Hoje fiz um scanning que deverá mostrar se ainda há alguma célula cancerosa em meu corpo. O exame, chamado aqui de PET/CT scanning, é feito com o uso de uma substância radioativa injetada na corrente sanguínea. Na próxima semana saberei o resultado do exame.
Em fevereiro passado, antes de ser operada, fiz esse mesmo tipo de exame pela primeira vez. O exame mostrou que, além do caroço no meu seio e de três gânglios infectados na axila esquerda, havia um quarto gânglio infectado abaixo do meu ombro esquerdo que, por estar muito perto de artérias vitais, não poderia ser operado.
Hoje também deveriam ter acontecido os preparativos para a minha radioterapia, que deverá começar daqui a dez dias. Mas, para provar que a organização dinamarquesa nem sempre é impecável, o hospital fez uma confusão com datas e horários e os tais preparativos tiveram de ser transferidos para amanhã.
É uma pena que terei de passar a manhã no hospital. Amanhã poderá ser o último dia do verão dinamarquês deste ano. Segundo os meteorologistas, depois de uma semana de sol e temperaturas que chegaram a 32 graus, o tempo vai mudar e a partir de sábado teremos chuva e temperaturas máximas de apenas 20 graus durante o dia.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
terça-feira, 22 de julho de 2008
Última
Passei pela minha última sessão de quimioterapia na manhã da sexta-feira passada, quatro dias atrás. Fui sozinha ao hospital. O Henrik ou o Alexandre poderiam ter ido comigo, mas preferi ir sozinha. Senti vontade de fechar aquela etapa sem mais ninguém. Estranhamente não me senti alegre, um pouco aliviada talvez, mas a apreensão com os dias de insônia e mal estar que se seguiriam me deixaram um pouco para baixo.
Antes da sessão estava decidida a exigir dos médicos que me receitassem algum tranqüilizante, sonífero ou o que quer que fosse que me desse algumas noites de sono nas próximas semanas. A enfermeira que me atendeu, uma senhora chamada Eva, acabou me enrolando. Enquanto preparava a sessão de tratamento, que inclui uma injeção de soro antes do medicamento quimioterápico, ela foi me questionando sobre a insônia, me perguntando sobre os motivos da minha falta de sono, indagando aqui e acolá.
Me deu vontade de lhe dar um soco. Calma, ficou só na vontade. Nesses dias em que ando como uma “chemical weapon of mass destruction” (arma química de destruição em massa), o diabinho dentro de mim anda bem assanhado. Se alguém fala alguma coisa que soa muito idiota, tenho vontade de dizer “seu idiota”. Se um copo está fora do lugar, tenho vontade de jogá-lo contra a parede. Mas quase tudo fica só na vontade.
O diabinho se assanhou porque as perguntas da enfermeira eram mesmo muito idiotas. Ele perguntou, por exemplo, se eu sentia sono. “Claro, sua estúpida!”, o diabinho berrou. Mas da minha boca saiu um civilizado “Sinto sim”. Expliquei que me deitava, várias vezes durante o dia e a noite, para tentar dormir e só conseguia ficar com os olhos arregalados olhando para a parede, o teto, o armário embutido, a janela, o marido roncando ao lado, o relógio, o celular que agora vive na mesinha da cabeceira da cama ...
A doce e experiente Eva (adjetivos usados pelo meu anjinho) me perguntou sobre o que eu pensava enquanto tentava dormir. Em tudo, disse eu, coisas importantes e coisiquinhas insignificantes como por exemplo, como eu poderia dar um jeito para aquele armário embutido que estou olhando agora ficar mais organizado. Porque aquilo ali está uma bagunça, tem coisa que pode ir para o porão, não precisa ficar ali juntando poeira. Ou como é que vou fazer com a aquela orquídea que ganhei da minha amiga e que precisa de um vaso novo porque está ficando sem terra a coitada, assim vai acabar morrendo à míngua.
Eva, com a calma das santas, ouviu e fez mais uma pergunta. Gente quanta pergunta! “Você pensa sobre o doença?” Nem preciso dizer que o diabinho se assanhou novamente, mas foi o anjinho que respondeu: “Penso, claro, penso se essa coisa vai voltar um dia”.
Aí a Eva pegou meu prontuário e começou o que ela mesmo chamou de palestra. A frase inicial “Tenho 20 anos de experiência” foi repetida várias vezes ao longo do parlatório e era dita com um olhar firme, os olhos azuis dela dentro dos meus olhos castanhos. Foi quase como ouvir um conto de fadas: seu caroço era um carocinho de nada, só 1,9 cm; a quimioterapia já deve ter dado cabo do gânglio infectado que não pôde ser retirado com a operação; você só tinha três gânglios infectados de um total de 18, o que é muito pouco, já vi mulher com 17 gânglios infectados de um total de 18 que hoje está curtindo os netos; talvez você já esteja curada e nem precise de mais tratamento, mas não temos como saber com certeza e por isso é melhor prevenir e continuar com os outros tipos de terapia; o pior já passou, as outras terapias a que você vai se submeter são moleza quando comparadas com a quimioterapia etc.
No final ela chegou a se desculpar pela falação, mas enfatizou que, do alto da experiência dela de 20 anos, ela sabia que era fundamental que eu acreditasse que tudo ia dar certo.
Depois dessa, fazer o que, né? Até esqueci das pílulas para dormir. Saí de lá acreditando que o sono viria sem necessisade de venenos adicionais. Obrigada, Eva.
Antes da sessão estava decidida a exigir dos médicos que me receitassem algum tranqüilizante, sonífero ou o que quer que fosse que me desse algumas noites de sono nas próximas semanas. A enfermeira que me atendeu, uma senhora chamada Eva, acabou me enrolando. Enquanto preparava a sessão de tratamento, que inclui uma injeção de soro antes do medicamento quimioterápico, ela foi me questionando sobre a insônia, me perguntando sobre os motivos da minha falta de sono, indagando aqui e acolá.
Me deu vontade de lhe dar um soco. Calma, ficou só na vontade. Nesses dias em que ando como uma “chemical weapon of mass destruction” (arma química de destruição em massa), o diabinho dentro de mim anda bem assanhado. Se alguém fala alguma coisa que soa muito idiota, tenho vontade de dizer “seu idiota”. Se um copo está fora do lugar, tenho vontade de jogá-lo contra a parede. Mas quase tudo fica só na vontade.
O diabinho se assanhou porque as perguntas da enfermeira eram mesmo muito idiotas. Ele perguntou, por exemplo, se eu sentia sono. “Claro, sua estúpida!”, o diabinho berrou. Mas da minha boca saiu um civilizado “Sinto sim”. Expliquei que me deitava, várias vezes durante o dia e a noite, para tentar dormir e só conseguia ficar com os olhos arregalados olhando para a parede, o teto, o armário embutido, a janela, o marido roncando ao lado, o relógio, o celular que agora vive na mesinha da cabeceira da cama ...
A doce e experiente Eva (adjetivos usados pelo meu anjinho) me perguntou sobre o que eu pensava enquanto tentava dormir. Em tudo, disse eu, coisas importantes e coisiquinhas insignificantes como por exemplo, como eu poderia dar um jeito para aquele armário embutido que estou olhando agora ficar mais organizado. Porque aquilo ali está uma bagunça, tem coisa que pode ir para o porão, não precisa ficar ali juntando poeira. Ou como é que vou fazer com a aquela orquídea que ganhei da minha amiga e que precisa de um vaso novo porque está ficando sem terra a coitada, assim vai acabar morrendo à míngua.
Eva, com a calma das santas, ouviu e fez mais uma pergunta. Gente quanta pergunta! “Você pensa sobre o doença?” Nem preciso dizer que o diabinho se assanhou novamente, mas foi o anjinho que respondeu: “Penso, claro, penso se essa coisa vai voltar um dia”.
Aí a Eva pegou meu prontuário e começou o que ela mesmo chamou de palestra. A frase inicial “Tenho 20 anos de experiência” foi repetida várias vezes ao longo do parlatório e era dita com um olhar firme, os olhos azuis dela dentro dos meus olhos castanhos. Foi quase como ouvir um conto de fadas: seu caroço era um carocinho de nada, só 1,9 cm; a quimioterapia já deve ter dado cabo do gânglio infectado que não pôde ser retirado com a operação; você só tinha três gânglios infectados de um total de 18, o que é muito pouco, já vi mulher com 17 gânglios infectados de um total de 18 que hoje está curtindo os netos; talvez você já esteja curada e nem precise de mais tratamento, mas não temos como saber com certeza e por isso é melhor prevenir e continuar com os outros tipos de terapia; o pior já passou, as outras terapias a que você vai se submeter são moleza quando comparadas com a quimioterapia etc.
No final ela chegou a se desculpar pela falação, mas enfatizou que, do alto da experiência dela de 20 anos, ela sabia que era fundamental que eu acreditasse que tudo ia dar certo.
Depois dessa, fazer o que, né? Até esqueci das pílulas para dormir. Saí de lá acreditando que o sono viria sem necessisade de venenos adicionais. Obrigada, Eva.
Ando meio desleixada
Hoje acordei assim meio desleixada, com vontade de ter direito a ficar bem feia. Aproveitei que meu irmão dormiu até tarde e que o Hennrik e a Gabi já tinham saído para vestir uma camiseta amarela de regata e a bermuda mais feia e velha que tenho, uma daquelas que é o resto de uma calça pré-histórica de moletom. Expus a careca, assumi meus cílios ralos e minha sombrancelhas que agora fazem mesmo jus ao nome: se parecem com sombras do que já foram.
Nem perdi tempo me olhando no espelho. Sei que estou horrorosa. Mas é tão bom ter direito a ser feia. Na verdade, acho que é o que todos esperam de uma pessoa doente de câncer e passando por um tratamento quimioterápico: feiúra. Com a ajuda de maquiagem e uns panos bonitos que se vendem por aqui, acho que consegui não ficar horrorosa, em público. Mas aqui, entre as paredes de casa, nesta manhã nem liguei.
Aliás, essa obrigação de se estar sempre bonitinha, pintadinha, depiladinha, penteadinha e tudo mais inha é um saco. Há mulheres que dizem que é por causa da cultura machista que nos obriga, pobres mulheres, a seguir padrões inatingíveis de beleza. Pode até ser que a cultura machista não ajude, mas somos nós mesmas as grandes culpadas desse circo.
Nem perdi tempo me olhando no espelho. Sei que estou horrorosa. Mas é tão bom ter direito a ser feia. Na verdade, acho que é o que todos esperam de uma pessoa doente de câncer e passando por um tratamento quimioterápico: feiúra. Com a ajuda de maquiagem e uns panos bonitos que se vendem por aqui, acho que consegui não ficar horrorosa, em público. Mas aqui, entre as paredes de casa, nesta manhã nem liguei.
Aliás, essa obrigação de se estar sempre bonitinha, pintadinha, depiladinha, penteadinha e tudo mais inha é um saco. Há mulheres que dizem que é por causa da cultura machista que nos obriga, pobres mulheres, a seguir padrões inatingíveis de beleza. Pode até ser que a cultura machista não ajude, mas somos nós mesmas as grandes culpadas desse circo.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Circo
Amanha recomeça o circo. De manhã vou ao hospital fazer um exame de sangue que vai dizer se poderei receber mais um tratamento quimioterápico, marcado para o dia seguinte. Amanhã também recomeçarei a usar um remédio que alivia os efeitos colaterais da quimioterapia e que, ao mesmo tempo, me causa insônia. Esta noite será provavelmente a última chance que tenho de dormir uma noite bem dormida antes do circo químico que deverá me deixar sem dormir bem por pelo menos dez dias.
Mas acho que tudo será mais fácil de aguentar desta vez porque esta deverá ser minha última quimioterapia. Depois, outros tratamentos virão mas nenhum tão duro como esse.
Mas acho que tudo será mais fácil de aguentar desta vez porque esta deverá ser minha última quimioterapia. Depois, outros tratamentos virão mas nenhum tão duro como esse.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Insônia II
Amanhã faz duas semanas que recebi o quinto tratamento quimioterápico e que não tenho uma boa noite com sete horas de sono. Depois desta última sessão de quimioterapia, senti menos dores graças à extensão do período de uso de um medicamento usado para atacar os efeitos colaterais da quimioterapia. Mas, como já havia acontecido anteriormente, o tal remédio me causou uma insônia terrivel. No final da primeira semana depois do tratamento, houve dias em que dormi duas horas a cada 24 horas. A noite passada foi uma vitória: devo ter dormido umas seis horas.
Me senti feliz
Ontem de manhã, indo para o trabalho de bicicleta, ouvindo música brasileira no meu aparelhinho de mp3 e olhando para o céu azul cheio de nuvens rechonchudas parecidas com as do céu de Brasília, me senti feliz. Foi um sentimento bom e tão agradável que chegou a me surpreender. Na semana passada, enquanto passeava a beira-mar com a Gabi enquanto meu irmão e meu marido batiam papo esperando por nós na praia ao lado, também senti a mesma coisa.
O curioso não foi ter me sentido feliz, mas ter sentido a felicidade como algo estranho e desconhecido. Depois entendi o porquê do estranhamento. É que, embora tenha vivido vários momentos alegres nos últimos meses, havia tempo que o bem-estar físico e o bem-estar emocional aconteciam ao mesmo tempo.
Nesses dias de quimioterapia, muitas vezes parece que eu não consigo caber em mim mesmo. Dá vontade de sair de dentro do meu corpo e abandonar esse cansaço, eessa ardência da pele, essas dores nas juntas etc etc etc. Quando acontece de fazer algo que gosto, como passear com minha filhinha numa tarde morna ou andar de bicicleta num dia ensolarado, percebo que, naquele momento, sou feliz.
O curioso não foi ter me sentido feliz, mas ter sentido a felicidade como algo estranho e desconhecido. Depois entendi o porquê do estranhamento. É que, embora tenha vivido vários momentos alegres nos últimos meses, havia tempo que o bem-estar físico e o bem-estar emocional aconteciam ao mesmo tempo.
Nesses dias de quimioterapia, muitas vezes parece que eu não consigo caber em mim mesmo. Dá vontade de sair de dentro do meu corpo e abandonar esse cansaço, eessa ardência da pele, essas dores nas juntas etc etc etc. Quando acontece de fazer algo que gosto, como passear com minha filhinha numa tarde morna ou andar de bicicleta num dia ensolarado, percebo que, naquele momento, sou feliz.
domingo, 29 de junho de 2008
Dores e prazeres juninos
Sinto como se estivesse em contagem regressiva para meu pequeno inferno na Terra. Num outro domingo há três semanas comecei a sentir dores que só diminuíram depois de quatro noites. Elas começaram nos ossos, juntas e músculos das pernas e pés, se espalharam pela bacia e chegaram aos braços e mãos. Aquele domingo, como esse, veio depois de uma sessão de quimioterapia que havia acontecido na sexta-feira.
Os analgésicos que me indicaram tiveram resultado quase contrário ao que era esperado. Causaram efeitos quase imperceptíveis contra as dores que eu já estava sentindo e provocaram fortes dores de barriga. Às dores se juntaram quatro noites insones e outras tantas mal dormidas.
No auge, as dores e a quase exaustão me fizeram duvidar da minha capacidade e, alguns instantes, até pensar em desistir de lutar contra essa doença. Me fizeram também sentir mais simpatia e admiração pelos que sofrem com doenças que causam dores crônicas e não desistem de continuar vivendo. Me causaram ainda mais indignação com a crueldade dos que infligem a outros seres humanos a tortura de impedi-los de dormir por semanas e até meses.
As dores me fizeram pensar muito mas, infelizmente, mais do que isso, foram capazes de me enfraquecer tanto que perdi o ânimo e força física para escrever, para continuar minhas atividades físicas, para trabalhar e até sair para o jardim. A pouca energia que me restou naqueles dias foi reservada para brincar um pouco com minha filha, cujos mal humor e insatisfação indicaram que ela também foi influenciada pelo meu estado.
As dores diminuíram na quinta-feira, depois que passei a usar outro tipo de analgésico, mas a fraqueza e a insônia persistiram e três dias depois começaram outros tipos de desconforto. As pontas dos dedos das mãos ficaram tão doloridas que quase tive de desistir de abotoar as roupas da minha filha. Durante um ou dois dias, até teclar num computador foi doloroso.
Minha aparência também não melhorou. Minha pele, principalmente do rosto, ficou tão seca que tive de usar creme de pele com 67% de gordura três a quatro vezes por dia. Me senti uma daquelas mortas-vivas dos filmes de terror de Hollywood saindo do túmulo depois de alguns seculozinhos de sono. No hospital me disseram que ainda tive sorte. Em outras pacientes a secura causou feridas na pele.
Tive sorte em outros aspectos. Desde o ano passado havia planejado fazer uma festa junininha no quintal aqui de casa para introduzir minha filha e filhos de amigos numa das tradições brasileiras que mais curto. A data marcada caiu num sábado duas semanas depois da quimioterapia e serviu para me animar a sair do meu estado de prostração. Amigos ajudaram com pratos típicos e nem tão típicos, bebidas e decoração, através do Skype uma das minhas irmãs me ensinou a fazer balões de papel, minha família contribuiu com quilômetros de bandeirinhas a la Volpi, prendas até típicas demais para a pescaria e paçoquinhas que foram disputadas a tapa, e meu irmão e meu marido fizeram a fogueira que ficou acesa até as cinco da madrugada.
Resultado, a festa acabou sendo um sucesso, embora bem confusa por causa do maravilhoso vento do verão dinamarquês, e já estou pensando que, no ano que vem, preciso arranjar tempo para fazer um curau. Para compensar, não preciso me preocupar com as bandeirinhas de São João. Há suficientes para cobrir o quarteirão inteiro.
Os analgésicos que me indicaram tiveram resultado quase contrário ao que era esperado. Causaram efeitos quase imperceptíveis contra as dores que eu já estava sentindo e provocaram fortes dores de barriga. Às dores se juntaram quatro noites insones e outras tantas mal dormidas.
No auge, as dores e a quase exaustão me fizeram duvidar da minha capacidade e, alguns instantes, até pensar em desistir de lutar contra essa doença. Me fizeram também sentir mais simpatia e admiração pelos que sofrem com doenças que causam dores crônicas e não desistem de continuar vivendo. Me causaram ainda mais indignação com a crueldade dos que infligem a outros seres humanos a tortura de impedi-los de dormir por semanas e até meses.
As dores me fizeram pensar muito mas, infelizmente, mais do que isso, foram capazes de me enfraquecer tanto que perdi o ânimo e força física para escrever, para continuar minhas atividades físicas, para trabalhar e até sair para o jardim. A pouca energia que me restou naqueles dias foi reservada para brincar um pouco com minha filha, cujos mal humor e insatisfação indicaram que ela também foi influenciada pelo meu estado.
As dores diminuíram na quinta-feira, depois que passei a usar outro tipo de analgésico, mas a fraqueza e a insônia persistiram e três dias depois começaram outros tipos de desconforto. As pontas dos dedos das mãos ficaram tão doloridas que quase tive de desistir de abotoar as roupas da minha filha. Durante um ou dois dias, até teclar num computador foi doloroso.
Minha aparência também não melhorou. Minha pele, principalmente do rosto, ficou tão seca que tive de usar creme de pele com 67% de gordura três a quatro vezes por dia. Me senti uma daquelas mortas-vivas dos filmes de terror de Hollywood saindo do túmulo depois de alguns seculozinhos de sono. No hospital me disseram que ainda tive sorte. Em outras pacientes a secura causou feridas na pele.
Tive sorte em outros aspectos. Desde o ano passado havia planejado fazer uma festa junininha no quintal aqui de casa para introduzir minha filha e filhos de amigos numa das tradições brasileiras que mais curto. A data marcada caiu num sábado duas semanas depois da quimioterapia e serviu para me animar a sair do meu estado de prostração. Amigos ajudaram com pratos típicos e nem tão típicos, bebidas e decoração, através do Skype uma das minhas irmãs me ensinou a fazer balões de papel, minha família contribuiu com quilômetros de bandeirinhas a la Volpi, prendas até típicas demais para a pescaria e paçoquinhas que foram disputadas a tapa, e meu irmão e meu marido fizeram a fogueira que ficou acesa até as cinco da madrugada.
Resultado, a festa acabou sendo um sucesso, embora bem confusa por causa do maravilhoso vento do verão dinamarquês, e já estou pensando que, no ano que vem, preciso arranjar tempo para fazer um curau. Para compensar, não preciso me preocupar com as bandeirinhas de São João. Há suficientes para cobrir o quarteirão inteiro.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Insônia
Toda noite, entre as 3 e a 4 da manhã, tenho um encontro com mim mesma. Tem acontecido sempre desde a terceira sessão de quimioterapia e desta vez, em vez de ficar deitada na cama olhando para a parede pensando no que eu poderia e deveria e gostaria de fazer na manhã seguinte, decide me levanter e voltar ao blog. Por favor perdoem os erros de português de uma insone.
A insônia de hoje é causada por um remédio que comecei a tomar hoje para atacar contra-atacar os efeitos da quinta e, espero, a penúltima sessão de quimioterapia, que acontecerá daqui a umas cinco horas. O tal do remédio, usado normalmente para pacientes de reumatismo, impediu que eu sentisse dores nas juntas e músculos logo depois da última sessão de quimioterapia. Mas quando seus efeitos passaram, dois dias depois da sessão, as dores invadiram meu corpo. Um dos resultados foi que fiquei praticamente sem dormir quatro noites e dormi terrivelmente mal por mais umas cinco noites.
Desta vez estou mentalmente preparada para várias noites insones ou mal dormidas. A Pollyana me invade novamene e não consigo deixar de pensar que pelo menos terei uma boa chance de colocar o blog dia.
A insônia de hoje é causada por um remédio que comecei a tomar hoje para atacar contra-atacar os efeitos da quinta e, espero, a penúltima sessão de quimioterapia, que acontecerá daqui a umas cinco horas. O tal do remédio, usado normalmente para pacientes de reumatismo, impediu que eu sentisse dores nas juntas e músculos logo depois da última sessão de quimioterapia. Mas quando seus efeitos passaram, dois dias depois da sessão, as dores invadiram meu corpo. Um dos resultados foi que fiquei praticamente sem dormir quatro noites e dormi terrivelmente mal por mais umas cinco noites.
Desta vez estou mentalmente preparada para várias noites insones ou mal dormidas. A Pollyana me invade novamene e não consigo deixar de pensar que pelo menos terei uma boa chance de colocar o blog dia.
domingo, 8 de junho de 2008
Uma visita
Hoje à tarde uma vizinha que é enfermeira e mora aqui perto há quase dois anos, entrou pela primeira vez na nossa casa. Mas a visita não foi somente de cortesia. Ela veio porque de manhã eu a vi no jardim da casa dela e aproveitei a deixa para pedir-lhe que me aplicasse a injeção de pegfilgrastim.
Ela apareceu no começo da tarde e lhe contei que estava com câncer de mama. Não pareceu surpresa. Deve ter adivinhado ou ouvido de alguém na creche. Depois da aplicação, conversamos um pouco e mais uma vez tive razões para ser grata à vida.
A irmã dela, com apenas 32 anos, sofre de um tipo raro de câncer desde que tinha treze anos. Não lhe resta muito mais tempo de vida e é por isso que nossa vizinha passa tantos finais de semana na casa dois pais dela, onde a irmã doente está morando.
Quando ela me contou isso tive uma vontade louca de tocar a mão dela e falar o quanto aquilo me entristecia. Talvez, se ela fosse brasileira, ou se eu estivesse no Brasil, ou se eu já não tivesse morado tanto tempo na Dinamarca, eu teria feito isso. Provavelmente também teria dito o que tive vontade de dizer: “Puta que pariu! Aí também é foda”. Mas não fiz nem disse nada disso.
Só olhei bem dentro dos olhos azuis muito claros dela e percebi lá no fundo uma tristeza imensa misturada com uma necessidade quase tão grande de se manter forte para sustentar a si mesma, a irmã e a família na separação que inevitavelmente vai acontecer.
Enquanto olhava bem dentro dos olhos dela, me lembrei do meu pai, da dor e da saudade que a partida dele me deixou.
Ela apareceu no começo da tarde e lhe contei que estava com câncer de mama. Não pareceu surpresa. Deve ter adivinhado ou ouvido de alguém na creche. Depois da aplicação, conversamos um pouco e mais uma vez tive razões para ser grata à vida.
A irmã dela, com apenas 32 anos, sofre de um tipo raro de câncer desde que tinha treze anos. Não lhe resta muito mais tempo de vida e é por isso que nossa vizinha passa tantos finais de semana na casa dois pais dela, onde a irmã doente está morando.
Quando ela me contou isso tive uma vontade louca de tocar a mão dela e falar o quanto aquilo me entristecia. Talvez, se ela fosse brasileira, ou se eu estivesse no Brasil, ou se eu já não tivesse morado tanto tempo na Dinamarca, eu teria feito isso. Provavelmente também teria dito o que tive vontade de dizer: “Puta que pariu! Aí também é foda”. Mas não fiz nem disse nada disso.
Só olhei bem dentro dos olhos azuis muito claros dela e percebi lá no fundo uma tristeza imensa misturada com uma necessidade quase tão grande de se manter forte para sustentar a si mesma, a irmã e a família na separação que inevitavelmente vai acontecer.
Enquanto olhava bem dentro dos olhos dela, me lembrei do meu pai, da dor e da saudade que a partida dele me deixou.
sábado, 7 de junho de 2008
Quarta sessão
Já faz um tempo que não apareço no blog. É que o tempo aqui anda tão bom que é impossível resistir e não inventar qualquer coisa para fazer ao ar livre. Junte-se a isso visita de parentes dinamarqueses e uma virose que atacou a Gabriela, que não me deixaram tempo nem para respirar.
Mas agora que realmente passei pela metade do meu tratamento quimioterápico, tenho de escrever.
Ontem de manhã recebi minha quarta dose de drogas quimioterápicas. Faltam agora penas duas sessões e nessas três últimas vezes estou recebendo um tratamento diferente do que recebi nas três primeiras vezes. Uma coisa boa desse outro tipo de medicação é que os enjôos vão praticamente acabar mas, para compensar, tenho de me preparar para vários outros efeitos colaterais. O cansaço vai continuar e provavelmente vão aparecer dores de de cabeça, musculares, nas juntas dos ossos, azia e outras cositas mais que prefiro nem listar para não ficar muito chata.
Hoje à tarde recebi uma injeção daquele medicamento, cujo princípio ativo se chama pegfilgrastim em inglês, para estimular minha produção de glóbulos brancos e que me causou tanto mal estar três semanas atrás. Assim como acontece com o tipo de quimioterapia que recebi ontem, os piores efeitos colaterais da injeção que recebi hoje só vão se fazer sentir daqui a dois ou três dias.
Por enquanto estou me sentindo bem, embora tenha aparecido uma leve dormência na ponta da língua, minha boca esteja com um gosto muito estranho e de vez em quando sinto coceira nos braços e pernas. Tudo previsto na longa descrição de efeitos colaterais que recebi do hospital.
Me disseram que os efeitos colaterais da tal injeção não são tão fortes numa segunda dose e estou torcendo para que isso seja verdade. O problema é que os efeitos colaterais da quimioterapia são muito semelhantes aos causados pela injeção, e uma pode reforçar os efeitos da outra, o que pode me deixar meio para baixo amanhã ou depois. É esperar para ver.
Mas agora que realmente passei pela metade do meu tratamento quimioterápico, tenho de escrever.
Ontem de manhã recebi minha quarta dose de drogas quimioterápicas. Faltam agora penas duas sessões e nessas três últimas vezes estou recebendo um tratamento diferente do que recebi nas três primeiras vezes. Uma coisa boa desse outro tipo de medicação é que os enjôos vão praticamente acabar mas, para compensar, tenho de me preparar para vários outros efeitos colaterais. O cansaço vai continuar e provavelmente vão aparecer dores de de cabeça, musculares, nas juntas dos ossos, azia e outras cositas mais que prefiro nem listar para não ficar muito chata.
Hoje à tarde recebi uma injeção daquele medicamento, cujo princípio ativo se chama pegfilgrastim em inglês, para estimular minha produção de glóbulos brancos e que me causou tanto mal estar três semanas atrás. Assim como acontece com o tipo de quimioterapia que recebi ontem, os piores efeitos colaterais da injeção que recebi hoje só vão se fazer sentir daqui a dois ou três dias.
Por enquanto estou me sentindo bem, embora tenha aparecido uma leve dormência na ponta da língua, minha boca esteja com um gosto muito estranho e de vez em quando sinto coceira nos braços e pernas. Tudo previsto na longa descrição de efeitos colaterais que recebi do hospital.
Me disseram que os efeitos colaterais da tal injeção não são tão fortes numa segunda dose e estou torcendo para que isso seja verdade. O problema é que os efeitos colaterais da quimioterapia são muito semelhantes aos causados pela injeção, e uma pode reforçar os efeitos da outra, o que pode me deixar meio para baixo amanhã ou depois. É esperar para ver.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Chuvarada
Hoje choveu forte durante todo o dia em Copenhague. Foi a primeira chuva em várias semanas de dias ensolarados, pouco comuns na primavera dinamarquesa.
Os dias ensolarados são os responsáveis pela menor freqüência com que tenho escrevido. É que quando o sol sai, ninguém fica dentro. A dinamaquesada inteira vai para os jardins, parques, praias, cafés nas calçadas e onde mais se possa conseguir um lugarzinho ao sol. Eu, claro, não deixo por menos. Passo todas as horas que posso no jardim ou estou sempre arranjando um programinha ao ar livre.
O quase desespero pela luz trazida pela primavera não é para menos. Pelos padrões brasileiros, há, pelo menos, seis meses de inverno na Dinamarca. De outubro a abril, as temperaturas são semelhantes ou bem mais baixas dos que as do inverno do sul-sudeste brasileiro.
A primavera começa oficialmente no final de março, mas é só em maio que o sol começa realmente a dar o ar da graça e as temperaturas são mais amenas. Exércitos de dinamarqueses desesperados pelo sol saem às ruas como formigas saem do formigueiro depois de uma chuvarada. O pouco cuidado com que os dinamarqueses brancos de natureza e pálidos de inverno se expõem ao sol mostra porque o câncer de pele é o tipo de câncer mais comum na Dinamarca. Meu hábito de usar protetor solar e chapéu nas horas de sol mais intenso chega a ser visto com curiosidade por alguns dinamarqueses, que não entendem porque uma pessoa morena como eu precise se proteger dos raios ultra-violeta.
Os dias ensolarados são os responsáveis pela menor freqüência com que tenho escrevido. É que quando o sol sai, ninguém fica dentro. A dinamaquesada inteira vai para os jardins, parques, praias, cafés nas calçadas e onde mais se possa conseguir um lugarzinho ao sol. Eu, claro, não deixo por menos. Passo todas as horas que posso no jardim ou estou sempre arranjando um programinha ao ar livre.
O quase desespero pela luz trazida pela primavera não é para menos. Pelos padrões brasileiros, há, pelo menos, seis meses de inverno na Dinamarca. De outubro a abril, as temperaturas são semelhantes ou bem mais baixas dos que as do inverno do sul-sudeste brasileiro.
A primavera começa oficialmente no final de março, mas é só em maio que o sol começa realmente a dar o ar da graça e as temperaturas são mais amenas. Exércitos de dinamarqueses desesperados pelo sol saem às ruas como formigas saem do formigueiro depois de uma chuvarada. O pouco cuidado com que os dinamarqueses brancos de natureza e pálidos de inverno se expõem ao sol mostra porque o câncer de pele é o tipo de câncer mais comum na Dinamarca. Meu hábito de usar protetor solar e chapéu nas horas de sol mais intenso chega a ser visto com curiosidade por alguns dinamarqueses, que não entendem porque uma pessoa morena como eu precise se proteger dos raios ultra-violeta.
terça-feira, 20 de maio de 2008
O bichinho pegou
Me senti relativamente bem depois da terceira sessão de quimioterapia e antes de ontem, domingo, cheguei a participar de um mutirão de pais na creche da Gabriela. Demos uma geral na creche: alguns pintaram, outros capinaram, outros costuraram. Depois almoçamos todos juntos um feijão à mexicana preparado por um dois pais.
Mas ontem o bichinho pegou. Ao cansaço que tem me acompanhado em maior ou menor grau desde o começo da quimioterapia, se juntou dor de cabeça, calafrios e dores por todo o corpo, principalmente na nuca, ombros e costas. Parecia que estava no começo de uma super gripe, daquelas que derrubam elefante e em que a gente pede para o mundo se acabar numa cama.
O pior não era o mal estar físico, mas uma tristeza que me atacou profunda e subitamente. Depois de uma boa choradeira, me senti melhor, mas o mal estar continuou, embora hoje as dores musculares tenham ficado mais fracas.
O motivo de tanto mal estar foi um medicamento que tomei um dia depois da quimioterapia com o objetivo de estimular meu organismo a produzir mais neutrófilos e assim me proteger de infecções. Na lista de efeitos colaterais provocados pelo tal medicamento estão dores musculares e dor de cabeça.
Se tudo correr como planejado, e vai, passarei por seis sessões de quimioterapia. Estava previsto que eu receberia esse medicamento para produção dos neutrófilos somente depois de cada uma das últimas três sessões de quimioterapia. Como meus neutrófilos resolveram sumir já depois da segunda sessão, os médicos decidiram que eu já deveria começar a receber o tal medicamento uma sessão antes do previsto.
Agora já não dá para dizer que não sei o que me aguarda nas últimas três sessões de quimioterapia.
Mas ontem o bichinho pegou. Ao cansaço que tem me acompanhado em maior ou menor grau desde o começo da quimioterapia, se juntou dor de cabeça, calafrios e dores por todo o corpo, principalmente na nuca, ombros e costas. Parecia que estava no começo de uma super gripe, daquelas que derrubam elefante e em que a gente pede para o mundo se acabar numa cama.
O pior não era o mal estar físico, mas uma tristeza que me atacou profunda e subitamente. Depois de uma boa choradeira, me senti melhor, mas o mal estar continuou, embora hoje as dores musculares tenham ficado mais fracas.
O motivo de tanto mal estar foi um medicamento que tomei um dia depois da quimioterapia com o objetivo de estimular meu organismo a produzir mais neutrófilos e assim me proteger de infecções. Na lista de efeitos colaterais provocados pelo tal medicamento estão dores musculares e dor de cabeça.
Se tudo correr como planejado, e vai, passarei por seis sessões de quimioterapia. Estava previsto que eu receberia esse medicamento para produção dos neutrófilos somente depois de cada uma das últimas três sessões de quimioterapia. Como meus neutrófilos resolveram sumir já depois da segunda sessão, os médicos decidiram que eu já deveria começar a receber o tal medicamento uma sessão antes do previsto.
Agora já não dá para dizer que não sei o que me aguarda nas últimas três sessões de quimioterapia.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Glóbulos desbotados

A semana que passou foi povoada por duas pequenas frustrações. O tratamento que eu receberia na terça-feira passada teve de ser adiado para a sexta-feira porque o nível de um tipo de glóbulos brancos do meu sangue estava muito baixo. Um exame de sangue confirmou que o índice que mede a concentração dessas células, que aqui chamam “neutrocytes”, era de apenas 1,1, enquanto o aceitável seria 1,5. Se não me engano, essas células se chamam neutrófilos em português.
Um adiamento de apenas quatro dias pode parecer insignificante, mas quando toda sua vida se organiza em torno de um tratamento que vai determinar como você vai se sentir nas próximas semanas, a coisa muda de figura. Uma amiga que tinha tirado folga para ficar comigo durante e nas horas depois da quimioterapia, perdeu o dia de trabalho inutilmente. Uma outra amiga veio de Madrid para me ficar comigo e a Gabi enquanto o Henrik viajava a trabalho. Claro que foi ótimo revê-la, mas ela talvez tivesse escolhido um outro dia para me visitar se soubesse que eu não receberia o tratamento na data prevista.
Além disso, todo atraso no meu tratamento significa que voltar a ter uma vida mais próxima do normal fica mais distante.
Na sexta, um terceiro exame de sangue em uma semana mostrou que os glóbulos brancos do meu sangue finalmente haviam chegado ao nível adequado. O índice que mede a concentração de neutrófilos do meu sangue já tinham subido para 1,7. No mesmo dia passei pela terceira dose de quimioterapia, o que foi um alívio.
O outro pequeno desapontamento da semana foi meu joelho direito. Na terça, depois dos meu recorde de 26 minutos, meu joelho passou a doer. Achei que no dia seguinte estaria em forma novamente mas, quase uma semana depois, continuo sentindo que ainda não dá para correr. Sou obrigada a esperar meu joelho se recuperar para quebrar novos recordes.
terça-feira, 13 de maio de 2008
26 minutos
Hoje de manhã voltei a correr e bati meu próprio recorde: 26 minutos. Mas meu joelho doendo está me dizendo que talvez eu tenha exagerado um pouquinho. Bem, vou ser mesmo quase obrigada a fazer uma pausa nos próximos dois dias por causa do cansaço e mal estar causados pela quimioterapia.
Daqui a pouco uma amiga vem me buscar para irmos ao hospital onde deverei passar por mais uma sessão de quimioterapia no começo da tarde. Nada a fazer a não ser respirar fundo.
Daqui a pouco uma amiga vem me buscar para irmos ao hospital onde deverei passar por mais uma sessão de quimioterapia no começo da tarde. Nada a fazer a não ser respirar fundo.
A cruzada de Pia
Um tempo atrás, um dos maiores jornais da Dinamarca anunciou o lançamento de um livro que conta a história das 10 pessoas mais influentes do país. Na lista, apenas uma mulher. O fato da lista só ter uma mulher seria suficiente para me incomodar já que se poderia esperar um pouco mais de um país conhecido por ser um dos mais avançados no reconhecimeto dos direitos das mulheres.
Mas a tal lista me grilou ainda mais porque a única mulher incluída, Pia Kjærsgaard, é uma das políticas mais conservadoras e, talvez como consequência do seu conservadorismo, mais populares da Dinamarca. Famosa por defender políticas anti-imigração e anti-imigrantes, ela lidera o Partido do Povo Dinamarquês (Dansk Folkeparti).
Criado em junho de 1996, o DF (sigla em dinamarquês) tem uma trajetória espetacular. Já nas eleições de 1996 conseguiu 7,4% dos votos e no ano passado recebeu 13,8 % dos votos – suficientes para que o partido aumentasse para 25 o número de vagas no parlamento e mantivesse seu posto de terceiro maior partido do país.
De fato, não é de estranhar que Pia fizesse parte da tal lista. Ela é realmente uma das pessoas mais influentes do país. Para não desagradar seus próprios eleitores, o partido no poder, o Venstre (embora o nome signifique esquerda, o partido é de centro-direita), não ofereceu cargos ao DF. Mas isso não diminuiu o poder do partido de Pia, do qual o governo depende para conseguir maioria no parlamento.
Pia Kjærsgaard não gosta de ser chamada de racista. Aliás, já andou processando pessoas que a classificaram como tal. O problema é que abundam exemplos de que ela e seu partido são o que não gostam de ser chamados. Um dos mais notórios foi a impressão de um cartaz da ala jovem do DF contra o crescimento da população imigrante. O cartaz comparava a Dinamarca de hoje, mostrando jovens brancos sorrindo com ar saudável e feliz, com a Dinamarca daqui a dez anos, mostrando moças com o rosto coberto, à maneira islâmica, e rapazes, aparentemente de origem árabe, em atitude desafiadora, como se estivessem prontos para uma ação terrorista.
Ela combate, como já declarou, uma Dinamarca multiétnica e multicultural porque – muito simples – a Dinamarca é para os dinamarqueses. Faz uso de generalizações grosseiras ao dizer que os refugiados que chegam ao país têm desprezo por tudo que é dinamarquês, ocidental e cristão e estão mergulhados em cultura medieval.
Para desempenhar o papel de protetora da Dinamarca branca e cristã, Pia se veste literalmente a caráter. Não com armadura e lança, como os guerreiros medievais, mas freqüentemente com terninhos cor-de-rosa que são de matar.
Infelizmente para ela e para os pouco mais de cinco milhões de pessoas que conseguem entender dinamarquês, a voz dela é uma lástima: esganiçada e fanhosa – um misto de Roberto Carlos com Dercy Gonçalves. Mas ela não se intimida: adota um tom doce e suave e parte para o ataque, sempre dando a impressão de que não está atacando ninguém, mas apenas defendendo sua virtuosa e imaculada Dinamarca.
Mas a tal lista me grilou ainda mais porque a única mulher incluída, Pia Kjærsgaard, é uma das políticas mais conservadoras e, talvez como consequência do seu conservadorismo, mais populares da Dinamarca. Famosa por defender políticas anti-imigração e anti-imigrantes, ela lidera o Partido do Povo Dinamarquês (Dansk Folkeparti).
Criado em junho de 1996, o DF (sigla em dinamarquês) tem uma trajetória espetacular. Já nas eleições de 1996 conseguiu 7,4% dos votos e no ano passado recebeu 13,8 % dos votos – suficientes para que o partido aumentasse para 25 o número de vagas no parlamento e mantivesse seu posto de terceiro maior partido do país.
De fato, não é de estranhar que Pia fizesse parte da tal lista. Ela é realmente uma das pessoas mais influentes do país. Para não desagradar seus próprios eleitores, o partido no poder, o Venstre (embora o nome signifique esquerda, o partido é de centro-direita), não ofereceu cargos ao DF. Mas isso não diminuiu o poder do partido de Pia, do qual o governo depende para conseguir maioria no parlamento.
Pia Kjærsgaard não gosta de ser chamada de racista. Aliás, já andou processando pessoas que a classificaram como tal. O problema é que abundam exemplos de que ela e seu partido são o que não gostam de ser chamados. Um dos mais notórios foi a impressão de um cartaz da ala jovem do DF contra o crescimento da população imigrante. O cartaz comparava a Dinamarca de hoje, mostrando jovens brancos sorrindo com ar saudável e feliz, com a Dinamarca daqui a dez anos, mostrando moças com o rosto coberto, à maneira islâmica, e rapazes, aparentemente de origem árabe, em atitude desafiadora, como se estivessem prontos para uma ação terrorista.
Ela combate, como já declarou, uma Dinamarca multiétnica e multicultural porque – muito simples – a Dinamarca é para os dinamarqueses. Faz uso de generalizações grosseiras ao dizer que os refugiados que chegam ao país têm desprezo por tudo que é dinamarquês, ocidental e cristão e estão mergulhados em cultura medieval.
Para desempenhar o papel de protetora da Dinamarca branca e cristã, Pia se veste literalmente a caráter. Não com armadura e lança, como os guerreiros medievais, mas freqüentemente com terninhos cor-de-rosa que são de matar.
Infelizmente para ela e para os pouco mais de cinco milhões de pessoas que conseguem entender dinamarquês, a voz dela é uma lástima: esganiçada e fanhosa – um misto de Roberto Carlos com Dercy Gonçalves. Mas ela não se intimida: adota um tom doce e suave e parte para o ataque, sempre dando a impressão de que não está atacando ninguém, mas apenas defendendo sua virtuosa e imaculada Dinamarca.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Socos
Essa história de enfrentar a realidade nem sempre é o meu forte. Quando soube que aquele caroço no meu seio esquerdo era maligno, tentei de todas as maneiras dizer a mim mesma que não devia ser tão mal assim, que era só um carocinho de nada que uma cirugia simples resolveria.
Receber uma notícias dessas numa outra língua ajuda a fugir dos socos de realidade. Antes de eu saber o que tinha, ao perguntar à médica que fazia uma ultrassonografia dos meios seios o que ela tinha encontrado, a resposta, em dinamarquês, foi clara: “Esse caroço é maligno”. Fiquei especulando se a palavra "maligno" em dinamarquês tem o significado horrível que tem em português. Mas, embora não tivesse usado a palavra câncer, ela não deixou margem para dúvidas: eu teria de ser operada e a dimensão do problema seria conhecida depois do resultado de uma biópsia e outros exames.
Naquele dia eu havia ido sozinho ao hospital. Saí da sala onde foi feito o exame e entrei no primeiro banheiro que achei. Chorei sozinha, e muito.
Até então minha vida havia sido povoada por várias dúvidas e algumas poucas certezas. Naquele banheiro, quase tudo cedeu lugar a uma interrogação vital “vou sobreviver a essa doença?”. Essa incerteza imensa e sufocante veio junto com outra ainda mais terrível: “vou sobreviver para ver minha filha crescer?”.
Todos com quem converso sobre minha doença sempre tentam me encher de otimismo e confiança. “Hoje em dia os médicos têm controle sobre isso, ninguém morre mais de câncer de mama, a medicina avançou muito nessa área...” Ouço e concordo, mas aquele diabinho que vive espetando meu anjinho abana a cabeça e diz: “Blá, blá, blá. Num ano, mais de 1300 mulheres morrem de câncer de mama só na Dinamarca, um paisinho com cinco milhões de habitantes”.
Fujo das estatísticas e evito me fazer aquelas perguntas. Elas me acompanham, mas prefiro não encará-las. Elas me entristecem, como agora, e me sugam energia, ânimo e alegria. Tento substituí-las com uma certeza: não vai ser essa porcaria de doença que vai me matar. Ainda tenho muito coisa para fazer e a mais importante delas é ver minha filha crescer.
Receber uma notícias dessas numa outra língua ajuda a fugir dos socos de realidade. Antes de eu saber o que tinha, ao perguntar à médica que fazia uma ultrassonografia dos meios seios o que ela tinha encontrado, a resposta, em dinamarquês, foi clara: “Esse caroço é maligno”. Fiquei especulando se a palavra "maligno" em dinamarquês tem o significado horrível que tem em português. Mas, embora não tivesse usado a palavra câncer, ela não deixou margem para dúvidas: eu teria de ser operada e a dimensão do problema seria conhecida depois do resultado de uma biópsia e outros exames.
Naquele dia eu havia ido sozinho ao hospital. Saí da sala onde foi feito o exame e entrei no primeiro banheiro que achei. Chorei sozinha, e muito.
Até então minha vida havia sido povoada por várias dúvidas e algumas poucas certezas. Naquele banheiro, quase tudo cedeu lugar a uma interrogação vital “vou sobreviver a essa doença?”. Essa incerteza imensa e sufocante veio junto com outra ainda mais terrível: “vou sobreviver para ver minha filha crescer?”.
Todos com quem converso sobre minha doença sempre tentam me encher de otimismo e confiança. “Hoje em dia os médicos têm controle sobre isso, ninguém morre mais de câncer de mama, a medicina avançou muito nessa área...” Ouço e concordo, mas aquele diabinho que vive espetando meu anjinho abana a cabeça e diz: “Blá, blá, blá. Num ano, mais de 1300 mulheres morrem de câncer de mama só na Dinamarca, um paisinho com cinco milhões de habitantes”.
Fujo das estatísticas e evito me fazer aquelas perguntas. Elas me acompanham, mas prefiro não encará-las. Elas me entristecem, como agora, e me sugam energia, ânimo e alegria. Tento substituí-las com uma certeza: não vai ser essa porcaria de doença que vai me matar. Ainda tenho muito coisa para fazer e a mais importante delas é ver minha filha crescer.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
21 minutos
Acho que hoje posso dizer que superei a segunda etapa do meu tratamento quimioterápico. Os piores efeitos colaterais da segunda rodada já passaram e me sinto quase como se não estivesse sob tratamento. Agora é curtir esta boa semana, antes de tudo recomeçar na semana que vem, quando terei uma nova sessão de quimioterapia.
Hoje corri por 21 minutos em volta do lago aqui perto de casa. Foi meu tempo recorde desde que comecei a correr depois da operação e me senti uma verdadeira campeã. Os dias ensolarados têm ajudado. Fica fácil se animar para sair de casa nesses dias de sol de brigadeiro e temperatura perto dos 20 oC. Só espero que se esse pique todo continue quando eu voltar a trabalhar e o inverno chegar. É possível que sim. Afinal, agora tenho uma motivação adicional para continuar me movimentando: há estudos que indicam que mesmo atividade física moderada pode aumentar a expectativa de vida de quem tem ou teve câncer de mama.
Hoje corri por 21 minutos em volta do lago aqui perto de casa. Foi meu tempo recorde desde que comecei a correr depois da operação e me senti uma verdadeira campeã. Os dias ensolarados têm ajudado. Fica fácil se animar para sair de casa nesses dias de sol de brigadeiro e temperatura perto dos 20 oC. Só espero que se esse pique todo continue quando eu voltar a trabalhar e o inverno chegar. É possível que sim. Afinal, agora tenho uma motivação adicional para continuar me movimentando: há estudos que indicam que mesmo atividade física moderada pode aumentar a expectativa de vida de quem tem ou teve câncer de mama.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Primavera 2008
A primavera chegou para valer aqui na Dinamarca. Os jardins são uma profusão de cores que quase conseguem apagar da memória os dias cinzentos e desfocados do inverno. A temperatura chegou a incríveis 20 graus durante o dia na última semana, o que nos fez ir atrás de sapatos e sandálias menos quentes para a Gabi. Mas a alegria com a chegada da primavera sempre me prega peças. Olho aquele solão lá fora e não tenho dúvida: pego o casaco mais leve do armário, monto animadinha a bicicleta e cinco minutos depois, tiritando, estou me xingando porque não vesti uma roupa mais quente. É que as manhãs e finais de tarde ainda estão bem frios. No inverno é mais difícil se enganar. Faz frio o tempo todo e não há dúvida sobre o que devo vestir: blusa, cardigan, meias-calça, calças compridas, botas, luvas, cachecol, chapéu ou touca. Em resumo: pareço uma cebola, cheia de camadas, como observou uma conhecida.
As temperaturas mais amenas também são uma alívio para minha careca. Nossa, como sinto frio na careca, especialmente na nuca. Mesmo dentro de casa e até na hora de dormir estou sempre usando uma das tocas que comprei para os meus meses de carequice.
Uma pedagoga da creche da Gabriela perdeu todo o cabelo do corpo cinco anos atrás por causa de uma doença incurável. Um dia desses conversei um pouco com ela sobre o que é viver sem cabelo. Ela me contou do frio que sente com uma simples brisa que passa por seu braço liso. Falou também o quanto foi difícil encarar o olhar das pessoas logo depois de ter perdido o cabelo e como sempre se recusou a usar peruca. Admirei a coragem dela e me senti grata por saber que meu cabelo logo vai ter permissão para voltar a crescer.
domingo, 27 de abril de 2008
Fugindo da raia
Ontem o Henrik e eu fomos à festa de aniversário de trinta anos da prima dele. Na Dinamarca, quando falam em festa, geralmente querem dizer um jantar que dura horas, onde você fica sentado ao lado ou em frente a pessoas que você nunca viu e pelas quais você não se interessa ou que não se interessam por você. Depois de uma refeição interrompida por discursos, canções e brincadeiras nem sempre tão divertidas, às vezes rola uma dançazinha animada por um organista ou um conjuntinho musical que deixam muito a desejar.
Felizmente, a festa de ontem não seria do tipo tradicional. Foi anunciada como uma festa onde rolaria muita música e nada de jantar, apenas bebidas e tira-gostos. Oba, diria uma brasileira saudosa de uma festa daquelas. Mas aí vale outro esclarecimento. Na Dinamarca, quando anunciam uma festa como essa, entenda-se bebedeira coletiva. Claro que há exceções, mas de modo geral o que acontece é que o povo se reúne para beber tresloucadamente e, dançar que é bom, fica para segundo plano.
Mas decidimos ir assim mesmo e tudo ia bem até estacionarmos o carro ao lado da casa da aniversariante. A idéia de encarar uma casa cheia de gente estranha e festiva de repente me apavorou. Me acovardei diante da perspectiva das pessoas me olharem tentando adivinhar o que eu, com aquele pano na cabeça, seria: extravagante, religiosa ou doente? Tentei controlar as lágrimas, inclusive para evitar borrar o rímel caríssimo que havia comprado no dia anterior, mas foi inútil. Os gases inchando minha barriga, o cansaço e um incômodo na área da cirurgia não ajudavam em nada a levanter meu ânimo.
Depois de mais uns minutos no carro, outros convidados da festa passando por nós, o Henrik deu a partida e fomos a um café, onde bebemos um chá e me acalmei. Por ele, poderíamos voltar para casa. Insisti que deveríamos voltar e encarar a turba. Afinal, tínhamos comprado presente, argumentei com meu raciocínio de quem não admite desperdícios.
Fomos. As pessoas podem até ter ficado na dúvida sobre se eu era extravagante, religiosa ou doente, mas foram suficientemente discretas para me tratar como se não estivessem notando o pano na cabeça.
A festa foi aquilo mesmo que eu previa, uma bebedeira coletiva. Mas, à margem dela, lá pelas tantas me vi discutindo com um casal de pedagogos e o Henrik evolução natural e o aparente descompasso entre o desenvolvimento físico e mental dos seres humanos. E olha que eu não tinha bebido nenhuma gota de álcool.
Felizmente, a festa de ontem não seria do tipo tradicional. Foi anunciada como uma festa onde rolaria muita música e nada de jantar, apenas bebidas e tira-gostos. Oba, diria uma brasileira saudosa de uma festa daquelas. Mas aí vale outro esclarecimento. Na Dinamarca, quando anunciam uma festa como essa, entenda-se bebedeira coletiva. Claro que há exceções, mas de modo geral o que acontece é que o povo se reúne para beber tresloucadamente e, dançar que é bom, fica para segundo plano.
Mas decidimos ir assim mesmo e tudo ia bem até estacionarmos o carro ao lado da casa da aniversariante. A idéia de encarar uma casa cheia de gente estranha e festiva de repente me apavorou. Me acovardei diante da perspectiva das pessoas me olharem tentando adivinhar o que eu, com aquele pano na cabeça, seria: extravagante, religiosa ou doente? Tentei controlar as lágrimas, inclusive para evitar borrar o rímel caríssimo que havia comprado no dia anterior, mas foi inútil. Os gases inchando minha barriga, o cansaço e um incômodo na área da cirurgia não ajudavam em nada a levanter meu ânimo.
Depois de mais uns minutos no carro, outros convidados da festa passando por nós, o Henrik deu a partida e fomos a um café, onde bebemos um chá e me acalmei. Por ele, poderíamos voltar para casa. Insisti que deveríamos voltar e encarar a turba. Afinal, tínhamos comprado presente, argumentei com meu raciocínio de quem não admite desperdícios.
Fomos. As pessoas podem até ter ficado na dúvida sobre se eu era extravagante, religiosa ou doente, mas foram suficientemente discretas para me tratar como se não estivessem notando o pano na cabeça.
A festa foi aquilo mesmo que eu previa, uma bebedeira coletiva. Mas, à margem dela, lá pelas tantas me vi discutindo com um casal de pedagogos e o Henrik evolução natural e o aparente descompasso entre o desenvolvimento físico e mental dos seres humanos. E olha que eu não tinha bebido nenhuma gota de álcool.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Peruca
Três dias depois do meu primeiro tratamento quimioterápico, fui a uma perucaria e falei à vendodora que precisava de uma peruca. A senhora me olhou e disse: “Ah, meu Deus, onde é que vou arranjar uma peruca para substituir esse cabelo todo?” E continuou: “Você tem o tipo de cabelo que sempre sonhei ter: cheio, encaracolado”. Eu ficaria envaidecida se já não tivesse ouvido isso inúmeras vezes aqui na Dinamarca, onde os cabelos escuros e cacheados fazem sucesso, ao contrário do Brasil superpovoado de falsos louros alisados.
Agradeci os elogios da vendedora, aliás muito gentil e simpática, e lhe pedi que tentasse alguma peruca curta e escura. Ela veio com algumas e minha mãe e meu marido, que foram comigo à loja, concordaram que uma delas tinha ficado até legal. Embora o resultado tenha ficado melhor do que eu esperava, ainda me achei ridícula com aquela coisa.
Mas como a coisa seria paga pelo hospital onde estou sendo tratada, decidi levá-la. Afinal não sabia como me sentiria depois de perder o cabelo e, quem sabe, até me animaria a usar a coisa.
Hoje, seis dias depois de raspar a cabeça, ainda não me animei a usar aquela coisa. A Gabriela também não gostou. Olhou e disse: “Feio, mãe, feio”. Apesar da opinião desfavorável, de manhã, antes de ir para creche, quando lhe sugeri que usasse a peruca, ela não se avexou. Enfiou-a na cabeça e se divertiu a valer, o que, claro, não perdi a chance de registrar.
Agradeci os elogios da vendedora, aliás muito gentil e simpática, e lhe pedi que tentasse alguma peruca curta e escura. Ela veio com algumas e minha mãe e meu marido, que foram comigo à loja, concordaram que uma delas tinha ficado até legal. Embora o resultado tenha ficado melhor do que eu esperava, ainda me achei ridícula com aquela coisa.
Mas como a coisa seria paga pelo hospital onde estou sendo tratada, decidi levá-la. Afinal não sabia como me sentiria depois de perder o cabelo e, quem sabe, até me animaria a usar a coisa.
Hoje, seis dias depois de raspar a cabeça, ainda não me animei a usar aquela coisa. A Gabriela também não gostou. Olhou e disse: “Feio, mãe, feio”. Apesar da opinião desfavorável, de manhã, antes de ir para creche, quando lhe sugeri que usasse a peruca, ela não se avexou. Enfiou-a na cabeça e se divertiu a valer, o que, claro, não perdi a chance de registrar.
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