domingo, 6 de setembro de 2009

Hassan e Gulizar

A situação de Hassan Gardi talvez seja o mais triste exemplo do quão absurda é a atual política de imigração do governo dinamarquês. Ele 72 anos, é demente, pesa somente 47 quilos, passa boa parte do tempo deitado e depende de ajuda para ir ao banheiro, se lavar e se alimentar. Hassan estava entre os iraquianos que se refugiaram na Igreja Brorsons e, segundo sua esposa Gulizar, ficou completamente desnorteado quando a polícia invadiu o local e tirou todos os refugiados de lá. O jornal dinamarquês information.dk conta que o casal foi colocado no olho da rua e depois de perambular por algum tempo no meio da confusão criada por manifestantes e polícia, foi resgatado por ativistas que agora os mantêm escondidos das autoridades.

A legislação dinamarquesa prevê que refugiados com problemas graves de saúde mental podem ser ganhar permanência na Dinamarca por motivos humanitários. Apesar disso, e contra opinião emitida em laudos médicos, o Ministério que cuida dos pedidos de asilo, ironicamente chamando de Ministério da Integração, rejeitou o pedido de permanência por motivos humanitários a favor de Hassan e Gulizar. Na explicação do Ministério, demência não é doença grave e o fato de Gulizar cuidar do marido é considerado suficiente para justificar enviar os dois de volta para o Iraque.

Que Gulizar seja analfabeta, não tenha uma profissão ou que o ganha pão do casal, uma cafeteria em Erbil no norte do Iraque, tenha explodido nos ares depois que um carro bomba estacionou em frente ao estabelecimento, foi ignorado pelo Ministério da Integração (esse nome quase me dá náuseas). Ainda assim Gulizar mantem as esperanças e tenta tranquilizar o marido dizendo que ele não precisa ter medo porque “estamos num país humano, onde os direitos humanos têm grande significado”. Torço por eles para que ela tenha razão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Paradoxo

Muito interessante um artigo escrito pelos estudantes da Universidade de Yale Yasmin Zaher and Saned Raouf para o Huffington Post sobre a situacão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e a remocão dos refugiados da Igreja Brorsons:
The Modern Making of Refugee Politics
Falam, entre outras coisas, do paradoxo de um país que está no topo do ranking de países com o mais alto grau de felicidade ser o mesmo que impõe repetidos traumas psicológicos aos refugiados iraquianos que lutam por uma chance de ter uma vida decente.

domingo, 23 de agosto de 2009

Bisian

Bisian e sua família estava entre os iraquianos que buscaram refúgio na Igreja Brorsons e entre os cerca de 250 iraquianos que tiveram seus pedidos de asilo rejeitado pelo governo dinamarquês e estão sendo ameaçados de serem enviados de volta para o Iraque. Ela tem 14 anos de idade, não fala árabe e vive na Dinamarca desde os quatro. Nesses dez anos na Dinamarca, ela e a família viveram em campos de refugiados.

A irmã caçula de Bisian nasceu na Dinamarca e tem menos de dois anos de idade. O irmão mais velho, segunda ela conta no site kirkeasyl.dk (site de um movimento de dinamarqueses que apoiam os refugiados iraquianos), sonha em estudar carpintaria mas foi proibido de prosseguir os estudos pelas autoridades dinamarquesas. Algo parecido aconteceu com a mãe de Bisian que começou a fazer um curso de cabeleireira mas teve de parar devido às regras para refugiados à espera de permanência.

Bisian sonha com uma vida “normal” na Dinamarca e teme a violência no Iraque. Lá, ela acha que a família não tem nenhuma chance especialmente porque seu pai está marcado para morrer no Iraque. “Lá há gente atrás dele”.

domingo, 16 de agosto de 2009

Wissam

O Wissam é um rapaz iraquiano de 19 anos de idade que vive na Dinamarca desde que tinha 10.  Ele foi um dos 60 iraquianos que passaram parte do verão deste ano na igreja Brorsons, juntamente com seus pais e irmão mais velho, de 23 anos. Desde 30 de julho ele está na prisão do campo de refugiados de Sandholmlejren.

Wissam e sua família foram presos antes da ação policial na igreja Brorsons. Numa longa entrevista ao jornalista Olav Hergel, na edição deste domingo do jornal Politiken, ele fala sobre sua adolescência na Dinamarca e no medo de voltar para o Iraque, e no quanto ele sonha em ter direito a viver na Dinamarca. Wissam fala dinamarques fluentemente, além de inglês, persa, curdo e árabe e tem uma namorada chamada Rosa. Seu irmão acabou de ser aceito como aluno da Universidade Ténica de Copenhague, mas não sabe se vai poder fazer o curso.

Ele pertence a um grupo étnico, os feyli curdos, dos quais tanto iraquianos quanto iranianos querem se livrar. A advogada da família conseguiu documentar que 15 membros da família de Wissam, que vive numa região próxima a Bagdah, foram mortos nos últimos anos como consequência de perseguição étnica.

sábado, 15 de agosto de 2009

Remoção

Há períodos em que evito ler jornais ou assistir a noticiários dinamarqueses para evitar me aborrecer. Estou num desses períodos. Desta vez, a razão para possível aborrecimento é a expulsão de um grupo de iraquianos de uma igreja de Copenhague, acontecida na madrugada da última quinta-feira .

Os iraquianos tinham ocupado a igreja havia quase três meses (ver Mahabat e seus dois meninos ) e nesse período eu vinha torcendo e quase acreditando, do fundo do meu otimismo ou ingenuidade, que algo aconteceria para que pelos menos alguns fossem autorizados a continuar vivendo na Dinamarca. Mas me esqueci em que país estava e cheguei a ficar chocada quando soube que a polícia havia invadido a igreja Brorsons no meio da madrugada e prendido todos os 17 homens que estavam lá. Nenhuma mulher ou criança foi presa, mas todos tiveram de abandonar a igreja.

Pelos relatos que li e ouvi, inclusive a do pastor da igreja, a remoção dos iraquianos foi dramática. Quando a polícia entrou na igreja, todos os iraquianos se juntaram no altar. Um homem quebrou uma garrafa e ameaçou se cortar, um outro subiu no órgão da igreja e ameaçou pular, mulheres gritavam de desespero enquanto crianças choravam de medo. A invasão aconteceu por volta da uma da madrugada e, por mais que leio que tudo foi feito dentro da lei, nada me convence que não foi mais um da série de atos desumanos da política para refugiados adotada pelo atual governo dinamarquês (mais sobre o assunto em inglês e cenas da ação policial contra um grupo de demonstrantes dinamarqueses que tentou bloquear a passagem do ônibus da polícia que levava os iraquianos).

No dia seguinte à remoção, 15.000 a 25.000 pessoas (como sempre acontece em demonstrações de rua, a quantidade de participantes depende da fonte da informação) se reuniram em frente à igreja para protestar contra a ação da polícia e pedir asilo aos iraquianos. Quando soube da manifestação até fiquei animada. Quem sabe a ação policial não acaba criando uma comoção nacional de apoios aos iraquianos que assim podem afinal conseguir o apoio político necessário para que seus pedidos de asilo sejam reavaliados? pensei novamente do fundo da minha alma otimista ou ingênua. Que nada. No dia seguinte ao da demonstração, pesquisas de opinião pública mostraram que três quintos da população dinamarquesa apoiaram a ação policial.

Conclusão: parei de ler jornais ou páginas da internet da Dinamarca para não morrer de raiva. Até hoje, é claro, quando tive de me atualizar para escrever o blog. Aí deparei com mais uma, duas, não, três histórias de, com o perdão da expressão, cortar o coração: as do Wissam, do Hassan e da Bisian.

sábado, 8 de agosto de 2009

Dia dos pais

Amanhã seria dia de ligar para meu pai e lhe desejar feliz dia dos pais. Na minha família sempre fomos críticos do caráter comercial dessas datas, mas assim mesmo embarcamos sem pestanajar na onda de presentes e reuniões familiares nos dias das mães e dos pais.

Antes de me mudar para a Dinamarca, dia dos pais tinha invariavelmente reunião da família toda em torno de uma churrasqueira e presentes para o meu pai, que nesse dia via uma das vantagens de ter tido cinco filhos.

Para meus irmãos, minha mãe e eu, a semana que antecedia o segundo domingo de agosto era de dúvidas sobre o que dar ao ”melhor pai do mundo” que também podia às vezes se comportar como ”o pai mais chato do mundo”. Como era difícil presentear meu pai. Ferramenta era quase certo que ele ia gostar de receber, mas ele já tinha tanta geringonça que ninguém mais tinha vontade de lhe dar uma nova. Livro era meio complicado, porque, ao contrário da minha mãe, ele nunca foi muito de ler. Roupas ou sapatos, claro, seriam a alternativa mais correta, porque, como minha mãe dizia, ele andaria como um mendigo se não fosse as roupas e sapatos que nós comprávamos para ele. Não que lhe faltasse dinheiro para isso, mas é que ele nunca encontrava tempo para compras.

Mas comprar sapatos e, principalmente, roupas para meu pai, era um esporte arriscado. Nos últimos anos ele ficou mais tolerante, mas durante muito tempo tive a impressão de que nada que eu dava a ele o agradava. Ele sempre agradecia, é claro, mas na primeira oportunidade soltava algo como ”essa camisa é muito bonita mas essa gola não é meio assim como a de um pastor?” ou ”calça de boa qualidade, hein minha filha, pena que falta um bolso aqui”. Pois é, calça comprida para meu pai tinha de ter bolsos, muitos bolsos. No da direita, ele colocava a carteira, no da esquerda, uma cadernetinha, no da perna direita, uma caneta e um canivetinho, no da esquerda, o chaveiro. Nos bolsos dos fundos, nada, claro, porque ”eu também não sou bobo de dar mole para batedor de carteira” A necessidade de bolsos do meu pai Juarez era tanta que ele chegou a mandar alguém costurar bolsos extra em algumas das suas calças.

Nos bolsos iam também as listas de compras de supermercado que ele precisava fazer. Lá em casa sempre foi meu pai o maior responsável pelas compras de supermercado. Nos supermercados, mercadinhos, frutarias e feiras de Taguatinga, ele todo mês deixava boa parte de seu salário de policial militar.

Aliás, para compras de alimentos o seu Juarez sempre tinha tempo. Ele sentia um prazer imenso em abastecer a casa de comida, comida e comida. Acho que talvez porque ele se orgulhasse de nos ver atacando uma melancia deliciosa que ele havia comprado, confirmando o talento dele de quase sempre acertar na hora de comprar frutas e verduras. Ou nos ver devorando um frango assado preparado com um tempero delicioso que já tentei inúmeras vezes copiar. Ele gostava tanto de nos encher de comida, que mesmo no dia dos pais muitas frequentemente era ele que ia para a churrasqueira cuidar da carne, frango e linguiças que passaríamos um dia quase inteiro comendo.

Depois que me mudei para a Dinamarca, disse adeus a esses domingões dos dias dos pais. A preocupação sobre o presente também diminuiu porque depois de algum tempo passei a comprar apenas um presente pelo Natal, aniversário e dia dos pais, e entregá-lo pessoalmente nas minhas visitas anuais ao Brasil. Para mim, no dia dos pais sobrou apenas aquele telefonema, quase sagrado, que eu dava todo ano ao meu pai. Amanhã será o segundo dia dos pais em que nem isso vou poder fazer.

Ai pai. Como a saudade dói.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Direito de todo mundo

Devo admitir que estou ficando mais fã da Suécia. O país começou a me ganhar quando soube que lá eles tratam os refugiados iraquianos com muito mais respeito do que aqui na terra da rainha que é minha xará. E agora, depois de ter passado uma semana em Småland, uma região no sul do país, voltei meio encantada com algumas facetas da sociedade sueca.

Uma delas é o que lá chamam “Allemansrätten”, o que em português seria algo como direito de público acesso ou, numa tradução bem direta, o direito de todos os homens. A tradição e a constituição suecas ditam que todo mundo tem direito a andar, pedalar, correr, cavalgar, esquiar e até mesmo acampar em qualquer área natural, com exceção de jardins particulares, na proximidade de uma residência ou em terra sendo cultivada.

Isso quer dizer que qualquer pessoa pode pegar sua barraca e acampar no meio de uma floresta ou numa praia sem se preocupar se está invadindo uma propriedade particular. Ou levar sua canoa para uma lagoa e remar até cansar. Há algumas restrições quanto a reservas naturais, mas do contrário, toda a beleza natural do país, o que inclui montanhas, lagos, glaciais e florestas está à disposição de quem quiser admirá-la e curti-la. Um visitante pode até colher flores, cogumelos e amoras silvestres, se isso não incluir espécies protegidas. Claro que o direito implica em responsabilidades: o visitante deve proteger a natureza e evitar qualquer dano ao meio ambiente.

Por trás da norma está o princípio de que a natureza pertence e é para ser apreciada por todos. Para mim, um princípio que deveria se transformar em lei universal, embora eu saiba que a ideia causaria arrepios a proprietários de terras de países como o Brasil e a Dinamarca. Ainda assim não consigo deixar de pensar e lamentar os lagos e praias aos quais me foram negados acesso aqui na Dinamarca, as cercas intimidadoras das propriedades rurais no interior brasileiro ou as ilhas particulares de Angra dos Reis.

domingo, 2 de agosto de 2009

Retorno

Voltei hoje à Dinamarca, depois de oito dias no mato sueco, num lugar chamado Lindehult. Ao chegar em casa, o e-mail de uma amiga trouxe uma descoberta: um grupo esloveno, o Perpetuum Jazzile, cantando Aquarela do Brasil de maneira brilhante. Eu nunca poderia imaginar que a música brasileira fosse tão bem cantada por aquelas bandas.

Com eles canta um grupo vocal brasileiro, o BR6, que eu não conhecia e passei a admirar. Sobre eles há um video no Youtube.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mahabat e seus dois meninos


O governo dinamarquês quer separar a iraquiana Mahabat Rushdi Merza, de seus filhos, um nenê de oito meses e um menininho de quatro anos, e de seu marido. Por mais estranho que pareça, o marido e os filhos de Mahabat receberam autorização para viver temporariamente na Dinamarca, mas o pedido de asilo dela foi recusado e o governo dinamarquês ameaça mandá-la de volta para o Iraque.

Mahabat é uma dos 250 refugiados iraquianos que tiveram seus pedidos de asilo recusados pelo governo dinamarquês, que pretende enviá-los à força de volta para o Iraque. Antes, a falta um acordo entre os dois países impedia que a Dinamarca pudesse obrigar os refugiados a voltar a seu país de origem enquanto o governo iraquiano não quisesse recebê-los. Mas tal acordo foi alcançado no dia 13 de maio passado e, desde então, um grupo de refugiados, em pânico, passou a ocupar a igreja Brorsons, situada perto do centro de Copenhague.

Mahabat, que tem 28 anos de idade, e seus dois filhos fazem parte desse grupo. Ela vive há dez anos na Dinamarca, onde, além dos filhos e marido, também moram sua mãe e quatro irmãos. Assim como ela, sua mãe e os irmãos não receberam permissão para viver na Dinamarca e também estão vivendo na igreja.

domingo, 19 de julho de 2009

Pelo bico

Não resisti e estou repassando o link de um vídeo que está circulando na rede. Um cara mostrando uma jeito simples de descascar uma banana. Segundo ele, do jeito dos macacos. No vídeo, ele tenta primeiro descascar a banana como sempre fez: pelo talo. Depois demonstra o método dos nossos primos macacos: apertando o bico. Já experimentei e dá certo.

Depois desse vídeo revelador, percebi o quanto a internet anda revolucionando minha vida. Todo dia. Até mesmo no descascar de uma banana.

Ah! O link: http://www.youtube.com/watch?v=nBJV56WUDng

terça-feira, 14 de julho de 2009

17 picadas

Acabaram-se as picadas no meu braço a cada três semanas. Ontem recebi a última das 17 doses de Herceptin (trastuzumab), o remédio que deve diminuir as chances de que meu câncer volte a aparecer. Tive de receber esse tratamento extra porque meu câncer de mama, infelizmente, era do tipo HER2 positivo, ou seja, tinha um número anormal de células HER2. Quando a superfície do câncer tem um número excessivo de células da proteína HER2, o tumor é mais agressivo, podendo se espalhar mais rapidamente e com maior possibilidade de reaparecimento. 25% dos casos de câncer de mama são HER2 positivo.

Aliás, ontem fui picada duas vezes já que me submeti a mais um exame cardíaco feito para conferir se o Herceptin não está me causando problemas de coração. O exame mostrou que minhas funções cardíacas estão absolutamente normais. Se não estivessem, eu não poderia receber a última dose de Herceptin.

Meses atrás eu tinha planejado festejar estrondosamente o final do tratamento, mas o dia de ontem passou de forma bem tranquila. Ganhei flores do Henrik e à noite a tia dele ficou com a Gabi para que pudéssemos jantar fora. A noite estava agradável, a cidade cheia de gente. Foi como se estivéssemos comemorando um aniversário de casamento. Um pouco surreal.

Hoje tive um dia normal de trabalho e tudo que está relacionado à doença pareceu ainda mais distante. Mas a falta de um seio e a braçadeira me acompanham e não me deixam esquecer o ano e meio que passou.

terça-feira, 7 de julho de 2009

10 anos

Crianças exiladas fora dos abrigos!
Há crianças vivendo num dos países mais ricos do mundo sem direito a frequentar uma escola normal com outras crianças da mesma idade. Algumas dessas crianças nasceram e nunca saíram desse país, mas ainda assim vivem à margem da sociedade.

Estou em campanha por assinaturas de apoio a 122 crianças que vivem em campos para exilados na Dinamarca. Assinei uma petição e tenho usado Facebook, Twitter, meu e-mail e agora este blog para apoiar a causa, sobre a qual se pode ler no http://www.asylboerneneudnu.dk/ (infelizmente apenas em dinamarquês). O movimento por essas crianças têm três reivindicações básicas: as criancas devem ter o direito de viver fora dos abrigos, elas devem ter direito a viver uma vida mais próxima do normal com seus pais e, juntamente com seus pais, elas devem receber o tratamento necessário para que possam superar seus traumas e retomar suas vidas.

O site conta um pouco da rotina dessas crianças espalhadas em seis abrigos mantidos pelo governo e administrados pela Cruz Vermelha da Dinamarca. Crianças maiores de seis anos frequentam uma escola especial para refugiados da Cruz Vermelha. A maior parte dessas crianças tem de viajar de ônibus diariamente duas horas de ida e volta para chegar à escola especial. A carga horária e a quantidade de disciplinas na escola especial são reduzidos e as crianças não tem direito a prestar exames.

As crianças nos abrigos têm muito pouco contato com crianças dinamarquesas, o que naturalmente dificulta a aprendizagem do dinamarquês. Os abrigos ficam geralmente em áreas isoladas e como os pais têm muito pouco dinheiro para transporte, o resultado é que essas crianças vivem à parte do resto da sociedade, com raras oportunidades de lazer. Principalmente os adolescentes se sentem marginalizados.

A vida nos abrigos é cheia de barulho, confusão e insegurança.. Frequentemente chegam pessoas estranhas enquanto outras pessoas abandonam os centros. A instabilidade das relações faz com que algumas crianças desistam de fazer amigos, se negam a frequentar a escola e se isolem em seus quartos. Nos quartos onde as famílias vivem, há pouco espaço e quase nenhuma privacidade.

Os pais dessas crianças são proibidos de procurar emprego e precisam “bater o ponto” nos abrigos, onde a presença deles é controlada para evitar fugas. Sem trabalho, eles recebem ajuda financeira do governo dinamarquês, que lhes paga quantias bem inferiores à ajuda de custo recebida por cidadãos dinamarqueses e estrangeiros com permanência regular no país..

Tudo isso talvez não fosse razão para grandes problemas se a passagem pelos abrigos fosse curta. Mas todas essas 122 crianças vivem há pelo menos um ano nesses abrigos. Muitas já têm três anos de vida nos abrigos e uma delas vive em abrigos há dez anos. Dez anos. Toda uma infância.

Ninguém pode dizer que essas crianças não têm suas necessidades básicas atendidas. Como eu já frisei numa postagem anterior não lhes falta comida, roupa e teto. Mas a situacão delas me faz lembrar aquela a cancão* dos Titãs que tem o seguinte trecho:

"A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer..."

*Comida (composição do Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto. Letra completa no http://letras.terra.com.br/titas/91453/)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Seleção de todos os brasileiros

Que legal a vitória do Brasil na Copa das Confederações na África do Sul mas não posso deixar de registrar um constrangimento: a mancada do Kaka e, principalmente, do capitão Lúcio expondo suas preferências religiosas em camisetas sobre o uniforme do Brasil, como descreve o blog do Plínio Bortolotti.

Esse tipo de comportamento é uma afronta a todos os brasileiros não cristãos e ao público internacional que não compartilha da mesma crença ou que ligou a televisão para ver futebol e não para assistir proselitismo religioso.

Daqui da Dinamarca, fiquei envergonhada por tal comportamento. Quando vejo os conflitos religiosos na Europa, costumo me sentir orgulhosa de vir de um país onde a liberdade religiosa impera. Mas o comportamento dos jogadores dá uma impressão completamente errada da sociedade brasileira.

A propósito, o fato gerou notícia num dos maiores jornais da Dinamarca. Confira o link http://politiken.dk/sport/fodbold/article742698.ece do artigo entitulado “Estrelas do futebol fazem propaganda cristã” (Fodboldstjerner reklamerer for kristendommen). Na minha opinião, as fotos são constrangedoras.

Só espero que esse tipo de comportamento não acabe criando antipatia pelo time brasileiro que, normalmente, é recebido com carinho e admiração por povos de todas as crenças.

Sinceramente, acho que os dois jogadores deveriam ser advertidos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Irã

Estou acompanhando com tristeza, apreensão e um pouco de esperança os acontecimentos no Irã. Ah, como seria bom se a democracia vencesse.

Lembrete linfático

Hoje percebi que o que mais me aborrece em relação ao linfedema é sua visibilidade. A braçadeira que preciso usar quase diariamente torna o problema desagradavelmente visível e volta e meio tenho de responder a perguntas de pessoas, a maioria bem intencionada, que involuntariamente me relembram o motivo inicial do linfedema: o câncer de mama.

O linfedema é a sequela que mais frequentemente me faz lembrar que ainda sou uma paciente de câncer. É também o que mais me obriga a encarar a realidade de que nunca mais serei aquela que fui antes do câncer. Os dias me trazem inúmeros lembretes dessa realidade: de manhã cedo ao vestir a braçadeira, mais tarde brincando com a minha filha, na hora de pegar a sacola pesada de compras do supermercado, quando vou molhar as plantas com o regador cheio d'água, etc.

Afora essa visibilidade, até que estou vivendo bem com esse meu novo mal. Uso a braçadeira e me massageio e de de vez em quando vou à fisioterapeuta, uma moça tão doce a simpática que eu gostaria de rever mesmo que não precisasse do tratamento.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pólen

Para mim, mês de junho no Brasil é mês de festa junina com batata doce assada na fogueira, curau e canjica. Na Dinamarca, para mim deveria ser o início do verão, com noites claras até as dez da noite e temperaturas mais amenas. Mas, pobre de mim, junho também é mês de coceira insuportável na garganta, ouvidos, lábios e olhos, espirros, e nariz escorrendo. É mês de alergia a pólen de grama, algo que tive o desprazer de conhecer já no meu primeiro verão na Dinamarca, em 1998.

Este começo de verão não está sendo diferente daqueles que passaram. E o inferno alérgico só vai passar quando o pólen de grama parar de infestar o ar daqui, ou seja, daqui a duas ou três semanas.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Que triste a tragédia do vôo 447 da Air France.

Folga real

Permitam-me continuar escrevendo sobre meu rebentos plebeus de indignação com a monarquia dinamarquesa. Minha pequena irritação com as agendas, calendários e folhinhas de geladeira se renovou depois que li uma matéria no jornal Politiken sobre o novo livro da jornalista Trine Villemann, “O Rei e a Rainha da Groenlândia” (Kongen og dronningen af Grønland).

O livro lançado três semanas atrás pode não ser o livro de cabeceira da princesa Mary e seu marido, o príncipe herdeiro Frederik, mas deve certamente estar dando uma boa dor de cabeça ao casal. Na matéria, Trine conta que, de acordo com o calendário oficial de Frederik, em abril ele teve um duro mês de trabalho, com 24 dias de folga e 6 (seis!) dias de trabalho. Detalhe: num dos seis dias de trabalho do príncipe, ele se ocupou do aniversário da filha Isabella. Ôo vida dura, meu Deus.

No livro, a jornalista diz que, embora a lei orçamentária do governo dinamarquês tenha reservado “apenas” 93 milhões de coroas (cerca de R$ 35 milhões de coroas dinamarquesas, em 2 de junho/2009) à família real em 2009, os gastos totais com a realeza devem ser bem maiores e podem chegar a 250 milhões de coroas só este ano. Isso porque a verba explicitamente destinada aos de sangue azul não inclui, por exemplo, as despesas que o Ministério da Defesa dinamarquês tem com a família real. É o Ministério da Defesa que mantém o navio real “Dannebrog” navegando de abril a setembro com a família real a bordo.

A jornalista, que apesar do livro se proclama monarquista, quer que as contas da realeza sejam abertas para que o povo dinamarquês saiba como os de sangue azul estão usando o dinheiro que recebem dos pagadores de impostos. Ninguém, nem mesmo o órgão daqui que fiscaliza as contas do governo, tem acesso às contas da família real que, aliás, também não paga um centavo de imposto sobre os milhões que recebe dos desprovidos de sangue azul. Outro detalhe importante: o desconto de imposto na fonte é de cerca de 40% para todos os dinamarqueses, embora os que recebem salários mais altos paguem bem mais do que isso.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Irritação real

Agenda, folhinha para pendurar na parede e calendário dinamarquês tem algo mais do que as datas religiosas e históricas de praxe: têm registrados também as datas de aniversário de pessoas como a Mary, a Isabella, o Christian, o Henrik, o Frederik, o Henrik, o Joaquim e o Felix. A razão pela qual essas pessoas têm seus nomes impressos na minha agenda e no calendário da geladeira aqui de casa é que todos eles são da família real. Mary é a nora, a Isabella, o Felix e o Christian são netos, o Henrik é o marido e o Frederik e o Joaquim são filhos da rainha Margrethe.

Depois de conferir na minha agenda que tenho hora marcada com minha dentista nesta sexta-feira, descobri, sem pedir, que o aniversário do príncipe herdeiro, o Frederik, é amanhã, 26 de maio. Uau!

A primeira vez que vi um calendário em dinamarquês e vi aqueles nomes de pessoas que não me diziam respeito, achei engraçado. Depois veio uma pequena irritação que dura até hoje e se renova a cada mudança de ano quando começo a usar uma nova agenda ou calendário. Por que é que na minha agenda preciso ser lembrada do aniversário de pessoas que representam um estilo de vida e uma tradição com a qual não concordo? É algo tão compulsório quanto a minha contribuição, através dos impostos que pago, para manter a vida ociosa e fútil da família real dinamarquesa.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A pequena Guantánamo no quintal da Dinamarca

Há pessoas vivendo em condições muito mais desumanas pelo mundo afora do que os refugiados que vivem nos abrigos da Dinamarca. Em alguns casos não há muito que individualmente possamos fazer para mudar essas condições. Mas a situação muda de figura quando se é confrontado com o fato de, perto da sua rotinazinha confortável, viverem pessoas, inclusive crianças, cujas vidas estão sendo destruídas por anos e anos de confinamento num abrigo para refugiados.

Sandholm,que fica a apenas 27 km daqui de casa, é um dos abrigos para refugiados na Dinamarca onde 137 crianças tem vivido por mais de um ano. Um estudo da Cruz Vermelha da Dinamarca mostrou que a experiência de viver mais de um ano nesses abrigos é traumática para essas crianças, que dão sinais de problemas psíquicos e sofrem com os traumas sofridos por suas famílias. Um outro estudo, da Anistia Internacional, revelou que quase metade dos que tentam asilo na Dinamarca, sofreram tortura.

A indiferença com que a sociedade dinamarquesa lida com a situação dessas crianças me choca. É impressionante ver como uma sociedade que cuida tanto de suas próprias crianças prefere ignorar completamente o destino das crianças nos abrigos de refugiados. Essa indiferença é ainda mais difícil de compreender porque acontece num dos países mais ricos do mundo que acabou de passar por um período de vacas gordas na área econômica.

Há felizmente exceções a essa indiferença e a mais antiga é a de um grupo que se chama “Avós a favor de asilo (Bedsteforældre for asyl) que desde 2007 faz todo santo domingo demonstrações pacíficas de protesto contra a política para refugiados em frente aos abrigos. Uma outra exceção foi a de um grupo de jovens que no ano passado tentou fechar simbolicamente o abrigo de Sandholm. A manifestação foi abortada pela polícia e criticada por muitos pelo caráter “violento”.

Mais recentemente, um grupo liderado pela jurista Eva Smith, Crianças refugiadas fora dos abrigos agora (Asylbørneneudnu.dk) , está começando um movimento mais amplo para pressionar o governo dinamarquês a tirar as crianças dos abrigos e proporcionar a elas e suas famílias uma vida normal e tratamento médico para que possam superar os traumas físicos e psíquicos que viveram. A meta do grupo é conseguir 500.000 assinaturas, que corresponderiam a mais ou menos dez por cento da população dinamarquesa.

Segundo Eva Smith, a situação das crianças refugiadas é a “pequena Guantánamo no quintal” dos dinamarqueses. Numa entrevista ao jornal dinamarquês Politiken, Eva diz que, daqui a 30 anos, as gerações futuras vão olhar para trás e se perguntar: “Por que nossos pais não fizeram nada para ajudar essas crianças? Eles sabiam o que estava acontecendo e não fizeram nada”. Tenho medo de imaginar o que minha filha vai pensar de mim.