domingo, 23 de novembro de 2008

Amizades dinamarquesas

Eu deveria escrever mais sobre a Dinamarca. Afinal, minha filha e meu marido são dinamarqueses, é aqui que vivo e, querendo ou não, acho que vai ser aqui que vou passar mais algum bom tempo da minha vida. Mas a Dinamarca não é muito inspiradora, e muitas das coisas que eu gostaria de escrever sobre os dinamarqueses poderiam soar amargas demais.

Às vezes tenho a impressão que vivo à margem da sociedade dinamarquesa. É claro que tenho amigos nativos daqui, mas a imensa maioria dos dinamarqueses com quem me relaciono são amigos ou parentes do meu marido ou casados com brasileiros vivendo aqui. Depois de mais de 11 anos vivendo aqui, posso dizer que tenho apenas uma, talvez duas amizades que eu mesma fiz.

O problema pode estar em mim que não me dou ao trabalho de fazer novas amizades. Mas meus amigos brasileiros e estrangeiros aqui falam da mesma dificuldade. Além disso, as muitas nacionalidades dos meus amigos me leva a acreditar que o problema está na sociedade dinamarquesa que é, sem dúvida, muito fechada.

Uma das minhas teorias para a aparente impenetrabilidade da sociedade dinamarquesa é que os dinamarqueses simplesmente não têm tempo para novas amizades. As pessoas aqui cultivam amizades que muitas vezes começam na creche, continuam no jardim de infância e na escola e duram até a universidade.

O grupo mais íntimo de amizades de uma das minhas cunhadas dinamarquesas é feito principalmente de moças que ela conheceu no tempo da escola primária. Aqui é comum, e não uma raridade, encontrar casais que se conheceram no jardim de infância, começaram a namorar no segundo grau, passaram a morar juntos quando entraram na universidade e se casaram quando apareceu ou decidiram ter o primeiro filho. A longevidade das amizades aqui faz com que as pessoas criem círculos de amizade fechados não só aos estrangeiros mas também a outros dinamarqueses.

Os membros desses círculos se acompanham ao longo dos anos em vários projetos comuns. Há dinamarquesas que engravidam na mesma época que suas amigas mais próximas para poderem curtir juntas a licença maternidade. Outra vantagem de tal acordo é queas crianças motivo das licenças se tornam amigos dos filhos da amiga. Ou seja, os nenês já nascem com amiguinhos arranjados.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sossego

Um dia desses me peguei quase alegre porque no dia seguinte teria de passar três horas no hospital para receber nova injeção de Herceptin. “Tá maluca, Margareth?”, peguntei a mim mesma. Não faz sentido se alegrar por ter de voltar a um hospital que começo a conhecer até melhor do que as palma da minha mão.

Demorou uns dois dias para eu entender minha quase alegria. Não há nada de agradável em ser picada para receber uma injeção, mas essas visitas a cada três semanas estão se tornando um pequeno refúgio para mim.

Chego lá, me levam para um quarto onde me sento numa poltrona confortável, me aplicam o medicamento, que leva uns quarenta e cinco minutos para ser completamente injetado, e depois fico mais uma hora e meia em observação para o caso de eu sofrer alguma reação alérgica.

Essas quase três horas se tornaram uma oportunidade, agora cada vez mais rara, para uma pausa. Nelas posso ler uma revista feminina boba, rascunhar idéias para o blog, planejar a vida nos próximos dias ou, maravilha das maravilhas, tirar uma boa soneca. Tudo isso sem aquela angústia de pensar que talvez meu tempo pudesse estar sendo usado melhor fazendo alguma outra coisa. Lá não tenho escolha a não ser me submeter obedientemente às prescrições e recomendações feitas pelos médicos e enfermeiras (e aqui escrevo enfermeiras porque aqui no país da igualdade entre os sexos ainda não encontrei um único enfermeiro).

Nada de tomar decisões, nada de tomar providência: as decisões e as providências já foram tomadas para mim. Em suma, três horas de sossego.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Mimo

Estou chegando perto dos 45 e sentindo uma vontade menina de ser mimada. Sabe aquilo de ter alguém te levando um copo de leite na cama? Ou de perguntar o que você quer para jantar, estando preparado para rodar a cidade inteira para encontrar aquele ingrediente imprescindível para a receita daquele prato que você escolheu?

Acho que essa carência é em parte resultado dos últimos meses de tratamento contra o câncer, quando tive de deixar escondida num canto qualquer a tristeza causada pela morte do meu pai. Colocar um pouco de lado a falta que ele faz foi uma estratégia inconsciente para evitar um desmoronamento emocional.

Mas agora que está chegando o primeiro aniversário da morte dele, lembranças da nossa convivência estão ocupando mais e mais a minha cabeça. Algo de que sempre me lembro é o indefectível copo de leite quente antes de dormir. Lá pelos meus sete anos de idade, sempre que ele estava em casa na hora de ir para a cama, minha irmã tinha direito a um copo com leite quente e eu, que nunca gostei de leite puro, ganhava um copo com leite com açúcar manchado de café. Talvez não fosse o hábito mais saudável do mundo, mas era um dos meus rituais favoritos na infância.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Banalidades

Passar por um tratamento contra câncer traz preocupações vitais e banais. A vital mais importante é sem dúvida a relacionada à sobrevivência. Vou ou não sobreviver a essa doença? No meio angústias lúgubres, vêm várias outras preocupaçõezinhas banais que, para o bem ou para o mal, ajudam a afastar o pensamento das dúvidas mais dolorosas.

Enquanto eu estava careca, me preocupava a falta de cabelo. Agora que o cabelo está voltando a crescer, surgiu uma preocupação capilar extremamente séria. Será que vou ficar com cabelo liso? Não gosto muito da idéia mas várias pessoas me avisaram que depois de um tratamento quimioterápico, o cabelo pode voltar com aparência diferente e, pelo menos por enquanto, meu cabelo está crescendo bem liso, parecendo saído de uma bela escova.

Ao contrário da maioria das minhas contemporâneas, sou feliz com meu cabelo encaracolado. Somente na adolescência, e mesmo assim raramente, tentei fazer algo para deixar meu cabelo mais liso. Nunca nem cheguei a cogitar um alisamento e o máximo que me permiti foi uma ou outra escova.

Mas faz muitos anos que assumi com alegria e alívio meu cabelo cacheado, encaracolado, enrolado. Alegria porque acho que cabelo liso não combina nadinha comigo. Fico parecendo a Maga Patológica. Alívio porque acho que tudo isso de escova, alisamento etc e tal é uma completa perda de tempo. Tenho formas melhores de usar meu tempo.

Tenho amigas e até uma irmã que fazem escova no cabelo todo santo dia. Dá vontade de dizer: libertem-se! Assumam seus cachos e tudo o mais que eles representam.

Seria uma declaracão meio banal, mas ainda assim acho que valeria a pena.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

De pai para filha para neta

Um dia desses minha filha, depois de já deitada, me pediu para lhe levar água. O pai, acho que para me poupar, se antecipou e atendeu ao pedido dela levando-lhe água num copo comum. Ela reclamou. Queria beber água num copinho pequeno, que ela acha lindo, normalmente usado para servir aguardente dinamarquesa. O pai bateu o pé e disse que não, o que provocou uma choradeira.

Achei uma pena. No dia seguinte ela pediu novamente água no copinho. Dessa vez me adiantei ao pai e fui servir-lhe água no copinho. Ela adorou, bebeu a água com alegria e depois caiu no sono, não sem antes, é claro, tentar puxar conversa.
Senti que meu pai aprovaria eu ter me rendido àquele pequeno capricho da neta. Numa situação semelhante, ele teria feito o mesmo: servido água no copinho. Afinal, ele foi o pai de pequenos e inesquécíveis mimos.

Um desses mimos era o de "fazer laranja com copinho". Para as crianças, toda laranja que ele descascava tinha de ter copinho, que ele fazia formando um pequeno cone no topo da laranja. Adorávamos laranja com copinho, que obviamente tinha muito mais sabor do que uma laranja sem graça descascada de maneira mais tradicional.

Até comer alface podia era divertido porque tínhamos direito a fazer trouxas de comida com as folhas de alface. Era só colocar o arroz e o feijão em cima da folha, puxar as bordas e pronto. Estava feita a trouxinha de comida. Uma delícia, nós achávamos.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Dias escuros

No domingo termina o horário de verão aqui na Dinamarca. Será hora de sairmos de irmos à caça de todos os relógios que guiam nossas vidas: os dois despertadores digitais na cabeceira da minha cama, o relógio do vídeo player (é, incrível não? Ainda tenho um video), o relógio do carro, o celular, o MP3, o telefone do trabalho, os telefones de casa etc

Só de pensar na mudança sinto arrepios. Nem tanto por causa da mudanca de horário, mas pelo que ela significa. Para mim, é o anúncio da chegada do inverno e da escuridão trazida por ele.

A partir da segunda, quando voltarmos do trabalho para casa, teremos necessariamente de usar lanternas nas bicicletas para evitar multas e não correr o risco de atropelamento por carros e caminhões.

É nessa época que mais acontecem acidentes fatais com ciclistas e pedestres aqui na Dinamarca. As pessoas ainda estão desacostumadas com a escuridão e, com a mudança do horário, a situação fica ainda mais grave. Nos meses mais escuros, dezembro e janeiro, o dia só fica mesmo claro depois das oito da manhã e às quatro e meia da tarde já está escurecendo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Começando o dia

O despertador toca às 6:45 mas eu já estou acordada desde as seis e quinze. Um calor enervante me despertou meia hora antes do planejado. O mesmo calor me tirou o sono duas vezes na noite passada. Nada extraordinário. Ter meu sono perturbado por essas malditas ondas de calor já estão virando parte da rotina.

Fico enrolando na cama mais uns dez minutos e finalmente me levanto. Troco de roupa rapidamente, pego meu aparelhinho de MP3 e vou na direção do lago aqui perto de casa.

Embora a manhã esteja bem fria, deve fazer uns seis graus, o jogo de jogging é suficiente para enfrentar a temperatura baixa. Pelo menos para isso essas ondas de calor irritante servem.

Mas preciso me apressar. A onda de calor já está indo embora e para não congelar decido andar só um minuto, ao invés dos dois previstos no meu programa de treinamento, antes de correr mais 10 minutos, andar outros dois, correr mais nove e finalmente caminhar o resto do caminho para casa.

Enquanto corro procuro os gansos que cruzaram tantas vezes o meu caminho quando corri aqui no verão. Não vejo nenhum deles. Acho que todos, bem mais espertos do que eu, já se mandaram para umas quebradas mais quentes do que essas. Fico levemente aliviada. Os gansos que vivem às centenas nas margens do lago durante as estações mais quentes do ano não são muito simpáticos. Quase sempre, quando cruzo o caminho deles, me olham com aquele olhar agressivo e desafiador de ganso, levantam o rosto e gritam se preparando para o ataque. Também não tive o prazer de ver nenhum cisne, outra ave que vive por aqui. Apenas os patos continuam impávidos, resistindo ao frio.

Essas corridas três vezes por semana estão começando a fazer parte da minha rotina. É duro sair da cama e enfrentar o frio e às vezes a chuva, mas sempre vale a pena respirar o ar fresco e admirar as luzes do amanhecer outonal da Dinamarca.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Fruta do pé

Outubro: outono na Dinamarca, primavera em Brasília, era na minha infância tempo das primeiras chuvas e também de começar a abandonar os cremes hidratantes e a banha de cacau que protegia a pele da falta de umidade do ar que atinge o cerrado entre maio e setembro.

Era também o mês de começar a colher fruta do pé. Me lembro que uma vez fomos com meus pais a Planaltina, uma antiga cidade goiana incorporada pelo Distrito Federal quando a capital do país se mudou para o planalto central.

Não me lembro do motivo ou de quem fomos visitar, mas o que importava mesmo era andar pelos quintais vastos, com árvores frondosas e cheios de jaboticabeiras enormes. Alías, como a jaboticabeira é bela. Comíamos jaboticaba até enjoar. Para matar a saudade e sabendo que ficaríamos sem provar da fruta até a estação ano seguinte.

Em Copenhague, outono é época de maçã, pelos menos aqui em casa. É hora de sair juntando as maçãs que não páram de cair dos dois pés do quintal. Em setembro já dá para colher de um dos pés uma maçã deliciosa à qual até eu, que não sou lá grande fã da fruta, me rendo. A Gabriela é a maior fã e usuária da árvore: às vezes passa o dia rondando a macieira, sempre comendo uma maçã colhida do pé. A outra macieira, que aqui chamam Belle de Boscop, é uma árvore antiga que, segundo nosso vizinho, deve ter a idade da casa: mais ou menos 70 anos. É uma árvore grande, que todo ano fica carregada de frutas grandes e esverdeadas, meio ácidas, boas para tortas e bolos.

Nessa época, o vizinho da frente sempre enche baldes de maçãs do quintal dele e as oferece aos vizinhos colocando-as no passeio em frente à casa dele, uma oferta que muita gente ignora por conta da abundância de maçãs nos quintais do bairro. Eu prefiro levar caixas e caixas de maçãs para colegas de trabalho e amigos. Dá um pouco de trabalho, mas é sempre um sucesso.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Normalidade

Hoje, no meio da correria do dia, tive a sensação de que minha vida estava voltando ao normal. Mas aliás, o que é mesmo voltar à vida normal? Já ouvi e também já disse a mim mesma diversas vezes que agora, com o fim da quimio e da radioterapia, a vida poderá voltar a ser como antes.

Mas no fundo sei que isso é papo furado. Minha vida sofreu uma reviravolta e, com o perdão do clichê, nunca será como antes. Além de problemas físicos que talvez tenham vindo para ficar, há aquele medo que, parece, veio para me acompanhar por algum tempo. É o medo da vulnerabilidade, de que tudo volte a acontecer. É um medo que prefiro ignorar, mas que está ali, por perto, à espreita.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Dez coisas para fazer ao mesmo tempo agora

Voltar à normalidade está sendo mais difícil do eu imaginava. O desconforto físico e cansaço causados pela quimio e radioterapia diminuíram bastante. É verdade que ainda sinto um pouco de cansaço muscular, o inchaço no braço e as ondas de calor continuam, e a pele afetada pela radioterapia ainda está se recuperando mas, como dizem os dinamarqueses, esses são desconfortos do “departamento de coisinhas pequenas”.

O que ainda está pegando é um certo cansaço mental meio difícil de explicar. Se antes dez coisas para fazer ao memo tempo agora me deixavam agoniada, agora três coisas são suficientes para me deixarem com os nervos à flor da pele.

Eu tinha imaginado que talvez pudesse voltar a trabalhar normalmente em outubro, mas já avisei meu chefe que não vai dar. Continuarei trabalhando em tempo parcial, embora aumente gradualmente o número de horas no escritório.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Recruta

Assumi minha careca. Ou minha quase careca já que, segundo meu marido, não se trata mais de uma careca e sim de um visual recruta.

A reação de amigos e colegas de trabalho ao meu novo visual tem sido positiva às vezes divertida. Alguém disse “Adorei seu cabelo novo” ao que fui obrigada a corrigir “Minha falta de cabelo, você quer dizer”.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Desconforto

Estou me cansando de sentir dores, sejam elas grandes ou pequenas. Hoje fui ao hospital para receber a terceira dose de herceptin, o tratamento que deve ajudar a prevenir que o câncer volte. Assim que vi a jovem e aparentemente inexperiente enfermeira que deveria me fazer a aplicação intravenosa, tremi nas bases. Ai, pensei, vai doer.

Na verdade a espetada que ela me deu doeu só um pouco mais do que o normal e nem deveria ter sido motivo para pânico, mas acho que minha resistência à dor, que eu antes considerava boa, está diminuindo.

É que estou de saco cheio de sentir dor e desconforto físico. Depois da tormenta que foi a quimioterapia, nas últimas semanas tenho penado com a queimadura causada pela radioterapia. Bem que as enfermeiras haviam me avisado que o desconforto causado pela queimadura iria piorar nas duas semanas seguintes ao término da radioterapia. Elas estavam certíssimas.

Cebola

O outono chegou. Esta semana já houve manhã com menos de três graus.

Resisto enquanto posso e ainda não sucumbi aos cachecóis, luvas e botas. Todo ano retardo ao máximo a época de me transformar numa cebola, cheia de camadas e camadas de roupas, como definiu uma ex-colega de trabalho. Retardo o momento da metamorfose porque tenho a impressão de que a partir do momento em que me cobro de camadas, não consigo mais removê-las por sete meses, que é o tempo que o outono e inverno duram na Dinamarca.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Radioterapia... acabou

Passei hoje pela última sessão de radioterapia. Quando cheguei à clínica do hospital onde recebo o tratamento radioterápico, as enfermeiras me receberam com uma pequenina bandeira dinamarquesa para comemorar meu último dia no papel de churrasquinho.

Não é nada agradável me olhar no espelho e ver o que a radioterapia fez com minha pele. Uma mancha escura cobre toda a área tratada e a cicatriz da operação, que coça muito, está bastante avermelhada. Segundo as enfermeiras, nas próximas duas semanas poderei sentir coceira e ardência e só depois a pele começará finalmente a se recuperar. Banhos de mar e piscina estão proibidos para mim no próximo mês e só depois de um ano poderei tomar sol na região afetada.

Foram 24 sessões, uma por dia, de segunda a sexta-feira e, de modo geral, tudo correu muito bem, mas é um alívio que não terei mais de passar por tratamentos tão violentos. A violência da radioterapia não pode ser comparada com a da quimioterapia, que é muito mais devastadora, mas nas últimas duas semanas do tratamento vinha me sentindo como um espetinho mal passado.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Treinamento

Hoje consegui subir dois lances de escada sem ter de me arrastar para superar os últimos degraus. Aleluia! É um sinal de que finalmente os efeitos colaterais da quimioterapia estão cedendo.

Já faz quase dois meses que passei pela última quimioterapia e ainda hoje sinto alguns efeitos colaterais. Acho que o pior deles ainda são as ondas de calor que sinto várias vezes por dia. Infelizmente esse efeito poderá continuar por muito tempo já que o tratamento anti-hormonal que estarei recebendo por cinco anos também provoca ondas de calor. Ao calor indesejado, soma-se que meu paladar ainda não voltou ao normal, minha força muscular continua a desejar e as pontas dos dedos permanecem um pouco dormentes.

Mas a cada dia que passa me sinto mais forte e menos cansada. Comecei a fazer meu próprio plano de treinamento físico que inclui um programa de corridas combinadas com caminhadas três vezes por semans. É um ótimo programa para quem está fora de forma como eu e consiste em começar com caminhadas intercaladas com corridas curtas onde o tempo caminhado vai dimimuindo e as corridas vão gradativamente aumentando. Depois de doze semanas estarei correndo os sonhados 30 minutos.

Achei esse programa num site dinamarquês e se você quiser usá-lo e não dominar a língua aí vai uma rápida tradução para as palavras da tabela que você vai encontrar naquele link:

- gang – caminhar
- løb – correr
- uge – week
- dag - dia

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Síndrome da Boa Menina Traída pela Sorte

A Síndrome da Boa Menina Traída pela Sorte (SBMTS) acomete ambos os sexos mas, principalmente, mulheres, independentemente da faixa etária, classe social, etnia, grupo cultural ou religioso.

As mulheres atingidas pela síndrome acham que sempre fizerem tudo bem direitinho: prestaram atenção na aula, obedeceram aos pais e respeitaram os mais velhos, fizeram o dever de casa, pagaram os impostos devidos, pararam no sinal vermelho e não pisaram na grama verde.

Quando se trata de saúde, as acometidas pela SBMTS acham que não é justo que, apesar de levarem uma vida relativamente saudável, acabem sofrendo de doenças graves como, por exemplo, câncer.

A SBMTS é um mal crônico cujos sintomas volta e meia se manifestam de forma extrema na forma de crises de choro, mau humor, sentimento de auto-piedade, expressão cara de vítima, desânimo, fúria e revolta.

Cada paciente deve receber um tratamento individualizado que pode incluir a prescrição de piadas bobas contadas por um irmão ou amigo, conversas fiadas com uma irmã, um jantar só com amigas mulheres, um passeio na praia ou num bosque, dançar com os filhos ou namorado ou marido, comer um bolo ou sobremesa bem gostosa, saber sobre quem tem ainda mais motivo para se sentir vítima da má sorte etc.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Inchaço

Hoje passei pela décima sétima sessão de radioterapia e já não vejo a hora de chegar à vigésima quarta e última sessão, na semana que vem. Segundo as enfermeiras que me atendem, o tratamento está correndo muito bem mas não sei se tenho a mesma opinião.

A pele na área que submetida ao tratamento está muito irritada e sinto como se tivesse sido exposta ao sol por horas. Quase não aguento usar sutiã e a melhor parte do dia é quando chego em casa e visto uma camiseta bem folgada, sem nada por baixo. É um alívio. Hoje comecei a usar uma mini-blusa de algodão sob o sutiã para aliviar a pressão do soutiã sobre a pele.

A pele em volta da cicatriz da mastectomia está com uma cor escura, parecendo, e aí as mulheres vão me entender bem, da cor de manchas no rosto de quem passou por uma gravidez.

Mas o que me preocupa mais agora não é a pele e sim meu braço esquerdo. No final de semana depois das cinco primeiras aplicações, meu antebraço começou a inchar. Dias depois o inchaço atingiu o cotovelo e agora está chegando à mão.

As enfermeiras dizem que deve ser um efeito colateral passageiro causado pela radioterapia e que deve desaparecer depois do tratamento, embora haja o risco que o inchaço continue e até piore. Se isso acontecer, é provavel que eu esteja sofrendo de uma doença linfática crônica sem gravidade, a linfedema, que muito frequentemente atinge mulheres que tiveram gânglios linfáticos removidos por causa de um câncer de mama ou que passaram por radioterapia. É uma doença sem gravidade e tratável mas, infelizmente, sem cura.

A possibilidade de estar sofrendo desta doença conseguiu me abalar por uns dias. Senti raiva das pauladas que tenho levado da vida e bateu novamente a “síndrome da boa menina traída pela sorte”.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Amigo oba oba

Ficar gravemente doente é bom para pelo menos uma coisa: identificar seus amigos oba oba. Essa categoria de amigo você sempre encontra nas festas, ele diz por aí que é seu amigo do peito e está sempre a fim da sua companhia se você está de ótimo humor e saudável. Mas se bateu um baixo astral ou se o médico acabou de confirmar que aqueles exames deram mesmo positivo para aquela doença que você temia, esqueça o amigo oba oba. O amigo oba oba vai certamente dar uma ligada ou mandar um e-mail lamentando a má notícia mas depois, tchau tchau. Ele só vai aparecer quando você der uma festa para comemorar que o diagnóstico foi um erro médico e para te ajudar a meter o pau no hospital e no sistema, que são mesmo uma merda etc e tal.

Os amigos oba oba não são maus. É bom tê-los para animar uma festa, contar uma boa piada ou não deixar o assunto morrer numa mesa de bar. Mas não conte com eles para muito mais do que isso. Eles não conseguem lidar com assuntos tristes e desagradáveis como um diagnóstico de câncer e somem quando você mais precisa de ajuda. Quando a solidão que a doença traz for mais dolorosa, não espere encontrar um emaizinho dele no seu Inbox. Ele anda ocupado demais para escrever. Um telefonema é também algo inimaginável. Seu amigo oba oba nunca consegue te encontrar, o que é algo meio inexplicável porque você está encarcerado em casa com um corpo doente que quase não consegue dar um passo.

Seu amigo oba oba não consegue enxergar que, se para ele uma doença alheia é algo triste e desagradável, para quem a vive na pele, nos ossos e nas células, a situação é obviamente muitíssimo pior. Ou talvez, quem sabe, ele enxergue isso demais e não consiga suportar ver a dor do amigo, preferindo desaparecer até o amigo se curar ou ser enterrado. De qualquer maneira, ele não consegue esquecer seu próprio desconforto por três minutos, que é o que seria necessário para escrever um e-mail, nem por dez minutos, o tempo de uma ligação telefônica. Uma visitinha solidária, então, completamente fora de questão.

Nesses nem sempre festivos últimos meses da minha vida, consegui identificar alguns amigos oba oba. Se fosse vinte anos atrás, teria ficado decepcionada e magoada, mas hoje consigo relevar, como diz uma amiga que não se enquadra na categoria oba oba. Espero contar com presença deles nas muitas festas que pretendo fazer.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Inventário

Um dia desses, um amigo me disse ficou surpreso ao me ver tão bem disposta andando de um lado para o outro num churrasco que fizemos aqui em casa para nos despedir do meu irmão, que voltaria ao Brasil no dia seguinte, e comemorar o fim do meu tratamento quimioterápico.

Fiquei contente que não estivesse com um ar tão doentio, mas também fiquei pensando que minha aparência pode ter dado uma impressão equivocada dos efeitos desse tratamento. Detesto dar uma de vítima e também é verdade que há pessoas que sofrem bem menos efeitos colaterais do que eu mas é bom avisar: quimioterapia não é mole.

Mantenho contato com duas outras pacientes de câncer de mama que sofreram mastectomia mais ou menos na mesma época que eu. Elas sofreram tão ou mais do que eu e uma delas teve sérios problemas de pele durante todo o tratamento.

Ontem fez um mês que recebi meu último tratamento quimioterápico e muitos dos efeitos colaterais ainda se fazem sentir. As ondas de calor não sumiram, os músculos das pernas continuam muito cansados e as pontas dos meus dedos polegar e indicador ainda estão com pouca sensibilidade. O gosto ruim na boca também não passou e meu paladar ainda funciona mal. Há várias coisas que como que não têm gosto de nada.

Parece maluquice, mas fiz um pequeno inventário de todos os efeitos colaterais que sofri com a quimioterapia. Alguns efeitos são conseqüência direta da quimioterapia enquanto outros são resultado dos remédios que tomei para amenizar os efeitos da quimioterapia.

Desde a primeira aplicação:
Cansaço (queria que o mundo virasse uma cama)
Nervosismo, irritabilidade
Queda de cabelo (carequice)
Nariz escorrendo (irritante)
Ressecamento do nariz e consequente ferida (chato que só)
Pele extremamente seca (parecia Brasília em agosto com 11% de umidade relativa do ar e sem)
Ardência na pele (como se você esquecido de passar o protetor solar e mesmo assim tivesse passado um dia no sol escaldante de uma praia de Natal)
Pele descascada e escura na palma dos pés (feio)
Dor na juntas, ossos e músculos (horrível)
Prisão de ventre
Boca seca
Falta de paladar
Gosto ruim na boca

Só depois das três primeiras aplicações:
Enjôo (suportável)

Só a partir da quarta aplicação:
Ondas de calor (exasperante)
Olhos escorrendo (constrangedor)
Soluços (esquisito demais)
Inchaço das pernas e pés
Pontas dos dedos dos pés e mãos doloridos e sem sensibilidade
Insônia
Diarréia leve
Unhas arroxeadas e ressequidas

Quem sabe essa lista pode ajudar alguém a entender o que passa uma pessoa sob tratamento quimioterápico. Se não servir para mais nada, vai pelo menos me lembrar o quanto estou me sentindo bem agora em relação a três semanas atrás.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Tatuagem

Há uma pequena lista de coisas que eu não entendo. Uma delas é porque há gente que se tatua ou, pior, paga para ser tatuado. Essa semana, depois do início do meu tratamento radioterápico, esse mistério ficou ainda maior.

Para aplicar os raios X e elétrons de forma mais precisa, as enfermeiras me tatuaram seis pontos minúsculos do peito. Se entendi direito, os pontos servem como coordenadas para posicionar a máquina que emite os raios e assim evitar que eles atinjam artérias vitais do meu peito, ombro e pescoço.

A tatuagem de cada um desses pontinhos provocou uma dor rápida mas, na minha opinião, muito forte. Só de pensar que há quem cubra o corpo todo com essas queimaduras dolorosas me dá arrepios.

As tatuagens foram o que de mais desagradável aconteceu nessa primeira semana de radioterapia, em que recebi cinco aplicações. Agora só faltam 19 das 24 aplicações previstas.

De segunda a quinta, depois do tratamento, fui para o trabalho, que fica a cinco minutos de bicicleta do hospital. Isso fez com que tivesse a impressão de que a vida está lentamente voltando ao normal.