sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Dez coisas para fazer ao mesmo tempo agora

Voltar à normalidade está sendo mais difícil do eu imaginava. O desconforto físico e cansaço causados pela quimio e radioterapia diminuíram bastante. É verdade que ainda sinto um pouco de cansaço muscular, o inchaço no braço e as ondas de calor continuam, e a pele afetada pela radioterapia ainda está se recuperando mas, como dizem os dinamarqueses, esses são desconfortos do “departamento de coisinhas pequenas”.

O que ainda está pegando é um certo cansaço mental meio difícil de explicar. Se antes dez coisas para fazer ao memo tempo agora me deixavam agoniada, agora três coisas são suficientes para me deixarem com os nervos à flor da pele.

Eu tinha imaginado que talvez pudesse voltar a trabalhar normalmente em outubro, mas já avisei meu chefe que não vai dar. Continuarei trabalhando em tempo parcial, embora aumente gradualmente o número de horas no escritório.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Recruta

Assumi minha careca. Ou minha quase careca já que, segundo meu marido, não se trata mais de uma careca e sim de um visual recruta.

A reação de amigos e colegas de trabalho ao meu novo visual tem sido positiva às vezes divertida. Alguém disse “Adorei seu cabelo novo” ao que fui obrigada a corrigir “Minha falta de cabelo, você quer dizer”.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Desconforto

Estou me cansando de sentir dores, sejam elas grandes ou pequenas. Hoje fui ao hospital para receber a terceira dose de herceptin, o tratamento que deve ajudar a prevenir que o câncer volte. Assim que vi a jovem e aparentemente inexperiente enfermeira que deveria me fazer a aplicação intravenosa, tremi nas bases. Ai, pensei, vai doer.

Na verdade a espetada que ela me deu doeu só um pouco mais do que o normal e nem deveria ter sido motivo para pânico, mas acho que minha resistência à dor, que eu antes considerava boa, está diminuindo.

É que estou de saco cheio de sentir dor e desconforto físico. Depois da tormenta que foi a quimioterapia, nas últimas semanas tenho penado com a queimadura causada pela radioterapia. Bem que as enfermeiras haviam me avisado que o desconforto causado pela queimadura iria piorar nas duas semanas seguintes ao término da radioterapia. Elas estavam certíssimas.

Cebola

O outono chegou. Esta semana já houve manhã com menos de três graus.

Resisto enquanto posso e ainda não sucumbi aos cachecóis, luvas e botas. Todo ano retardo ao máximo a época de me transformar numa cebola, cheia de camadas e camadas de roupas, como definiu uma ex-colega de trabalho. Retardo o momento da metamorfose porque tenho a impressão de que a partir do momento em que me cobro de camadas, não consigo mais removê-las por sete meses, que é o tempo que o outono e inverno duram na Dinamarca.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Radioterapia... acabou

Passei hoje pela última sessão de radioterapia. Quando cheguei à clínica do hospital onde recebo o tratamento radioterápico, as enfermeiras me receberam com uma pequenina bandeira dinamarquesa para comemorar meu último dia no papel de churrasquinho.

Não é nada agradável me olhar no espelho e ver o que a radioterapia fez com minha pele. Uma mancha escura cobre toda a área tratada e a cicatriz da operação, que coça muito, está bastante avermelhada. Segundo as enfermeiras, nas próximas duas semanas poderei sentir coceira e ardência e só depois a pele começará finalmente a se recuperar. Banhos de mar e piscina estão proibidos para mim no próximo mês e só depois de um ano poderei tomar sol na região afetada.

Foram 24 sessões, uma por dia, de segunda a sexta-feira e, de modo geral, tudo correu muito bem, mas é um alívio que não terei mais de passar por tratamentos tão violentos. A violência da radioterapia não pode ser comparada com a da quimioterapia, que é muito mais devastadora, mas nas últimas duas semanas do tratamento vinha me sentindo como um espetinho mal passado.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Treinamento

Hoje consegui subir dois lances de escada sem ter de me arrastar para superar os últimos degraus. Aleluia! É um sinal de que finalmente os efeitos colaterais da quimioterapia estão cedendo.

Já faz quase dois meses que passei pela última quimioterapia e ainda hoje sinto alguns efeitos colaterais. Acho que o pior deles ainda são as ondas de calor que sinto várias vezes por dia. Infelizmente esse efeito poderá continuar por muito tempo já que o tratamento anti-hormonal que estarei recebendo por cinco anos também provoca ondas de calor. Ao calor indesejado, soma-se que meu paladar ainda não voltou ao normal, minha força muscular continua a desejar e as pontas dos dedos permanecem um pouco dormentes.

Mas a cada dia que passa me sinto mais forte e menos cansada. Comecei a fazer meu próprio plano de treinamento físico que inclui um programa de corridas combinadas com caminhadas três vezes por semans. É um ótimo programa para quem está fora de forma como eu e consiste em começar com caminhadas intercaladas com corridas curtas onde o tempo caminhado vai dimimuindo e as corridas vão gradativamente aumentando. Depois de doze semanas estarei correndo os sonhados 30 minutos.

Achei esse programa num site dinamarquês e se você quiser usá-lo e não dominar a língua aí vai uma rápida tradução para as palavras da tabela que você vai encontrar naquele link:

- gang – caminhar
- løb – correr
- uge – week
- dag - dia

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Síndrome da Boa Menina Traída pela Sorte

A Síndrome da Boa Menina Traída pela Sorte (SBMTS) acomete ambos os sexos mas, principalmente, mulheres, independentemente da faixa etária, classe social, etnia, grupo cultural ou religioso.

As mulheres atingidas pela síndrome acham que sempre fizerem tudo bem direitinho: prestaram atenção na aula, obedeceram aos pais e respeitaram os mais velhos, fizeram o dever de casa, pagaram os impostos devidos, pararam no sinal vermelho e não pisaram na grama verde.

Quando se trata de saúde, as acometidas pela SBMTS acham que não é justo que, apesar de levarem uma vida relativamente saudável, acabem sofrendo de doenças graves como, por exemplo, câncer.

A SBMTS é um mal crônico cujos sintomas volta e meia se manifestam de forma extrema na forma de crises de choro, mau humor, sentimento de auto-piedade, expressão cara de vítima, desânimo, fúria e revolta.

Cada paciente deve receber um tratamento individualizado que pode incluir a prescrição de piadas bobas contadas por um irmão ou amigo, conversas fiadas com uma irmã, um jantar só com amigas mulheres, um passeio na praia ou num bosque, dançar com os filhos ou namorado ou marido, comer um bolo ou sobremesa bem gostosa, saber sobre quem tem ainda mais motivo para se sentir vítima da má sorte etc.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Inchaço

Hoje passei pela décima sétima sessão de radioterapia e já não vejo a hora de chegar à vigésima quarta e última sessão, na semana que vem. Segundo as enfermeiras que me atendem, o tratamento está correndo muito bem mas não sei se tenho a mesma opinião.

A pele na área que submetida ao tratamento está muito irritada e sinto como se tivesse sido exposta ao sol por horas. Quase não aguento usar sutiã e a melhor parte do dia é quando chego em casa e visto uma camiseta bem folgada, sem nada por baixo. É um alívio. Hoje comecei a usar uma mini-blusa de algodão sob o sutiã para aliviar a pressão do soutiã sobre a pele.

A pele em volta da cicatriz da mastectomia está com uma cor escura, parecendo, e aí as mulheres vão me entender bem, da cor de manchas no rosto de quem passou por uma gravidez.

Mas o que me preocupa mais agora não é a pele e sim meu braço esquerdo. No final de semana depois das cinco primeiras aplicações, meu antebraço começou a inchar. Dias depois o inchaço atingiu o cotovelo e agora está chegando à mão.

As enfermeiras dizem que deve ser um efeito colateral passageiro causado pela radioterapia e que deve desaparecer depois do tratamento, embora haja o risco que o inchaço continue e até piore. Se isso acontecer, é provavel que eu esteja sofrendo de uma doença linfática crônica sem gravidade, a linfedema, que muito frequentemente atinge mulheres que tiveram gânglios linfáticos removidos por causa de um câncer de mama ou que passaram por radioterapia. É uma doença sem gravidade e tratável mas, infelizmente, sem cura.

A possibilidade de estar sofrendo desta doença conseguiu me abalar por uns dias. Senti raiva das pauladas que tenho levado da vida e bateu novamente a “síndrome da boa menina traída pela sorte”.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Amigo oba oba

Ficar gravemente doente é bom para pelo menos uma coisa: identificar seus amigos oba oba. Essa categoria de amigo você sempre encontra nas festas, ele diz por aí que é seu amigo do peito e está sempre a fim da sua companhia se você está de ótimo humor e saudável. Mas se bateu um baixo astral ou se o médico acabou de confirmar que aqueles exames deram mesmo positivo para aquela doença que você temia, esqueça o amigo oba oba. O amigo oba oba vai certamente dar uma ligada ou mandar um e-mail lamentando a má notícia mas depois, tchau tchau. Ele só vai aparecer quando você der uma festa para comemorar que o diagnóstico foi um erro médico e para te ajudar a meter o pau no hospital e no sistema, que são mesmo uma merda etc e tal.

Os amigos oba oba não são maus. É bom tê-los para animar uma festa, contar uma boa piada ou não deixar o assunto morrer numa mesa de bar. Mas não conte com eles para muito mais do que isso. Eles não conseguem lidar com assuntos tristes e desagradáveis como um diagnóstico de câncer e somem quando você mais precisa de ajuda. Quando a solidão que a doença traz for mais dolorosa, não espere encontrar um emaizinho dele no seu Inbox. Ele anda ocupado demais para escrever. Um telefonema é também algo inimaginável. Seu amigo oba oba nunca consegue te encontrar, o que é algo meio inexplicável porque você está encarcerado em casa com um corpo doente que quase não consegue dar um passo.

Seu amigo oba oba não consegue enxergar que, se para ele uma doença alheia é algo triste e desagradável, para quem a vive na pele, nos ossos e nas células, a situação é obviamente muitíssimo pior. Ou talvez, quem sabe, ele enxergue isso demais e não consiga suportar ver a dor do amigo, preferindo desaparecer até o amigo se curar ou ser enterrado. De qualquer maneira, ele não consegue esquecer seu próprio desconforto por três minutos, que é o que seria necessário para escrever um e-mail, nem por dez minutos, o tempo de uma ligação telefônica. Uma visitinha solidária, então, completamente fora de questão.

Nesses nem sempre festivos últimos meses da minha vida, consegui identificar alguns amigos oba oba. Se fosse vinte anos atrás, teria ficado decepcionada e magoada, mas hoje consigo relevar, como diz uma amiga que não se enquadra na categoria oba oba. Espero contar com presença deles nas muitas festas que pretendo fazer.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Inventário

Um dia desses, um amigo me disse ficou surpreso ao me ver tão bem disposta andando de um lado para o outro num churrasco que fizemos aqui em casa para nos despedir do meu irmão, que voltaria ao Brasil no dia seguinte, e comemorar o fim do meu tratamento quimioterápico.

Fiquei contente que não estivesse com um ar tão doentio, mas também fiquei pensando que minha aparência pode ter dado uma impressão equivocada dos efeitos desse tratamento. Detesto dar uma de vítima e também é verdade que há pessoas que sofrem bem menos efeitos colaterais do que eu mas é bom avisar: quimioterapia não é mole.

Mantenho contato com duas outras pacientes de câncer de mama que sofreram mastectomia mais ou menos na mesma época que eu. Elas sofreram tão ou mais do que eu e uma delas teve sérios problemas de pele durante todo o tratamento.

Ontem fez um mês que recebi meu último tratamento quimioterápico e muitos dos efeitos colaterais ainda se fazem sentir. As ondas de calor não sumiram, os músculos das pernas continuam muito cansados e as pontas dos meus dedos polegar e indicador ainda estão com pouca sensibilidade. O gosto ruim na boca também não passou e meu paladar ainda funciona mal. Há várias coisas que como que não têm gosto de nada.

Parece maluquice, mas fiz um pequeno inventário de todos os efeitos colaterais que sofri com a quimioterapia. Alguns efeitos são conseqüência direta da quimioterapia enquanto outros são resultado dos remédios que tomei para amenizar os efeitos da quimioterapia.

Desde a primeira aplicação:
Cansaço (queria que o mundo virasse uma cama)
Nervosismo, irritabilidade
Queda de cabelo (carequice)
Nariz escorrendo (irritante)
Ressecamento do nariz e consequente ferida (chato que só)
Pele extremamente seca (parecia Brasília em agosto com 11% de umidade relativa do ar e sem)
Ardência na pele (como se você esquecido de passar o protetor solar e mesmo assim tivesse passado um dia no sol escaldante de uma praia de Natal)
Pele descascada e escura na palma dos pés (feio)
Dor na juntas, ossos e músculos (horrível)
Prisão de ventre
Boca seca
Falta de paladar
Gosto ruim na boca

Só depois das três primeiras aplicações:
Enjôo (suportável)

Só a partir da quarta aplicação:
Ondas de calor (exasperante)
Olhos escorrendo (constrangedor)
Soluços (esquisito demais)
Inchaço das pernas e pés
Pontas dos dedos dos pés e mãos doloridos e sem sensibilidade
Insônia
Diarréia leve
Unhas arroxeadas e ressequidas

Quem sabe essa lista pode ajudar alguém a entender o que passa uma pessoa sob tratamento quimioterápico. Se não servir para mais nada, vai pelo menos me lembrar o quanto estou me sentindo bem agora em relação a três semanas atrás.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Tatuagem

Há uma pequena lista de coisas que eu não entendo. Uma delas é porque há gente que se tatua ou, pior, paga para ser tatuado. Essa semana, depois do início do meu tratamento radioterápico, esse mistério ficou ainda maior.

Para aplicar os raios X e elétrons de forma mais precisa, as enfermeiras me tatuaram seis pontos minúsculos do peito. Se entendi direito, os pontos servem como coordenadas para posicionar a máquina que emite os raios e assim evitar que eles atinjam artérias vitais do meu peito, ombro e pescoço.

A tatuagem de cada um desses pontinhos provocou uma dor rápida mas, na minha opinião, muito forte. Só de pensar que há quem cubra o corpo todo com essas queimaduras dolorosas me dá arrepios.

As tatuagens foram o que de mais desagradável aconteceu nessa primeira semana de radioterapia, em que recebi cinco aplicações. Agora só faltam 19 das 24 aplicações previstas.

De segunda a quinta, depois do tratamento, fui para o trabalho, que fica a cinco minutos de bicicleta do hospital. Isso fez com que tivesse a impressão de que a vida está lentamente voltando ao normal.

sábado, 9 de agosto de 2008

Enfermeiras

Desde que fui operada estou querendo escrever sobre as enfermeiras dinamaquesas. É difícil fazer isso sem ser piegas, mas acho que vale a pena correr o risco. Sobre o sermão da Eva já escrevi, mas preciso também comentar o gesto da Mette que ontem, na minha chegada à clínica de oncologia, segurou minhas mãos me cumprimentando.

Na hora nem pensei no gesto, que aconteceu de forma bem natural. Logo depois me veio à cabeça que um gesto daqueles não é muito usual para um dinamarquês. Foi também a Mette que, semanas atrás, antes de entrar de férias, me deu um abraço quase se desculpando porque não estaria trabalhando quando eu fosse receber meu último tratamento quimioterápico.

Me lembro também da Regina (que aqui se pronuncia “reguina”), aquela dos olhos azuis enormes, cabelos curtos pintados de preto. Ela me atendeu no período pós-operatório e foi ela quem tirou o curativo que cobria a cicatriz que ficou no lugar do meu seio esquerdo. Em diversos momentos, sua sensibilidade e atenção tornaram aqueles dias tristes depois da operação mais fáceis de suportar.

Acho que as enfermeiras dinamarquesas exercitam todo seu “calor humano” com os pacientes, o que não se pode dizer dos médicos dinamarqueses que tenho encontrado. Eles sempre mantiveram uma ralação profissional mas, na minha opinião, exageradamente distante dos pacientes.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Resultado

Boa notícia. Boa não, excelente. Hoje fomos ao hospital para, entre outras coisas, saber os resultados dos exames que fiz na semana passada. Não acharam nadinha, nem um pontinho de células cancerosas. Viva! Parece que a quimioterapia funcionou e deu cabo daquele carocinho que havia aparecido no meu ombro esquerdo.

Hoje começo a tomar os comprimidos do tratamento anti-hormonal, amanhã de manhã recebo a primeira dose de herceptin e na segunda começa a primeira das 24 sessões de radioterapia. O tratamento vai durar cinco anos e as doses de herceptin vão se repetir a cada três semanas durate um ano.

É, ainda há muita coisa pela frente mas, se tudo der certo, nunca mais precisarei passar por uma quimioterapia novamente. Aleluia!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Calores

Acho que é errado escrever calor no plural, mas vou me dar essa licença. É que no auge da agonia térmica em que essa quimioterapia me jogou, essa licença de número é perfeita para descrever o que venho sentindo: calores.

Esses calores foram uma das novidades desagradáveis trazidas pela quarta sessão de quimioterapia, quando a medicação mudou para um produto cujo princípio ativo é o docetaxel. Eles vêm o dia todo, mas principalmente no final da tarde e começo da noite. São eles os principais responsáveis pelas noites mal dormidas dos últimos dois meses.

Sempre me atacam pelas batatas das pernas. Aí vão subindo devagar pelas coxas, nádegas e chegam ao auge quando atingem a nuca e alcançam minha cabeça careca. Nossa jisus! Se o demo tem hálito, deve ser tão quente e desagradável quanto esses calores.

Os calores não me deixam ter horas seguidas de sono. Durante a noite, me acordam a cada duas horas. Aí sou obrigada a me levantar, beber água, andar um pouco pela casa, abrir uma janela e colocar minha careca para fora para pegar o ar fresco da noite. Depois volto para cama e espero o sono voltar.

Os calores podem ser um sinal de que a quimioterapia antecipou minha menopausa ou apenas um dos trocentos efeitos colaterais do tratamento. Só o tempo dirá.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Scanning

Hoje fiz um scanning que deverá mostrar se ainda há alguma célula cancerosa em meu corpo. O exame, chamado aqui de PET/CT scanning, é feito com o uso de uma substância radioativa injetada na corrente sanguínea. Na próxima semana saberei o resultado do exame.

Em fevereiro passado, antes de ser operada, fiz esse mesmo tipo de exame pela primeira vez. O exame mostrou que, além do caroço no meu seio e de três gânglios infectados na axila esquerda, havia um quarto gânglio infectado abaixo do meu ombro esquerdo que, por estar muito perto de artérias vitais, não poderia ser operado.

Hoje também deveriam ter acontecido os preparativos para a minha radioterapia, que deverá começar daqui a dez dias. Mas, para provar que a organização dinamarquesa nem sempre é impecável, o hospital fez uma confusão com datas e horários e os tais preparativos tiveram de ser transferidos para amanhã.

É uma pena que terei de passar a manhã no hospital. Amanhã poderá ser o último dia do verão dinamarquês deste ano. Segundo os meteorologistas, depois de uma semana de sol e temperaturas que chegaram a 32 graus, o tempo vai mudar e a partir de sábado teremos chuva e temperaturas máximas de apenas 20 graus durante o dia.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Última

Passei pela minha última sessão de quimioterapia na manhã da sexta-feira passada, quatro dias atrás. Fui sozinha ao hospital. O Henrik ou o Alexandre poderiam ter ido comigo, mas preferi ir sozinha. Senti vontade de fechar aquela etapa sem mais ninguém. Estranhamente não me senti alegre, um pouco aliviada talvez, mas a apreensão com os dias de insônia e mal estar que se seguiriam me deixaram um pouco para baixo.

Antes da sessão estava decidida a exigir dos médicos que me receitassem algum tranqüilizante, sonífero ou o que quer que fosse que me desse algumas noites de sono nas próximas semanas. A enfermeira que me atendeu, uma senhora chamada Eva, acabou me enrolando. Enquanto preparava a sessão de tratamento, que inclui uma injeção de soro antes do medicamento quimioterápico, ela foi me questionando sobre a insônia, me perguntando sobre os motivos da minha falta de sono, indagando aqui e acolá.

Me deu vontade de lhe dar um soco. Calma, ficou só na vontade. Nesses dias em que ando como uma “chemical weapon of mass destruction” (arma química de destruição em massa), o diabinho dentro de mim anda bem assanhado. Se alguém fala alguma coisa que soa muito idiota, tenho vontade de dizer “seu idiota”. Se um copo está fora do lugar, tenho vontade de jogá-lo contra a parede. Mas quase tudo fica só na vontade.

O diabinho se assanhou porque as perguntas da enfermeira eram mesmo muito idiotas. Ele perguntou, por exemplo, se eu sentia sono. “Claro, sua estúpida!”, o diabinho berrou. Mas da minha boca saiu um civilizado “Sinto sim”. Expliquei que me deitava, várias vezes durante o dia e a noite, para tentar dormir e só conseguia ficar com os olhos arregalados olhando para a parede, o teto, o armário embutido, a janela, o marido roncando ao lado, o relógio, o celular que agora vive na mesinha da cabeceira da cama ...

A doce e experiente Eva (adjetivos usados pelo meu anjinho) me perguntou sobre o que eu pensava enquanto tentava dormir. Em tudo, disse eu, coisas importantes e coisiquinhas insignificantes como por exemplo, como eu poderia dar um jeito para aquele armário embutido que estou olhando agora ficar mais organizado. Porque aquilo ali está uma bagunça, tem coisa que pode ir para o porão, não precisa ficar ali juntando poeira. Ou como é que vou fazer com a aquela orquídea que ganhei da minha amiga e que precisa de um vaso novo porque está ficando sem terra a coitada, assim vai acabar morrendo à míngua.

Eva, com a calma das santas, ouviu e fez mais uma pergunta. Gente quanta pergunta! “Você pensa sobre o doença?” Nem preciso dizer que o diabinho se assanhou novamente, mas foi o anjinho que respondeu: “Penso, claro, penso se essa coisa vai voltar um dia”.

Aí a Eva pegou meu prontuário e começou o que ela mesmo chamou de palestra. A frase inicial “Tenho 20 anos de experiência” foi repetida várias vezes ao longo do parlatório e era dita com um olhar firme, os olhos azuis dela dentro dos meus olhos castanhos. Foi quase como ouvir um conto de fadas: seu caroço era um carocinho de nada, só 1,9 cm; a quimioterapia já deve ter dado cabo do gânglio infectado que não pôde ser retirado com a operação; você só tinha três gânglios infectados de um total de 18, o que é muito pouco, já vi mulher com 17 gânglios infectados de um total de 18 que hoje está curtindo os netos; talvez você já esteja curada e nem precise de mais tratamento, mas não temos como saber com certeza e por isso é melhor prevenir e continuar com os outros tipos de terapia; o pior já passou, as outras terapias a que você vai se submeter são moleza quando comparadas com a quimioterapia etc.

No final ela chegou a se desculpar pela falação, mas enfatizou que, do alto da experiência dela de 20 anos, ela sabia que era fundamental que eu acreditasse que tudo ia dar certo.

Depois dessa, fazer o que, né? Até esqueci das pílulas para dormir. Saí de lá acreditando que o sono viria sem necessisade de venenos adicionais. Obrigada, Eva.

Ando meio desleixada

Hoje acordei assim meio desleixada, com vontade de ter direito a ficar bem feia. Aproveitei que meu irmão dormiu até tarde e que o Hennrik e a Gabi já tinham saído para vestir uma camiseta amarela de regata e a bermuda mais feia e velha que tenho, uma daquelas que é o resto de uma calça pré-histórica de moletom. Expus a careca, assumi meus cílios ralos e minha sombrancelhas que agora fazem mesmo jus ao nome: se parecem com sombras do que já foram.

Nem perdi tempo me olhando no espelho. Sei que estou horrorosa. Mas é tão bom ter direito a ser feia. Na verdade, acho que é o que todos esperam de uma pessoa doente de câncer e passando por um tratamento quimioterápico: feiúra. Com a ajuda de maquiagem e uns panos bonitos que se vendem por aqui, acho que consegui não ficar horrorosa, em público. Mas aqui, entre as paredes de casa, nesta manhã nem liguei.

Aliás, essa obrigação de se estar sempre bonitinha, pintadinha, depiladinha, penteadinha e tudo mais inha é um saco. Há mulheres que dizem que é por causa da cultura machista que nos obriga, pobres mulheres, a seguir padrões inatingíveis de beleza. Pode até ser que a cultura machista não ajude, mas somos nós mesmas as grandes culpadas desse circo.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Circo

Amanha recomeça o circo. De manhã vou ao hospital fazer um exame de sangue que vai dizer se poderei receber mais um tratamento quimioterápico, marcado para o dia seguinte. Amanhã também recomeçarei a usar um remédio que alivia os efeitos colaterais da quimioterapia e que, ao mesmo tempo, me causa insônia. Esta noite será provavelmente a última chance que tenho de dormir uma noite bem dormida antes do circo químico que deverá me deixar sem dormir bem por pelo menos dez dias.

Mas acho que tudo será mais fácil de aguentar desta vez porque esta deverá ser minha última quimioterapia. Depois, outros tratamentos virão mas nenhum tão duro como esse.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Insônia II

Amanhã faz duas semanas que recebi o quinto tratamento quimioterápico e que não tenho uma boa noite com sete horas de sono. Depois desta última sessão de quimioterapia, senti menos dores graças à extensão do período de uso de um medicamento usado para atacar os efeitos colaterais da quimioterapia. Mas, como já havia acontecido anteriormente, o tal remédio me causou uma insônia terrivel. No final da primeira semana depois do tratamento, houve dias em que dormi duas horas a cada 24 horas. A noite passada foi uma vitória: devo ter dormido umas seis horas.

Me senti feliz

Ontem de manhã, indo para o trabalho de bicicleta, ouvindo música brasileira no meu aparelhinho de mp3 e olhando para o céu azul cheio de nuvens rechonchudas parecidas com as do céu de Brasília, me senti feliz. Foi um sentimento bom e tão agradável que chegou a me surpreender. Na semana passada, enquanto passeava a beira-mar com a Gabi enquanto meu irmão e meu marido batiam papo esperando por nós na praia ao lado, também senti a mesma coisa.

O curioso não foi ter me sentido feliz, mas ter sentido a felicidade como algo estranho e desconhecido. Depois entendi o porquê do estranhamento. É que, embora tenha vivido vários momentos alegres nos últimos meses, havia tempo que o bem-estar físico e o bem-estar emocional aconteciam ao mesmo tempo.

Nesses dias de quimioterapia, muitas vezes parece que eu não consigo caber em mim mesmo. Dá vontade de sair de dentro do meu corpo e abandonar esse cansaço, eessa ardência da pele, essas dores nas juntas etc etc etc. Quando acontece de fazer algo que gosto, como passear com minha filhinha numa tarde morna ou andar de bicicleta num dia ensolarado, percebo que, naquele momento, sou feliz.