrigos agora (Asylbørneneudnu.dk) , está começando um movimento mais amplo para pressionar o governo dinamarquês a tirar as crianças dos abrigos e proporcionar a elas e suas famílias uma vida normal e tratamento médico para que possam superar os traumas físicos e psíquicos que viveram. A meta do grupo é conseguir 500.000 assinaturas, que corresponderiam a mais ou menos dez por cento da população dinamarquesa.
Segundo Eva Smith, a situação das crianças refugiadas é a “pequena Guantánamo no quintal” dos dinamarqueses. Numa entrevista ao jornal dinamarquês Politiken, Eva diz que, daqui a 30 anos, as gerações futuras vão olhar para trás e se perguntar: “Por que nossos pais não fizeram nada para ajudar essas crianças? Eles sabiam o que estava acontecendo e não fizeram nada”. Tenho medo de imaginar o que minha filha vai pensar de mim.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Balanço
Hoje recebi mais uma dose de herceptin. Agora só faltam três. No final de julho, quando receber a última dose, acho que me sentirei mais leve.
A enfermeira que me aplicou a injeção de heceptin, como é de praxe, me perguntou sobre como eu estava me sentindo ultimamente. Foi novamente hora de fazer uma balanço do meu bem estar. Me surpreendi não tendo muito mais do que reclamar: o inchaço no braço diminuiu e me dei conta de que fazia mais de uma semana que vinha dormindo bem.
As ondas de calor continuam, às vezes quase me deixando louca, mas sinto que aos poucos sua intensidade e frequência estão diminuindo.
Meu corpo dá outros sinais de, finalmente, estar voltando ao normal. Meu cabelo voltou a crescer mais rapidamente, depois de um período com crescimento bem lento. Também tenho percebido que as dores dos músculos das pernas, que tem me acompanhado desde a quimioterapia, estão mais fracas.
As mudanças para melhor estão acontecendo bem mais lentamente do que eu gostaria, mas pele menos estão acontecendo.
A enfermeira que me aplicou a injeção de heceptin, como é de praxe, me perguntou sobre como eu estava me sentindo ultimamente. Foi novamente hora de fazer uma balanço do meu bem estar. Me surpreendi não tendo muito mais do que reclamar: o inchaço no braço diminuiu e me dei conta de que fazia mais de uma semana que vinha dormindo bem.
As ondas de calor continuam, às vezes quase me deixando louca, mas sinto que aos poucos sua intensidade e frequência estão diminuindo.
Meu corpo dá outros sinais de, finalmente, estar voltando ao normal. Meu cabelo voltou a crescer mais rapidamente, depois de um período com crescimento bem lento. Também tenho percebido que as dores dos músculos das pernas, que tem me acompanhado desde a quimioterapia, estão mais fracas.
As mudanças para melhor estão acontecendo bem mais lentamente do que eu gostaria, mas pele menos estão acontecendo.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Festa
Fizemos uma festa aqui em casa no sábado passado. Na falta de um motivo, dissemos que a festa era para comemorar a primavera que, afinal, chegou à Dinamarca. A propósito, abril foi o mês mais quente e com mais horas de céu ensolarado deste país desde que começaram a registrar o clima, mais de dois séculos atrás. A temperatura média atingiu 9,4 C e foram 272 horas de céu claro. Para se ter uma ideia, no período 1961-1990, a temperatura média em abril foi de apenas 5,7 °C e as horas de céu claro não passaram de 162 horas.
Em suma, o Henrik, eu e nossos convidados, entre brasileiros, dinamarqueses e colegas de vários países do meu trabalho, tínhamos bons motivos para comemorar, mesmo porque aqui na Dinamarca é bom celebrar o bom tempo antes que ele acabe. Há quem faca piadas dizendo que, em alguns anos, temos sorte porque o verão cai num fim de semana.
Minha filha passou a noite na casa de uma tia do Henrik, o que nos deu liberdade para cantar berrando alguns dos sambões que colocamos para tocar. ”Aquarela Brasileira”, de Sila de Oliveira, na voz de Martinho da Vila, por exemplo, ou pular como loucos ao som das Frenéticas cantando “Dancing Days”.
Dancei como há muito tempo não dançava mas lá pelas tantas senti um cansaço anormal nas pernas, o que me fez lembrar que os efeitos da quimioterapia, ou da menopausa antecipada pelo tratamento, ainda incomodam.
Uma amiga que me ligou no dia seguinte e disse que se impressionou com meu pique. ”Era como se fosse a sua última chance de dançar na vida”. Achei graça. Talvez eu devesse fazer isso mais vezes: dançar como se fosse a última vez.
Em suma, o Henrik, eu e nossos convidados, entre brasileiros, dinamarqueses e colegas de vários países do meu trabalho, tínhamos bons motivos para comemorar, mesmo porque aqui na Dinamarca é bom celebrar o bom tempo antes que ele acabe. Há quem faca piadas dizendo que, em alguns anos, temos sorte porque o verão cai num fim de semana.
Minha filha passou a noite na casa de uma tia do Henrik, o que nos deu liberdade para cantar berrando alguns dos sambões que colocamos para tocar. ”Aquarela Brasileira”, de Sila de Oliveira, na voz de Martinho da Vila, por exemplo, ou pular como loucos ao som das Frenéticas cantando “Dancing Days”.
Dancei como há muito tempo não dançava mas lá pelas tantas senti um cansaço anormal nas pernas, o que me fez lembrar que os efeitos da quimioterapia, ou da menopausa antecipada pelo tratamento, ainda incomodam.
Uma amiga que me ligou no dia seguinte e disse que se impressionou com meu pique. ”Era como se fosse a sua última chance de dançar na vida”. Achei graça. Talvez eu devesse fazer isso mais vezes: dançar como se fosse a última vez.
domingo, 26 de abril de 2009
Iraquianos na Dinamarca
Um artigo da jornalista Anita Bay Bundegaard, no jornal dinamarquês Politiken, alguns dias atrás, trouxe números que me chocaram: 184 iraquianos vivem há pelo menos sete anos, alguns há 12 anos, num abrigo para refugiados que tentam conseguir asilo na Dinamarca.
O governo dinamarquês, seguindo à risca sua rígida política de asilo, recusou asilo a esses 184 iraquianos que, no entanto, se negam a voltar para seu país. A Dinamarca não pode obrigar os iraquianos a voltar porque o governo iraquiano não quer recebê-los. Talvez porque já tenham problemas de sobra no Iraque. Enquanto os dois países não se entendem, os iraquianos vivem como párias: têm suas necessidades básicas atendidas mas não podem participar ativamente da sociedade que lhes dá comida, roupa e teto. São proibidos de trabalhar e obrigados a viver no abrigo chamado Sandholm, que alguns dinamarqueses já começaram a chamar de campo de concentração.
A jornalista Anita Bay Bundegaard comparou a questão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e no país vizinho, a Suécia. Os suecos receberam 60 por cento de todos os iraquianos que fugiram para a Europa depois da Guerra do Iraque. Desde o início do conflito, a Suécia recebeu mais de 9,000 refugiados. Lá os refugiados têm permissão para trabalhar e morar em residências como o resto da sociedade.
O curioso é que a Suécia não participou da invasão do Iraque. A Dinamarca, ao contrário, foi um dos poucos países europeus a entrar na coalizão que invadiu o Iraque em 2003.
Ironicamente, enquanto a Dinamarca pressiona em vão o governo iraquiano a receber os refugiados de volta, a Suécia e o Iraque assinaram um acordo que prevê o retorno dos refugiados que estão em solo sueco. Aliás, a Suécia já conseguiu que três mil refugiados voltassem voluntariamente para casa.
Na opinião de Anita Bay Bundegaard, ali na Suécia, vivendo como parte da sociedade que os recebeu, os refugiados mantém sua dignidade, podem estudar e tentar se manter no mercado de trabalho e assim se sentem mais fortes e preparados para retornar ao país de origem.
Aqui na Dinamarca, sem poderem trabalhar e à margem da sociedade, os refugiados estão desaprendendo o que sabiam e aprendendo a viver na dependência de uma sociedade que não os quer. Casos de depressão e outros problemas psíquicos são comum entre os refugiados de Sandholm. O relato de uma ex-refugiada, Dina Yafasova, parece confirmar a tese de Anita. Segundo Dina, que acabou de escrever um livro sobre o assunto, "viver num abrigo como o Sandholm não é aparentemente tão ruim. As pessoas tem um lugar para dormir, roupa e comida. O pior de lá, algo que não se percebe imediatamente mas talvez apenas depois de um mês ou coisa parecida, o pior de lá é o clima de prisão”.
Colocar pessoas fugidas da guerra num lugar que parece uma prisão não deve mesmo ser bom para a saúde mental dessas pessoas. O pior é se a “prisão” se estende por dez, onze, doze anos.
É difícil não concordar com Anita.
O governo dinamarquês, seguindo à risca sua rígida política de asilo, recusou asilo a esses 184 iraquianos que, no entanto, se negam a voltar para seu país. A Dinamarca não pode obrigar os iraquianos a voltar porque o governo iraquiano não quer recebê-los. Talvez porque já tenham problemas de sobra no Iraque. Enquanto os dois países não se entendem, os iraquianos vivem como párias: têm suas necessidades básicas atendidas mas não podem participar ativamente da sociedade que lhes dá comida, roupa e teto. São proibidos de trabalhar e obrigados a viver no abrigo chamado Sandholm, que alguns dinamarqueses já começaram a chamar de campo de concentração.
A jornalista Anita Bay Bundegaard comparou a questão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e no país vizinho, a Suécia. Os suecos receberam 60 por cento de todos os iraquianos que fugiram para a Europa depois da Guerra do Iraque. Desde o início do conflito, a Suécia recebeu mais de 9,000 refugiados. Lá os refugiados têm permissão para trabalhar e morar em residências como o resto da sociedade.
O curioso é que a Suécia não participou da invasão do Iraque. A Dinamarca, ao contrário, foi um dos poucos países europeus a entrar na coalizão que invadiu o Iraque em 2003.
Ironicamente, enquanto a Dinamarca pressiona em vão o governo iraquiano a receber os refugiados de volta, a Suécia e o Iraque assinaram um acordo que prevê o retorno dos refugiados que estão em solo sueco. Aliás, a Suécia já conseguiu que três mil refugiados voltassem voluntariamente para casa.
Na opinião de Anita Bay Bundegaard, ali na Suécia, vivendo como parte da sociedade que os recebeu, os refugiados mantém sua dignidade, podem estudar e tentar se manter no mercado de trabalho e assim se sentem mais fortes e preparados para retornar ao país de origem.
Aqui na Dinamarca, sem poderem trabalhar e à margem da sociedade, os refugiados estão desaprendendo o que sabiam e aprendendo a viver na dependência de uma sociedade que não os quer. Casos de depressão e outros problemas psíquicos são comum entre os refugiados de Sandholm. O relato de uma ex-refugiada, Dina Yafasova, parece confirmar a tese de Anita. Segundo Dina, que acabou de escrever um livro sobre o assunto, "viver num abrigo como o Sandholm não é aparentemente tão ruim. As pessoas tem um lugar para dormir, roupa e comida. O pior de lá, algo que não se percebe imediatamente mas talvez apenas depois de um mês ou coisa parecida, o pior de lá é o clima de prisão”.
Colocar pessoas fugidas da guerra num lugar que parece uma prisão não deve mesmo ser bom para a saúde mental dessas pessoas. O pior é se a “prisão” se estende por dez, onze, doze anos.
É difícil não concordar com Anita.
sábado, 25 de abril de 2009
Atrasos
Esta semana fui novamente ao hospital para receber a décima terceira injeção de hercepetin. Agora só faltam 17.
A trapalhada que causei nas últimas duas vezes que recebi o tratamento parece indicar que estou me cansando dessas idas ao hospital. Na vez anterior, antes de ir para o hospital decidi tirar um cochilo para me recuperar um pouco da noite mal dormida. Deitei para dormir meia hora e caí num sono pesado do qual só acordei cinco minutos depois do horário marcado para estar no hospital. Dei um pulo da cama, me arrumei a jato e, ao invés de pedalar até o hospital, tomei a decisão errada de pegar o carro achando que chegaria mais rápido. Que nada. Peguei um pequeno engarrafamento e ao chegar ao estacionamento do hospital, não havia vagas desocupadas no espaço reservado aos carros dos pacientes. Rodei uns quinze minutes atrás de uma vaga e fui obrigada e estacionar a quase um quilômetro do hospital. Conclusão: cheguei na clínica onde receberia a injeção com mais de uma hora de atraso. As enfermeiras, simpáticas como sempre, não reclamaram e recebi o tratamento como planejado.
Esta semana a trapalhada foi semelhante. Tinha certeza que meu tratamento estava marcado para as 14:30 horas, mas quando cheguei ao hospital, acreditando que estava dando exemplo de pontualidade, uma enfermeira me avisou que já estavam desistindo de esperar por mim. Não entendi e ela explicou que meu tratamento estava marcado para as 13:30 horas. “Ups!”, respondi. Por algum motivo inexplicável, anotei o horário errado na minha agenda e esqueci de conferir o cartão de consultas do hospital, onde o horário havia sido corretamente anotado por uma enfermeira. Novamente, as enfermeiras foram simpáticas e me atenderam sem reclamar.
Eu já havia decidido que, depois da última sessão de herceptin eu iria comprar uma caixa de chocolates para as enfermeiras da clínica onde recebo tratamento como uma pequena demonstração de agradecimento pelo carinho e atenção com que elas têm me tratado. Depois dessa semana, acho que terei de comprar duas caixas.
A trapalhada que causei nas últimas duas vezes que recebi o tratamento parece indicar que estou me cansando dessas idas ao hospital. Na vez anterior, antes de ir para o hospital decidi tirar um cochilo para me recuperar um pouco da noite mal dormida. Deitei para dormir meia hora e caí num sono pesado do qual só acordei cinco minutos depois do horário marcado para estar no hospital. Dei um pulo da cama, me arrumei a jato e, ao invés de pedalar até o hospital, tomei a decisão errada de pegar o carro achando que chegaria mais rápido. Que nada. Peguei um pequeno engarrafamento e ao chegar ao estacionamento do hospital, não havia vagas desocupadas no espaço reservado aos carros dos pacientes. Rodei uns quinze minutes atrás de uma vaga e fui obrigada e estacionar a quase um quilômetro do hospital. Conclusão: cheguei na clínica onde receberia a injeção com mais de uma hora de atraso. As enfermeiras, simpáticas como sempre, não reclamaram e recebi o tratamento como planejado.
Esta semana a trapalhada foi semelhante. Tinha certeza que meu tratamento estava marcado para as 14:30 horas, mas quando cheguei ao hospital, acreditando que estava dando exemplo de pontualidade, uma enfermeira me avisou que já estavam desistindo de esperar por mim. Não entendi e ela explicou que meu tratamento estava marcado para as 13:30 horas. “Ups!”, respondi. Por algum motivo inexplicável, anotei o horário errado na minha agenda e esqueci de conferir o cartão de consultas do hospital, onde o horário havia sido corretamente anotado por uma enfermeira. Novamente, as enfermeiras foram simpáticas e me atenderam sem reclamar.
Eu já havia decidido que, depois da última sessão de herceptin eu iria comprar uma caixa de chocolates para as enfermeiras da clínica onde recebo tratamento como uma pequena demonstração de agradecimento pelo carinho e atenção com que elas têm me tratado. Depois dessa semana, acho que terei de comprar duas caixas.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Mesmice
Logo que soube que estava com câncer, li todos os artigos e reportagens que achava pela frente sobre pessoas que também haviam enfrentado a doença. Eu queria aprender com quem já havia tido câncer como enfrentar o estigma da doença e como superar o tratamento da melhor maneira possível .
Ler tais textos foi inicialmente muito útil. Achei inspiração, dicas e algumas boas informações e sou grata às pessoas que se dispuseram a falar da doença.
Mas depois de algum tempo comecei a me cansar desse tipo de leitura. Nessas reportagens e artigos muitos dos pacientes e ex-pacientes de câncer falam sobre como a vida deles e eles próprios se transformaram depois da doença. Vários contaram como, por exemplo, perceberam o real valor da vida depois que descobriram estar com uma enfermidade que poderia ser fatal. Uma paciente disse como passou a admirar a beleza de uma simples flor. Um outro diz que passou a dar mais valor às pequenas e aparentemente insignificantes coisas da vida. Alguns falam sobre como se tornaram melhores pessoas.
Longe de mim menosprezar ou duvidar das descobertas e conquistas que o câncer tenha trazido a algumas pessoas, mas acho que muitas vezes os textos jornalísticos sobre o assunto mais parecem sinopses piegas de livros de auto-ajuda para leitores com câncer.
Pode ser que meu olhar crítico sobre tais textos seja resultado de um pouco de inveja: não tenho notado em mim todas essas transformações que tantos pacientes contam ter visto em si mesmos. A doença não me tornou, por exemplo, uma “Pollyanna depois do câncer” que só vê lado cor-de-rosa de todos os acontecimentos por que passa.
Claro que não estou passando incólume pelo câncer, mas também não acho que a doença esteja tendo nenhum poder purificador do meu espírito ou alma. Continuo com alguns defeitos que ainda me irritam muito. Dar importância demais a coisas sem importância é um deles. Nos últimos meses percebi que, infelizmente, coisas sem importância continuam me encasquetando muito mais do que deveriam.
Como antes da doença, continuo admirando a beleza de uma flor ou a magnificência do pôr de sol avermelhado de Brasília e valorizando o prazer de estar com as pessoas que amo. Também ainda me debato com mais ou menos os mesmos dilemas e insatisfações de antes do câncer.
Uma coisa talvez esteja mudando. Acho que estou aprendendo a usar melhor o meu tempo, que corre sem parar. Que a vida é curta fica-se ainda mais convencido depois de recebermos um diagnóstico de tumor maligno no seio. Fazer o que é mais importante primeiro se tornou muito importante para mim, embora eu ainda às vezes me encontre na dúvida sobre o que é realmente importante. Mas até mesmo priorizar o que fazer do meu tempo não é algo que, de repente, comecei a fazer no dia seguinte ao diagnóstico de câncer de mama. É algo que ainda estou aprendendo a fazer.
O câncer pode estar desencadeando algumas mudanças no meu modo de levar a vida, mas não foi aquele raio de luz que me transformou numa outra pessoa. Sou a mesma Margareth, nem pior, nem muito melhor, apenas mais grata a várias pessoas queridas, à medicina e ao sistema público de saúde da Dinamarca.
Ler tais textos foi inicialmente muito útil. Achei inspiração, dicas e algumas boas informações e sou grata às pessoas que se dispuseram a falar da doença.
Mas depois de algum tempo comecei a me cansar desse tipo de leitura. Nessas reportagens e artigos muitos dos pacientes e ex-pacientes de câncer falam sobre como a vida deles e eles próprios se transformaram depois da doença. Vários contaram como, por exemplo, perceberam o real valor da vida depois que descobriram estar com uma enfermidade que poderia ser fatal. Uma paciente disse como passou a admirar a beleza de uma simples flor. Um outro diz que passou a dar mais valor às pequenas e aparentemente insignificantes coisas da vida. Alguns falam sobre como se tornaram melhores pessoas.
Longe de mim menosprezar ou duvidar das descobertas e conquistas que o câncer tenha trazido a algumas pessoas, mas acho que muitas vezes os textos jornalísticos sobre o assunto mais parecem sinopses piegas de livros de auto-ajuda para leitores com câncer.
Pode ser que meu olhar crítico sobre tais textos seja resultado de um pouco de inveja: não tenho notado em mim todas essas transformações que tantos pacientes contam ter visto em si mesmos. A doença não me tornou, por exemplo, uma “Pollyanna depois do câncer” que só vê lado cor-de-rosa de todos os acontecimentos por que passa.
Claro que não estou passando incólume pelo câncer, mas também não acho que a doença esteja tendo nenhum poder purificador do meu espírito ou alma. Continuo com alguns defeitos que ainda me irritam muito. Dar importância demais a coisas sem importância é um deles. Nos últimos meses percebi que, infelizmente, coisas sem importância continuam me encasquetando muito mais do que deveriam.
Como antes da doença, continuo admirando a beleza de uma flor ou a magnificência do pôr de sol avermelhado de Brasília e valorizando o prazer de estar com as pessoas que amo. Também ainda me debato com mais ou menos os mesmos dilemas e insatisfações de antes do câncer.
Uma coisa talvez esteja mudando. Acho que estou aprendendo a usar melhor o meu tempo, que corre sem parar. Que a vida é curta fica-se ainda mais convencido depois de recebermos um diagnóstico de tumor maligno no seio. Fazer o que é mais importante primeiro se tornou muito importante para mim, embora eu ainda às vezes me encontre na dúvida sobre o que é realmente importante. Mas até mesmo priorizar o que fazer do meu tempo não é algo que, de repente, comecei a fazer no dia seguinte ao diagnóstico de câncer de mama. É algo que ainda estou aprendendo a fazer.
O câncer pode estar desencadeando algumas mudanças no meu modo de levar a vida, mas não foi aquele raio de luz que me transformou numa outra pessoa. Sou a mesma Margareth, nem pior, nem muito melhor, apenas mais grata a várias pessoas queridas, à medicina e ao sistema público de saúde da Dinamarca.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Primavera
Depois de uma semana de férias na Alemanha e depois na Jutlândia, a parte continental da Dinamarca, estou de volta a Copenhague curtindo mais uma semana de folga. Mas, para quem mora em casa na Dinamarca, folga do trabalho raramente significa folga em casa. Abril aqui em casa é mês de, entre outras tarefas, semear flores de verão, colocar vasos de plantas para fora e no terraco, podar e adubar rosas, capinar e cortar a grama. É uma trabalheira danada que eu adoro. Na minha próxima vida nascerei jardineira.
sábado, 4 de abril de 2009
A quentinha e a crise
Sinais da crise na Dinamarca: está deixando de ser feio sair de um restaurante com uma quentinha contendo o resto da refeição que não foi comida.
Anos atrás, quando comentei numa roda de dinamarqueses que no Brasil era comum pedir ao garçom que embalasse o resto da comida numa quentinha, provoquei risadas sarcásticas. Acharam um absurdo, meio ridículo. Pelo olhares senti que achavam que isso era coisa de país de terceiro mundo.
Agora a DR, maior grupo dinamarquês na área de comunicação, com dois canais de televisão e várias estacões de rádio, está promovendo uma campanha para convencer os dinamarqueses de que levar quentinha para casa não é nenhuma vergonha e, dependendo do caso, pode até ser bom para o meio ambiente.
A DR fez uma pesquisa e descobriu o que eu já sabia: que os dinamarqueses ainda acham constrangedor pedir ao restaurante para levar o resto da com ida para casa. Os donos dos restaurantes, ao contrário, se mostram dispostos a empacotar o resto da comida, se os clientes pedirem, o que raramente acontece.
Mas agora, com a crise econômica e aquecimento global talvez a quentinha entre na moda. Ainda mais porque os dinamarqueses adoram copiar o que acontece nos Estados Unidos, onde o hábito da quentinha, que lá se chama doggy bag já se pratica há muito tempo.
Anos atrás, quando comentei numa roda de dinamarqueses que no Brasil era comum pedir ao garçom que embalasse o resto da comida numa quentinha, provoquei risadas sarcásticas. Acharam um absurdo, meio ridículo. Pelo olhares senti que achavam que isso era coisa de país de terceiro mundo.
Agora a DR, maior grupo dinamarquês na área de comunicação, com dois canais de televisão e várias estacões de rádio, está promovendo uma campanha para convencer os dinamarqueses de que levar quentinha para casa não é nenhuma vergonha e, dependendo do caso, pode até ser bom para o meio ambiente.
A DR fez uma pesquisa e descobriu o que eu já sabia: que os dinamarqueses ainda acham constrangedor pedir ao restaurante para levar o resto da com ida para casa. Os donos dos restaurantes, ao contrário, se mostram dispostos a empacotar o resto da comida, se os clientes pedirem, o que raramente acontece.
Mas agora, com a crise econômica e aquecimento global talvez a quentinha entre na moda. Ainda mais porque os dinamarqueses adoram copiar o que acontece nos Estados Unidos, onde o hábito da quentinha, que lá se chama doggy bag já se pratica há muito tempo.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Pouco mais de um ano depois
Se passou um pouco mais de um ano depois da operação que me deixou, costumo dizer brincando, mais despeitada do que sempre fui.
No ano passado, antes de toda essa maratona de tratamento, as enfermeiras me disseram que, para evitar que eu ficasse atordoada e confusa com um bombardeio de informações, depois de cada fase do tratamento que eu terminasse, elas iriam me dar detalhes da fase seguinte.
Bem mais tarde é que percebi que isso não passava de uma estratégias que médicos e enfermeiras usam para conseguir levar os pacientes até o final do tratamento. Eles não mentem, mas também não contam a verdade de uma só vez.
Foi assim antes de ser operada. Me falaram que eu perderia um seio, me prepararam para as dificuldades do período pós-operatório e do treinamento ao qual teria de me submeter para recuperar o movimento do braço e ombro esquerdos. Me avisaram que eu teria de passar pela quimioterapia e radioterapia, mas não entraram muito em detalhes.
Semanas depois da operação começaram a me encher de informações sobre a lista quilométrica dos efeitos colaterais da quimioterapia. Depois da quimioterapia, quando achei que o que faltava do tratamento era fichinha, me prepararam para a radioterapia que, no final das contas, não achei assim tão fácil como eu havia previsto.
Um ano atrás, eu sabia que iria passar por alguns dos meses mais difíceis da minha vida. Mas não imaginei que seriam tão difíceis.
Um ano atrás, eu me achava mais forte e resistente do que acabei descobrindo que eu era.
Mas esse ano não foi só de dor e mal estar.
Um ano atrás eu não sabia que tinha tantos amigos. Não sabia que havia tanta gente que se importava e se preocupava comigo.
Eu achava que minha família sempre estaria comigo para o que desse e viesse. Mas esse ano me trouxe a certeza de que eles sacrificariam o que fosse necessário para estar ao meu lado.
Pouco mais de um ano atrás eu talvez me sentisse mais solitária e menos amada.
No ano passado, antes de toda essa maratona de tratamento, as enfermeiras me disseram que, para evitar que eu ficasse atordoada e confusa com um bombardeio de informações, depois de cada fase do tratamento que eu terminasse, elas iriam me dar detalhes da fase seguinte.
Bem mais tarde é que percebi que isso não passava de uma estratégias que médicos e enfermeiras usam para conseguir levar os pacientes até o final do tratamento. Eles não mentem, mas também não contam a verdade de uma só vez.
Foi assim antes de ser operada. Me falaram que eu perderia um seio, me prepararam para as dificuldades do período pós-operatório e do treinamento ao qual teria de me submeter para recuperar o movimento do braço e ombro esquerdos. Me avisaram que eu teria de passar pela quimioterapia e radioterapia, mas não entraram muito em detalhes.
Semanas depois da operação começaram a me encher de informações sobre a lista quilométrica dos efeitos colaterais da quimioterapia. Depois da quimioterapia, quando achei que o que faltava do tratamento era fichinha, me prepararam para a radioterapia que, no final das contas, não achei assim tão fácil como eu havia previsto.
Um ano atrás, eu sabia que iria passar por alguns dos meses mais difíceis da minha vida. Mas não imaginei que seriam tão difíceis.
Um ano atrás, eu me achava mais forte e resistente do que acabei descobrindo que eu era.
Mas esse ano não foi só de dor e mal estar.
Um ano atrás eu não sabia que tinha tantos amigos. Não sabia que havia tanta gente que se importava e se preocupava comigo.
Eu achava que minha família sempre estaria comigo para o que desse e viesse. Mas esse ano me trouxe a certeza de que eles sacrificariam o que fosse necessário para estar ao meu lado.
Pouco mais de um ano atrás eu talvez me sentisse mais solitária e menos amada.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Linfedema
Aleluia! Hoje finalmente me livrei da faixa que vinha cobrindo meu braço esquerdo por mais de quatro semanas e comecei a usar um tipo de braçadeira e luva de compressão feitas sob medida para manter o linfedema sob controle.
Como parte do tratamento contra o linfedema, tive que andar por 30 dias , quase 24 horas por dia, com o braço esquerdo enfaixado. O enfaixamento, composto de gaze coberta por uma camada de algodão que, por sua vez, era coberta por uma compressa elástica deixou meu braço pesado e com os movimentos limitados. Além disso, a pele sob o enfaixamento coçava horrores e, como as faixas cobriam parte da mão, até a metade dos dedos, diversas atividades e tarefas rotineiras como fazer comida, dar banho na Gabi ou simplesmente lavar as mãos depois de uma mijadinha ficaram seriamente afetadas.
Para fazer comida e dar banho na Gabi tive que usar uma luva de plástico. Depois das idas ao banheiro, lavava como podia a mão direita e na esquerda borrifava álcool para desinfetar.
Vestir e tirar o casaco de inverno se tornou uma luta e, para meu constrangimento, algumas vezes tive que pedir ajuda porque a manga ficava presa na mão coberta pela faixa tripla. Meu vestiário nas últimas semanas limitou-se a três camisetas e blusas cujas mangas eram largas o suficiente para dar espaço para meu braço engordado pela faixa. E as ondas de calor, que continuam me molestando, ficaram ainda mais desagradáveis no braço coberto pelo enfaixamento.
O tratamento incluiu também duas semanas com sessões diárias de fisioterapia, o que complicou bastante o dia-a-dia. Todo dia, antes ou depois do trabalho, fui à fisioterapeuta, onde tirava as faixas, tomava banho e recebia a massagem chamada drenagem linfática. Depois a fisioterapeuta me enfaixava. Nos finais de semana, eu mesma me enfaixava.
Toda essa novela era para ter durado duas semanas mas a entrega da braçadeira e da luva, que eu esperava iria demorar uma semana, levou três semanas para acontecer. Para não correr o risco de colocar todo o tratamento a perder, continuei usando o enfaixamento.
Pelo menos todo esse trabalho está dando bons resultados. O inchaço diminuiu bastante e é quase imperceptível. De qualquer maneira terei de continuar usando a braçadeira e a luva por mais um bom tempo para ter certeza que o linfedema está sob controle. Também tenho de aprender a viver com a possibilidade de o braço voltar a inchar e a tomar precauções para evitar que o linfedema aumente.
Aliás, um site em português com boa informação sobre o linfedema é vivacomlinfedema.com/
Como parte do tratamento contra o linfedema, tive que andar por 30 dias , quase 24 horas por dia, com o braço esquerdo enfaixado. O enfaixamento, composto de gaze coberta por uma camada de algodão que, por sua vez, era coberta por uma compressa elástica deixou meu braço pesado e com os movimentos limitados. Além disso, a pele sob o enfaixamento coçava horrores e, como as faixas cobriam parte da mão, até a metade dos dedos, diversas atividades e tarefas rotineiras como fazer comida, dar banho na Gabi ou simplesmente lavar as mãos depois de uma mijadinha ficaram seriamente afetadas.
Para fazer comida e dar banho na Gabi tive que usar uma luva de plástico. Depois das idas ao banheiro, lavava como podia a mão direita e na esquerda borrifava álcool para desinfetar.
Vestir e tirar o casaco de inverno se tornou uma luta e, para meu constrangimento, algumas vezes tive que pedir ajuda porque a manga ficava presa na mão coberta pela faixa tripla. Meu vestiário nas últimas semanas limitou-se a três camisetas e blusas cujas mangas eram largas o suficiente para dar espaço para meu braço engordado pela faixa. E as ondas de calor, que continuam me molestando, ficaram ainda mais desagradáveis no braço coberto pelo enfaixamento.
O tratamento incluiu também duas semanas com sessões diárias de fisioterapia, o que complicou bastante o dia-a-dia. Todo dia, antes ou depois do trabalho, fui à fisioterapeuta, onde tirava as faixas, tomava banho e recebia a massagem chamada drenagem linfática. Depois a fisioterapeuta me enfaixava. Nos finais de semana, eu mesma me enfaixava.
Toda essa novela era para ter durado duas semanas mas a entrega da braçadeira e da luva, que eu esperava iria demorar uma semana, levou três semanas para acontecer. Para não correr o risco de colocar todo o tratamento a perder, continuei usando o enfaixamento.
Pelo menos todo esse trabalho está dando bons resultados. O inchaço diminuiu bastante e é quase imperceptível. De qualquer maneira terei de continuar usando a braçadeira e a luva por mais um bom tempo para ter certeza que o linfedema está sob controle. Também tenho de aprender a viver com a possibilidade de o braço voltar a inchar e a tomar precauções para evitar que o linfedema aumente.
Aliás, um site em português com boa informação sobre o linfedema é vivacomlinfedema.com/
segunda-feira, 9 de março de 2009
Seis horas
Acordei no meio da noite. Em mais uma das minhas estratégias para tentar dormir melhor, tinha me prometido que quando acordasse durante a noite por causa de uma onda de calor, não iria conferir as horas. Mas não resisti e olhei para o relógio da mesinha de cabeceira. Para minha surpresa eram 5:34. Isso queria dizer que em havia dormido seis horas ininterruptas. Nossa, era um recorde! Fazia semanas que eu não dormia tanto.
Isso foi três ou quatro noites atrás. Desde então voltei ao ritmo de acordar três vezes por noite por causa dessas malditas ondas de calor. Mas ainda assim durmo melhor do que dormia dois meses atrás, quando havia noites em que as ondas de calor me despertavam cinco ou seis vezes. Acho que posso ser otimista quanto às minhas chances de realizar o sonho de voltar a dormir sete, oito horas sem interrupção.
Isso foi três ou quatro noites atrás. Desde então voltei ao ritmo de acordar três vezes por noite por causa dessas malditas ondas de calor. Mas ainda assim durmo melhor do que dormia dois meses atrás, quando havia noites em que as ondas de calor me despertavam cinco ou seis vezes. Acho que posso ser otimista quanto às minhas chances de realizar o sonho de voltar a dormir sete, oito horas sem interrupção.
terça-feira, 3 de março de 2009
45, a missão
Na semana passada, no meu trabalho, houve um almoço para comemorar o aniversário de uma colega que completou 60 anos. Aqui na Dinamarca é hábito se comemorar o aniversário de funcionários que completam “anos redondos”, ou seja, anos às dezenas (30, 40, 50 etc). Lá pelas tantas, no discurso de agradecimento, essa colega disse que não se importava em estar ficando velha. Pensei com meus botões: será que quando eu chegar aos 60 também vou deixar de me importar com o envelhecimento? No fundo fiquei com uma ponta de dúvida: sera que aquela amiga estava dizendo a verdade?
Seria legal envelhecer com serenidade, como ouço algumas pessoas dizerem que conseguem fazer mas duvido um pouco da minha “elevação espiritual” para isso. Não que eu pense em sair por aí pagando para me esticarem aqui e acolá e lavantarem aquilo outro. Meu medo do envelhecimento não chega a ser maior do que meu medo do ridículo. Mas a perspectiva de ficar e parecer mais velha, ficar mais lenta, fraca e menos disposta e todas as coisas ruins que associamos com o avançar dos anos me incomoda.
O que mais me assusta não é o envelhecimento físico, mas o mental. Pensar que com o correr dos anos terei mais dificuldade de aprender coisas novas e que a memória pode falhar me deixa quase irritada.
Para nadar contra a corrente, invento coisas que, dizem, ajudam a manter a mente sã. Escrever é uma delas.
Seria legal envelhecer com serenidade, como ouço algumas pessoas dizerem que conseguem fazer mas duvido um pouco da minha “elevação espiritual” para isso. Não que eu pense em sair por aí pagando para me esticarem aqui e acolá e lavantarem aquilo outro. Meu medo do envelhecimento não chega a ser maior do que meu medo do ridículo. Mas a perspectiva de ficar e parecer mais velha, ficar mais lenta, fraca e menos disposta e todas as coisas ruins que associamos com o avançar dos anos me incomoda.
O que mais me assusta não é o envelhecimento físico, mas o mental. Pensar que com o correr dos anos terei mais dificuldade de aprender coisas novas e que a memória pode falhar me deixa quase irritada.
Para nadar contra a corrente, invento coisas que, dizem, ajudam a manter a mente sã. Escrever é uma delas.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
45
Um dia desses completei 45 anos. 45? Será que entendi certo? Será isso mesmo? 45?
Acho que vou conferir minha certidão de nascimento. Está guardada em algum lugar. Quem sabe descubro que na verdade nasci uns aninhos mais tarde.
Mas se eu for mais nova do que acho que sou, a situação se complica por outro lado. Aí estarei bem derrubadinha para os meus, vamos dizer, 35.
O melhor é desistir de conferir a certidão de nascimento e me conformar com talvez ter vivido mais da metade da minha vida.
Anos atrás, antes de chegar aos 40, decidi que meu alvo seria viver até pelo menos os 80. Decretei que para mim, viver 80 anos seria de bom tamanho. O que viesse depois seria lucro. Isso quer dizer que já passei da metade da minha vida mínima.
Mas depois da morte do meu pai, aos 66 anos, e da descoberta do câncer de mama, repensei mas mantive meu decreto. Continuo almejando os 80, no mínimo, mas evito as estatísticas que dizem que pessoas que já foram atingidas pelo câncer tendem a viver menos. Um dos motivos é que quem já teve câncer uma vez tem maiores chances de sofrer da mesma doença uma segunda vez.
Acho que vou conferir minha certidão de nascimento. Está guardada em algum lugar. Quem sabe descubro que na verdade nasci uns aninhos mais tarde.
Mas se eu for mais nova do que acho que sou, a situação se complica por outro lado. Aí estarei bem derrubadinha para os meus, vamos dizer, 35.
O melhor é desistir de conferir a certidão de nascimento e me conformar com talvez ter vivido mais da metade da minha vida.
Anos atrás, antes de chegar aos 40, decidi que meu alvo seria viver até pelo menos os 80. Decretei que para mim, viver 80 anos seria de bom tamanho. O que viesse depois seria lucro. Isso quer dizer que já passei da metade da minha vida mínima.
Mas depois da morte do meu pai, aos 66 anos, e da descoberta do câncer de mama, repensei mas mantive meu decreto. Continuo almejando os 80, no mínimo, mas evito as estatísticas que dizem que pessoas que já foram atingidas pelo câncer tendem a viver menos. Um dos motivos é que quem já teve câncer uma vez tem maiores chances de sofrer da mesma doença uma segunda vez.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Pérolas da polícia dinamarquesa
Um dia desses, no final de uma demonstração contra o ataque israelense a Gaza, um policial ordenou que um dos manifestantes de origem palestina e sentasse. ”Você se senta agora ou eu faco você sentar. Você entendeu, perker (ou perle)”? Entendeu?”
”Perker” é uma gíria dinamarquesa resultado da juncão das palavras perser (persa) com tyrker (turco) e tem sentido extreamente depreciativo. É usada por muitos dinamarqueses para se referir negativamente a imigrantes do Oriente Médio e países de maioria muçulmana.
Para azar do policial, a cena foi gravada e depois mostrada pela imprensa dinamarquesa e em diversos sites (http://www.dr.dk/Nyheder/Indland/2009/01/22/155818.htm )
A história talvez não desse tanto pano para manga se a diretora da Polícia de Copenhague Hanne Bech Hansen não saísse em defesa do policial dizendo que o que talvez ele tenha dito fosse ”perle” (pérola), ao invés de ”perker”. Segundo ela, pérola é um jargão policial sem sentido pejorativo.
Depois da interferência infeliz da diretora da polícia, o caso virou piada nacional. Um especialista foi chamado para opinar e disse que mais provavelmente o policial disse mesmo ”perker”. Facebook tem agora diversos grupos que ironizam ou protestam contra a atitude discriminatória da policia - o maior deles sob o nome ”Eu também sou uma pérola” com mais de 33 mil membros per 9 de fevereiro. Também já é possível comprar uma camiseta azul e branca, as cores da polícia local, com a palavra ”perle”.
A provável atitude racista do policial não chega a me surpreender, mas a capacidade da direção da polícia se expor ao ridículo é de cair o queixo.
”Perker” é uma gíria dinamarquesa resultado da juncão das palavras perser (persa) com tyrker (turco) e tem sentido extreamente depreciativo. É usada por muitos dinamarqueses para se referir negativamente a imigrantes do Oriente Médio e países de maioria muçulmana.
Para azar do policial, a cena foi gravada e depois mostrada pela imprensa dinamarquesa e em diversos sites (http://www.dr.dk/Nyheder/Indland/2009/01/22/155818.htm )
A história talvez não desse tanto pano para manga se a diretora da Polícia de Copenhague Hanne Bech Hansen não saísse em defesa do policial dizendo que o que talvez ele tenha dito fosse ”perle” (pérola), ao invés de ”perker”. Segundo ela, pérola é um jargão policial sem sentido pejorativo.
Depois da interferência infeliz da diretora da polícia, o caso virou piada nacional. Um especialista foi chamado para opinar e disse que mais provavelmente o policial disse mesmo ”perker”. Facebook tem agora diversos grupos que ironizam ou protestam contra a atitude discriminatória da policia - o maior deles sob o nome ”Eu também sou uma pérola” com mais de 33 mil membros per 9 de fevereiro. Também já é possível comprar uma camiseta azul e branca, as cores da polícia local, com a palavra ”perle”.
A provável atitude racista do policial não chega a me surpreender, mas a capacidade da direção da polícia se expor ao ridículo é de cair o queixo.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Entre a cruz e a caldeirinha
Na minha luta contra as noites insones, na semana passada fiquei entre a cruz e caldeirinha. Duas ou três noites depois de começar a tomar Catapresan para tentar controlar as ondas de calor, achei que o tal remédio estava fazendo efeito. A frequência das ondas de calor não diminuiu mas elas ficaram menos intensas.
Infelizmente, as noites insones continuaram porque, embora as ondas de calor tenha incomodado um pouco menos, a insônia aumentou. Conferi novamente a bula do remédio e lá encontrei o que já esperava: insônia na lista de possíveis efeitos colaterais. Esperei mais alguns dias e como as noites mal dormidas continuaram, desisti do tal remédio.
Agora estou de volta às intensas ondas de calor que, felizmente, não me impediram de dormir relativamente bem nas últimas três noites, talvez como efeito da presença calmante da visita de uma de minhas irmãs.
Infelizmente, as noites insones continuaram porque, embora as ondas de calor tenha incomodado um pouco menos, a insônia aumentou. Conferi novamente a bula do remédio e lá encontrei o que já esperava: insônia na lista de possíveis efeitos colaterais. Esperei mais alguns dias e como as noites mal dormidas continuaram, desisti do tal remédio.
Agora estou de volta às intensas ondas de calor que, felizmente, não me impediram de dormir relativamente bem nas últimas três noites, talvez como efeito da presença calmante da visita de uma de minhas irmãs.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Jogando a toalha
Depois de mais uma noite insone joguei a toalha. Hoje fui à uma farmácia comprar um remédio que talvez ajude a controlar as ondas de calor que me invadem dia e noite, noite e dia e que há meses me impedem de ter uma boa noite de sono. Já não me lembro a última vez em que dormi oito, sete, seis ou até mesmo cinco horas seguidas.
Estou ficando cansada dessas noites mal dormidas ou mesmo insones, como foi a passada.
Ontem, quando fui ao hospital receber mais uma injeção de herceptin, tive também uma consulta com um médico simpático que nunca tinha visto antes. Ele me receitou um comprimido que, pelo que se sabe, só funciona em 20% dos casos. Perguntei se o tal remédio tinha muitos efeitos colaterais e ele me garantiu que eu talvez apenas sentisse uma queda de pressão. Para quem, como eu, já tem pressão normalmente baixa, o tal efeito colateral não foi boa notícia, mas decidi arriscar usar o tal remédio na esperança de estar entre as 20%.
Hoje à noite tomei o primeiro comprimido. Antes, conferi a bula e me assustei com a lista comprida de possíveis efeitos colaterais que, além da queda de pressão, inclui, por exemplo, prisão de ventre, insônia, depressão, dor de cabeça, alucinações, enjoo, impotência. Estou torcendo para que, além de estar entre as 20% para quem o remédio funciona, também esteja entre as que não sente efeitos colaterais.
Daqui a pouco vou para a cama sonhando com uma boa noite de sono.
Estou ficando cansada dessas noites mal dormidas ou mesmo insones, como foi a passada.
Ontem, quando fui ao hospital receber mais uma injeção de herceptin, tive também uma consulta com um médico simpático que nunca tinha visto antes. Ele me receitou um comprimido que, pelo que se sabe, só funciona em 20% dos casos. Perguntei se o tal remédio tinha muitos efeitos colaterais e ele me garantiu que eu talvez apenas sentisse uma queda de pressão. Para quem, como eu, já tem pressão normalmente baixa, o tal efeito colateral não foi boa notícia, mas decidi arriscar usar o tal remédio na esperança de estar entre as 20%.
Hoje à noite tomei o primeiro comprimido. Antes, conferi a bula e me assustei com a lista comprida de possíveis efeitos colaterais que, além da queda de pressão, inclui, por exemplo, prisão de ventre, insônia, depressão, dor de cabeça, alucinações, enjoo, impotência. Estou torcendo para que, além de estar entre as 20% para quem o remédio funciona, também esteja entre as que não sente efeitos colaterais.
Daqui a pouco vou para a cama sonhando com uma boa noite de sono.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Pai nosso
Eu não deveria mais ficar chocada com alguns dos absurdos que ouço aqui na Dinamarca, mas algumas vezes é inevitável.
Alguns dias atrás a imprensa daqui se ocupou sobre se ocupou com uma discussão sobre se os alunos de primeiro grau devem ou não, antes de entrar em sala de aula, serem reunidos para rezar o Pai Nosso.
Uhuuuu! Estamos ou não num pais que se diz democrático e moderno em pleno século XXI? Isso não implica que as escolas são para todos, independentemente da religião ou falta de religião dos alunos? Não cabe aos pais decidir sobre a orientação religiosa dos filhos e mais tarde às próprias crianças de que igreja elas vão fazer parte?
Aqui na Dinamarca parece que não é bem assim. Tanto que o ministro da educação teve o desplante de sair defendendo o direito de escolas públicas determinarem que os alunos rezem juntos o pai nosso antes do início das aulas. Na opinião do ministro, pertencente a uma das correntes mais conservadoras da igreja luterana dinamarquesa, os pais que não concordarem com a reza podem pedir a direção das escolas que seus filhos sejam dispensados da obrigação religiosa.
O ministro, o mesmo que anos atrás esteve à frente do endurecimento da legislação que trata dos migrantes na Dinamarca, prefere ignorar que as crianças de famílias ateias ou de outras religiões, que são minoria, vão naturalmente se sentir estigmatizadas.
Dias depois da declaração infeliz, o ministro voltou atrás e disse que foi mal entendido, que na verdade apenas quis dizer que as escolas devem ter o direito de decidir se seus alunos devem ou não rezar o pai nosso.
O dito ficou pior ou tão ruim quanto o desdito. No final das contas, as 15 escolas públicas dinamarquesas onde ainda se reza o pai nosso vão continuar tendo direito a fazê-lo.
Alguns dias atrás a imprensa daqui se ocupou sobre se ocupou com uma discussão sobre se os alunos de primeiro grau devem ou não, antes de entrar em sala de aula, serem reunidos para rezar o Pai Nosso.
Uhuuuu! Estamos ou não num pais que se diz democrático e moderno em pleno século XXI? Isso não implica que as escolas são para todos, independentemente da religião ou falta de religião dos alunos? Não cabe aos pais decidir sobre a orientação religiosa dos filhos e mais tarde às próprias crianças de que igreja elas vão fazer parte?
Aqui na Dinamarca parece que não é bem assim. Tanto que o ministro da educação teve o desplante de sair defendendo o direito de escolas públicas determinarem que os alunos rezem juntos o pai nosso antes do início das aulas. Na opinião do ministro, pertencente a uma das correntes mais conservadoras da igreja luterana dinamarquesa, os pais que não concordarem com a reza podem pedir a direção das escolas que seus filhos sejam dispensados da obrigação religiosa.
O ministro, o mesmo que anos atrás esteve à frente do endurecimento da legislação que trata dos migrantes na Dinamarca, prefere ignorar que as crianças de famílias ateias ou de outras religiões, que são minoria, vão naturalmente se sentir estigmatizadas.
Dias depois da declaração infeliz, o ministro voltou atrás e disse que foi mal entendido, que na verdade apenas quis dizer que as escolas devem ter o direito de decidir se seus alunos devem ou não rezar o pai nosso.
O dito ficou pior ou tão ruim quanto o desdito. No final das contas, as 15 escolas públicas dinamarquesas onde ainda se reza o pai nosso vão continuar tendo direito a fazê-lo.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Aterrissando
Não tem sido fácil voltar à rotina na Dinamarca, o que aliás tem me surpreendido já que deixar o Brasil não foi tão doloroso desta vez. Parti sem lágrimas, talvez porque sabendo que logo receberia a visita de uma de minhas irmãs e de que planejamos retornar em breve.
Mas dias depois da chegada as coisas ficaram um pouco confusas. Ainda não consegui me reorganizar para conseguir encaixar tudo o que quero fazer e tenho me sentido um pouco frustrada.
O clima não ajuda em nada. Acho que janeiro é o mês mais chato do ano por aqui. Os dias são desanimadores: curtos, escuros e, claro, muito frios.
O blog anda meio abandonado, ainda não consegui voltar a correr como estava fazendo antes de viajar para o Brasil, onde relaxei com a ginástica e alimentação. Continuo dormindo mal por causa das insuportáveis ondas de calor que invadem meu corpo várias vezes todas as noites.
A pequena boa notícia é que aparentemente a fisioterapia para tratar o linfedema surgido no braço esquerdo durante a radioterapia está começando a surtir efeito. Meu braço está menos inchado e raramente sinto algum desconforto por conta do problema. Em fevereiro deverei me submeter a sessões de fisioterapia mais frequentes e começar e começar a usar enfaixamento.
O aparecimento do linfedema me chateou um bocado, mas não me sinto estigmatizada por causa do problema. Mais me irrita do que entristece saber que terei que lidar com isso o resto da vida, mas também não é o fim do mundo. Vejo isso mais como um aborrecimento do que como uma deficiência e me nego a deixar de ter uma vida normal por causa disso.
A propósito, o que é mesmo uma vida normal?
Mas dias depois da chegada as coisas ficaram um pouco confusas. Ainda não consegui me reorganizar para conseguir encaixar tudo o que quero fazer e tenho me sentido um pouco frustrada.
O clima não ajuda em nada. Acho que janeiro é o mês mais chato do ano por aqui. Os dias são desanimadores: curtos, escuros e, claro, muito frios.
O blog anda meio abandonado, ainda não consegui voltar a correr como estava fazendo antes de viajar para o Brasil, onde relaxei com a ginástica e alimentação. Continuo dormindo mal por causa das insuportáveis ondas de calor que invadem meu corpo várias vezes todas as noites.
A pequena boa notícia é que aparentemente a fisioterapia para tratar o linfedema surgido no braço esquerdo durante a radioterapia está começando a surtir efeito. Meu braço está menos inchado e raramente sinto algum desconforto por conta do problema. Em fevereiro deverei me submeter a sessões de fisioterapia mais frequentes e começar e começar a usar enfaixamento.
O aparecimento do linfedema me chateou um bocado, mas não me sinto estigmatizada por causa do problema. Mais me irrita do que entristece saber que terei que lidar com isso o resto da vida, mas também não é o fim do mundo. Vejo isso mais como um aborrecimento do que como uma deficiência e me nego a deixar de ter uma vida normal por causa disso.
A propósito, o que é mesmo uma vida normal?
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Gaza
Hoje, meu primeiro dia de trabalho depois das férias, foi impossível manter distância da tragédia que os ataques israelenses estão causando à população palestina em Gaza. Meu inbox estava repleto de e-mails desesperados de funcionários dos centros para tratamento de vítimas de tortura que são membros do IRCT, a organização onde trabalho. Covardemente, não olhei as fotos dos estragos causados pelos bombardeios israelenses que me enviaram, muitas delas mostrando o assassinato de crianças palestinas.
Nas férias no Brasil foi fácil me manter distante do horror da guerra em Gaza: era só evitar a televisão e a internet. Aqui esta guerra está mais próxima geograficamente e também do meu dia a dia no trabalho, onde preciso diariamente encarar tragédias como essa.
Nas férias no Brasil foi fácil me manter distante do horror da guerra em Gaza: era só evitar a televisão e a internet. Aqui esta guerra está mais próxima geograficamente e também do meu dia a dia no trabalho, onde preciso diariamente encarar tragédias como essa.
Retorno
De volta à Dinamarca depois de quase três semanas no Brasil. De volta à escuridão depois das quatro e meia da tarde, que só termina às oito da manhã. Na chegada, no sábado, deu vontade de voltar para o avião que nos trouxe da conexão em Lisboa. Eram três horas da tarde, mas parecia bem mais tarde por causa do céu completamente coberto por nuvens escuras e que pareciam estar a poucos metros de altura.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Grupo da mama
Participei de um grupo de mulheres organizado por um centro mantido pela prefeitura de Copenhague para dar assistência a pacientes de câncer. O grupo, que começou com sete mulheres e terminou com cinco, todas recebendo tratamento contra câncer de mama, se reuniu uma vez por semana durante quase dois meses mês e o tema dos encontros era um só: a vida com câncer.
Aceitei participar do grupo porque achei que seria uma boa alternativa a procurar um psicólogo. Foi uma decisão acertada. Foi bom conversar com outras pessoas na mesma situação, sofrendo dificuldades muito parecidas com as que tenho enfrentado. Foi também uma forma de aliviar o lado do marido – coitado – que, embora nunca reclame, deve estar se cansando da ladainha de uma paciente de câncer, que todo dia tem algo do que reclamar.
O que ouvi das participantes do grupo é confidencial, naturalmente, mas posso dizer que todas nós compartilhamos quase as mesmas angústias, temores e preocupações.
No último encontro me senti esvaziada. Usei bem a oportunidade para falar quase tudo o que queria e quando as reuniões acabaram acho que não tinha mais nada a falar, pelo menos não àquele grupo. Foi uma sensação curiosa e boa.
Aceitei participar do grupo porque achei que seria uma boa alternativa a procurar um psicólogo. Foi uma decisão acertada. Foi bom conversar com outras pessoas na mesma situação, sofrendo dificuldades muito parecidas com as que tenho enfrentado. Foi também uma forma de aliviar o lado do marido – coitado – que, embora nunca reclame, deve estar se cansando da ladainha de uma paciente de câncer, que todo dia tem algo do que reclamar.
O que ouvi das participantes do grupo é confidencial, naturalmente, mas posso dizer que todas nós compartilhamos quase as mesmas angústias, temores e preocupações.
No último encontro me senti esvaziada. Usei bem a oportunidade para falar quase tudo o que queria e quando as reuniões acabaram acho que não tinha mais nada a falar, pelo menos não àquele grupo. Foi uma sensação curiosa e boa.
domingo, 23 de novembro de 2008
Amizades dinamarquesas
Eu deveria escrever mais sobre a Dinamarca. Afinal, minha filha e meu marido são dinamarqueses, é aqui que vivo e, querendo ou não, acho que vai ser aqui que vou passar mais algum bom tempo da minha vida. Mas a Dinamarca não é muito inspiradora, e muitas das coisas que eu gostaria de escrever sobre os dinamarqueses poderiam soar amargas demais.
Às vezes tenho a impressão que vivo à margem da sociedade dinamarquesa. É claro que tenho amigos nativos daqui, mas a imensa maioria dos dinamarqueses com quem me relaciono são amigos ou parentes do meu marido ou casados com brasileiros vivendo aqui. Depois de mais de 11 anos vivendo aqui, posso dizer que tenho apenas uma, talvez duas amizades que eu mesma fiz.
O problema pode estar em mim que não me dou ao trabalho de fazer novas amizades. Mas meus amigos brasileiros e estrangeiros aqui falam da mesma dificuldade. Além disso, as muitas nacionalidades dos meus amigos me leva a acreditar que o problema está na sociedade dinamarquesa que é, sem dúvida, muito fechada.
Uma das minhas teorias para a aparente impenetrabilidade da sociedade dinamarquesa é que os dinamarqueses simplesmente não têm tempo para novas amizades. As pessoas aqui cultivam amizades que muitas vezes começam na creche, continuam no jardim de infância e na escola e duram até a universidade.
O grupo mais íntimo de amizades de uma das minhas cunhadas dinamarquesas é feito principalmente de moças que ela conheceu no tempo da escola primária. Aqui é comum, e não uma raridade, encontrar casais que se conheceram no jardim de infância, começaram a namorar no segundo grau, passaram a morar juntos quando entraram na universidade e se casaram quando apareceu ou decidiram ter o primeiro filho. A longevidade das amizades aqui faz com que as pessoas criem círculos de amizade fechados não só aos estrangeiros mas também a outros dinamarqueses.
Os membros desses círculos se acompanham ao longo dos anos em vários projetos comuns. Há dinamarquesas que engravidam na mesma época que suas amigas mais próximas para poderem curtir juntas a licença maternidade. Outra vantagem de tal acordo é queas crianças motivo das licenças se tornam amigos dos filhos da amiga. Ou seja, os nenês já nascem com amiguinhos arranjados.
Às vezes tenho a impressão que vivo à margem da sociedade dinamarquesa. É claro que tenho amigos nativos daqui, mas a imensa maioria dos dinamarqueses com quem me relaciono são amigos ou parentes do meu marido ou casados com brasileiros vivendo aqui. Depois de mais de 11 anos vivendo aqui, posso dizer que tenho apenas uma, talvez duas amizades que eu mesma fiz.
O problema pode estar em mim que não me dou ao trabalho de fazer novas amizades. Mas meus amigos brasileiros e estrangeiros aqui falam da mesma dificuldade. Além disso, as muitas nacionalidades dos meus amigos me leva a acreditar que o problema está na sociedade dinamarquesa que é, sem dúvida, muito fechada.
Uma das minhas teorias para a aparente impenetrabilidade da sociedade dinamarquesa é que os dinamarqueses simplesmente não têm tempo para novas amizades. As pessoas aqui cultivam amizades que muitas vezes começam na creche, continuam no jardim de infância e na escola e duram até a universidade.
O grupo mais íntimo de amizades de uma das minhas cunhadas dinamarquesas é feito principalmente de moças que ela conheceu no tempo da escola primária. Aqui é comum, e não uma raridade, encontrar casais que se conheceram no jardim de infância, começaram a namorar no segundo grau, passaram a morar juntos quando entraram na universidade e se casaram quando apareceu ou decidiram ter o primeiro filho. A longevidade das amizades aqui faz com que as pessoas criem círculos de amizade fechados não só aos estrangeiros mas também a outros dinamarqueses.
Os membros desses círculos se acompanham ao longo dos anos em vários projetos comuns. Há dinamarquesas que engravidam na mesma época que suas amigas mais próximas para poderem curtir juntas a licença maternidade. Outra vantagem de tal acordo é queas crianças motivo das licenças se tornam amigos dos filhos da amiga. Ou seja, os nenês já nascem com amiguinhos arranjados.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Sossego
Um dia desses me peguei quase alegre porque no dia seguinte teria de passar três horas no hospital para receber nova injeção de Herceptin. “Tá maluca, Margareth?”, peguntei a mim mesma. Não faz sentido se alegrar por ter de voltar a um hospital que começo a conhecer até melhor do que as palma da minha mão.
Demorou uns dois dias para eu entender minha quase alegria. Não há nada de agradável em ser picada para receber uma injeção, mas essas visitas a cada três semanas estão se tornando um pequeno refúgio para mim.
Chego lá, me levam para um quarto onde me sento numa poltrona confortável, me aplicam o medicamento, que leva uns quarenta e cinco minutos para ser completamente injetado, e depois fico mais uma hora e meia em observação para o caso de eu sofrer alguma reação alérgica.
Essas quase três horas se tornaram uma oportunidade, agora cada vez mais rara, para uma pausa. Nelas posso ler uma revista feminina boba, rascunhar idéias para o blog, planejar a vida nos próximos dias ou, maravilha das maravilhas, tirar uma boa soneca. Tudo isso sem aquela angústia de pensar que talvez meu tempo pudesse estar sendo usado melhor fazendo alguma outra coisa. Lá não tenho escolha a não ser me submeter obedientemente às prescrições e recomendações feitas pelos médicos e enfermeiras (e aqui escrevo enfermeiras porque aqui no país da igualdade entre os sexos ainda não encontrei um único enfermeiro).
Nada de tomar decisões, nada de tomar providência: as decisões e as providências já foram tomadas para mim. Em suma, três horas de sossego.
Demorou uns dois dias para eu entender minha quase alegria. Não há nada de agradável em ser picada para receber uma injeção, mas essas visitas a cada três semanas estão se tornando um pequeno refúgio para mim.
Chego lá, me levam para um quarto onde me sento numa poltrona confortável, me aplicam o medicamento, que leva uns quarenta e cinco minutos para ser completamente injetado, e depois fico mais uma hora e meia em observação para o caso de eu sofrer alguma reação alérgica.
Essas quase três horas se tornaram uma oportunidade, agora cada vez mais rara, para uma pausa. Nelas posso ler uma revista feminina boba, rascunhar idéias para o blog, planejar a vida nos próximos dias ou, maravilha das maravilhas, tirar uma boa soneca. Tudo isso sem aquela angústia de pensar que talvez meu tempo pudesse estar sendo usado melhor fazendo alguma outra coisa. Lá não tenho escolha a não ser me submeter obedientemente às prescrições e recomendações feitas pelos médicos e enfermeiras (e aqui escrevo enfermeiras porque aqui no país da igualdade entre os sexos ainda não encontrei um único enfermeiro).
Nada de tomar decisões, nada de tomar providência: as decisões e as providências já foram tomadas para mim. Em suma, três horas de sossego.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Mimo
Estou chegando perto dos 45 e sentindo uma vontade menina de ser mimada. Sabe aquilo de ter alguém te levando um copo de leite na cama? Ou de perguntar o que você quer para jantar, estando preparado para rodar a cidade inteira para encontrar aquele ingrediente imprescindível para a receita daquele prato que você escolheu?
Acho que essa carência é em parte resultado dos últimos meses de tratamento contra o câncer, quando tive de deixar escondida num canto qualquer a tristeza causada pela morte do meu pai. Colocar um pouco de lado a falta que ele faz foi uma estratégia inconsciente para evitar um desmoronamento emocional.
Mas agora que está chegando o primeiro aniversário da morte dele, lembranças da nossa convivência estão ocupando mais e mais a minha cabeça. Algo de que sempre me lembro é o indefectível copo de leite quente antes de dormir. Lá pelos meus sete anos de idade, sempre que ele estava em casa na hora de ir para a cama, minha irmã tinha direito a um copo com leite quente e eu, que nunca gostei de leite puro, ganhava um copo com leite com açúcar manchado de café. Talvez não fosse o hábito mais saudável do mundo, mas era um dos meus rituais favoritos na infância.
Acho que essa carência é em parte resultado dos últimos meses de tratamento contra o câncer, quando tive de deixar escondida num canto qualquer a tristeza causada pela morte do meu pai. Colocar um pouco de lado a falta que ele faz foi uma estratégia inconsciente para evitar um desmoronamento emocional.
Mas agora que está chegando o primeiro aniversário da morte dele, lembranças da nossa convivência estão ocupando mais e mais a minha cabeça. Algo de que sempre me lembro é o indefectível copo de leite quente antes de dormir. Lá pelos meus sete anos de idade, sempre que ele estava em casa na hora de ir para a cama, minha irmã tinha direito a um copo com leite quente e eu, que nunca gostei de leite puro, ganhava um copo com leite com açúcar manchado de café. Talvez não fosse o hábito mais saudável do mundo, mas era um dos meus rituais favoritos na infância.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Banalidades
Passar por um tratamento contra câncer traz preocupações vitais e banais. A vital mais importante é sem dúvida a relacionada à sobrevivência. Vou ou não sobreviver a essa doença? No meio angústias lúgubres, vêm várias outras preocupaçõezinhas banais que, para o bem ou para o mal, ajudam a afastar o pensamento das dúvidas mais dolorosas.
Enquanto eu estava careca, me preocupava a falta de cabelo. Agora que o cabelo está voltando a crescer, surgiu uma preocupação capilar extremamente séria. Será que vou ficar com cabelo liso? Não gosto muito da idéia mas várias pessoas me avisaram que depois de um tratamento quimioterápico, o cabelo pode voltar com aparência diferente e, pelo menos por enquanto, meu cabelo está crescendo bem liso, parecendo saído de uma bela escova.
Ao contrário da maioria das minhas contemporâneas, sou feliz com meu cabelo encaracolado. Somente na adolescência, e mesmo assim raramente, tentei fazer algo para deixar meu cabelo mais liso. Nunca nem cheguei a cogitar um alisamento e o máximo que me permiti foi uma ou outra escova.
Mas faz muitos anos que assumi com alegria e alívio meu cabelo cacheado, encaracolado, enrolado. Alegria porque acho que cabelo liso não combina nadinha comigo. Fico parecendo a Maga Patológica. Alívio porque acho que tudo isso de escova, alisamento etc e tal é uma completa perda de tempo. Tenho formas melhores de usar meu tempo.
Tenho amigas e até uma irmã que fazem escova no cabelo todo santo dia. Dá vontade de dizer: libertem-se! Assumam seus cachos e tudo o mais que eles representam.
Seria uma declaracão meio banal, mas ainda assim acho que valeria a pena.
Enquanto eu estava careca, me preocupava a falta de cabelo. Agora que o cabelo está voltando a crescer, surgiu uma preocupação capilar extremamente séria. Será que vou ficar com cabelo liso? Não gosto muito da idéia mas várias pessoas me avisaram que depois de um tratamento quimioterápico, o cabelo pode voltar com aparência diferente e, pelo menos por enquanto, meu cabelo está crescendo bem liso, parecendo saído de uma bela escova.
Ao contrário da maioria das minhas contemporâneas, sou feliz com meu cabelo encaracolado. Somente na adolescência, e mesmo assim raramente, tentei fazer algo para deixar meu cabelo mais liso. Nunca nem cheguei a cogitar um alisamento e o máximo que me permiti foi uma ou outra escova.
Mas faz muitos anos que assumi com alegria e alívio meu cabelo cacheado, encaracolado, enrolado. Alegria porque acho que cabelo liso não combina nadinha comigo. Fico parecendo a Maga Patológica. Alívio porque acho que tudo isso de escova, alisamento etc e tal é uma completa perda de tempo. Tenho formas melhores de usar meu tempo.
Tenho amigas e até uma irmã que fazem escova no cabelo todo santo dia. Dá vontade de dizer: libertem-se! Assumam seus cachos e tudo o mais que eles representam.
Seria uma declaracão meio banal, mas ainda assim acho que valeria a pena.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
De pai para filha para neta
Um dia desses minha filha, depois de já deitada, me pediu para lhe levar água. O pai, acho que para me poupar, se antecipou e atendeu ao pedido dela levando-lhe água num copo comum. Ela reclamou. Queria beber água num copinho pequeno, que ela acha lindo, normalmente usado para servir aguardente dinamarquesa. O pai bateu o pé e disse que não, o que provocou uma choradeira.
Achei uma pena. No dia seguinte ela pediu novamente água no copinho. Dessa vez me adiantei ao pai e fui servir-lhe água no copinho. Ela adorou, bebeu a água com alegria e depois caiu no sono, não sem antes, é claro, tentar puxar conversa.
Senti que meu pai aprovaria eu ter me rendido àquele pequeno capricho da neta. Numa situação semelhante, ele teria feito o mesmo: servido água no copinho. Afinal, ele foi o pai de pequenos e inesquécíveis mimos.
Um desses mimos era o de "fazer laranja com copinho". Para as crianças, toda laranja que ele descascava tinha de ter copinho, que ele fazia formando um pequeno cone no topo da laranja. Adorávamos laranja com copinho, que obviamente tinha muito mais sabor do que uma laranja sem graça descascada de maneira mais tradicional.
Até comer alface podia era divertido porque tínhamos direito a fazer trouxas de comida com as folhas de alface. Era só colocar o arroz e o feijão em cima da folha, puxar as bordas e pronto. Estava feita a trouxinha de comida. Uma delícia, nós achávamos.
Achei uma pena. No dia seguinte ela pediu novamente água no copinho. Dessa vez me adiantei ao pai e fui servir-lhe água no copinho. Ela adorou, bebeu a água com alegria e depois caiu no sono, não sem antes, é claro, tentar puxar conversa.
Senti que meu pai aprovaria eu ter me rendido àquele pequeno capricho da neta. Numa situação semelhante, ele teria feito o mesmo: servido água no copinho. Afinal, ele foi o pai de pequenos e inesquécíveis mimos.
Um desses mimos era o de "fazer laranja com copinho". Para as crianças, toda laranja que ele descascava tinha de ter copinho, que ele fazia formando um pequeno cone no topo da laranja. Adorávamos laranja com copinho, que obviamente tinha muito mais sabor do que uma laranja sem graça descascada de maneira mais tradicional.
Até comer alface podia era divertido porque tínhamos direito a fazer trouxas de comida com as folhas de alface. Era só colocar o arroz e o feijão em cima da folha, puxar as bordas e pronto. Estava feita a trouxinha de comida. Uma delícia, nós achávamos.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Dias escuros
No domingo termina o horário de verão aqui na Dinamarca. Será hora de sairmos de irmos à caça de todos os relógios que guiam nossas vidas: os dois despertadores digitais na cabeceira da minha cama, o relógio do vídeo player (é, incrível não? Ainda tenho um video), o relógio do carro, o celular, o MP3, o telefone do trabalho, os telefones de casa etc
Só de pensar na mudança sinto arrepios. Nem tanto por causa da mudanca de horário, mas pelo que ela significa. Para mim, é o anúncio da chegada do inverno e da escuridão trazida por ele.
A partir da segunda, quando voltarmos do trabalho para casa, teremos necessariamente de usar lanternas nas bicicletas para evitar multas e não correr o risco de atropelamento por carros e caminhões.
É nessa época que mais acontecem acidentes fatais com ciclistas e pedestres aqui na Dinamarca. As pessoas ainda estão desacostumadas com a escuridão e, com a mudança do horário, a situação fica ainda mais grave. Nos meses mais escuros, dezembro e janeiro, o dia só fica mesmo claro depois das oito da manhã e às quatro e meia da tarde já está escurecendo.
Só de pensar na mudança sinto arrepios. Nem tanto por causa da mudanca de horário, mas pelo que ela significa. Para mim, é o anúncio da chegada do inverno e da escuridão trazida por ele.
A partir da segunda, quando voltarmos do trabalho para casa, teremos necessariamente de usar lanternas nas bicicletas para evitar multas e não correr o risco de atropelamento por carros e caminhões.
É nessa época que mais acontecem acidentes fatais com ciclistas e pedestres aqui na Dinamarca. As pessoas ainda estão desacostumadas com a escuridão e, com a mudança do horário, a situação fica ainda mais grave. Nos meses mais escuros, dezembro e janeiro, o dia só fica mesmo claro depois das oito da manhã e às quatro e meia da tarde já está escurecendo.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Começando o dia
O despertador toca às 6:45 mas eu já estou acordada desde as seis e quinze. Um calor enervante me despertou meia hora antes do planejado. O mesmo calor me tirou o sono duas vezes na noite passada. Nada extraordinário. Ter meu sono perturbado por essas malditas ondas de calor já estão virando parte da rotina.
Fico enrolando na cama mais uns dez minutos e finalmente me levanto. Troco de roupa rapidamente, pego meu aparelhinho de MP3 e vou na direção do lago aqui perto de casa.
Embora a manhã esteja bem fria, deve fazer uns seis graus, o jogo de jogging é suficiente para enfrentar a temperatura baixa. Pelo menos para isso essas ondas de calor irritante servem.
Mas preciso me apressar. A onda de calor já está indo embora e para não congelar decido andar só um minuto, ao invés dos dois previstos no meu programa de treinamento, antes de correr mais 10 minutos, andar outros dois, correr mais nove e finalmente caminhar o resto do caminho para casa.
Enquanto corro procuro os gansos que cruzaram tantas vezes o meu caminho quando corri aqui no verão. Não vejo nenhum deles. Acho que todos, bem mais espertos do que eu, já se mandaram para umas quebradas mais quentes do que essas. Fico levemente aliviada. Os gansos que vivem às centenas nas margens do lago durante as estações mais quentes do ano não são muito simpáticos. Quase sempre, quando cruzo o caminho deles, me olham com aquele olhar agressivo e desafiador de ganso, levantam o rosto e gritam se preparando para o ataque. Também não tive o prazer de ver nenhum cisne, outra ave que vive por aqui. Apenas os patos continuam impávidos, resistindo ao frio.
Essas corridas três vezes por semana estão começando a fazer parte da minha rotina. É duro sair da cama e enfrentar o frio e às vezes a chuva, mas sempre vale a pena respirar o ar fresco e admirar as luzes do amanhecer outonal da Dinamarca.
Fico enrolando na cama mais uns dez minutos e finalmente me levanto. Troco de roupa rapidamente, pego meu aparelhinho de MP3 e vou na direção do lago aqui perto de casa.
Embora a manhã esteja bem fria, deve fazer uns seis graus, o jogo de jogging é suficiente para enfrentar a temperatura baixa. Pelo menos para isso essas ondas de calor irritante servem.
Mas preciso me apressar. A onda de calor já está indo embora e para não congelar decido andar só um minuto, ao invés dos dois previstos no meu programa de treinamento, antes de correr mais 10 minutos, andar outros dois, correr mais nove e finalmente caminhar o resto do caminho para casa.
Enquanto corro procuro os gansos que cruzaram tantas vezes o meu caminho quando corri aqui no verão. Não vejo nenhum deles. Acho que todos, bem mais espertos do que eu, já se mandaram para umas quebradas mais quentes do que essas. Fico levemente aliviada. Os gansos que vivem às centenas nas margens do lago durante as estações mais quentes do ano não são muito simpáticos. Quase sempre, quando cruzo o caminho deles, me olham com aquele olhar agressivo e desafiador de ganso, levantam o rosto e gritam se preparando para o ataque. Também não tive o prazer de ver nenhum cisne, outra ave que vive por aqui. Apenas os patos continuam impávidos, resistindo ao frio.
Essas corridas três vezes por semana estão começando a fazer parte da minha rotina. É duro sair da cama e enfrentar o frio e às vezes a chuva, mas sempre vale a pena respirar o ar fresco e admirar as luzes do amanhecer outonal da Dinamarca.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Fruta do pé
Outubro: outono na Dinamarca, primavera em Brasília, era na minha infância tempo das primeiras chuvas e também de começar a abandonar os cremes hidratantes e a banha de cacau que protegia a pele da falta de umidade do ar que atinge o cerrado entre maio e setembro.
Era também o mês de começar a colher fruta do pé. Me lembro que uma vez fomos com meus pais a Planaltina, uma antiga cidade goiana incorporada pelo Distrito Federal quando a capital do país se mudou para o planalto central.
Não me lembro do motivo ou de quem fomos visitar, mas o que importava mesmo era andar pelos quintais vastos, com árvores frondosas e cheios de jaboticabeiras enormes. Alías, como a jaboticabeira é bela. Comíamos jaboticaba até enjoar. Para matar a saudade e sabendo que ficaríamos sem provar da fruta até a estação ano seguinte.
Em Copenhague, outono é época de maçã, pelos menos aqui em casa. É hora de sair juntando as maçãs que não páram de cair dos dois pés do quintal. Em setembro já dá para colher de um dos pés uma maçã deliciosa à qual até eu, que não sou lá grande fã da fruta, me rendo. A Gabriela é a maior fã e usuária da árvore: às vezes passa o dia rondando a macieira, sempre comendo uma maçã colhida do pé. A outra macieira, que aqui chamam Belle de Boscop, é uma árvore antiga que, segundo nosso vizinho, deve ter a idade da casa: mais ou menos 70 anos. É uma árvore grande, que todo ano fica carregada de frutas grandes e esverdeadas, meio ácidas, boas para tortas e bolos.
Nessa época, o vizinho da frente sempre enche baldes de maçãs do quintal dele e as oferece aos vizinhos colocando-as no passeio em frente à casa dele, uma oferta que muita gente ignora por conta da abundância de maçãs nos quintais do bairro. Eu prefiro levar caixas e caixas de maçãs para colegas de trabalho e amigos. Dá um pouco de trabalho, mas é sempre um sucesso.
Era também o mês de começar a colher fruta do pé. Me lembro que uma vez fomos com meus pais a Planaltina, uma antiga cidade goiana incorporada pelo Distrito Federal quando a capital do país se mudou para o planalto central.
Não me lembro do motivo ou de quem fomos visitar, mas o que importava mesmo era andar pelos quintais vastos, com árvores frondosas e cheios de jaboticabeiras enormes. Alías, como a jaboticabeira é bela. Comíamos jaboticaba até enjoar. Para matar a saudade e sabendo que ficaríamos sem provar da fruta até a estação ano seguinte.
Em Copenhague, outono é época de maçã, pelos menos aqui em casa. É hora de sair juntando as maçãs que não páram de cair dos dois pés do quintal. Em setembro já dá para colher de um dos pés uma maçã deliciosa à qual até eu, que não sou lá grande fã da fruta, me rendo. A Gabriela é a maior fã e usuária da árvore: às vezes passa o dia rondando a macieira, sempre comendo uma maçã colhida do pé. A outra macieira, que aqui chamam Belle de Boscop, é uma árvore antiga que, segundo nosso vizinho, deve ter a idade da casa: mais ou menos 70 anos. É uma árvore grande, que todo ano fica carregada de frutas grandes e esverdeadas, meio ácidas, boas para tortas e bolos.
Nessa época, o vizinho da frente sempre enche baldes de maçãs do quintal dele e as oferece aos vizinhos colocando-as no passeio em frente à casa dele, uma oferta que muita gente ignora por conta da abundância de maçãs nos quintais do bairro. Eu prefiro levar caixas e caixas de maçãs para colegas de trabalho e amigos. Dá um pouco de trabalho, mas é sempre um sucesso.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Normalidade
Hoje, no meio da correria do dia, tive a sensação de que minha vida estava voltando ao normal. Mas aliás, o que é mesmo voltar à vida normal? Já ouvi e também já disse a mim mesma diversas vezes que agora, com o fim da quimio e da radioterapia, a vida poderá voltar a ser como antes.
Mas no fundo sei que isso é papo furado. Minha vida sofreu uma reviravolta e, com o perdão do clichê, nunca será como antes. Além de problemas físicos que talvez tenham vindo para ficar, há aquele medo que, parece, veio para me acompanhar por algum tempo. É o medo da vulnerabilidade, de que tudo volte a acontecer. É um medo que prefiro ignorar, mas que está ali, por perto, à espreita.
Mas no fundo sei que isso é papo furado. Minha vida sofreu uma reviravolta e, com o perdão do clichê, nunca será como antes. Além de problemas físicos que talvez tenham vindo para ficar, há aquele medo que, parece, veio para me acompanhar por algum tempo. É o medo da vulnerabilidade, de que tudo volte a acontecer. É um medo que prefiro ignorar, mas que está ali, por perto, à espreita.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Dez coisas para fazer ao mesmo tempo agora
Voltar à normalidade está sendo mais difícil do eu imaginava. O desconforto físico e cansaço causados pela quimio e radioterapia diminuíram bastante. É verdade que ainda sinto um pouco de cansaço muscular, o inchaço no braço e as ondas de calor continuam, e a pele afetada pela radioterapia ainda está se recuperando mas, como dizem os dinamarqueses, esses são desconfortos do “departamento de coisinhas pequenas”.
O que ainda está pegando é um certo cansaço mental meio difícil de explicar. Se antes dez coisas para fazer ao memo tempo agora me deixavam agoniada, agora três coisas são suficientes para me deixarem com os nervos à flor da pele.
Eu tinha imaginado que talvez pudesse voltar a trabalhar normalmente em outubro, mas já avisei meu chefe que não vai dar. Continuarei trabalhando em tempo parcial, embora aumente gradualmente o número de horas no escritório.
O que ainda está pegando é um certo cansaço mental meio difícil de explicar. Se antes dez coisas para fazer ao memo tempo agora me deixavam agoniada, agora três coisas são suficientes para me deixarem com os nervos à flor da pele.
Eu tinha imaginado que talvez pudesse voltar a trabalhar normalmente em outubro, mas já avisei meu chefe que não vai dar. Continuarei trabalhando em tempo parcial, embora aumente gradualmente o número de horas no escritório.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Recruta
Assumi minha careca. Ou minha quase careca já que, segundo meu marido, não se trata mais de uma careca e sim de um visual recruta.
A reação de amigos e colegas de trabalho ao meu novo visual tem sido positiva às vezes divertida. Alguém disse “Adorei seu cabelo novo” ao que fui obrigada a corrigir “Minha falta de cabelo, você quer dizer”.
A reação de amigos e colegas de trabalho ao meu novo visual tem sido positiva às vezes divertida. Alguém disse “Adorei seu cabelo novo” ao que fui obrigada a corrigir “Minha falta de cabelo, você quer dizer”.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Desconforto
Estou me cansando de sentir dores, sejam elas grandes ou pequenas. Hoje fui ao hospital para receber a terceira dose de herceptin, o tratamento que deve ajudar a prevenir que o câncer volte. Assim que vi a jovem e aparentemente inexperiente enfermeira que deveria me fazer a aplicação intravenosa, tremi nas bases. Ai, pensei, vai doer.
Na verdade a espetada que ela me deu doeu só um pouco mais do que o normal e nem deveria ter sido motivo para pânico, mas acho que minha resistência à dor, que eu antes considerava boa, está diminuindo.
É que estou de saco cheio de sentir dor e desconforto físico. Depois da tormenta que foi a quimioterapia, nas últimas semanas tenho penado com a queimadura causada pela radioterapia. Bem que as enfermeiras haviam me avisado que o desconforto causado pela queimadura iria piorar nas duas semanas seguintes ao término da radioterapia. Elas estavam certíssimas.
Na verdade a espetada que ela me deu doeu só um pouco mais do que o normal e nem deveria ter sido motivo para pânico, mas acho que minha resistência à dor, que eu antes considerava boa, está diminuindo.
É que estou de saco cheio de sentir dor e desconforto físico. Depois da tormenta que foi a quimioterapia, nas últimas semanas tenho penado com a queimadura causada pela radioterapia. Bem que as enfermeiras haviam me avisado que o desconforto causado pela queimadura iria piorar nas duas semanas seguintes ao término da radioterapia. Elas estavam certíssimas.
Cebola
O outono chegou. Esta semana já houve manhã com menos de três graus.
Resisto enquanto posso e ainda não sucumbi aos cachecóis, luvas e botas. Todo ano retardo ao máximo a época de me transformar numa cebola, cheia de camadas e camadas de roupas, como definiu uma ex-colega de trabalho. Retardo o momento da metamorfose porque tenho a impressão de que a partir do momento em que me cobro de camadas, não consigo mais removê-las por sete meses, que é o tempo que o outono e inverno duram na Dinamarca.
Resisto enquanto posso e ainda não sucumbi aos cachecóis, luvas e botas. Todo ano retardo ao máximo a época de me transformar numa cebola, cheia de camadas e camadas de roupas, como definiu uma ex-colega de trabalho. Retardo o momento da metamorfose porque tenho a impressão de que a partir do momento em que me cobro de camadas, não consigo mais removê-las por sete meses, que é o tempo que o outono e inverno duram na Dinamarca.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Radioterapia... acabou
Passei hoje pela última sessão de radioterapia. Quando cheguei à clínica do hospital onde recebo o tratamento radioterápico, as enfermeiras me receberam com uma pequenina bandeira dinamarquesa para comemorar meu último dia no papel de churrasquinho.
Não é nada agradável me olhar no espelho e ver o que a radioterapia fez com minha pele. Uma mancha escura cobre toda a área tratada e a cicatriz da operação, que coça muito, está bastante avermelhada. Segundo as enfermeiras, nas próximas duas semanas poderei sentir coceira e ardência e só depois a pele começará finalmente a se recuperar. Banhos de mar e piscina estão proibidos para mim no próximo mês e só depois de um ano poderei tomar sol na região afetada.
Foram 24 sessões, uma por dia, de segunda a sexta-feira e, de modo geral, tudo correu muito bem, mas é um alívio que não terei mais de passar por tratamentos tão violentos. A violência da radioterapia não pode ser comparada com a da quimioterapia, que é muito mais devastadora, mas nas últimas duas semanas do tratamento vinha me sentindo como um espetinho mal passado.
Não é nada agradável me olhar no espelho e ver o que a radioterapia fez com minha pele. Uma mancha escura cobre toda a área tratada e a cicatriz da operação, que coça muito, está bastante avermelhada. Segundo as enfermeiras, nas próximas duas semanas poderei sentir coceira e ardência e só depois a pele começará finalmente a se recuperar. Banhos de mar e piscina estão proibidos para mim no próximo mês e só depois de um ano poderei tomar sol na região afetada.
Foram 24 sessões, uma por dia, de segunda a sexta-feira e, de modo geral, tudo correu muito bem, mas é um alívio que não terei mais de passar por tratamentos tão violentos. A violência da radioterapia não pode ser comparada com a da quimioterapia, que é muito mais devastadora, mas nas últimas duas semanas do tratamento vinha me sentindo como um espetinho mal passado.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Treinamento
Hoje consegui subir dois lances de escada sem ter de me arrastar para superar os últimos degraus. Aleluia! É um sinal de que finalmente os efeitos colaterais da quimioterapia estão cedendo.
Já faz quase dois meses que passei pela última quimioterapia e ainda hoje sinto alguns efeitos colaterais. Acho que o pior deles ainda são as ondas de calor que sinto várias vezes por dia. Infelizmente esse efeito poderá continuar por muito tempo já que o tratamento anti-hormonal que estarei recebendo por cinco anos também provoca ondas de calor. Ao calor indesejado, soma-se que meu paladar ainda não voltou ao normal, minha força muscular continua a desejar e as pontas dos dedos permanecem um pouco dormentes.
Mas a cada dia que passa me sinto mais forte e menos cansada. Comecei a fazer meu próprio plano de treinamento físico que inclui um programa de corridas combinadas com caminhadas três vezes por semans. É um ótimo programa para quem está fora de forma como eu e consiste em começar com caminhadas intercaladas com corridas curtas onde o tempo caminhado vai dimimuindo e as corridas vão gradativamente aumentando. Depois de doze semanas estarei correndo os sonhados 30 minutos.
Achei esse programa num site dinamarquês e se você quiser usá-lo e não dominar a língua aí vai uma rápida tradução para as palavras da tabela que você vai encontrar naquele link:
- gang – caminhar
- løb – correr
- uge – week
- dag - dia
Já faz quase dois meses que passei pela última quimioterapia e ainda hoje sinto alguns efeitos colaterais. Acho que o pior deles ainda são as ondas de calor que sinto várias vezes por dia. Infelizmente esse efeito poderá continuar por muito tempo já que o tratamento anti-hormonal que estarei recebendo por cinco anos também provoca ondas de calor. Ao calor indesejado, soma-se que meu paladar ainda não voltou ao normal, minha força muscular continua a desejar e as pontas dos dedos permanecem um pouco dormentes.
Mas a cada dia que passa me sinto mais forte e menos cansada. Comecei a fazer meu próprio plano de treinamento físico que inclui um programa de corridas combinadas com caminhadas três vezes por semans. É um ótimo programa para quem está fora de forma como eu e consiste em começar com caminhadas intercaladas com corridas curtas onde o tempo caminhado vai dimimuindo e as corridas vão gradativamente aumentando. Depois de doze semanas estarei correndo os sonhados 30 minutos.
Achei esse programa num site dinamarquês e se você quiser usá-lo e não dominar a língua aí vai uma rápida tradução para as palavras da tabela que você vai encontrar naquele link:
- gang – caminhar
- løb – correr
- uge – week
- dag - dia
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Síndrome da Boa Menina Traída pela Sorte
A Síndrome da Boa Menina Traída pela Sorte (SBMTS) acomete ambos os sexos mas, principalmente, mulheres, independentemente da faixa etária, classe social, etnia, grupo cultural ou religioso.
As mulheres atingidas pela síndrome acham que sempre fizerem tudo bem direitinho: prestaram atenção na aula, obedeceram aos pais e respeitaram os mais velhos, fizeram o dever de casa, pagaram os impostos devidos, pararam no sinal vermelho e não pisaram na grama verde.
Quando se trata de saúde, as acometidas pela SBMTS acham que não é justo que, apesar de levarem uma vida relativamente saudável, acabem sofrendo de doenças graves como, por exemplo, câncer.
A SBMTS é um mal crônico cujos sintomas volta e meia se manifestam de forma extrema na forma de crises de choro, mau humor, sentimento de auto-piedade, expressão cara de vítima, desânimo, fúria e revolta.
Cada paciente deve receber um tratamento individualizado que pode incluir a prescrição de piadas bobas contadas por um irmão ou amigo, conversas fiadas com uma irmã, um jantar só com amigas mulheres, um passeio na praia ou num bosque, dançar com os filhos ou namorado ou marido, comer um bolo ou sobremesa bem gostosa, saber sobre quem tem ainda mais motivo para se sentir vítima da má sorte etc.
As mulheres atingidas pela síndrome acham que sempre fizerem tudo bem direitinho: prestaram atenção na aula, obedeceram aos pais e respeitaram os mais velhos, fizeram o dever de casa, pagaram os impostos devidos, pararam no sinal vermelho e não pisaram na grama verde.
Quando se trata de saúde, as acometidas pela SBMTS acham que não é justo que, apesar de levarem uma vida relativamente saudável, acabem sofrendo de doenças graves como, por exemplo, câncer.
A SBMTS é um mal crônico cujos sintomas volta e meia se manifestam de forma extrema na forma de crises de choro, mau humor, sentimento de auto-piedade, expressão cara de vítima, desânimo, fúria e revolta.
Cada paciente deve receber um tratamento individualizado que pode incluir a prescrição de piadas bobas contadas por um irmão ou amigo, conversas fiadas com uma irmã, um jantar só com amigas mulheres, um passeio na praia ou num bosque, dançar com os filhos ou namorado ou marido, comer um bolo ou sobremesa bem gostosa, saber sobre quem tem ainda mais motivo para se sentir vítima da má sorte etc.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Inchaço
Hoje passei pela décima sétima sessão de radioterapia e já não vejo a hora de chegar à vigésima quarta e última sessão, na semana que vem. Segundo as enfermeiras que me atendem, o tratamento está correndo muito bem mas não sei se tenho a mesma opinião.
A pele na área que submetida ao tratamento está muito irritada e sinto como se tivesse sido exposta ao sol por horas. Quase não aguento usar sutiã e a melhor parte do dia é quando chego em casa e visto uma camiseta bem folgada, sem nada por baixo. É um alívio. Hoje comecei a usar uma mini-blusa de algodão sob o sutiã para aliviar a pressão do soutiã sobre a pele.
A pele em volta da cicatriz da mastectomia está com uma cor escura, parecendo, e aí as mulheres vão me entender bem, da cor de manchas no rosto de quem passou por uma gravidez.
Mas o que me preocupa mais agora não é a pele e sim meu braço esquerdo. No final de semana depois das cinco primeiras aplicações, meu antebraço começou a inchar. Dias depois o inchaço atingiu o cotovelo e agora está chegando à mão.
As enfermeiras dizem que deve ser um efeito colateral passageiro causado pela radioterapia e que deve desaparecer depois do tratamento, embora haja o risco que o inchaço continue e até piore. Se isso acontecer, é provavel que eu esteja sofrendo de uma doença linfática crônica sem gravidade, a linfedema, que muito frequentemente atinge mulheres que tiveram gânglios linfáticos removidos por causa de um câncer de mama ou que passaram por radioterapia. É uma doença sem gravidade e tratável mas, infelizmente, sem cura.
A possibilidade de estar sofrendo desta doença conseguiu me abalar por uns dias. Senti raiva das pauladas que tenho levado da vida e bateu novamente a “síndrome da boa menina traída pela sorte”.
A pele na área que submetida ao tratamento está muito irritada e sinto como se tivesse sido exposta ao sol por horas. Quase não aguento usar sutiã e a melhor parte do dia é quando chego em casa e visto uma camiseta bem folgada, sem nada por baixo. É um alívio. Hoje comecei a usar uma mini-blusa de algodão sob o sutiã para aliviar a pressão do soutiã sobre a pele.
A pele em volta da cicatriz da mastectomia está com uma cor escura, parecendo, e aí as mulheres vão me entender bem, da cor de manchas no rosto de quem passou por uma gravidez.
Mas o que me preocupa mais agora não é a pele e sim meu braço esquerdo. No final de semana depois das cinco primeiras aplicações, meu antebraço começou a inchar. Dias depois o inchaço atingiu o cotovelo e agora está chegando à mão.
As enfermeiras dizem que deve ser um efeito colateral passageiro causado pela radioterapia e que deve desaparecer depois do tratamento, embora haja o risco que o inchaço continue e até piore. Se isso acontecer, é provavel que eu esteja sofrendo de uma doença linfática crônica sem gravidade, a linfedema, que muito frequentemente atinge mulheres que tiveram gânglios linfáticos removidos por causa de um câncer de mama ou que passaram por radioterapia. É uma doença sem gravidade e tratável mas, infelizmente, sem cura.
A possibilidade de estar sofrendo desta doença conseguiu me abalar por uns dias. Senti raiva das pauladas que tenho levado da vida e bateu novamente a “síndrome da boa menina traída pela sorte”.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Amigo oba oba
Ficar gravemente doente é bom para pelo menos uma coisa: identificar seus amigos oba oba. Essa categoria de amigo você sempre encontra nas festas, ele diz por aí que é seu amigo do peito e está sempre a fim da sua companhia se você está de ótimo humor e saudável. Mas se bateu um baixo astral ou se o médico acabou de confirmar que aqueles exames deram mesmo positivo para aquela doença que você temia, esqueça o amigo oba oba. O amigo oba oba vai certamente dar uma ligada ou mandar um e-mail lamentando a má notícia mas depois, tchau tchau. Ele só vai aparecer quando você der uma festa para comemorar que o diagnóstico foi um erro médico e para te ajudar a meter o pau no hospital e no sistema, que são mesmo uma merda etc e tal.
Os amigos oba oba não são maus. É bom tê-los para animar uma festa, contar uma boa piada ou não deixar o assunto morrer numa mesa de bar. Mas não conte com eles para muito mais do que isso. Eles não conseguem lidar com assuntos tristes e desagradáveis como um diagnóstico de câncer e somem quando você mais precisa de ajuda. Quando a solidão que a doença traz for mais dolorosa, não espere encontrar um emaizinho dele no seu Inbox. Ele anda ocupado demais para escrever. Um telefonema é também algo inimaginável. Seu amigo oba oba nunca consegue te encontrar, o que é algo meio inexplicável porque você está encarcerado em casa com um corpo doente que quase não consegue dar um passo.
Seu amigo oba oba não consegue enxergar que, se para ele uma doença alheia é algo triste e desagradável, para quem a vive na pele, nos ossos e nas células, a situação é obviamente muitíssimo pior. Ou talvez, quem sabe, ele enxergue isso demais e não consiga suportar ver a dor do amigo, preferindo desaparecer até o amigo se curar ou ser enterrado. De qualquer maneira, ele não consegue esquecer seu próprio desconforto por três minutos, que é o que seria necessário para escrever um e-mail, nem por dez minutos, o tempo de uma ligação telefônica. Uma visitinha solidária, então, completamente fora de questão.
Nesses nem sempre festivos últimos meses da minha vida, consegui identificar alguns amigos oba oba. Se fosse vinte anos atrás, teria ficado decepcionada e magoada, mas hoje consigo relevar, como diz uma amiga que não se enquadra na categoria oba oba. Espero contar com presença deles nas muitas festas que pretendo fazer.
Os amigos oba oba não são maus. É bom tê-los para animar uma festa, contar uma boa piada ou não deixar o assunto morrer numa mesa de bar. Mas não conte com eles para muito mais do que isso. Eles não conseguem lidar com assuntos tristes e desagradáveis como um diagnóstico de câncer e somem quando você mais precisa de ajuda. Quando a solidão que a doença traz for mais dolorosa, não espere encontrar um emaizinho dele no seu Inbox. Ele anda ocupado demais para escrever. Um telefonema é também algo inimaginável. Seu amigo oba oba nunca consegue te encontrar, o que é algo meio inexplicável porque você está encarcerado em casa com um corpo doente que quase não consegue dar um passo.
Seu amigo oba oba não consegue enxergar que, se para ele uma doença alheia é algo triste e desagradável, para quem a vive na pele, nos ossos e nas células, a situação é obviamente muitíssimo pior. Ou talvez, quem sabe, ele enxergue isso demais e não consiga suportar ver a dor do amigo, preferindo desaparecer até o amigo se curar ou ser enterrado. De qualquer maneira, ele não consegue esquecer seu próprio desconforto por três minutos, que é o que seria necessário para escrever um e-mail, nem por dez minutos, o tempo de uma ligação telefônica. Uma visitinha solidária, então, completamente fora de questão.
Nesses nem sempre festivos últimos meses da minha vida, consegui identificar alguns amigos oba oba. Se fosse vinte anos atrás, teria ficado decepcionada e magoada, mas hoje consigo relevar, como diz uma amiga que não se enquadra na categoria oba oba. Espero contar com presença deles nas muitas festas que pretendo fazer.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Inventário
Um dia desses, um amigo me disse ficou surpreso ao me ver tão bem disposta andando de um lado para o outro num churrasco que fizemos aqui em casa para nos despedir do meu irmão, que voltaria ao Brasil no dia seguinte, e comemorar o fim do meu tratamento quimioterápico.
Fiquei contente que não estivesse com um ar tão doentio, mas também fiquei pensando que minha aparência pode ter dado uma impressão equivocada dos efeitos desse tratamento. Detesto dar uma de vítima e também é verdade que há pessoas que sofrem bem menos efeitos colaterais do que eu mas é bom avisar: quimioterapia não é mole.
Mantenho contato com duas outras pacientes de câncer de mama que sofreram mastectomia mais ou menos na mesma época que eu. Elas sofreram tão ou mais do que eu e uma delas teve sérios problemas de pele durante todo o tratamento.
Ontem fez um mês que recebi meu último tratamento quimioterápico e muitos dos efeitos colaterais ainda se fazem sentir. As ondas de calor não sumiram, os músculos das pernas continuam muito cansados e as pontas dos meus dedos polegar e indicador ainda estão com pouca sensibilidade. O gosto ruim na boca também não passou e meu paladar ainda funciona mal. Há várias coisas que como que não têm gosto de nada.
Parece maluquice, mas fiz um pequeno inventário de todos os efeitos colaterais que sofri com a quimioterapia. Alguns efeitos são conseqüência direta da quimioterapia enquanto outros são resultado dos remédios que tomei para amenizar os efeitos da quimioterapia.
Desde a primeira aplicação:
Cansaço (queria que o mundo virasse uma cama)
Nervosismo, irritabilidade
Queda de cabelo (carequice)
Nariz escorrendo (irritante)
Ressecamento do nariz e consequente ferida (chato que só)
Pele extremamente seca (parecia Brasília em agosto com 11% de umidade relativa do ar e sem)
Ardência na pele (como se você esquecido de passar o protetor solar e mesmo assim tivesse passado um dia no sol escaldante de uma praia de Natal)
Pele descascada e escura na palma dos pés (feio)
Dor na juntas, ossos e músculos (horrível)
Prisão de ventre
Boca seca
Falta de paladar
Gosto ruim na boca
Só depois das três primeiras aplicações:
Enjôo (suportável)
Só a partir da quarta aplicação:
Ondas de calor (exasperante)
Olhos escorrendo (constrangedor)
Soluços (esquisito demais)
Inchaço das pernas e pés
Pontas dos dedos dos pés e mãos doloridos e sem sensibilidade
Insônia
Diarréia leve
Unhas arroxeadas e ressequidas
Quem sabe essa lista pode ajudar alguém a entender o que passa uma pessoa sob tratamento quimioterápico. Se não servir para mais nada, vai pelo menos me lembrar o quanto estou me sentindo bem agora em relação a três semanas atrás.
Fiquei contente que não estivesse com um ar tão doentio, mas também fiquei pensando que minha aparência pode ter dado uma impressão equivocada dos efeitos desse tratamento. Detesto dar uma de vítima e também é verdade que há pessoas que sofrem bem menos efeitos colaterais do que eu mas é bom avisar: quimioterapia não é mole.
Mantenho contato com duas outras pacientes de câncer de mama que sofreram mastectomia mais ou menos na mesma época que eu. Elas sofreram tão ou mais do que eu e uma delas teve sérios problemas de pele durante todo o tratamento.
Ontem fez um mês que recebi meu último tratamento quimioterápico e muitos dos efeitos colaterais ainda se fazem sentir. As ondas de calor não sumiram, os músculos das pernas continuam muito cansados e as pontas dos meus dedos polegar e indicador ainda estão com pouca sensibilidade. O gosto ruim na boca também não passou e meu paladar ainda funciona mal. Há várias coisas que como que não têm gosto de nada.
Parece maluquice, mas fiz um pequeno inventário de todos os efeitos colaterais que sofri com a quimioterapia. Alguns efeitos são conseqüência direta da quimioterapia enquanto outros são resultado dos remédios que tomei para amenizar os efeitos da quimioterapia.
Desde a primeira aplicação:
Cansaço (queria que o mundo virasse uma cama)
Nervosismo, irritabilidade
Queda de cabelo (carequice)
Nariz escorrendo (irritante)
Ressecamento do nariz e consequente ferida (chato que só)
Pele extremamente seca (parecia Brasília em agosto com 11% de umidade relativa do ar e sem)
Ardência na pele (como se você esquecido de passar o protetor solar e mesmo assim tivesse passado um dia no sol escaldante de uma praia de Natal)
Pele descascada e escura na palma dos pés (feio)
Dor na juntas, ossos e músculos (horrível)
Prisão de ventre
Boca seca
Falta de paladar
Gosto ruim na boca
Só depois das três primeiras aplicações:
Enjôo (suportável)
Só a partir da quarta aplicação:
Ondas de calor (exasperante)
Olhos escorrendo (constrangedor)
Soluços (esquisito demais)
Inchaço das pernas e pés
Pontas dos dedos dos pés e mãos doloridos e sem sensibilidade
Insônia
Diarréia leve
Unhas arroxeadas e ressequidas
Quem sabe essa lista pode ajudar alguém a entender o que passa uma pessoa sob tratamento quimioterápico. Se não servir para mais nada, vai pelo menos me lembrar o quanto estou me sentindo bem agora em relação a três semanas atrás.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Tatuagem
Há uma pequena lista de coisas que eu não entendo. Uma delas é porque há gente que se tatua ou, pior, paga para ser tatuado. Essa semana, depois do início do meu tratamento radioterápico, esse mistério ficou ainda maior.
Para aplicar os raios X e elétrons de forma mais precisa, as enfermeiras me tatuaram seis pontos minúsculos do peito. Se entendi direito, os pontos servem como coordenadas para posicionar a máquina que emite os raios e assim evitar que eles atinjam artérias vitais do meu peito, ombro e pescoço.
A tatuagem de cada um desses pontinhos provocou uma dor rápida mas, na minha opinião, muito forte. Só de pensar que há quem cubra o corpo todo com essas queimaduras dolorosas me dá arrepios.
As tatuagens foram o que de mais desagradável aconteceu nessa primeira semana de radioterapia, em que recebi cinco aplicações. Agora só faltam 19 das 24 aplicações previstas.
De segunda a quinta, depois do tratamento, fui para o trabalho, que fica a cinco minutos de bicicleta do hospital. Isso fez com que tivesse a impressão de que a vida está lentamente voltando ao normal.
Para aplicar os raios X e elétrons de forma mais precisa, as enfermeiras me tatuaram seis pontos minúsculos do peito. Se entendi direito, os pontos servem como coordenadas para posicionar a máquina que emite os raios e assim evitar que eles atinjam artérias vitais do meu peito, ombro e pescoço.
A tatuagem de cada um desses pontinhos provocou uma dor rápida mas, na minha opinião, muito forte. Só de pensar que há quem cubra o corpo todo com essas queimaduras dolorosas me dá arrepios.
As tatuagens foram o que de mais desagradável aconteceu nessa primeira semana de radioterapia, em que recebi cinco aplicações. Agora só faltam 19 das 24 aplicações previstas.
De segunda a quinta, depois do tratamento, fui para o trabalho, que fica a cinco minutos de bicicleta do hospital. Isso fez com que tivesse a impressão de que a vida está lentamente voltando ao normal.
sábado, 9 de agosto de 2008
Enfermeiras
Desde que fui operada estou querendo escrever sobre as enfermeiras dinamaquesas. É difícil fazer isso sem ser piegas, mas acho que vale a pena correr o risco. Sobre o sermão da Eva já escrevi, mas preciso também comentar o gesto da Mette que ontem, na minha chegada à clínica de oncologia, segurou minhas mãos me cumprimentando.
Na hora nem pensei no gesto, que aconteceu de forma bem natural. Logo depois me veio à cabeça que um gesto daqueles não é muito usual para um dinamarquês. Foi também a Mette que, semanas atrás, antes de entrar de férias, me deu um abraço quase se desculpando porque não estaria trabalhando quando eu fosse receber meu último tratamento quimioterápico.
Me lembro também da Regina (que aqui se pronuncia “reguina”), aquela dos olhos azuis enormes, cabelos curtos pintados de preto. Ela me atendeu no período pós-operatório e foi ela quem tirou o curativo que cobria a cicatriz que ficou no lugar do meu seio esquerdo. Em diversos momentos, sua sensibilidade e atenção tornaram aqueles dias tristes depois da operação mais fáceis de suportar.
Acho que as enfermeiras dinamarquesas exercitam todo seu “calor humano” com os pacientes, o que não se pode dizer dos médicos dinamarqueses que tenho encontrado. Eles sempre mantiveram uma ralação profissional mas, na minha opinião, exageradamente distante dos pacientes.
Na hora nem pensei no gesto, que aconteceu de forma bem natural. Logo depois me veio à cabeça que um gesto daqueles não é muito usual para um dinamarquês. Foi também a Mette que, semanas atrás, antes de entrar de férias, me deu um abraço quase se desculpando porque não estaria trabalhando quando eu fosse receber meu último tratamento quimioterápico.
Me lembro também da Regina (que aqui se pronuncia “reguina”), aquela dos olhos azuis enormes, cabelos curtos pintados de preto. Ela me atendeu no período pós-operatório e foi ela quem tirou o curativo que cobria a cicatriz que ficou no lugar do meu seio esquerdo. Em diversos momentos, sua sensibilidade e atenção tornaram aqueles dias tristes depois da operação mais fáceis de suportar.
Acho que as enfermeiras dinamarquesas exercitam todo seu “calor humano” com os pacientes, o que não se pode dizer dos médicos dinamarqueses que tenho encontrado. Eles sempre mantiveram uma ralação profissional mas, na minha opinião, exageradamente distante dos pacientes.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Resultado
Boa notícia. Boa não, excelente. Hoje fomos ao hospital para, entre outras coisas, saber os resultados dos exames que fiz na semana passada. Não acharam nadinha, nem um pontinho de células cancerosas. Viva! Parece que a quimioterapia funcionou e deu cabo daquele carocinho que havia aparecido no meu ombro esquerdo.
Hoje começo a tomar os comprimidos do tratamento anti-hormonal, amanhã de manhã recebo a primeira dose de herceptin e na segunda começa a primeira das 24 sessões de radioterapia. O tratamento vai durar cinco anos e as doses de herceptin vão se repetir a cada três semanas durate um ano.
É, ainda há muita coisa pela frente mas, se tudo der certo, nunca mais precisarei passar por uma quimioterapia novamente. Aleluia!
Hoje começo a tomar os comprimidos do tratamento anti-hormonal, amanhã de manhã recebo a primeira dose de herceptin e na segunda começa a primeira das 24 sessões de radioterapia. O tratamento vai durar cinco anos e as doses de herceptin vão se repetir a cada três semanas durate um ano.
É, ainda há muita coisa pela frente mas, se tudo der certo, nunca mais precisarei passar por uma quimioterapia novamente. Aleluia!
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Calores
Acho que é errado escrever calor no plural, mas vou me dar essa licença. É que no auge da agonia térmica em que essa quimioterapia me jogou, essa licença de número é perfeita para descrever o que venho sentindo: calores.
Esses calores foram uma das novidades desagradáveis trazidas pela quarta sessão de quimioterapia, quando a medicação mudou para um produto cujo princípio ativo é o docetaxel. Eles vêm o dia todo, mas principalmente no final da tarde e começo da noite. São eles os principais responsáveis pelas noites mal dormidas dos últimos dois meses.
Sempre me atacam pelas batatas das pernas. Aí vão subindo devagar pelas coxas, nádegas e chegam ao auge quando atingem a nuca e alcançam minha cabeça careca. Nossa jisus! Se o demo tem hálito, deve ser tão quente e desagradável quanto esses calores.
Os calores não me deixam ter horas seguidas de sono. Durante a noite, me acordam a cada duas horas. Aí sou obrigada a me levantar, beber água, andar um pouco pela casa, abrir uma janela e colocar minha careca para fora para pegar o ar fresco da noite. Depois volto para cama e espero o sono voltar.
Os calores podem ser um sinal de que a quimioterapia antecipou minha menopausa ou apenas um dos trocentos efeitos colaterais do tratamento. Só o tempo dirá.
Esses calores foram uma das novidades desagradáveis trazidas pela quarta sessão de quimioterapia, quando a medicação mudou para um produto cujo princípio ativo é o docetaxel. Eles vêm o dia todo, mas principalmente no final da tarde e começo da noite. São eles os principais responsáveis pelas noites mal dormidas dos últimos dois meses.
Sempre me atacam pelas batatas das pernas. Aí vão subindo devagar pelas coxas, nádegas e chegam ao auge quando atingem a nuca e alcançam minha cabeça careca. Nossa jisus! Se o demo tem hálito, deve ser tão quente e desagradável quanto esses calores.
Os calores não me deixam ter horas seguidas de sono. Durante a noite, me acordam a cada duas horas. Aí sou obrigada a me levantar, beber água, andar um pouco pela casa, abrir uma janela e colocar minha careca para fora para pegar o ar fresco da noite. Depois volto para cama e espero o sono voltar.
Os calores podem ser um sinal de que a quimioterapia antecipou minha menopausa ou apenas um dos trocentos efeitos colaterais do tratamento. Só o tempo dirá.
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