terça-feira, 22 de julho de 2008

Última

Passei pela minha última sessão de quimioterapia na manhã da sexta-feira passada, quatro dias atrás. Fui sozinha ao hospital. O Henrik ou o Alexandre poderiam ter ido comigo, mas preferi ir sozinha. Senti vontade de fechar aquela etapa sem mais ninguém. Estranhamente não me senti alegre, um pouco aliviada talvez, mas a apreensão com os dias de insônia e mal estar que se seguiriam me deixaram um pouco para baixo.

Antes da sessão estava decidida a exigir dos médicos que me receitassem algum tranqüilizante, sonífero ou o que quer que fosse que me desse algumas noites de sono nas próximas semanas. A enfermeira que me atendeu, uma senhora chamada Eva, acabou me enrolando. Enquanto preparava a sessão de tratamento, que inclui uma injeção de soro antes do medicamento quimioterápico, ela foi me questionando sobre a insônia, me perguntando sobre os motivos da minha falta de sono, indagando aqui e acolá.

Me deu vontade de lhe dar um soco. Calma, ficou só na vontade. Nesses dias em que ando como uma “chemical weapon of mass destruction” (arma química de destruição em massa), o diabinho dentro de mim anda bem assanhado. Se alguém fala alguma coisa que soa muito idiota, tenho vontade de dizer “seu idiota”. Se um copo está fora do lugar, tenho vontade de jogá-lo contra a parede. Mas quase tudo fica só na vontade.

O diabinho se assanhou porque as perguntas da enfermeira eram mesmo muito idiotas. Ele perguntou, por exemplo, se eu sentia sono. “Claro, sua estúpida!”, o diabinho berrou. Mas da minha boca saiu um civilizado “Sinto sim”. Expliquei que me deitava, várias vezes durante o dia e a noite, para tentar dormir e só conseguia ficar com os olhos arregalados olhando para a parede, o teto, o armário embutido, a janela, o marido roncando ao lado, o relógio, o celular que agora vive na mesinha da cabeceira da cama ...

A doce e experiente Eva (adjetivos usados pelo meu anjinho) me perguntou sobre o que eu pensava enquanto tentava dormir. Em tudo, disse eu, coisas importantes e coisiquinhas insignificantes como por exemplo, como eu poderia dar um jeito para aquele armário embutido que estou olhando agora ficar mais organizado. Porque aquilo ali está uma bagunça, tem coisa que pode ir para o porão, não precisa ficar ali juntando poeira. Ou como é que vou fazer com a aquela orquídea que ganhei da minha amiga e que precisa de um vaso novo porque está ficando sem terra a coitada, assim vai acabar morrendo à míngua.

Eva, com a calma das santas, ouviu e fez mais uma pergunta. Gente quanta pergunta! “Você pensa sobre o doença?” Nem preciso dizer que o diabinho se assanhou novamente, mas foi o anjinho que respondeu: “Penso, claro, penso se essa coisa vai voltar um dia”.

Aí a Eva pegou meu prontuário e começou o que ela mesmo chamou de palestra. A frase inicial “Tenho 20 anos de experiência” foi repetida várias vezes ao longo do parlatório e era dita com um olhar firme, os olhos azuis dela dentro dos meus olhos castanhos. Foi quase como ouvir um conto de fadas: seu caroço era um carocinho de nada, só 1,9 cm; a quimioterapia já deve ter dado cabo do gânglio infectado que não pôde ser retirado com a operação; você só tinha três gânglios infectados de um total de 18, o que é muito pouco, já vi mulher com 17 gânglios infectados de um total de 18 que hoje está curtindo os netos; talvez você já esteja curada e nem precise de mais tratamento, mas não temos como saber com certeza e por isso é melhor prevenir e continuar com os outros tipos de terapia; o pior já passou, as outras terapias a que você vai se submeter são moleza quando comparadas com a quimioterapia etc.

No final ela chegou a se desculpar pela falação, mas enfatizou que, do alto da experiência dela de 20 anos, ela sabia que era fundamental que eu acreditasse que tudo ia dar certo.

Depois dessa, fazer o que, né? Até esqueci das pílulas para dormir. Saí de lá acreditando que o sono viria sem necessisade de venenos adicionais. Obrigada, Eva.

2 comentários:

Patrícia Marmori disse...

Oi meu amor!

Várias vezes entro no blog, leio e releio suas palavras, que são muito bem escritas é claro. Parece que foi a melhor forma de entrar dentro do seu coração e compartilhar um pouco esses momentos. Mesmo sem me manifestar, muitas vezes por não saber o que dizer...
Ufa! Mais uma etapa... nada como um dia atrás do outro... Querida irmã, estou com saudades, doida para te dar um grande abraço e um demorado beijo. Admiro demais sua força e coragem de lutar dia após dia. Como minha irmã mais velha (apesar de nunca ter te dito isso) você mais uma vez está sendo um exemplo para mim.
Obrigada por você ter se mostrado no blog. Não tem idéia como esta terapia da escrita além de te ajudar me ajudou muito também. Te amo! Beijos!

Margareth Marmori disse...

Tô louca por aquele abraço. Beijos, M